27/02/2007

Chico

Chamava-se Chico. De quê? Ele mesmo não sabia…
– Gente pobre não tem nome… – costumava dizer.
Tinha sete anos. De dia vendia jornais, de noite apanhava bordoada do irmão mais velho, o Zico, que vivia embriagado.
A mãe havia muitos anos que estava atirada sobre um colchão velho, paralítica, cadavérica, tendo a todas as horas do dia, diante dos olhos baços e sem expressão, o mesmo quadro de miséria e desalento: as paredes sórdidas do quarto, donde pendiam molambos, o teto carcomido e cheio de teias de aranha, a janela sem batentes, eterna-mente escancarada, mostrando uma nesga de céu em que nas noites claras se vislumbrava, como uma esmola luminosa, a claridade fugidia de estrelas…
O pai – Chico mal se lembrava disto – morrera por um dia triste de inverno, de peste, e se fora, quase nu, dentro duma carroça velha que ia fazendo tóc-tóc-tóc-tóc. . ., aos solavancos, pela estrada barrenta e sinuosa que ia dar no cemitério.
Chico ouvia sempre dizer que havia lá em cima, no céu, um Deus muito bom e muito severo. que não queria que as crianças dissessem nomes feios nem desobedecessem aos mais velhos. Era um homem muito poderoso, que punha empenho em que todas as cousas na terra andassem direitas e bem feitas.
Surgia, então, na cabecinha do garoto um problema intrincado e insolúvel.
Chico via no mundo (mundo era a cidade em que ele, Chico, morava) gente feliz, rica, alegre; crianças que andavam bem vestidas, que tinham brinquedos surpreendentes e que comiam os doces mais saborosos desta vida. Via, ao mesmo tempo, de Outro lado, os infelizes, os desprotegidos da fortuna, os que rolam pão duro e andavam a ferir os pés descalços no pedregulho das ruas. E o pequeno não podia compreender a razão de tanta desigualdade de sorte no mundo. Como era que Deus, tão bom e tão justo, consentia em que existissem crianças felizes e protegidas, ao mesmo passo que existiam outras, desgraçadas e sós, que, pra ganhar alguns tostões, – magríssimos tostões –, tinham de andar vendendo jornais pelas ruas, à luz adustiva do sol?…
E Chico não compreendia… Não compreendia e ficava pensando, pensando…
Mas não se detinha por muito tempo em tais cogitações, que adivinhava inúteis. A vida ensinara-o a ser prático. Bem sabia que com sonhos e lucubrações não ganharia o seu salário. Por isso se atirava ao trabalho.
– O’ia o Correio da Manhã! O Correeeeio! E assim ia vivendo…

Érico Veríssimo




25/02/2007

O bosque mágico


Havia em certo bosquezinho da Terra um reino encantado onde reinavam dois reis muito simpáticos.
Era no tempo em que os homens ainda não tinham conquistado tudo e atravessado tudo com as suas auto-estradas, os seus postes de electricidade e até o próprio céu com os riscos brancos dos seus aviões supersónicos.
Naquele bosquezinho não se ouvia outro barulho que não fosse o toque-toque do picapau no tronco do carvalho, o canto da toutinegra tagarela, ou então a canção do vento, solene e grave, por entre a ramaria das árvores.
Que paz, que abençoado sossego! Ali, todos os bichinhos viviam felizes, em boa harmonia uns com os outros, graças aos dois reis simpáticos que reinavam cada qual por sua vez, um durante o dia, outro durante a noite. Um era louro, de carinha rosada, olhos azuis, cabelos encaracolados e luminosos como o nascer do Sol. Chamava-se Antalcitor. O outro era moreno, de face pálida (mas viçosa como uma camélia branca), olhos negros (mas transparentes como a fonte à sombra). Chamava-se Galaor.
Faço muito empenho em dizer-lhes os nomes, principalmente por serem os nomes deles e ninguém lhos poder mudar. Teria sido igualmente prático chamar-lhes Louro e Moreno. Mas isso são apelidos de gente, e Antalcidor e o seu amigo Galaor eram ambos geniozinhos. Geniozinho do dia e geniozinho da noite. Vou tentar contar-lhes agora exactamente como as coisas se passavam.
Realmente não podia ser mais simples. Assim que a madrugada fazia empalidecer a noite lá no extremo do Atalho Maior, assim que a cotovia soltava o seu primeiro trinado, Antalcidor aparecia ao longe, no limite do bosquezinho.
Tinha o aspecto de um belo rapaz de dezasseis anos, mas que não tivesse mais de três palmos de altura, quando muito. Vestido de cetim cor-de-rosa, seda branca e fitas azuis, fina espada de prata, um salpico de oiro na gravatinha e na fivela do cinto, brilhava como um pedacinho de céu sob o túnel da folhagem.
Mal tocava com os pés na relva. Mas não tinha pressas; aqui, dava lustro a uma folha de junquilho, além, cheirava uma primavera. De vez em quando parava, olhava para a direita, para a esquerda, batia as palmas e cantarolava uma cantiga de geniozinho, a canção matinal do render da guarda:

A pé! A pé! É já manhã!
O meu reinado principia.
O rei da Noite adormeceu;
P’ra o seu lugar aqui estou eu,
Antalcidor, o rei do Dia.


E lá ia, de narizito no ar, só interrompendo a cançoneta para dar gargalhadas e ordens:
— Salta, esquilo! Do pinheiro para o bordo, patas esticadas, cauda bem desfraldada! Apoia-te no vento que passa! E tu, ó toutinegra? Porque esperas, tagarela? Põe-te a tagarelar! E tu, ó pica-pau? Onde tens o gorro verde e encarnado? Pica, pica-pau! E tu, ó pombo azul? Arrulha! E tu, melro preto? Assobia!
E batia as palmas, despertando a ervinha e a flor, o primeiro sopro da aragem da madrugada, a gota de orvalho poisada numa folha, a tagarelice da toutinegra, o arrulho do pombo azul, o toque-toque do picapau no tronco do carvalho e o trinado alegre do melro.
— És tu, Antalcidor? Estou a dormir.
— Já?
— Ou quase... Já são boas horas de chegares.
Sem forças, semicerrando as pálpebras de pestanas escuras, Galaor acolhia o recém-chegado. Era sempre à mesma hora, debaixo da árvore mais linda do bosque, num sítio que se chamava Coração-de-Estrela, porque ali vinham dar todos os caminhos e atalhos.
A árvore de Coração-de-Estrela erguia-se exactamente ao centro, tanto assim que se via de toda a parte, enorme, gigantesca, cobrindo a clareira com a sua copa sussurrante e frondosa.
Era um bordo, de casca prateada, cujas raízes tinham levantado a terra, formando um pequeno montículo coberto de musgo. O palácio real ficava aí, entre duas dessas raízes, enormes, nodosas, mas tão suavemente arqueadas que nenhuma casa humana poderia ser tão sólida e agradável, nem tão sumptuosa nem tão bela.
Não havia tecido algum, de brocado ou damasco, que pudesse rivalizar com o musgo espesso e cheio de reflexos doirados. O luzidio das raízes brilhava como couro de Córdova. A neblina da madrugada e a neblina do entardecer suspendiam graciosos cortinados mais transparentes que a mais fina cambraia.
Aranhas tecedeiras entrelaçavam os fios, armadilhas para o orvalho de pérolas tremulantes porque nenhum insecto ali caía.
Não havia nada mais macio nem mais fofo que o chapéu dos cogumelos novos, aqueles que se chamavam boletos-pão-de-ló. Nunca houve rei dos homens que se sentasse em trono almofadado mais fofo, de tom mais rico e mais quente que o trono-cogumelo, o trono-boleto-pão-de-ló, em cima do qual os geniozinhos do bosque se sentavam.
Nunca ambos ao mesmo tempo, já se sabe. Assim que Antalcidor aparecia, Galaor levantava-se para se ir embora. Mal tinham tempo para trocar os bons-dias.
O geniozinho da noite piscava os olhos, bocejava, sacudia o veludo negro do gibão.
Debruçado sobre a corola de uma flor, bebia o orvalho da manhã.
— Está tudo em ordem? — perguntava Antalcidor.
— Tudo em ordem.
— Até logo à noite?
— Até logo à noite — respondia Galaor. — Ao primeiro voo do noitibó.
E partia imediatamente. Nunca se soube para onde. Deviam descansar em qualquer sítio, lá para os limites do bosque, num outro palácio desconhecido, esse absolutamente secreto. Nem sequer me sinto no direito de falar nele.
Chegado o momento, o geniozinho reinante via apa¬recer o seu amigo, sempre lá ao fundo do Atalho Maior. Acolhia-o no palácio real, entre as raízes do grande bordo, cedia-lhe amavelmente o trono, bebia da corola de uma flor alguns goles de água perfumada e desaparecia durante doze horas: um até ao nascer do dia, o outro até ao cair da noite.
Era assim que as coisas corriam. Não podia estar tudo melhor combinado. Nunca havia arrelias, nunca havia discussões, nunca havia sarilhos, como se costuma dizer. E a verdade é que não haveria a mais pequena história a contar, a não ser uma história sem complicações (mas, apesar de tudo, linda como um galopar de corça ou um voo de andorinha) se...
Aconteceu tudo por culpa do besouro, da espécie isca-riscada, pesado e peludo. Não era um besouro mau; apenas demasiadamente zumbidor como todos os besouros do mundo; mas, além disso, muito cheio de si e de melindres.
Era de dia, um dia igual a todos os outros, calmo e primaveril (naquele bosque estava-se sempre na Primavera) com bocadinhos de céu azul que passavam pelo intervalo das folhas, canções de pássaros de que já falei (esquecia-me da felosa, de penas verdes) e uma borboleta da urtiga, magnífica, que batia as asas devagarinho em cima de um joelho de Antalcidor. E havia também o besouro, infelizmente!
Chegou numa réstia de sol, foi de encontro ao tronco do bordo, fez «bzzim!», saltou, foi de encontro à testa do geniozinho, fez «bzzum!», saltou outra vez, andou à roda da borboleta da urtiga, rodopiou, zumbiu, fez voar a borboleta, bateu de encontro a tudo, com as asas a vibrar tanto tempo e com tanta força que não havia mais nada a fazer senão tapar os ouvidos, enquanto aquele zumbido besourante, buzinante, rodopiante, enchia o palácio com as suas voltas e reviravoltas, os seus tombos e a sua desenfreada loucura.
— Vai-te embora, besouro! — disse Antalcidor severamente.
— Que foi que eu fiz? — choramingou o besouro, sempre a girar. — Eu vinha da chapa do sol, a sombra cegou-me... Por isso é que bati com a cabeça. Magoei-me mais do que julgas: as paredes do teu palácio são duras.
— E a tua cabeça também — disse o geniozinho. — Nem se imagina! Fiquei com um galo na testa... Vai-te embora, besouro!
E curvou-se para agarrar na sua erva de S. Tiago, uma grande tasneirinha de flores douradas como estrelas, que lhe servia de varinha mágica.
— Uma vez... Duas vezes... Vou dizer três...
E, de repente, fez-se silêncio: nem barulho, nem besouro. À ordem do geniozinho cor-de-rosa, o raio de Sol levou-o tão depressa como o trouxera. Muito descontente, furioso, ressentido. Mas o simpático Antalcidor nem dá por isso. Está nesse momento a ouvir trinar a cotovia. A borboleta voltou a poisar-lhe no joelho. E o dia bonito recupera a calma sob o olhar do rei geniozinho.
A alegria brilha de novo nos seus olhos, uma grande alegria feita de amizade por tudo o que o rodeia: o ar puro, as árvores, os tufos de erva, os animais inocentes, os que ele vê e os que não vê mas sabe estarem ali, cada qual no seu lugar naquele pequeno reino florestal — os animais nocturnos que esperam por Galaor, adormecidos na toca, num buraco de árvore; os grandes que nunca se aproximam, por amabilidade, para não assustarem um geniozinho tão simpático, tão pequenininho. Mas também esses — o cabrito-montês, o veado velho, o javali — se sentem satisfeitos com o seu reizinho, com a boa ordem que reina no mundo, com uma harmonia que nem sequer é perturbada pelo voo tonto de um besourão.
Deste modo, Antalcidor continua o lindo sonho acordado que se repete todas as manhãs. Sente-se digno da confiança que nele e em Galaor deposita o Grande Rei dos geniozinhos.
Diz de si para consigo: «Não sei o que se passa durante a noite. Mas de dia, mesmo assim, vai indo tudo bem. Ah! Não tenho nisso grande merecimento: basta uma chamadazinha à ordem, lá de vez em quando. Nem sequer é preciso empunhar a minha erva de S. Tiago. O meu povo é bem-educado, obediente...»
— Hihi! — canta uma voz estridente. — Hihi!
— Que foi isto? — murmura o reizinho. — Quem está a fazer troça? Quem tem semelhante atrevimento? Estarei a sonhar alto?... Ah, bom, é simplesmente o pica-pau que muda de árvore. O principal é que continue a bater... Bate, bate, pica-pau!
Imediatamente o bico do pica-pau recomeça a bater noutro carvalho. Um leirão, sem ruído, parece cair de uma faia, passa mesmo junto aos pés de Antalcidor, segurando na boca um fruto. «Picapau no carvalho — diz consigo o geniozinho — leirão na faia, está tudo certo.»
E põe-se a cantarolar, por brincadeira, a lengalenga para uso dos reis-geniozinhos:

Leirão na faia
Búzio na praia
Picapau no carvalho
Mosca no bugalho
Rata no trigo
Vaca no pascigo
Carraça no cão
Pulga no colchão
Pega no ninho
Toupeira no buraquinho
Burro no palheiro
Galinha no poleiro
Corça na floresta
Lebre na giesta
Cabra no rebanho
Lontra no banho
Castanha no ouriço
Abelha no cortiço


E assim, durante muito tempo, sem um esquecimento, sem um engano, sem errar uma sílaba sequer e também sem tomar fôlego (de contrário, perde-se)

...Porco na lavadura
Cotovia na altura!


termina finalmente Antalcidor. «Uff!...» E respira fundo, satisfeito por ter ganho e por poder dizer que mais uma vez ficará descansado durante todo o dia, mais um lindo dia sem complicações.
Isso é o que ele julga, o ingénuo do Antalcidor! Esqueceu-se completamente do besouro, do besourão, tão cheio de melindres e ressentimentos, que foi enxotado e humilhado, e que naquele mesmo instante...
Que andará ele a fazer, esse tal besouro às riscas? Julgar-se-ia que voa inocentemente de flor em flor e que também já se esqueceu de tudo.
Mas então porque se esconderá ele, ao passar do sol para a sombra, com a sua gorda barriga dourada às riscas pretas? Por que motivo voará na ponta das asas, de mansinho, de mansinho, desejoso pela primeira vez de passar despercebido, ele que adora ouvir o seu próprio zumbido de besouro zumbidor?
Vai e vem, seguindo sempre o mesmo percurso diante da porta do palácio, sempre da mesma flor para a mesma flor. Há muitas em Coração-de-Estrela, as mais lindas de todo o bosque.
Mas aquelas duas são as mais bonitas de todas: uma erva-pombinha azul-pálida, cor do céu quando a tarde lhe apaga a cor, e uma campainha, também azul, mas luminosa como a manhã. (Na língua dos geniozinhos, a primeira chama-se Colombina e a segunda Bellflower, o que quer dizer, segundo parece, Sinoflor).
Deste modo, voa o besouro e torna a voar, de Colombina para Sinoflor e de Sinoflor para Colombina, sem descanso, sem barulho, enquanto Antalcidor sorri e não dá por coisa alguma.
O dia vai morrendo, resvalando devagarinho para a noite. E a hora a que o geniozinho do dia, como de costume, principia a olhar para as bandas do Atalho Maior, lá no extremo do túnel frondoso, onde daí a pouco, vestido de veludo negro, igualmente encantador, com três palmos de altura igualmente, vai aparecer o geniozinho da noite.
Ali vem ele, o pontual Galaor, recortando a delicada silhueta no horizonte que escurece. Por cima do seu ombro já brilha a Estrela Vésper. Antalcidor vê-o chegar e o seu coração afectuoso enternece-se:
— Que bom amigo! Que simpático rei! Como será que ele se governa, às escuras, no meio de todos aqueles bichos inquietantes?... Ah, lá vem o noitibó. Nem sequer se ouve voar. Não gosto disto... Despacha-te, Galaor!
Finalmente, ouve sob os ramos a voz clara do outro geniozinho. É a canção do render da guarda da noite, evidentemente:

A pé! A pé! Escondeu-se o Sol.
Estrelas de prata vão brilhar.
Acordai vós, povo nocturno,
Chegou agora o nosso turno!
Antalcidor pode ir sonhar.


Antalcidor boceja e sorri.
— Tudo em ordem? — pergunta o recém-chegado.
— Tudo em ordem.
— Até amanhã?
— Até amanhã — responde Antalcidor. — Ao primeiro trinado da cotovia.
E acrescenta, espreguiçando-se:
— Tenho tanto sono! Nem vale a pena esta noite beber a água de Sinoflor.
— Oh, desgraçado! Não deixes de fazer semelhante coisa! — protesta Galaor com um ligeiro arrepio.
— Descansa! — sossega-o o amigo. — Como havemos de fazer respeitar as leis, se nós próprios as não cumprimos?
E, transpondo o limiar musgoso, inclina-se para Sinoflor, bebe a água fresca do relento no fundo da corola e afasta-se pelo Atalho Maior para alcançar o palácio secreto.
Nem ele nem Galaor ouviram crepitar um pequeno rumor de asas junto do pé da Campainha. Era o besouro escondido na relva que vira o geniozinho do dia a beber e que não pudera conter a sua satisfação.
Porquê? Esperem pelo resto da história.
Portanto, aí temos Galaor instalado, empoleirado em cima do seu trono-cogumelo. Aí o temos a bater as palmas e a dar as suas ordens para essa noite:
— Morcego, esvoaça e entrelaça!... Mostra os teus grandes olhos, coruja!... Família ouriço, cá para fora! Saiam todos debaixo do silvado!... Tu, sapo do luar, faz tilintar a tua bigorna!...
E tudo se faz como ele manda: a coruja acende os olhos dourados; o morcego e o noitibó entrelaçam os seus voos caprichosos; os ouriços em correnteza, o papá adiante, a mamã atrás, os meninos ouriços por ordem de tamanho, revolvem com o focinho as folhas secas; e o sapo da fonte, invisível na neblina leve, faz tilintar a sua bigorna de cristal.
«Perfeito, perfeito! — pensa Galaor. — Não sei o que se passa durante o dia e como será que Antalcidor se governa com todos aqueles bichos turbulentos. Mas, ainda assim, durante a noite, vai indo tudo bem. O meu povo é dócil e sossegado. Que belas horas passadas na escuridão dos bosques, profunda e suave, mais aveludada que o veludo do meu gibão!»
Pelo intervalo dos ramos olha as estrelas girando. A seus pés, um pirilampo brilha na relva como uma esmeralda; depois outro, depois uma centena deles, em correnteza.
Movendo as mãos no escuro, Galaor desenha em redor longas curvas cadenciadas: a fila dos pirilampos alinha ao gesto das suas mãos, e continua a brilhar a toda a largura do palácio como uma grinalda de fogo de artifício. Um grilo estridula baixinho. A pequena bigorna do sapo parece bater ao ritmo da sua límpida canção.
E Galaor baloiça-se no trono, cantarolando a meia-voz o estribilho-lengalenga dos geniozinhos, exactamente o mesmo que Antalcidor cantava, tão depressa como o geniozinho do dia, tal como ele, sem hesitar e também sem tomar fôlego:

Leirão na faia
Búzio na praia
Picapau no carvalho
Mosca no bugalho


e por aí fora, até ... Cotovia na altura!

