31/01/2007

O castigo



Foi na noite de S. João que o Bernardo lhe bateu à porta, aflito.
- Tenha paciência, doutor, e venha-me ver a patroa. Aquilo parece que está ruim...
Fez-se de novas. 
- Aquilo, o quê?
- O parto.
- Ela andava grávida? Nunca reparei. Eu também não a vejo há meses...
- Com os outros nunca houve novidade. Mas desta vez... Acho que tem a criança atravessada. Pelo menos é o que diz a Tia Rosa...
- Desatravessa-se. Se for apenas isso... Quando principiaram as dores?
- Já ontem. 
- E demoraste tanto...?!
- Sempre à espera, a cuidar que a coisa se resolvia... Costumava despachar-se sem dar trabalho a ninguém...
- Bom, eu passo por lá. É só o tempo de preparar os ferros.
De preparar os ferros... e o ânimo. Ora ali tinha, para não ser palerma! Todo finório, a cuidar que arrumara o assunto na ocasião... Que azar o raio do miúdo encravar-se na barriga da mãe! Maldita hora em que se metera com semelhante mulher! Mas quê! Quem é que resistia? Que desapertasse a saia, despiu-se toda. Dói aqui? Mais abaixo, mais abaixo... Ai, que me faz cócegas!... Pronto: se a trazia fisgada, se já vinha disposta à maroteira... Santo, com franqueza!...
O mal todo é que a danada parecia terra de semeadura! E quando à terceira ou quarta vez lhe veio com lérias, que estava grávida e o filho era dele, só viu uma saída: pôr fim ao idílio no mesmo instante. Muita pena, muita pena, mas responsabilidades, não. Tinha marido, demais a mais... Portanto... Além de que, num caso assim, nunca se sabia ao certo... Adeus! Adeus! Surpreendida e despeitada, a alma do diabo, a princípio, ainda tentou reagir. Mas arriscava muito num jogo às claras. O homem, valente e assomadiço, a quem devesse, pagava. Fortalhaço e com tal génio, nem se chegava a compreender que o enganasse. Mas ela é que lá sabia... Segue-se que teve de se acomodar. Quando se cruzavam na rua, pareciam dois desconhecidos. Ele é que a olhava de soslaio, a inventariar-lhe a cintura, cada vez mais grossa. Como elas se arranjam! 
Já a caminho da casa do Bernardo, ainda o rodízio interior continuava a girar. Como elas se arranjam, realmente!
Quando entrou, a Silvana não se deu por achada. Gemeu, e queixou-se como uma doente qualquer. _ Estou numa cruz, senhor doutor!
Aliviado e desapontado ao mesmo tempo, tentou iluminar o acolhimento impessoal com o sol de uma reflexão céptica e recôndita: até onde podia ir a dissimulação feminina! Todas iguais!...
O que vale é que as conhecia... Se conhecia!... E deu prazenteiramente inicio à prestidigitação profissional.
- Que exagero! Uma coisa que não presta para nada! Valha-a Nossa Senhora. Daqui a pouco passa tudo e já nem se lembra.
- Os santos o ouvissem. Mas não. Tenho cá um pressentimento...
- Sempre cuidei que fosse mais corajosa! Que desanimada! Ora vamos lá ver isso...
Descobriu-a, apalpou e auscultou a barriga, e não pôde disfarçar uma sombra reticente na voz.
- Pois é. Realmente...
- Vê como eu tinha razão?! Está mal encaminhado. Eu sentia! Nunca tal me aconteceu! Fartinha de puxar...
- A gente encaminha-o. Sossegue. Pediu água e sabão, tirou o casaco, arregaçou a camisa, lavou-se e desinfectou-se, e começou a actuar.
Com os brios acicatados pela insólita recepção, tentou esforçadamente cumprir a promessa feita. Mas não pôde ir além da boa vontade. A doente berrava, curtida de dores, defendia-se, e nenhuma manobra resultava. Obrigado a reconhecer a sua impotência, retirou a mão a pingar do poço escuro, e deu-se por vencido.
- Temos de a levar para o hospital. É preciso anestesiá-la.,, e só lá.
- O senhor é quem manda. Se vê que não pode fazer o serviço aqui...
- Não. Meteram a parturiente num carro, e os vinte quilómetros de caminho foram de bom angúrio.
O automóvel rodava suavemente e a Silvana emudecera. De vez em quando o Bernardo suspirava. E o médico, solícito, deitava umas gotas de bálsamo na ferida renitente.
- Nestas ocasiões, o essencial é manter a calma. Não ferver em pouca água...
Passaram Gouvães, S. Cristóvão, Penalva. Em Soutelo havia arraial no largo.
- Bonitas iluminações!
O entusiasmo festivo caiu mal no ambiente soturno do veículo. E o médico disfarçou o deslize com a nuvem de fumo dum cigarro.
- Ora cá estamos nós chegados! Vão ver em que instantes o assunto fica arrumado.
Doces palavras, que os factos, infelizmente, não confirmaram.