— Uff! — suspira por fim. — Ganhei. Esperemos sossegadamente pela cotovia.
Falou apenas para si. Mas alguém o ouviu. Quem? Ora... o malvado besouro, escondido agora debaixo de Colombina. Está radiante, esfrega as patorras e pensa, recozendo o seu ressentimento: «Sim, meu amigo, esperemos pela cotovia! Quando ela cantar, é que eu me vou rir!»
A um e um apagam-se os pirilampos. A uma e uma apagam-se as estrelas. O grilo e o sapo calam-se. Ao fim do Atalho Maior o céu torna-se cor-de-rosa. Galaor, um pouco entorpecido, pensa já no rico soninho que irá fazer, durante o dia inteiro, no palácio secreto!
— Nem me valia a pena também beber a água da minha flor — diz de si para si. — Mas, Deus me livre! A lei é lei:

Água de Sinoflor para Antalcidor:
Vai ele dormir quando a coruja pia
Colombina guarda para Galaor
A água que dá o sono de dia.


E afinal — acrescenta sorrindo — a flor mais bonita e a água mais deliciosa são as minhas:

Podes tocar e tilintar
Até cansar, ó Campainha.
A minha flor é só aquela,
A que entre as mais é a mais bela
Das flores azuis: a Erva-Pombinha.


Levanta-se, dirige-se lentamente para Colombina, inclina-se sobre a sua corola funda e bebe a grandes sorvos o orvalho da madrugada.
Que fresquinho! E, no entanto, parece-lhe mais perfumado, mais estonteante que nas outras manhãs. Mais um golinho, mais outro... Que aconteceu a Antalcidor? Já cá devia estar. O dia cresce. É a cotovia a cantar?... É ela, é. O seu trinado aproxima-se, ecoa nos limites do bosque, mesmo no extremo do Atalho Maior. Mas é inutilmente que Galaor fita o buraquinho de luz que brilha lá ao fundo, sob o túnel dos ramos: ninguém. Nem sombra de geniozinho.
A claridade agora alastra por todo o lado; largos pingos de luz inundam Coração-de-Estrela. O pombo azul arrulha no bordo. Uma labareda ruiva atravessa o ar numa pirueta, desenrolando uma cauda comprida e felpuda. E Galaor estremece, ele que nunca viu um esquilo, diante daquele bicho peludo que voa tão leve como um pássaro.
— Antalcidor! Antalcidor! — chama ele.
Em seu redor tudo se agita, estremece, resfolga, pia e chilreia. Grandes aranhas pançudas baloiçam-se na ponta do fio. Zumbem abelhas, tirando o pólen de flor em flor.
— Antalcidor! — continua a chamar o pobre abandonado.
Mas inutilmente. Nem rasto de Antalcidor. E de minuto a minuto a desordem aumenta. Gaios pairam, pegas brigam furiosamente na ramaria do próprio bordo. Que horríveis gritos! A luz do Sol tremelica, cada vez mais deslumbrante. E Galaor, perdendo a cabeça, geme: — Já não vejo nada! Tenho os ouvidos estoirados!... Ai, ai! Que irá acontecer?
Que é feito do bom silêncio nocturno, tão puro, em que guisalhava o cantar do grilo, em que tilintava em pancadas límpidas a pequena bigorna do sapo? Que é feito da obscuridade sedosa e fresca, semitransparente, que reinava em Coração-de-Estrela? Tudo é cru, brutal e agressivo. O pobre geniozinho tapa inutilmente os olhos com as mãos; vê grandes círculos a girar: vermelhos, verdes, roxos, novamente vermelhos. Pela última vez, com a voz a tremer, quase a chorar, chama:
— Antalcidor! Geniozinho do dia! Meu bom amigo, meu irmão, acode-me!...
Mas ninguém lhe responde, a não ser a gritaria das pegas e as gargalhadas trocistas dos gaios.
— Dormir! Dormir! — suspira Galaor. — Há uma hora pelo menos que eu devia estar a dormir...
Ao pensar nisso, o seu desânimo e o seu medo aumentam. Não é só o amigo que o abandona, mas, pela primeira vez na sua vida, está acordado em pleno dia; e não só acordado, mas sem sono; sem sono absolutamente nenhum.
Deixa o trono, desta vez dando um salto, e corre para a erva-pombinha:
— Ó Colombina, também tu serás capaz de me atraiçoar? Eu quero dormir...
Inclinado sobre a corola azul-pálida, mergulha nela o rosto afogueado. Mal restam, lá muito no fundo, umas raras gotas de orvalho.
Bebe-as sofregamente, de olhos fechados, à espera de sentir aquela comichão nas pálpebras a que os meninos chamam o João-Pestana. Mas, pelo contrário, os olhos abrem-se-lhe ainda mais, o sangue corre-lhe mais depressa nas veias. Porquê? Porquê? É tão profundo o seu espanto que repete em voz alta:
— Porquê?
— Eu cá sssei! Sssei assim!...
— Quem está a falar?
— Sssim, a sssério! De vvverdade, de vvverdade!
«Aquilo» rodopia-lhe em torno da cabeça, pela direita, pela esquerda, às reviravoltas, aos tombos. Olha, e não vê nada. Agita a mão no ar. Mas que bicho diurno será aquele que está ao mesmo tempo em todo o lado e em todo o lado é invisível?
— Quem és tu? Fala, bicho voador.
— Sou o besouro, sou o besouro! — zumbe a voz redemoinhante. — Dormir? Ah! Ah! Zzta! Nesta fffloresta nem sssono nem sssesta! Nenhum nenhum nenhum nenhum...
— Mas porquê? — suplica o pobre geniozinho. — Se sabes, diz.
— Porrrque sssim — ronca o besouro.
E, com uma batidela de asas, desaparece em pleno sol que ilumina a clareira.
Por toda a parte, em volta de Galaor, reinam a algazarra e a confusão. Àqueles pios, àqueles guinchos, àqueles apitos, àquela desafinação horrorosa é que o geniozinho do dia chama canto dos passarinhos? Não há uma voz que afine com outra; estridulam, fazem surriada, assobiam, interrompem-se umas às outras para suplício de um geniozinho que tem os ouvidos delicados e que tanto desejava dormir!
Ei-lo novamente em cima do trono-cogumelo, no sítio mais macio do belo acolchoado castanho. Embala-se a si próprio, cantarolando baixinho para acalmar: «Fecha os teus olhos, o dia é de oiro...» Essa agora! Não há meio. O dia é de fogo, não é de oiro! Toda a vegetação flameja através das cortinas transparentes que as aranhas teceram.
— Mandrionas! — grita-lhes Galaor. — Façam-me sombra, suas grandes barrigudas! Quero uns cortinados bem espessos!
Mas as aranhas reboludas, suspensas do centro da teia, com as suas oito patas muito afastadas, dormem regaladas ao sol.
De cada vez que Galaor grita, dão apenas um leve estremeçãozito, como nós damos às vezes a sonhar, e ficam outra vez imóveis. Sabem lá porventura quem é Galaor? E Galaor sabe-lhes porventura o nome?
Os seus gritos não têm nada a ver com elas.
O desgraçado Galaor está sozinho, de olhos abertos ao meio-dia, apesar do orvalho que bebeu da corola de Colombina, essa água que faz adormecer durante o dia, a água maravilhosa do geniozinho da noite.
Chora, desesperado. A pluma de avestruz do gorro pende-lhe, caída em frente do nariz. Endireita-a com uma sacudidela da cabeça, subitamente furioso. De pé, entre as raízes do bordo, muito teso, muito encarnado, ele, habitualmente tão pálido, barafusta para todos os lados ao mesmo tempo:
— Insuportáveis bichos! Silêncio! Estou farto de tudo isto! Como te chamas tu, ó lá de cima, o do focinho aguçado, orelhas em bico e rabo vermelho? Tu, sim, tu que tens quatro patas e voas como os pássaros. E tu, ó pássaro cor da noite, donde foi que saíste? Preto como és, devias pertencer ao meu povo, e não te conheço. Ah! Mas o bico atraiçoa-te, esse teu bico cor de sol.
Assim interpelado, o melro solta um longo assobio trocista:
— Rrridículo! Co’a breca! Rrridículo!
E do cocuruto do bordo, o esquilo Rabo Vermelho precipita-se de escantilhão, de ramo em ramo, dá voltas e reviravoltas em redor do tronco, ora pela direita ora pela esquerda, mostrando de cada vez o focinho, e com a patinha faz a Galaor a gaifona mais atrevida deste mundo:
— Não vales nada! Nada! Três vezes nada!
Um bando de chapins com as penas azuis e amarelas todas despenteadas rodeia-o numa sarabanda de asas que lhe tira o fôlego e a voz.
— Quem governa! Quem governa aqui?
— Tu, não! Tu, não! — resmunga outra vez o esquilo.
Galaor, recuando entre as raízes do bordo, cai em cima do trono-cogumelo. De propósito, vira as costas à clareira. Aos poucos e poucos o coração sossega-lhe. Procura recuperar a serenidade.
— Vamos lá pensar — diz ele, para ganhar coragem. — Vamos a recuperar o sangue-frio. Já que Antalcidor desertou, já que o mundo está de pernas para o ar, sou eu, Galaor, quem tem de reinar, seja dia ou seja noite. Preciso de restabelecer a ordem e a disciplina e entregar ao meu colega, quando ele finalmente se dignar aparecer, um bosquezinho digno de nós ambos, um reino encantador e feliz. Vamos lá a isto.
Lembra-se de que todas as manhãs, quando Antalcidor chegava pelo Atalho Maior, vinha sempre a bater as palmas, disparando alegremente as suas ordens. Quais serão as ordens do geniozinho do dia? Era preciso descobrir as mesmas palavras e dizê-las da mesma maneira decidida e alegre. Galaor agarra a cabeça com as mãos, faz um esforço enorme para se lembrar ao menos de algumas das palavras mágicas.
— Ai, é muito difícil! Todos os dias ao amanhecer o sono me vencia, sem eu querer; era no meio dessa espécie de nevoeiro que eu ouvia Antalcidor. Mais um bocadinho: está quase... Coragem, aí estão elas! Está quase... está quase... Portem-se como deve ser, seus desobedientes!
Galaor ergue a cabeça de repente, bate as palmas. A sua voz ecoa através de Coração-de-Estrela, voa ao longo dos atalhos, dos carreiros, pelo bosque inteiro...
— Salta, cabrito, do pinheiro para o bordo! Apoia-te no vento que passa! E tu, cotovia, onde tens o gorro encarnado e verde? E tu, ó melro azul, porque esperas? Esvoaça e entrelaça! Não, não é nada disto... Pica, pica!... Também não é assim! Estou bem arranjado!
Depois de uns momentos de surpresa, as gargalhadas e a surriada desencadeiam-se.
Um grande cabrito montês, de ventas abertas, pula nas quatro patas como se voasse sobre Coração-de-Estrela, encolhe-se e rebola pelo musgo, levanta-se e desaparece aos pinotes, assoprando.
— Está maluco! Completamente maluco!
— Huhuuh! — assobia o vento que passa. — Como é que eu podia levantar ao ar um cabrito montês?... Está maluco!
— Bebeu demais? Bebeu demais? — trina a cotovia. — O meu gorro encarnado?... A minha poupa! A minha poupa!
— Silêncio! — explode Galaor. — Voltem todos pára casa. Todos, ouvem bem? Fiquem lá escondidos até à noite!
A voz engasga-se-lhe. As palmas das mãos ardem-lhe de as bater com tanta força.
Mas cada vez sente maior medo diante da agitação terrível que causou sem querer.
De todos os lados surgem bichos que voam, que saltam, que rebolam, enrolando e desenrolando, através de Coração-de-Estrela, uma farândola fantástica. Coelhos, faisões, lebres da floresta, grandes moscardos tigrados de olhos avermelhados, doninhas ondulantes e amarelas, ágeis lagartos couraçados de esmeralda, saem de cada atalho, de cada pedra, dos troncos das árvores e da espessura da folhagem. E Galaor torce agora as mãos. E suplica com a voz a tremer:
— Deixem-me, eu não lhes fiz nada! Sou apenas um geniozinho, um bom geniozinho da noite... Ui! Brr! Misericórdia, excelentíssimo senhor! Piedade!
É que um enorme javali, de pêlo eriçado, labaredas a bailar nos olhos roxos, os dentes brancos em riste, atravessados na tromba preta, fita-o, mete a cabeça por entre as raízes do bordo... Felizmente a cabeça é grande demais para passar. O javali assopra ruidosamente, torce e retorce o rabo; por fim, grunhindo e aos saltos, retira-se a trote ligeiro.
Galaor está quase desmaiado. Meio inconsciente, balbucia como último recurso as palavras da lengalenga mágica. Mas engana-se outra vez, coitado, mistura tudo, baralha e emaranha tudo:

Burro no ninho
Corça no buraquinho
Picapau no colchão
Ai que confusão!
Lebre no poleiro.
Não é nada disso!
Vaca no cortiço.
Não é bem assim!
Quem se ri de mim?

Riem os bichos todos; e ri o vento na folhagem, riem as moscas nas réstias de sol, as aranhas no meio da teia, o bosque inteiro desde a terra até ao céu.
Mas quem ri com mais gosto, quem continua através da clareira nos seus rodopios, nos seus tombos, com os seus bzzzs, os seus tzzzs? Quem, senão o besouro, o besouro isca-riscado?
Daí por diante, Galaor cala-se. Desiste. Só tem um pensamento, um único desejo: chegar finalmente ao entardecer daquele dia medonho, esquecer aquela desordem escandalosa, aquela sarabanda descarada, que o faz morrer de vergonha.
Adormeceu finalmente? Passou apenas pelo sono? Estremece, repara que o sol ofuscante filtra agora por debaixo dos ramos uma luz oblíqua e dourada. A algazarra acalmou um pouco. Até que enfim! Até que enfim que lhe chega deliciosamente aos ouvidos uma canção vinda do Atalho Maior:

De pé! De pé! Já é manhã!
O meu reinado principia...


Não é verdade. Não é manhã. É noite. Mas, graças a Deus, mesmo que Antalcidor divague, é a sua voz que realmente soa, que se aproxima. E é realmente ele que aparece ao cair da noite, no fim da clareira, vestido de cetim cor-de-rosa e seda branca, pimpante, elegante, de espadinha de prata ao lado.
Galaor boceja, procura sorrir, murmurar o cumprimento do costume e, de repente, cai como um chumbo no fundo de um sono sem margens.
Antalcidor vê o corpo de Galaor dobrar-se, oscilar à beirinha do trono e escorregar inerte para cima do musgo. Alarma-se, corre, chama:
— Galaor! Galaor!
Mas é em vão. Curvado agora sobre o amigo, sacode-o, suplica-lhe desvairadamente:
— Responde-me! Acorda! Não vês que a noite vem a chegar?... Que hei-de eu fazer, que será de mim sem ti?
Para ele também o mundo está do avesso. Continua a falar, a explicar:
— Perdoa-me; a culpa não foi minha. Não acordei; estive a dormir
no palácio secreto até ao entardecer. Como se... Como se tivesse bebido na corola de Sinoflor a tua água que faz dormir de dia. Deitei a correr! A correr! E agora que vai a escurecer, és tu quem dorme, dorme, dorme, como se... Estás a ouvir-me, Galaor? Como se tivesses bebido na corola de Colombina a minha água que faz dormir de noite.
Galaor não responde: dorme. A sombra adensa-se. Os olhos enormes da coruja acendem-se à entrada do palácio. O morcego passa e torna a passar, batendo com o vento frio das asas na cara de Antalcidor.
Os finos cabelos loiros deste eriçam-se, a voz gela-lhe nos lábios. Ah! Que é aquilo? Diante dele, a poucos passos, as folhas do silvado chiam. Quem vem lá? Quem passa assim nas trevas em fila indiana interminável? Qualquer coisa raspa-lhe a perna. Estende a mão, mas retira-a logo soltando um grito: «aquilo» picava como um milhar de picos cerrados!
Ao ouvir o grito, outra criatura salta e vem cair-lhe pesada¬mente sobre um pé como um embrulho de trapos molhados. Antalcidor toca-lhe sem querer e solta novo grito de pavor: era gelado, um bocado peganhento, todo aos altos como se estivesse cheio de borbulhas...
Quem diria ao infeliz Antalcidor que toda a família ouriço e o sapo da fonte tinham tido ainda mais medo que ele?
Está muito escuro. A custo, aqui e acolá, brilham nas trevas luzinhas verdes. Espalham-se, e em breve se apagam. Galaor, estendido no musgo, continua a dormir um sono profundo. Como é que os pirilampos sozinhos haviam de ser capazes de pendurar nas paredes do palácio a sua grinalda de fogo de artifício?
O grilinho cala-se, assim como o sapo da fonte. Mas a noite inteira enche-se de sussurros, de murmúrios, de gritos estranhos, de uivos, que põem o coração aos saltos. O mocho solta um grito escarninho, o alcaravão berra, o lince ulula, a coruja pia, o veado velho brama no vale com tal força que todo o bosque reboa. E, de repente, atravessando o céu, o bufo solta um queixume longo, longo, tão lúgubre que Antalcidor tapa os ouvidos com ambas as mãos, julgando chegada a sua última hora. «É com certeza o lobo» — diz consigo. — «E o lobo! Vai comer-me...!»
Esquece-se da sua erva de S. Tiago caída ao lado do trono. De resto, mesmo que tivesse pensado nela, seria capaz de a encon¬trar no meio da escuridão? Treme. Finalmente o horrível lamento calou-se. Mas logo no semi-silêncio ressoa uma voz por detrás dele semelhante ao sussurro de duas asas que se esfregam uma na outra:
— A lengalenga! A lengalenga! Zzzz ... Zzzz! A lengalenga!
«É verdade! — pensa Antalcidor. — Onde diacho tinha eu a cabeça? Estou salvo!»
E vá de respirar fundo para ir até ao fim sem tomar fôlego nem uma vez só:

Cotovia no bugalho
Pulga no carvalho
Corça no cortiço
Toupeira no ouriço
Ai que grande asneira!
Lontra na toupeira.
Não é assim! Não.
É vaca no cão...

Pára, com as lágrimas nos olhos. Que foi que lhe deu? Que embrulhada é aquela?
— Zzz, zzz, zzz, a lengalenga!... Zzz, zzz, zzz, a lengalenga!... A voz trocista persegue-o.
Dir-se-ia agora que pequenos pratos metálicos se chocam, marcando o ritmo de uma canção triunfal:
— Bzzz zenga, a lengalenga! Bzzz zenga, a lengalenga!...
E realmente é como se um génio malfazejo se alegrasse com o alarido, a desordem e a detestável anarquia que sacodem o bosque nessa noite.
— Toda a noite, bzzz, bzzz, bzzz! Toda a noite, bzzz, bzzz, bzzz!...
— Basta! — geme Antalcidor. — Quem és tu, génio mau?
— Ainda o perguntas? Sou o besouro! O besouro que tu enxotaste! O besouro que se vingou! O besouro isca-riscada. A lengalenga, bzz! A lengalenga, bzz! Isto há-de durar a noite toda!
Ai, é bem verdade. O que Galaor sofreu durante o dia não é nada em comparação com o que espera o desventurado Antalcidor nessa noite.
Como fizera o outro geniozinho, também ele tenta primeiro lutar; bate as palmas, esganiça-se a gritar ordens. Mas a língua embaraça-se-lhe sempre, aumentando a balbúrdia e o horror. Que noite! Tudo fervilha, grunhe, trepa, tudo se retorce, se enrosca, se desenrola, rasteja, ronda, escorrega, estala, em redor de Antalcidor; tudo lhe toca, baila, avança, recua, tudo lhe dá encontrões, e sempre na escuridão cada vez mais escura, sem que lhe seja possível distinguir um vulto, uma silhueta, nada senão aquele fervilhar medonho, aqueles assopros, aqueles suspiros assustadores.
Mas o pior é o zumbido do besouro, o zunido das suas asas e as marteladas dos seus pratos.
Aquele besouro é impiedoso; tão satisfeito que perde a cabeça, quando, no fim de contas, tudo aquilo também pode acabar mal para ele.
Esperemos isso, que bem o merece.
Quando por fim a manhã se avizinha, Antalcidor e ele estão tão cansados um como o outro. O geniozinho, compreende-se: treme de medo e de frio. O besouro, por ter vibrado tanto, voado tanto, saltado e pulado tanto, e aplaudido tanto o seu estratagema maldoso. Passar uma noite inteira a dizer: «Ah! que espertalhão que eu sou! Sou o mais espertalhão dos besouros!», é realmente demais... Ai, sim, sim, não há dúvida de que a história há-de acabar mal para ele.
Assim que o primeiro alvor da madrugada se escoa pelo Atalho Maior, e alcança a entrada do palácio, acaricia em primeiro lugar a carinha de Galaor, adormecido em cima do musgo; o geniozinho da noite sorri e as pálpebras estremecem-lhe ligeiramente.
A luz sobe, transformada em raio de sol, ilumina o besouro com as riscas despenteadas, cambaleante e a ir de encontro a tudo. Quer sair; atira-se contra as raízes grossas. E...
E a sua filarmónica, de repente, muda de tom. Deixou de ser triunfal. Vibra num longo grito de angústia, numa nota só, aguda, desvairada. Galaor acorda logo, senta-se, sorri ao seu amigo, cantarolando maquinalmente a canção do render da guarda:

A pé! A pé! Escondeu-se o Sol...

— Ah, não! — exclama Antalcidor. — É dia! É dia! É dia!
Salta do trono abaixo, estende ambas as mãos a Galaor e ajuda-o a levantar-se. Entretanto, o bater de asas do besouro torna-se cada vez mais aflitivo. Parecia uma corneta a vibrar na nota mais alta, tão fina como se fosse quebrar.
— Onde estás, besouro? Onde estás tu? — perguntam os geniozinhos em coro.
— Aquiii... aqui... — chora o besouro.
A voz vem lá de cima, do alto da porta. Os nossos amigos levantam os olhos, não vêem nada. No entanto, é agora dia claro: aquela enorme bola ruiva e preta havia de lhes saltar à vista.
— Aqui, onde?
— Nas teias de aranha. Fiquei preso!
Lá mesmo em cima, no canto da porta, os geniozinhos avistam por fim qualquer coisa a mexer, a debater-se desesperadamente. E o besouro atrapalhado nos fios, com as patas atadas, as asas paralisadas.
— Libertem-me! — suplica o besouro. — Confesso tudo! Fui eu! Aconteceu tudo aquilo por minha culpa! Desatem-me que eu conto tudo.
— Conta primeiro — dizem os geniozinhos. — Realmente foste apanhado na ratoeira.
Em vez dos festões delicados, transparentes, onde só podiam prender-se as gotas leves do orvalho e as cores do arco-íris, as aranhas tinham fiado cordas suficientemente fortes para amarrar o maior e o mais estúpido dos besouros isca-riscados, e aí estava a prova.
Quando todos perderam a cabeça, quando o dia e a noite se confundem, quando os que devem dormir estão acordados e os que devem estar acordados dormem, é assim que as coisas acontecem, mesmo no bosquezinho mais sossegado e mais feliz da Terra.
— Conta! Conta! — repetem os geniozinhos.
E o besouro, pendurado lá em cima, baloiçando como um badalo de campainha, lamentoso e arrependido, conta:
— Chupei a água de Colombina e deitei-a em Sinoflor com a minha tromba.
— E depois? E depois? — perguntam os geniozinhos, quase sem respiração.
— E depois, naturalmente, suguei a água de Sinobina e deitei-a em Colonflor com a minha chupa.
— Não te enganes, chupador do diabo! — gritam ao mesmo tempo Antalcidor e Galaor. —Não te chega, se calhar?... Trocaste a água das nossas flores, confessa-o, e pronto.
— Sim, infelizmente — diz o besouro.
— Ah! Ah! — troça Antalcidor. — E eu bebi em Sinoflor a água que faz dormir de dia. Por isso não acordei quando chegou a madrugada.
— Ah! Ah! — explode Galaor. — E eu bebi em Colombina a água que faz dormir de noite. Por isso adormeci num sono de chumbo exactamente à hora em que devia reinar.
— Pois, besouro — dizem ambos em coro — parabéns, fizeste um lindo trabalho!... E se nós agora te deixássemos aí em cima?
— Não! Não! — suplica o besouro. — Eu nunca mais torno! Piedade, misericórdia, meus fidalguinhos, meus geniozinhos encantadores e generosos! Pensem que neste momento já tudo entrou na ordem. No coração de Colombina já caíram as lágrimas do orvalho da madrugada. Ele aí está à tua espera, Galaor, pronto para ti! Bebe-o daqui em diante sem desconfiança; e dirige-te ao palácio secreto onde dormirás todo o dia enquanto reinar Antalcidor. E tudo voltará a ser como dantes, quando vivíamos felizes.
— Está bem — sorriem os dois geniozinhos. — Nós perdoamos-te, besouro.
Galaor, de pé sobre o trono-cogumelo, deixa que o amigo lhe trepe para os ombros. Este, com a sua espadinha de prata, solta uma asa do besouro, e pára...
— Estás arrependido? Verdadeiramente arrependido? Juras?
— Juro! — diz o besouro.
Mais dois ou três leves golpes: as patas mexem, as asas palpitam.
— Voa em direcção a nós — ordena Antalcidor. — Vem poisar exactamente diante do trono, na claridade da porta.
O besouro obedece, desce em voo planado, poisando suavemente sobre o musgo.
— Sentemo-nos ao lado um do outro no trono real — continua Antalcidor. — Bem. E agora, meus amigos, a lengalenga! Ambos ao mesmo tempo, Galaor e eu. Tenho a certeza de que vai correr bem. E tu, besouro, os pratos, a corneta, toda a tua orquestra de besouro. Bem a compasso e com toda a força! Que todos os bichos do bosque, os diurnos e os nocturnos, oiçam de um extremo ao outro de carreiros e atalhos. Estamos prontos?
— Estamos! — responde Galaor.
— Estamos! — responde o besouro riscado.
— Então, assim que eu mandar...
Antalcidor apanha do musgo a erva de S. Tiago de flores douradas, levanta-a, baixa-a para dar o sinal. E os dois geniozinhos, a plenos pulmões, de um só fôlego e sem se enganarem uma única vez, entoam e cantam a lengalenga do bosque.
E o besouro, com a sua corneta, os seus pratos, o seu grande tambor zumbidor, acompanha a cantiga dos geniozinhos.
E todos os bichos do bosque correm agora obedientes e pontuais. O esquilo salta do pinheiro para o bordo, de patas esticadas, cauda bem desfraldada; a cotovia tagarela põe-se a tagarelar; o pombo azul arrulha; o picapau bate com o bico no tronco do carvalho e o melro assobia o seu trinado, todos a compasso, enquanto os bichos nocturnos — o noitibó, o morcego, a coruja, a família ouriço e o sapo do luar — se deixam ficar sossegadamente na segunda fila, sabendo que ainda não chegou a sua altura, mas que cada qual terá a sua vez, enquanto os bichos grandes do bosque — o cabrito montês de chifres afiados, esticando o pescoço gracioso e flexível; o veado velho, alçando o focinho por cima das palmas dos fetos; o javali, espreitando na orla do arvoredo — retêm a respiração e ficam imóveis a escutar os dois amigos
:
Leirão na faia
Búzio na praia
Picapau no carvalho
Mosca no bugalho
Rata no trigo
Vaca no pascigo
Carraça no cão
Pulga no colchão
Pega no ninho
Toupeira no buraquinho
Burro no palheiro
Galinha no poleiro
Corça na floresta
Lebre na giesta
Cabra no rebanho
Lontra no banho
Castanha no ouriço
Abelha no cortiço...


E assim até ao fim, sem um esquecimento, sem tomarem fôlego, até (lembram-se?)

...Porco na lavadura
Cotovia na altura!


Às alturas, como a cotovia, sobem as vozes frescas dos geniozinhos. Sinoflor e Colombina erguem-se muito tesinhas no seu pé, mais azulinhas que nunca.
— Agora nós! — exclama o besouro.
E os bichos todos, mais as duas flores — a campainha e a erva-pombinha — vá de cantarem em coro com toda a alma, como um voto de felicidade feito para sempre:

Já se viu à luz do Sol
Ou ao luar prateado
Dois reizinhos como estes
Que nos têm governado?
Vivam com muita alegria
Um de noite, outro de dia!



Maurice Genevoix, O bosque mágico



Flor da Murta

Daqui vejo a serra da Neve. Será esta

A alta serra da Neve
De onde o penedo caiu?


Deve ser. Parece-me tão longe! Para cá tudo são cam­pos ruços, cheios de oliveiras. As sombras caem no chão ao viés. Ainda é cedinho. Tomei um gole de água fresca e saí de casa. Aqui estou... O Sol, afinal, nasce-nos do lado fronteiro à serra, ainda só hoje reparo. Dos campos lá de baixo, onde o Tejo corre, vem subindo o nevoeiro. Enche tudo, mas é tão claro...

Por mais que eu olhe, por mais que me afirme, daquela correnteza de outeirinhos para laja não distingo nada, mas aqui ainda faz sol. O nevoeiro, de longe, é como um mar sem ondas.

Mudei de poisio. E já é a segunda ou a terceira vez que o faço. Este agora não me parece de todo mau. Estou sentada na raiz torcida e retorcida de uma oliveira velha. A sombra que me dá nas mãos é rala, dança por mim toda, estou cheia de luzernas; tem graça!

Lá começa o vento.

Olho para cima e o meu gosto é de nunca baixar os olhos. Que linda, a cor do céu! Quanto mais alto, mais azul. E aquelas nuvens brancas, que até parecem riscadi-nhas à pena? E este som, que vem ter comigo? Como o do mar... vai e vem, mas não me parece sempre igual.

Ora, é o vento. Pois que havia de ser senão o vento? Lá estão os freixos e os choupos a abanar. É um som, um bonito som para se adormecer.

Olha, ali murta!

Murta, murta! Mal vai a quem te não furta!

Vou já apanhar um raminho dela.

Ó vento, poupa-a, não ma desfolhes ainda. E deixa--me descansada a mim.

Aqui está. Que rico tronquinho de murta! Todo ele são tigelinhas brancas, mas cheias, cheias de quê? Terão gotas de mel ao de cima?