Na sala de operações, o Dr. Baltasar, que fora avisado pelo telefone e esperava a doente, em vez de resolver o caso, complicou-o ainda mais. Provocada pela violência das contracções ou por qualquer manobra canhestra, havia uma rotura do útero, onde a mão do feto se introduzira. E quando o velho parteiro, ao cabo de grandes esforços, conseguiu fazer a versão e extrair a criança, já morta, de resto, foi como se destapasse um tanque. Um jacto de sangue bateu-lhe em cheio na cara, inutilizou-lhe os óculos e ensopou-lhe a bata.
Sem a serenidade de outrora que o tornara conhecido, em plena decrepitude, diante do contratempo, o obstetra descomandou-se. Numa covardia senil, voltou pura e simplesmente costas à catástrofe. _ O colega tome conta disto, que eu não posso mais.
- Pelo amor de Deus, senhor doutor! Não abandone assim a doente! Opere-a, faça qualquer coisa!
- Desisto. Desisto. Tenha paciência e resolva o problema da maneira que entender.
E desarvorou. Num terror de náufrago, o Dr. Daniel pôs-se a injectar coagulantes a torto e a direito, a meter mechas, a comprimir o ventre com toda a força. Nada. Era chover no molhado. A hemorragia inundava tudo.
- Mais soro, menina! E traga compressas maiores...
A Silvana acordara já e, do fundo da sua exaustão, veio em socorro daquela angústia. 
- É escusado tanto trabalho. Ninguém me pode valer. Foi castigo...
- Cale-se! Ao cabo de meia hora de luta, calafetado de todas as maneiras, o boeiro cedeu finalmente.
O médico respirou fundo. 
- Parece que estamos safos! - proclamou, mais para se convencer do que convencido.
O sangue parara, realmente. Mas o curso do rio mudara apenas de direcção. Era dentro do próprio ventre que a torrente agora desaguava.
- Eu sinto-o correr à mesma... - avisou a Silvana.
- Cale-se, já lhe disse!
O pulso caía a olhos vistos. Uma palidez de cera cobria o rosto da infeliz.
- Cardiazol, depressa!
- Quero o meu homem ao pé de mim! - pediu a Silvana, com súbita energia.
- Mande-o entrar. Chamado pela enfermeira, o Bernardo, hesitante, assomou à porta do quarto e aproximou-se do leito pé ante pé.
- Então?
- Escoo-me... É uma torneira aberta... Num gesto gracioso, ainda feminino, estendeu a mão esquerda, que o marido timidamente segurou. A direita apertava já, crispadamente, a do médico.
Com os dois homens assim presos a si, um de cada lado da cama, pareceu recobrar as forças. Um fulgor estranho iluminou-lhe os olhos.
- Vou morrer, Bernardo, e quero-te pedir perdão...
- Não tenho nada que te perdoar...
- Tens. Enganei-te muitas vezes...
- Ora, enganaste!
- Enganei.
- Deixa lá isso, agora...
- Ouve-me, embora te custe. Preciso de limpar a minha consciência antes de prestar contas a outro juiz...
- Sossega, sossega...
- Não merecias as traições que te fiz. Fui uma porca. Este filho nem sequer era teu...
Aterrado, o médico, com um gesto, mandou sair a enfermeira.
- A primeira vez que te faltei ao respeito foi com o Avelino. Logo no primeiro ano do nosso casamento. Apenas nasceu a pequena. Nem sei como aquilo começou... Perdoas-me?
- Perdoo.
- A segunda foi com o Guilhermino. Andei metida com ele seis meses certos. Perdoas-me?
- Estás perdoada.
- A terceira... Arfava.
- Oxigénio, menina! A ordem de comando bateu sem eco na cal das paredes. E o Dr. Daniel, num vislumbre de salvação, tentou libertar-se, a pretexto de ir chamar à porta. Mas a garra da moribunda manteve-o seguro no pelourinho.
-...Foi com o Lourenço. Vinha eu de Fermentões... Perdoas-me?
- Perdoo tudo.
O pingue-pingue do gota-a-gota ia medindo os segundos intermináveis. A palidez do rosto da agonizante era já cadavérica. As palavras saíam-lhe dos lábios quase ciciadas.
O médico, a suar em bica, com a mão livre apalpava-lhe o pulso. Em frente dele, o Bernardo parecia um fantasma.
- A quarta, a última ... Mal eu futurava que havia de morrer por causa ...
Como um condenado que enfrenta a hora final, o Dr. Daniel retesou a vontade.
A moribunda encarou-o durante alguns instantes, voltou a olhar o marido, e murmurou a custo:
- Foi com o...
Um nó de silêncio apertou-lhe a garganta. De olhos esbugalhados, ficou hirta, a fitar o tecto numa espécie de espanto alheado.
Num terror que não tinha o mesmo sinal em ambos, debruçaram-se os dois sobre o cadáver.
- Acabou-se-lhe o sofrimento... - murmurou o médico, exausto.
- Acabou... - respondeu o Bernardo, a rilhar a voz.
- Era preciso descer-lhe as pálpebras...
- Pois era. Mas eu não tenho coragem.
- Nem eu.

Miguel Torga, Contos da Montanha


28/01/2007

As Quatro Portas do Céu


O céu tem quatro portas.
A porta branca onde mora um velho chamado Inverno, a porta verde onde mora uma menina chamada Primavera, a porta amarela onde mora um rapaz chamado Verão e a porta dourada onde mora um homem chamado Outono.
O Inverno sai da sua porta branca com um saco cheio de maravilhas e verifica que a tinta da porta está um bocadinho esmurrada. Volta atrás a buscar uma trincha e conserta aquela pequena mancha. Depois segue, um bocado rabugento, e como não quer que o vejam, tira do saco uma embalagem de nevoeiro e espalha-o pelo caminho. Fica tudo cinzento e, embora esta não seja a sua cor preferida, sempre a acha melhor que os castanhos de mil e uma tonalidades que o Outono deixou atrás de si.
O Inverno, como já perceberam, não gosta de dar nas vistas, por isso sai no dia mais curto do ano, 21 de Dezembro, convencido de que ninguém dá por ele. E de facto, às vezes estamos tão entretidos a preparar o Natal que nem o sentimos.
Por onde passa, vai deixando a Natureza arrepiada. As árvores largaram as últimas folhas (algumas!, porque outras, chamadas de folha perene, nunca se despem da sua roupagem). Os bichinhos escondem-se nos seus abrigos onde guardaram comida para os meses frios. As formigas, por exemplo, são muito previdentes e fazem sempre isso. Há animais, como os ursos, que dormem durante a época em que não há comida. Metem-se nas suas cavernas e ali estão quentinhos a hibernar, a poupar energias, para não darem de caras com nevões e outras coisas de que não gostam. Há ainda os pássaros que, não podendo sobreviver ao frio, preferem ir passar esses meses para lugares mais quentes do planeta, para depois voltarem a casa, como nós fazemos no fim das férias.
É por isso que o Inverno é um bocado resmungão. Não encontra quase ninguém pelo caminho a não ser árvores despidas e bichinhos assustados. Às vezes encontra pessoas, mas não dá para conversar, porque elas vão à pressa para casa, embrulhadas nos seus agasalhos, a soprar bafo quente para as pontas dos dedos.
Irritado com esta falta de atenção, o Inverno tira do saco uma chuva torrencial, de que todos fogem, mas que é uma das suas maravilhas porque vai alimentar os rios e preparar a terra para mais tarde desabrochar.
Entretanto os homens já cortaram a madeira (só a indispensável) e já a puseram a bom recato, semearam e protegeram produtos da horta que fazem falta na nossa alimentação, como agriões, alfaces, espinafres, ervilhas, tomate e temperos como a salsa e os coentros. E semearam o centeio, para fazer mais tarde aquele pão escuro e saboroso, do qual, comido quentinho, até o Inverno gosta...
Mas o Inverno não está agora a pensar nisso. Quando está aborrecido e lhe apetece ver um espectáculo, autoriza as nuvens a fazerem uma brincadeira aparentemente parva, que é atirarem-se umas de encontro às outras para provocarem descargas eléctricas; põe os trovões a ribombar e os relâmpagos a iluminar a noite e delicia-se com aquele fogo-de-artifício.
As nuvens gostam muito do Inverno; ele dá-lhes imensa importância, deixando, inclusivamente, que elas substituam o azul do céu. Ficam vaidosíssimas e, além de largarem água cá para baixo, entretêm-se a fazer noites escuríssimas, de meter medo. Só a lua lhes dá resposta quando, principalmente em Janeiro, espalha pelo céu um luar de que o Inverno muito se orgulha por ser, dizem, o mais bonito de todos.
O Inverno guarda para o fim a sua maravilha preferida. Depois de ter largado todo o frio, de ter feito gelar a água das fontes e dos lagos, de ter espalhado ventos fortíssimos em todas as direcções, de ter coberto tudo de geada, de ter feito chover granizo que lembra as pedrinhas brancas de milhões de colares rebentados, de ter levantado as ondas quase até ao céu, o Inverno diz ao mar e ao vento e às nuvens que se aquietem e tira do saco o seu mais lindo brinquedo, que é branco e frio e fofo e que se chama neve. Cobre tudo com ela e aí passa-lhe o mau humor porque vê as crianças saírem para brincar e ouve-lhes as gargalhadas e observa o que as pessoas inventam, como carrinhos, esquis e trenós, e regala-se, quando anoitece, com o silêncio que envolve aquela zona da Terra. É como se tivesse oferecido ao mundo um manto branco e o mundo se aconchegasse debaixo dele.
Então o Inverno adormece. Fica tão sossegado que nem nota que a Primavera abriu devagarinho a porta verde e se vem aproximando no seu passinho de dança.
O Inverno tem, sempre teve, um grande fraquinho pela Primavera. Nunca lhe disse nada porque ela é muito nova e ele um velhote, não quer aborrecê-la com conversas parvas. Quando acorda e sente no ar o cheiro cor-de-rosa do vento, sabe que chegou o momento de voltar à porta branca e preparar-se para fazer outras invernias noutras paragens da Terra.