Flor da murta, que linda és! Não há outra como tu, nem tão fina nem tão delicada. Vou ter-te na mão como a um palmito. Os teus botõezinhos são como pérolas, de tão pequenos e fechadinhos.

Meu raminho de murta, enquanto eu te tiver no ar vou pensando... vou pensando até tu murchares. E as coisas que eu pensar uma me há-de sair um dia certa. Cedo ou tarde!

Que gostaria eu de ser?

Não sei, ainda não sei.

As outras raparigas serão muito mais bonitas que eu? Mais simpáticas? Eu não gostava de ter os olhos azuis, nem mesmo verdes, apesar das cantigas, mas gostava muito de ter o cabelo encaracolado.

Porque não andarão hoje as borboletas? Talvez que fujam do vento. Olha, ali duas, e três, e quatro... Aos pares. Abrem e fecham como uns livrinhos. E este galo, onde cantará ele? Lá vão as raparigas para o rio, ouvem-se daqui. Se elas soubessem... se me vissem de murta na mão... fartavam-se de rir. Não percebem nada! Mas a mim apetecia-me ir com elas, gosto de lavar. A roupa nas pedras a bater e as mulheres a cantar... E os pássaros trri chi chi... Primeiro fogem, mas depois voltam. E agradável!

Mas lavadeira não hei-de vir a ser, pois não, flor da murta? Gostava de viajar e de saber muitas línguas. Daqui a pouco faço treze anos. E também gostava de me casar.

Toma lá mais esta, pás! diz a roupa às pedras. As rapa­rigas batem-na bem. E toma lá mais esta e toma lá mais esta... só me parece que a roupa se está a vingar.

Ai, muito gostava eu de correr o mundo!

O meu noivo há-de ser alto. Também o queria moreno; o moreno é bonito.

Olha, olha, quem aí vem: o senhor Anselmo. Pouca sorte! Quem o há-de calar?

Estou muito bem, senhor Anselmo. O vento não me faz mal nenhum, até gosto. Já estou costumada. Mais murta? Para quê, senhor Anselmo? Deixe-a lá estar onde está. Aí mesmo é que ela faz vista. Muito obrigada, siga o seu caminho, olhe que estar assim parado é que lhe pode fazer mal.

E o homenzinho que se não queria ir embora?

Murta, então? Já estás para murchar? Olha que eu ainda não pensei nada... Este vento, este vento que nunca me larga! É ele que dá também cabo da murta. E se aqui rebentasse um tufão? Um grande remoinho que me levasse pêlos ares fora? Onde iria eu parar? Às charnecas, ao mar, quem sabe lá! Eu gostava muito de viajar pelo mar, mas em bons navios; já tenho visto os retratos de alguns: muito grandes, como salões e até piscinas para as raparigas nadarem, e com jardins e lojas. Parece impossível! Assim valia a pena... andar de terra em terra a ver caras novas, trajes esquisitos e a ouvir línguas diferentes... Quem me dera! Passear nas cidades... Depois haviam de me vir as saudades e então voltava.

Murta! Queres murchar? E eu que ainda não pensei nada. Já deve ser tarde. É tarde, com certeza. O almoço na mesa, e eu aqui, tão longe de casa!

Adeus, adeus murta e oliveiras, adeus tudo... toca a correr.



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma




24/02/2007

O Búfalo


Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranquilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.

Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo húmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.

Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. "Oh não, não isso", pensou. E enquanto fugia, disse: "Deus, me ensine somente a odiar."

"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.

A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh Deus, quem será meu par neste mundo?"

Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.

E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco, parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor — amor, amor, não o amor! — onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.

Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre — o grito das namoradas! — seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, "faziam dela o que queriam", a grande ofensa — o grito das namoradas! — a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.

E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.

Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo no meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.

Só isso? Só isto. Da violência, só isto.

Recomeçou a andar em direcção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.

A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.

Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar — seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, a promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói... oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida — deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se — enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.

Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.

Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.

Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que à distancia a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.

A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.

E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.

A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.

E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.

Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.

O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.

O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera.

E de onde olhou de novo o búfalo.

O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.

Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.

Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.

Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.

O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como numa gruta aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.

O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e à distância encarou-a.

Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.

Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.

Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente à frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.

E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingénua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.



Clarice Lispector, In Laços de Família




23/02/2007

A volta de Imray


Imray levara a cabo o impossível. Sem avisar, sem qualquer motivo concebível, em plena mocidade, no limiar da sua carreira, preferira desaparecer do mundo – quer dizer, da pequena estação indiana vivia.

Na véspera estava vivo, com saúde, feliz, e em grande evidência entre as mesas de bilhar do seu clube. Na manha seguinte desaparecera, e nenhuma busca pôde revelar onde se encontrava. Sumira dos lugares habituais; não aparecera no escritório à hora do costume e seu "dogcart" não fora visto nas vias públicas. Por estas razoes, e porque estava embaraçando, ,em proporção microscópica, a administração do Império Indiano, esse Império parou por um momento microscópico para fazer investigações sobre o destino de Imray. Dragaram-se lagoas, sondaram-se poços, enviaram-se telegramas em toda a extensão das linhas de trem e ao porto de mar mais próximo – mil e duzentas milhas afastado dali; mas Imray não apareceu no fundo das caçambas de dragagem nem na extremidade das linhas telegráficas. Fora-se, e ninguém mais o viu no lugar. Então o serviço do grande Império Indiano seguiu adiante, porque não podia ficar atrasado, e Imray de um homem passou a ser um mistério – uma dessas coisas sobre as quais os homens falam durante um mês nas mesas dos clubes, e depois esquecem totalmente. Suas espingardas, cavalos e carruagens foram vendidos a quem deu mais. O oficial superior escreveu uma carta completamente absurda à mãe dele, dizendo que Imray desaparecera de maneira absoluta, e o bangalô onde ele morava permaneceu vazio.

Depois de se terem passado três ou quatro meses de calor escaldante, o meu amigo Strickland, da polícia, entrou em acordo com o proprietário indígena para alugar o bangalô. Isso foi antes de ele ficar noivo de Miss Youghal – história que já foi contata em outro local – enquanto se dedicava às suas investigações sobre a vida nativa. Sua própria vida era bastante estranha, e os homens se queixavam das suas maneiras e costumes. Havia sempre comida em cada dele, mas não havia horas certas para as refeições. Comia em pé e andando de um lado para outro, qualquer coisa que encontrasse no bufete, e isso não é nada bom para seres humanos. Seu equipamento doméstico limitava-se a seis rifles, três espingardas de caça, cinco selins e uma coleção de caniços de pesca, maiores e mais fortes do que as maiores canas de pescar salmão. Tudo isso ocupava a metade do bangalô, e a outra metade era reservada a Strickland e ao cachorro Tietjens – uma enorme cadela da raça Rampur que devorava diariamente a ração de dois homens. Fazia-se entender por Strickland com uma linguagem própria; e sempre que, quando andava perambulando lá por fora, via coisas que poderiam destruir a paz de Sua Majestade a Rainha Imperatriz, voltava para junto do dono e levava-lhe a informação. Strickland tomava imediatamente providências, e o fim de seus trabalhos queria dizer transtorno, multa e prisão para as outras pessoas. Os nativos acreditavam de Tietjens era um espírito familiar e tratavam-na com a grande deferência nascida do ódio e do medo. Um quarto do bangalô era reservado para seu uso exclusivo. Tinha um estrado para dormir, um cobertor e uma celha de água e se alguém entrava no quarto de Strickland à noite, o costume dela era jogar o intruso no chão e segurá-lo, latindo, até que alguém viesse com uma luz. Strickland devia-lhe a vida; estava na fronteira em busca de um assassino local, que veio na madrugada cinzenta para mandar Strickland muito para além das ilhas Andaman. Tietjens agarrara o homem quando ele se ia arrastando para dentro da tenda de Strickland com um punhal entre os dentes; e depois de se provar o seu propósito assassino aos olhos da lei, fora enforcado. Desde aquela data Tietjens usara uma coleira de prata maciça, e tivera um monograma bordado no seu cobertor; e o cobertor era de lã de Kashmir, porque Tietjens era uma cadela mimada.

Por coisa alguma seria capaz de separar-se de Strickland; e de uma vez, quando ele estivera doente com febre, dera muito que fazer aos médicos, porque não sabia como tratar o dono e não queria permitir que nenhuma outra pessoa tentasse fazê-lo. Macarnaght, do serviço médico indiano, teve de bater-lhe na cabeça com a coronha do revolver ates que ela compreendesse que devia dar lugar aos que pretendiam ministrar-lhe quinino.

Pouco tempo depois de Strickland ter alugado o bangalô de Imray, meu serviço levou-me até àquele porto e naturalmente, encontrando os alojamentos do Clube cheios, fui hospedar-me em casa de Strickland. Era um local confortável, com oito cômodos e cuidadosamente coberto de colmo alcatroado para evitar qualquer possibilidade de goteiras. Abaixo do alcatrão do telhado corria um forro de pano que parecia exatamente um teto de estuque bem caiado. O proprietário pintara-o de novo quando Strickland alugara. A não ser quem soubesse como são construídos os bangalôs indianos, nunca ninguém suspeitaria que acima do tecido do forro estava o escuro vão de três abas do telhado, onde as vigas e a parte inferior do colmo alcatroado abrigavam toda a espécie de ratos, baratas, formigas e coisas imundas.

Tietjens recebeu-me na varanda com um latido semelhante às badaladas do sino da catedral de São Paulo, pondo as patas nos meus ombros para mostrar que estava contente por me ver. Strickland procurara improvisar uma espécie de refeição que chamou de almoço, e imediatamente depois de engoli-la saíra a tratar dos seus negócios. Fiquei sozinho com Tietjens e os meus próprios negócios. O calor sufocante do verão cedera e transformara-se no calor úmido das chuvas. Não havia uma viração no ar aquecido, mas a chuva caía em cordas sobre a terra e erguia uma névoa azulada ao respingar. Os bambus, abacateiros, sapotizeiros e mangueiras, no jardim, estavam imóveis, enquanto a chuva quente escorria sobre os seus troncos, e as rãs começavam a coaxar entre as sebes de aloés. Um pouco antes do escurecer, quando a chuva era mais forte, sentei-me na varanda de trás, escutando a chuva escachoeirar das biqueiras do telhado e coçando-me porque estava cheio dessa coisa chamada brotoeja. Tietjens veio para junto de mim e pousou a cabeça no meu regaço, parecendo muito triste; por isso lhe dei biscoitos quando o chá ficou pronto, e tomei eu próprio chá na varanda de trás por causa do ligeiro frescor que sentia ali. Os cômodos da casa estavam escuros, às minhas costas. Podia sentir o cheiro da coleção de arreiros de Strickland e do óleo de suas espingardas e não tinha vontade de ir sentar-me no meio daquelas coisas. Meu criado veio ter comigo na luz crepuscular, com a roupa de linho colada ao corpo ensopado, e disse que chegara um cavalheiro que desejava falar com alguém. Muito contra a minha vontade, mas somente por causa da escuridão dos quartos, fui para a sala de visitas vazia, dizendo ao meu homem para trazer um luz. Podia ou não ter havido um visitante esperando – pareceu-me que tinha visto um vulto perto da janela – mas quando chegou a luz não havia nada a não ser as cordas da chuva lá fora, o cheiro da terra molhada nas minhas narinas. Fiz ver ao meu criado que ele não tinha nada de esperto, e voltei à varanda para conversar com Tietjens. Ela saíra para a chuva e só a muito custo consegui fazê-la voltar para junto de mim, mesmo oferecendo-lhe biscoitos e torrões de açúcar. Strickland voltou para casa, ensopado até os ossos, quase à hora do jantar, e a primeira coisa que disse foi:

- Esteve aqui alguém?
Expliquei-lhe, desculpando-me, que o meu criado me fizera ir até à sala de visitas com um rebate falto; e que algum desocupado procurara visitar Strickland mas depois, mudando de idéia, se retirara sem deixar nome. Strickland mandou servir o jantar, sem fazer comentários e visto que era um jantar de verdade, inclusive com uma tolha branca posta, sentamo-nos à mesa.

Às nove horas, Strickland quis deitar-se, e eu também estava cansado. Tietjens, que estivera deitada sob a mesa, levantou-se e dirigiu-se para a varanda mais abrigada assim que o dono se encaminhou para o seu próprio quarto, que era junto do confortável aposento preparado para Tietjens. Se uma esposa tivesse querido dormir lá fora com aquela chuva pesada, isso não teria importância; mas Tietjens era uma cachorra e, portanto, um animal melhor. Olhei para Strickland esperando vê-lo chamá-la com um assovio. Ele sorriu de maneira estranha, como um homem sorriria depois de revelar uma tragédia doméstica. "Ela faz isso desde que mudei para aqui, disse. Deixe-a lá.

A cachorra era de Strickland, por isso nada observei, mas sentia todo o que Strickland sentia por ser assim desprezado. Tietjens acampou do lado de fora da janela do meu quarto e eu ouvia um trovão depois do outro, rolar sobre o colmo do telhado, e morrer ao longe. Os relâmpagos espalhavam-se pelo céu como um ovo jogado se espalha numa porta de celeiro, mas a luz era azul-clara e não amarela; e olhando através das minhas cortinas de bambu entreabertas, eu podia ver a grande cadela de pé, não dormindo, na varanda, com o pelo das costas eriçado e as patas rígidas, tão esticadas como os cabos de aço de suspensão de uma ponte pênsil. Nos intervalos muito curtos da trovoada eu tentava dormir, mas parecia que alguém precisava de mim urgentemente. Fosse quem fosse, tentava chamar-me pelo nome, mas a sua voz não era mais que rouco sussurro. A trovoada acabou, e Tietjens foi para o jardim e uivou para a lua nascente. Alguém tentou abrir a minha porta, andou de um lado para o outro pela casa, e parou respirando alto nas varandas, e exatamente quando eu ia adormecendo pareceu-me ouvir um forte martelar e brados por cima da minha cabeça ou à porta.

Corri ao quarto de Strickland e perguntei-lhe se ele estava doente e se me chamara. Ele estava deitado na cama, meio vestido, com o cachimbo entre os dentes. "Imaginei que havia de vir", disse. "Esteve caminhando pela casa, há pouco?"

Expliquei-lhe que ele andara vagando pela sala de jantar, pela sala de fumo e por mais dois ou três cômodos; e ele riu e disse-me que voltasse para a cama. Voltei para a cama e dormi até pela manhã, mas através de todos os meus sonhos inquietos tinha a consciência de que estava fazendo uma injustiça a alguém não atendendo seus desejos. O que eram esses desejos, não poderia dizê-lo; mas alguém, ondeante e sussurrante, tateante, oculto e vago, estava-me censurando pela minha moleza e, meio acovardado, eu ouvia o uivo de Tietjens no jardim e o crepitar da chuva.

Morei naquela casa dois dias. Strickland ia para o seu escritório diariamente, deixando-me sozinho durante oito ou dez horas, com Tietjens por única companhia. Enquanto a luz do dia durava eu sentia-me tranqüilo e Tietjens também; mas ao crepúsculo eu e ela íamos para o terraço dos fundos, e procurávamos a companhia um do outro. Estávamos sozinhos na casa, mas não obstante esta parecia completamente entregue a um habitante com quem eu não desejava ter interferência. Nunca o viu, mas podia ver as cortinas das portas entres os diversos cômodos agitarem-se à passagem dele; podia ouvir as cadeiras estalarem e os bambus distenderem-se como se um peso acabasse de sair de cima deles; e podia sentir, quando ia buscar um livro à sala de jantar, que alguém estava esperando nas sombras da varanda da frente que me retirasse. Tietjens tornava o crepúsculo mais impressionante olhando para dentro dos quartos escurecidos com todos os pêlos eriçados, e seguindo com o olhar os movimentos de uma coisa que eu não podia ver. Nunca entrava nos quartos, mas seus olhos moviam-se atentamente; isso era suficiente. Só quando o meu criado vinha espevitar as lâmpadas e tornar tudo claro e habitável é que ela vinha para junto de mim, e sentava-se sobre os quartos, observando um homem invisível que se movia por trás dos meus ombros. Os cachorros são companheiros alegres.

Expliquei a Strickland com a maior delicadeza possível, que ia arranjar alojamento para mim no Clube. Apreciava muito a hospitalidade dele, gostava das suas espingardas e caniços, mas não me sentia bem com a atmosfera da casa. Ele ouviu-me calado até ao fim, e depois sorriu muito cansadamente, mas sem mofa, porque é um homem que sabe compreender as coisas. "Fique", disse, "e descubra o que quer dizer essa coisa. Tudo o que me disse eu já sabia desde que aluguei o bangalô. Fique e espere. Tietjens já me abandonou; quererá fazer o mesmo?"

Eu já o ajudara em um pequeno caso, relacionado com um ídolo pagão, que me levara às portas de um asilo de loucos, e não tinha o menor desejo de ajudá-lo ainda em novas aventuras. Ele era um homem que procurava situações desagradáveis com a mesma facilidade com que um homem normal vai a jantares.

Portanto, expliquei-lhe o mais claramente possível que gostava muito dele, e teria muito prazer em vê-lo durante o dia; mas que não desejava dormir sob o seu teto. Isso era depois do jantar, quando Tietjens saíra para ir se deitar na varanda.

- Por Deus, não me admiro – disse Strickland, com os olhos fixos no pano do forro – Olhe para aquilo!
As caudas de duas víboras castanhas pendiam entre o forro e a cornija da parede. Lançavam grandes sombras à luz das lâmpadas.

- se tem medo de víboras, é natural – disse Strickland.
Eu tenho ódio e medo às serpentes, porque se a gente fitar os olhos de uma serpente verá que ela sabe tudo e mais alguma coisa sobre o mistério da queda do homem, e que sente toda a satisfação que o Diabo sentiu quando Adão foi expulso do Paraíso. Além do que a sua dentada é em geral fatal, e elas costumam enrolar-se nas pernas da calças.

Deveria mandar fazer uma limpeza no seu colmo – disse eu. – Dê-me um desses caniços de pesca para faze-las cair.

- Esconder-se-ão entre as vigas do telhado – disse Strickland – e eu não posso suportar a idéia de ficar com essas víboras lá em cima. Vou subir ao forro. Se eu as jogar cá para baixo, fique de lado e quebre-lhes a espinha com a vareta de limpar as espingardas.
Eu não tinha a menor vontade de ajudar Strickland naquele serviço, mas peguei a vareta e esperei na sala de jantar, enquanto Strickland trazia uma escada de jardineiro da varanda e encostava-a à parede do aposento. As caudas das víboras agitaram-se e desapareceram. Podíamos ouvir o ruído seco dos seus corpos compridos fugindo por cima do pano frouxo do teto. Strickland pegou em uma lâmpada, enquanto eu tentava fazê-lo ver claramente o perigo de dar caça a víboras de telhado entre um pano de forro e a cobertura do colmo, fora a possibilidade de danificar a propriedade alheia rasgando o pano do forro.

- Tolice! – disse Strickland -. É certo que estarão escondidas junto das paredes por baixo do pano. Os tijolos são frios demais para elas e o que justamente lhes agrada é o calor da sala. Pôs a mão no canto do forro e desprendeu-o da cornija. Cedeu com um grande baralho de pano rasgado e Strickland meteu a cabeça pela abertura, espreitando para dentro do vão escuro das vigas do telhado. Apertei os dentes e levantei a vareta, porque não tinha a menor idéia do que poderia vir lá de cima.
- Hum! – disse Strickland, e a voz rolou e ecoou no telhado -. Há espaço para outra espécie de cômodos aqui em cima e, por Deus, alguém os ocupa!

- Víboras? – perguntei eu cá de baixo.

- Não. É um búfalo. Passe-me cá para cima os dois pedaços mais grossos de um desses caniços de pesca, que eu vou empurrá-lo. Está em cima da viga mestra do telhado.

Dei-lhe a vareta.