Então, para deixar um presente à Primavera, inventa uma flor linda que parece uma estrela, quase prateada de tão branca, e vai pousá-la, como um segredo que a Primavera terá que descobrir, lá no pico mais alto dos Alpes. Fica admirado com a sua invenção, mas não tem que espantar-se porque o amor é o maior inventor de todo o universo e faz coisas lindas como essa flor-estrela chamada Edelweiss.
A Primavera chega descuidada, diz de longe um adeusinho ao Inverno que já vai a caminho de casa e põe-se a brincar com as borboletas. Mas ao chegar, ali pelo dia 20 de Março, toma bem conta se os sapos, as cobras e os morcegos estão de boa saúde, pois precisa deles para se alimentarem de insectos e ratos que de outro modo estragariam as culturas.
A Primavera às vezes parece tonta porque espalha ventos carregados de pólens que nos fazem espirrar e esfregar os olhos, mas ainda bem que ela tem essa preocupação porque é assim que se reproduzem as flores que ela traz nos cabelos. Ela é amiga do sol mas também das chuvas miudinhas, pode dizer-se que a Primavera é amiga de todos e gosta de andar pelos campos a ver nascer cordeirinhos, cabritos, vitelos e potros, isto em Portugal, porque se fôssemos a falar de outros países, não tinham conta os animais que ela faz nascer, desde leõezinhos a elefantes, de renas a ursinhos panda, passando por milhões de outros bebés.
Se a Primavera colhe muitas flores, também semeia algumas, como cravos, amores-perfeitos, dálias e crisântemos, para que possamos ter flores todo o ano sem ter que as mandar vir de outros países. A Primavera gosta de acolher os pássaros que chegam de férias (chamam-se aves migratórias) e que não são só as andorinhas (que conhecemos bem por fazerem os ninhos nos beirais das nossas casas) mas também as rolas, os gansos, as cagarras, os patos bravos.
O que se nota logo é que a Primavera gosta de tudo quanto é novo, de tudo o que principia, de tudo o que é cheio de vida, é como se o mundo fosse feito e refeito por ela todos os anos. A Primavera quer ver a Terra a desabrochar, por isso não se cansa de andar de um lado para o outro. Às vezes desenha no céu um arco-íris com a ponta dos dedos, outras faz nascer plantas com o hálito da sua boca perfumada, outras ainda veste as árvores de folhinhas tenras só de passar-lhes de leve a mão pelas ramadas.
Em 1478 houve em Itália um pintor chamado Botticelli que pintou um quadro que representa a Primavera, não com um só rosto mas com vários, incluindo os do vento, do amor, da flora, e da deusa da beleza (que se chama Vénus ou Afrodite). Estão num pomar cheio de frutos e de flores e de movimento, como se uma brisa ali passasse e fizesse nascer aquela formosura toda.
Lá para o meio do mês de Junho a Primavera, com a boca cheia de morangos, começa a preparar-se para descansar. A Natureza já recebeu os seus presentes e agora antecipa a chegada do Verão. A Primavera, a caminho de casa, gosta de encontrar-se com ele, que é um rapaz muito bonito, bronzeado e forte. Ficam um momento a conversar, ali por volta do dia 21 de Junho, que é o dia mais longo do ano e por isso dá tempo para esses vagares.
O Verão vem com toda a calma (calma também quer dizer calor, por isso é duas vezes verdade). O amarelo é a sua cor preferida e a que melhor fica à sua pele morena. Tirou-a do sol, das praias, dos campos que vão ficando amarelecidos à medida que ele avança. O Verão é louco por umas boas ondas, um surf, um vólei de praia mas também por um trigal ondulante, um cantar alentejano ou um barco pelo rio acima. O Verão gosta de ver guarda-sóis às cores pelas esplanadas e muitas crianças em férias. O Verão tem sede: gosta de frutos sumarentos como as ameixas, as rainhas-cláudias, as melancias, e acha engraçado apanhar melões, que também são amarelos. Assiste sempre à tosquia dos rebanhos, que é como quem despe os casacos aos carneiros para não terem calor. Outra alegria do Verão é andar pelos milheirais, correr pelos campos ou sentar-se a observar como os passarinhos mais novos aprenderam a voar tão bem e ouvir os seus chilreios pelas tardinhas. O Verão não perde uma ceifa: gosta de ouvir as mulheres a cantar e, quando anoitece, fica deitado no restolho a olhar as estrelas que parecem falar pela voz das cigarras.
No dia 22 de Setembro, já com as uvas maduras na videira, o Verão vai andando tranquilo para a sua porta amarela, não sem antes cumprimentar o Outono, que sai nesse dia e é um senhor cheio de sensibilidade (dizem que é pintor), e o Verão sente por ele muita amizade e respeito.
O Outono preocupa-se primeiro com as vindimas, mas antes dá ainda umas pinceladas douradas nas uvas brancas, púrpura nas pretas, para que o vinho que delas nasça seja delicioso como um néctar.
Depois começa a ocupar-se do arvoredo onde exerce os seus dotes de artista.
Baixa a temperatura, aos poucos, para que os meninos que já estão em aulas se não constipem. E depois o Outono, que além de pintor é um grande maestro, cria uma sinfonia de verdes escuros, castanhos, roxos, vermelhos e dourados na folhagem das árvores.
O Outono manda reduzir as regas e abrir covas para as árvores novas, ceifar o arroz, apanhar a azeitona e colher a amêndoa, indispensável nos doces portugueses. Não se esquece de plantar os morangueiros para que a Primavera possa deliciar-se com a sua fruta preferida. Mas também as cerejeiras, as pereiras e as macieiras. O Outono preocupa-se com o futuro e não quer a beleza do mundo só para si. E porque também gosta do conforto, manda acender as lareiras, diz às árvores para atapetarem os caminhos com as suas folhas caídas e lembra às aves migratórias que podem partir. Então elas despedem-se com muitos pios arrepiados e, a caminho do Sul, fazem longas filas que enfeitam o horizonte como uma fita bordada.
O Outono gosta de conviver. Por isso ele vem na época das longas conversas e também dos longos silêncios, de qualquer modo um tempo em que as pessoas comunicam não só pelas palavras mas também pelo coração.
Então, pelo S. Martinho, o Outono convida os colegas para passarem o dia com ele. O Inverno raramente aceita o convite porque tem frio e não lhe apetece sair de casa. Mas a Primavera e o Verão nunca faltam. É tempo de festa, de comer castanhas e provar o vinho novo e então, só porque eles saíram da porta verde e da porta amarela, o dia acorda primaveril, com uma suave brisa matinal e ao meio-dia está quente como se fosse Agosto.
(O ano desta história foi excepcional e o Inverno apareceu com o saco de estrelas e lançou alguns cristais de neve por cima dos telhados. Ficou lindo e de manhã o Verão derreteu-os antes de ir para casa).
O Outono, que tem predilecção por bibliotecas, casacos de malha e crepúsculos suaves, sugere sempre às pessoas que juntem estas três coisas e leiam bons livros, dos quais se lembrarão toda a vida, sobretudo enquanto houver bibliotecas, camisolas de malha e finais de tarde entre o dourado e o lilás.
O Outono gosta de criar uma ambiência especial, luminosa e serena, que faz as pessoas sentirem uma certa quietude na alma.
Talvez seja por isso que os poetas gostam do Outono.
Esta é a história das quatro portas do céu e quem a contou à Maria e ao António foi o próprio Outono, poucas semanas depois de terem começado as aulas, quando a professora pediu uma composição sobre as quatros estações e eles estavam sem saber o que escrever.
Perceberam tudo muito bem. Nunca mais disseram que o Inverno é uma chatice e o Verão é que é bom, porque entenderam que uma menina, fresca e alegre, que gosta de correr entre as árvores e ver nascer as flores e os cordeirinhos, pode ser amiga de um senhor velhote de nariz vermelhusco e ambos de um rapaz que gosta de surf e campos de restolho, e todos de um homem culto, que gosta de livros e de castanhas assadas, capaz de os juntar para beberem o vinho novo no dia de S. Martinho.
O Outono também lhes disse que a vida das pessoas tem quatro estações como o tempo. Primeiro somos novos e estamos, como a Primavera, a começar tudo e a aprender a sonhar; depois somos adultos cheios de força e energia como o Verão; mais tarde ficamos sensatos e sábios como o Outono; e por fim tornamo-nos, como o Inverno, um bocado rabugentos, mas ainda capazes de inventar uma flor.
Todas as idades, como todas as estações, têm o seu encanto, o que é preciso é coração para senti-las e amá-las tal e qual como elas são.
Como a porta dourada estava entreaberta, o António e a Maria ainda puderam ouvir uma música linda que vinha lá de dentro.
— Que música é esta?
— Foi escrita por um padre que tinha o teu nome, António. Chamava-se António Vivaldi e publicou-a em 1725, há quase três séculos, vejam lá! Chama-se “As Quatro Estações”. Se ouvirem com atenção, hão-de reparar que a música diz tudo o que diz esta história porque nem só as palavras servem para comunicar.
— Podemos pôr isso na composição?
— Numa composição pode pôr-se tudo, é para isso que as composições servem. Mistura-se o que se sabe com o que se sente, junta-se o que se inventa e aí até podem acontecer coisas mágicas como abrir portas no céu e conversar com quem imaginamos que lá mora.
Até hoje o António e a Maria não sabem se sonharam com estas coisas bonitas e um bocado malucas ou se elas surgiram à medida que se puseram a reparar melhor na Natureza, a ler mais livros, a ouvir com mais atenção o que os mais velhos vão contando.
A verdade é que tiveram a melhor nota da turma na composição sobre as estações do ano.