- Que ninho de mochos e serpentes! Não admira que as víboras vivam aqui – disse Strickland, subindo mais para dentro do forro. Podia ver-lhe o ombro manejando a vareta. – Sai daí, seja lá quem fores! Cuidado lá embaixo! Vai cair!
Vi o forro de pano, mais ou menos a meio da sala, esticar-se com o peso de um objeto volumoso que o ia forçando para baixo, em direção à lâmpada que estava acesa sobre a mesa. Puxei rapidamente a lâmpada para lugar mais seguro e recuei um pouco. Então o pano desprendeu-se das paredes, rasgou-se, abriu-se ao meio e deixou cair sobre a mesa qualquer coisa para a qual não ousei olhar até que Strickland desceu a escada e veio para junto de mim.

Não disse grande coisa, porque era um homem de poucas palavras; mas pegou na ponta solta da toalha da mesa e dobrou-a por cima dos despojos que tinham caído.

- Parece-me, - disse pousando a lâmpada – que o nosso amigo Imray voltou à sua casa. Oh, tu também vieste, não foi?
A toalha agitou-se de leve e uma pequena víbora escorregou para o chão, onde foi cortada ao meio por uma pancada do caniço. Eu me sentia doente demais para fazer observações que mereçam menção.

Strickland estava meditando e serviu-se de uma bebida. O estava debaixo da toalha não deu mais sinal de vida.

- É Imray? – perguntei.
Strickland levantou a ponta da toalha por um momento, e olhou.

- É Imray – disse -; e tem a garganta cortada de orelha a orelha.
Então dissemos, ao mesmo tempo, para nós mesmos: "Era por isso que ele andava vagueando pela casa!"

Tietjens, no jardim, começou a latir furiosamente. Um momento depois abriu com o focinho a porta da sala de jantar.

Farejou e ficou imóvel. O pano rasgado do forro estava pendurado quase até a altura da mesa, e havia pouco espaços para nos afastarmos dos despojos.

Tietjens avançou e sentou-se; os dentes surgiram-lhe arreganhados e as patas da frente ficaram rígidas. Olhou para o dono.

- É um caso complicado, minha velha – disse ele -. Um homem não sobe ao forro do seu próprio bangalô para morrer, e não conserta o forro depois. Vamos pensar no caso.
- Vamos pensar, mas em qualquer lugar fora daqui – disse eu.-

- Excelente idéia. Apague as lâmpadas. Vamos para o meu quarto.

Não apaguei as lâmpadas. Fui para o quarto de Strickland na frente e deixei que ele se encarregasse daquele serviço. Depois ele me seguiu, acendemos os cachimbos e pensamos. Strickland pensou. Eu fumava desesperadamente, porque estava com medo.

- Imray está de volta – disse Strickland -. A questão agora é: quem o matou? Não fale! Tenho uma idéia. Quando aluguei esta casa fiquei com muitos dos criados dele. Imray era franco e inofensivo, não era?
Concordei, embora o despojo que estava debaixo da toalha não parecesse uma coisa nem outra.

- Se eu chamar todos os criados, eles unir-se-ão em um bloco e mentirão como arianos. Que sugere você?
- Chame-os um por um – disse eu.

- O primeiro irá correndo contar a novidade a todos os companheiros – disse Strickland. Devemos separá-los. Acha que seu criado saiba alguma coisa sobre o caso?

- Pode ser, pelo que sei. Mas não é provável. Só está aqui há dois ou três dias – respondi -. Qual a sua idéia?

- Não sei bem dizer. Como diabo foi o homem escolher o lado de cima do forro?

Ouviu-se uma tosse forte do lado de fora do quarto de Strickland. Isso queria dizer que Bahadur Khan, seu camareiro, acordara e queria ajudar Strickland a deitar-se.

- Então. Está uma noite muito quente, não está?
Bahadur Khan, um grande maometano com seis pés de altura, usando turbante verde, disse que estava uma noite muito quente; mas estava para cair muita chuva, a qual, por graça de Sua Honra, traria alívio à terra.

- Assim será, se Deus quiser – disse Strickland, descalçando as botas. – Tenho idéia, Bahadur, de que está trabalhando para mim, sem merecer censura, há muito tempo – desde que entraste para o meu serviço. Quando foi isso?
- O filho dos Céus já esqueceu? Foi quando Imray Sahib seguiu secretamente para a Europa sem avisar ninguém; e eu – até eu – entrei para o honrado serviço do protetor dos pobres.

- E Imray Sahib foi para a Europa?

- Assim se diz entre os que eram seus criados.

- E tu aceitarás serviço dele, quando voltar?

- Seguramente, Sahib. Ele era um bom amo, e tratava bem seus dependentes.

- Isso é verdade. Estou muito cansado, mas vou caçar cabritos montanheses amanhã. Dá-me o pequeno rifle que costumo usar para tal; está naquela caixa ali.

O homem curvou-se sobre a caixa. Entregou os canos, a culatra e a coronha a Strickland, que montou a arma, bocejando preguiçosamente. Depois estendeu a mão para a caixa de armas, pegou em um cartucho grosso e meteu-o na culatra da carabina.

- E Imray Sahib foi para a Europa secretamente! Isso é muito estranho, Bahadur Khan; não achas?
- Que sei eu dos costumes dos homens brancos, filho dos Céus?

- Bem pouco, na verdade. Mas ficarás sabendo mais dentro em pouco. Eu soube que Imray Sahib voltou de suas longas jornadas e neste momento jaz ali na outra sala, esperando pelo seu servo fiel.

- Sahib!

A luz da lâmpada brilhou nos longos canos da carabina quando se ergueram à altura do peito largo de Bahadur Khan.

- Vai ver! – disse Strickland -. Leva uma lâmpada. Teu patrão está cansado e precisa de ti. Vai!
O homem segurou uma lâmpada e entrou na sala de jantar, seguido por Strickland que quase o empurrava com a boca do rifle. Olhou por um momento o vão escuro do forro acima do pano rasgado; para a víbora contorcida no chão; e, por último, para os despojos sob a tolha da mesa.

- Viste? – perguntou Strickland depois de uma pausa.
- Vi. Sou barro nas mãos do homem branco. Que farão os outros?

- Enforcar-te dentro de um mês. Que mais poderiam fazer?

- Por matá-lo? Agora, Sahib, considera. Vivendo entre nós, seus criados, ele pousou os olhos no meu filho, que tinha quatro anos. Enfeitiçou-o e dentro de dez dias morreu de febre – o meu filho!

- Que disse Imray Sahib?

- Disse que era um menino bonito, e deu-lhe uma palmadinha na cabeça; e por isso meu filho morreu. E por isso eu o matei, ao crepúsculo, quando ele tinha voltado do escritório e estava dormindo. Depois o arrastei para a viga do telhado e recompus tudo atrás dele. O filho dos Céus tudo sabe. Sou um escravo do filho dos Céus.

Strickland olhou para mim por cima dos canos da arma e falou no mesmo tom empolado:

- Tu és testemunha do que ele disse? Ele matou.
Bahadur Khan parecia cor de cinza à luz da única lâmpada. A necessidade de defender-se apresentou-se-lhe logo.

- Fui apanhado, - disse – mas o ofensor foi aquele homem. Lançou mau olhado sobre meu filho, e eu matei-o e escondi-o. Só os que são servidos pelos demônios – olhou para Tietjens deitada calmamente diante dele – só eles poderiam saber o que eu fiz.
- Foste esperto. Mas deverias tê-lo amarrado à viga com uma corda. Porém agora tu é que ficarás pendurado de uma corda. Ordenança!

Um policial sonolento acudiu ao chamado de Strickland. Vinha seguido de outro e Tietjens sentou-se muito quieta.

- Levem-no para o posto policial. Há um caso contra ele.
- Vou ser enforcado, então? – perguntou Bahadur Khan, sem fazer qualquer tentativa para fugir, e conservando os olhos no chão.

- Se há luz do sol e água corrente, sim! – disse Strickland.

Bahadur Khan recuou um grande passo, estremeceu e ficou imóvel. Os dois policiais aguardavam novas ordens.

- Vão! – disse Strickland.
- Nunca! Mas eu vou muito depressa – disse Bahadur Khan -. Mesmo agora já sou um homem morto.

Levantou o pé, e ao dedo mindinho estava aferrada a cabeça da víbora meio morta, firmemente agarrada na agonia da morte.

- Venho de uma raça de senhores da terra – disse Bahadur, oscilando -. Seria uma desonra para mim subir ao patíbulo; portanto, escolho este caminho. Lembrem-se de que as camisas do Sahib estão em perfeita ordem e que há um sabonete novo na sua saboneteira. Meu filho foi enfeitiçado e eu matei o bruxo. Por que havia de ser enforcado? Minha honra está salva, e – eu – morro!
Ao cabo de uma hora morreu, como morrem aqueles que são mordidos pela pequena "karait" castanha e os policiais levaram-no, assim como aos despojos que jaziam sob a toalha da mesa, para seus competentes destinos. Seriam necessários para esclarecer o desaparecimento de Imray.

- E isso – disse Strickland muito calmo, ao enfiar-se na cama – chama-se século dezenove. Ouviu o que aquele homem disse?
- Ouvi – retruquei -. Imray cometeu um erro.

- Única e simplesmente por não conhecer a natureza do oriental, e a coincidência de uma pequena febre palustre. Bahadur Khan estava com ele havia quatro anos.

Estremeci. Meu próprio camareiro estava comigo exatamente há quatro anos. Quando fui para o quarto encontrei o meu homem impassível como a efígie de cobre de u’a moeda, pronto para descalçar-me as botas.

- Que aconteceu a Bahadur Khan? – perguntei eu.
- Foi mordido por uma víbora e morreu. O resto o Sahib já sabe – foi a resposta.

- E quanto sabias tu a respeito deste caso.

- Tanto quanto se pode inferir de alguém que vem no crepúsculo tomar satisfação. Devagar, Sahib. Deixe-me puxar essas botas.

Ia justamente adormecendo, exausto, quando ouvi Strickland gritar do outro lado da casa:

- Tietjens voltou para o seu lugar!
E tinha voltado mesmo. O grande mastim estava majestosamente deitado no seu estrado e no seu cobertor, enquanto no aposento contíguo, o forro de pano rasgado se balançava, roçando a mesa.