Rosa Lobato de Faria, As Quatro Portas do Céu



21/01/2007

A Árvore


Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina.
Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.
Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada.
E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas.
Assim foi durante várias gerações.
Mas, com o passar do tempo, surgiu um problema terrível, e por mais que todos meditassem e discutissem, ninguém era capaz de arranjar uma boa solução.
Porque, ao longo dos anos, a árvore tinha crescido tanto, os seus ramos tinham-se tornado tão compridos, a sua folhagem tão espessa e a sua copa tão larga que, durante o dia, metade da ilha ficava sempre à sombra.
De maneira que metade das casas, das ruas, das hortas e dos jardins nunca apanhava sol.
E, na metade ensombrada, as casas estavam a ficar húmidas, as ruas tinham-se tornado tristes, as hortas já não davam legumes, os jardins já não davam flor. E a gente que ali morava andava sempre pálida e constipada.
E, à medida que a sombra da árvore crescia, crescia também a perturbação.
As pessoas gemiam:
— Que havemos de fazer? Que havemos de fazer?

* * *

Até que foi decidido a população reunir-se toda em conselho para examinar bem o problema e decidir o remédio que devia dar-lhe.
Discutiram durante muitos dias e, depois de todos terem falado, chegou-se à triste conclusão de que era preciso cortar a árvore.
Houve choros, lamentações, gemidos.
A árvore era bela, antiga e venerável. Fazê-la desaparecer era um acto que não só entristecia os habitantes da ilha mas que também os assustava.
Mas não havia outro remédio e quase todos acabaram por concordar com o corte.
No lugar onde antes ela se erguia, plantaram um pequeno bosque de cerejeiras, pois as cerejeiras nunca crescem muito.

* * *

Abater a árvore foi difícil e toda a gente teve de ajudar.
Mas, depois de cortada, ela ocupava tanto espaço que a ilha ficou quase sem lugar para mais nada. Por isso começaram a desfazê-la: primeiro cortaram os ramos e as pernadas e a sua madeira foi distribuída entre todos, para que cada um pudesse fabricar alguma coisa que lhe lembrasse a árvore tão amada.
Alguns fabricaram pequenas mesas, outros, varandas para as suas casas, outros, caixilhos para os biombos, outros, caixas, tabuleiros, tigelas, colheres, pentes e ganchos para as mulheres espetarem no cabelo.No fim ficou só o enorme e grosso tronco nu, deitado através da ilha.
Então começaram a chegar viajantes e armadores que queriam aquela óptima madeira para fabricar barcos.
Mas a população não quis. Reuniram todos outra vez em conselho e decretaram:— Os habitantes desta ilha não querem separar-se da sua árvore que, antes de crescer demais, lhes deu tanta alegria. Vamos nós próprios construir o nosso barco.E assim foi. Depois da chuva do Outono, deixaram o tronco secar durante longos meses e, logo que viram que a madeira já estava bem seca, meteram mãos à obra.E, como são um povo muito inteligente, os japoneses, que trabalham muito bem, muito depressa, com muito esmero e são óptimos carpinteiros, construíram rapidamente uma grande e linda barca toda esculpida e pintada de muitas cores.Então houve uma grande festa e a barca foi lançada ao mar.À noite houve fogo de vista e em todas as ruas e praças se acenderam balões de papel, azuis, amarelos e vermelhos.

* * *

Assim, durante muitos anos, a vida naquela ilha correu com muita alegria e animação.
Mas apesar dessa alegria, apesar dos bons negócios e dos grandes passeios, todos se lembravam com saudade da velha árvore.— Como era alta e bela! — diziam.— Como a sua sombra era perfumada!— Como era doce e leve o sussurrar da brisa nas suas folhas!— Como a sua copa era redonda e bem formada!— Como as suas folhas eram verdes e bem desenhadas!— Como era tão suave a frescura debaixo dos seus ramos, nas manhãs de Verão!E, assim, entre palavras e pensamentos, a árvore nunca era esquecida.

* * *

E os anos foram passando.Até que os marinheiros e os calafates descobriram que estava a acontecer uma grande desgraça:A madeira da quilha da grande barca tinha começado a apodrecer.— Ai de nós! — choravam os habitantes. — Não vamos dar mais passeios pelo mar. Nas noites de lua cheia, não vamos visitar mais as outras ilhas, não vamos fazer mais negócios.Mas os comerciantes sossegaram-nos.— Durante estes anos — disseram eles — graças à nossa grande barca, andámos a navegar de ilha em ilha, de porto em porto, a comprar e a vender, e fizemos negócios tão bons que juntamos muito dinheiro. Por isso, como aqui não há outra árvore enorme, e as árvores que agora temos fazem muita falta se forem cortadas, estamos dispostos a ir às outras ilhas comprar boa madeira. E todos juntos podemos construir outra grande barca.A população aplaudiu o discurso e concordou com o projecto e daí a poucos meses a barca nova ficou pronta e logo a puseram a flutuar.Então, a barca velha foi arrastada para a praia. O povo cercou-a em silêncio com grande tristeza, e os carpinteiros e os calafates examinaram-na tábua por tábua.A madeira do casco, do convés e dos bancos estava quase toda semi-apodrecida e só servia para queimar. Mas o mastro grande, que tinha sido tirado do cerne da velha árvore, continuava são e bem conservado.— Temos que fazer com este mastro alguma coisa que nos lembre a nossa árvore antiga e a nossa barca — disse o chefe da ilha.Depois de muito pensar resolveram fazer uma biwa, que é uma espécie de guitarra japonesa.Quando a obra ficou pronta, a população reuniu-se na praça principal e sentaram-se em silêncio em redor do melhor músico da ilha para ouvirem o som da biwa.Mas, mal os dedos do músico fizeram soar as cordas, de dentro da biwa ergueu-se uma voz que cantou:

A árvore antiga
Que cantou na brisa
Tornou-se cantiga

Então, todos compreenderam que a memória da árvore nunca mais se perderia, nunca mais deixaria de os proteger, porque os poemas passam de geração em geração e são fiéis ao seu povo.



Sophia de Mello Breyner Andresen



Os Três Encontros


Já tinha escurecido. A mulher esperava o seu homem e volta, meia volta ia ao postigo. Como ele tarda! — dizia então. Atiçou as brasas, acendeu a luz da candeia com um graveto que chegou ao fogo, tojou um mocho e sentou-se. Puxou para si a cesta da costura, mas não teve tempo de enfiar a agulha. Abre-se a porta com fragor e uma voz brada:

Haja paz nesta casa! Aqui está quem manda!

Quem assim se manifestava parecia vir de bom cenho.

Credo, homem! Já cuidava que me não aparecias...

Cala-te aí, cala-te, atalha-a o homern. Tira-me mas é já de cima esta manta e os safões. Sempre faz frio! Quem anda lá por fora é que sabe. Ao lume está-se bem.

Ninguém dirá, retoma ela; com a ceia tanto tempo à tua espera e o tempo a passar...

Cala-te, anda, e põe-me ajeito. Se tu bem souberes...

Se eu...

Cala-te, cala-te, só te digo mais esta: vale a pena ralar-se um homem! Olha que pelo caminho fora, depois do que me aconteceu, eu vinha a pensar: vive-se um ror de anos, farta-se um homem de viver! E lá vem um dia.... ó mulher! — um dia quando ele mal se precata...

Vá, desembucha, homem; vem um dia...

Já te disse que me não atrapalhes. Nunca me deixas chegar onde eu quero. Cala-te que daqui a pouco já sabes.

Mas então senta-te e come.

Está bem. E eu que trago uma fome! Ouve cá, consta--me que tu és bruxa, houve quem já mo dissesse um dia...

E tu acreditastes? Só esse gosto que tu tens de me arre­liar!

Não, mas ouve cá! Tu não sabes sempre mais que as outras?

Eu não.

Sabes, sabes... Pergunta-se-te qualquer coisa, tu pões-te logo a cismar e a tua resposta sai certa.

Vá, anda, diz lá o que de mim queres, homem.

Eu não quero nada. Ia-te só a contar a razão da minha demora.

História de amigos ou de raparigas, aposto.

Enganas-te. Primeiro, foi o encontro que tive com um velho.

Que velho?

Bem sei eu! Estive que tempos a espreitá-lo. E o pobrezeco não dava por mim nem por nada, parecia tarouco. Se o viras... Sentado num barranco, com um búzio na mão... Ria-se, falava sozinho, levava o búzio ora a um ouvido, ora a outro... Fartei-me de o ver naquelas manigâncias e bradei-lhe: ó tiozinho, que tal a música, hem? Ele não me respondeu nada. Continuou a rir bai­xinho. Nem um só dente tinha naquela boca! A sua cara, toda ela era uma gelha. Mas dizia umas coisas...

Não foste então capaz de o entender?

Já se sabe que não, e bem o tentei. O velhote deu-me no goto. Parece que falava no mar, no mar... nos seus barcos, nas suas casas... Fossem-no lá entender, coitado! Deixei-o no barranco e mais o seu búzio. E sabes tu com que é que eu havia de topar uma boa légua cá mais adiante? Com o nosso vizinho da ladeira. Pois nem me conheceu! Levava um grande rebanho de reses à sua frente e dava berro de tremer.

Parecia varrido do juízo. Os animais fugiam-lhe, ia tudo tresmalhado. Ai, mas só as pragas que ele rogava... Eu bem lhe queria dar uma ajuda, mas em vão; nem me conhecia, digo-te eu. Parecia um diabo, com os olhos como duas postas de sangue.

Depois, vai-me tu sempre ouvindo, que agora aqui é que anda mistério e grande. Já eu não pensava no velhote nem no nosso vizinho, já me distraíra, vinha eu... se que­res que te diga, nem sei por que alturas vinha, quando começo a ver umas coisas, assim a saltarem, a saltarem... tu nunca farás uma ideia do que aquilo parecia! Umas bolinhas brancas, umas luzes... Eu só fazia era arredá-las com a mão, mas elas sempre a teimar... Juro-te que estava nos meus cinco sentidos. Elas eram mais fortes que um homem! Esta é que é a verdade.

Não terias bebido a tua pinguita?

Cala-te aí que não sabes o que dizes! Cala-te, mulher! Logo vi que me não entendias!

Não faças caso, continua, anda, que não foi por mal.

Pois aquilo encadeava-me e dava-me vontade nem sei de quê. De lhe correr atrás... E foi o que eu fiz... Era tão bonito! Também se ouviam umas vozes... De repente, ai se tu puderas ver! solta-se uma coisa com asas, mas não era um pássaro. Corri para ela, ia sempre a agarrá-la e ela sempre a fugir. Fugia-me e voltava. Mulher, que poderia aquilo ser? Discorre, vá. Eu não tinha bebido. Tudo tão alegre e tão bonito! Aquilo que voava não era pássaro, era muito mais leve e até brilhava. Nunca fui capaz de lhe deitar a mão. Que pena! Anda, tira-me os olhos dessas brasas, mulher, fala.

Se bem queres que te diga...

Adivinha, mulher, já que te chamam bruxa.

Tornas à mesma, tornas?

Não, mas fala.

Queres saber? O nosso vizinho, deves estar lembrado, deixou a sua última seara à mercê dos gaios e dos outros pássaros, e depois não havia quem o calasse. Não é homem de boa cabeça. Do velho também já ouvi falar. Há quem diga que foi muito rico e que hoje não tem nada de seu, mas ainda vive com a mania dos barcos e dos palácios. Não faz mal a ninguém. Nunca pára a nenhuma porta. Anda com uma sacoleta ao ombro e é nela que guarda o búzio. Já a minha avó falava dele, mas ninguém lhe sabe a idade. Toda a sua distracção está no tal búzio.

E a outra coisa, mulher?

Essa, ninguém me tira da cabeça que foi sonho que tu tiveste.

Qual sonho! Eu tinha os olhos tão abertos como agora. Via-a. Era uma coisa linda e com asas... passava--me pela frente, dava-me com elas... e eu corria-lhe atrás...

Espera, homem. Tu estás bem certo de que não so­nhaste?

Se estou! O tal pássaro parecia-me todo mareado e luzia e cantava... Apanhá-lo! Era só o que eu queria. Mas que pudera aquilo ser?

Já faço uma ideia. Ou que fosse sonho ou coisa viva, homem, é aquilo que nunca se alcança. Entendes-me? Essa coisa que te dançava à frente... Ó homem, mas o que te aconteceu é raro. São as nossas ilusões!

Também o creio. Mas, e o velhote? Porque me cru­zei eu também com o velhote e com o nosso vizinho?

Era porque assim te estava destinado. Três encontros tiveste tu, como poucos os têm. O velho, é o que pas­sou, entendes-me? O passado. O nosso vizinho é o que se está a toda a hora vendo, as raivas e os desesperos do presente, e a tal coisa com asas...

Aposto que é o futuro?

Pois.

Mas tu falas sempre certo, mulher. Queres crer que eu tive uma certa pena do velhote e que à vista do nosso vizinho me senti mal cá por dentro? Tal e qual como quando a gente pensa no que já lá vai e naquilo que nos está a acontecer. O que lá vai, chama-nos a lagrimicha ao olho e o que acontece em cada dia, não há maldição que o não cubra.

E isso mesmo. Quanto à outra coisa...

Não digas mais! Quando a gente se põe com a espe­rança. .. até os dias têm asas e mudam de cor. Sabes o que digo, mulher? Nem a ceia já me sabe a nada.

Te arrenego, homem, que a fiz com tanto gosto!

Mas isso de uma pessoa vir pelo seu caminho fora e ter destes encontros...

Foi sorte.

Tu o dizes, lá entendida és.

Tornas-me a chamar essa palavra?

Nem essa nem outra! Fico a cismar. Tudo aquilo que eu vi, ou que fosse a dormir, ou que fosse acordado... como me parece certo, passado assim pela tua boca! Lá se tu és bruxa, não sei, nem me importa.



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma


14/01/2007

O Cavaleiro da Dinamarca



A Dinamarca fica no Norte da Europa. Ali os Invernos são longos e rigorosos com noites muito compridas e dias curtos, pálidos e gelados. A neve cobre a terra e os telhados, os rios gelam, os pássa­ros emigram para os países do Sul à procura de sol, as árvores perdem as suas folhas. Só os pinheiros continuam verdes no meio das florestas geladas e despidas. Só eles, com os seus ramos cobertos por finas agulhas duras e brilhantes, parecem vivos no meio do grande silêncio imóvel e branco.

Há muitos anos, há dezenas e centenas de anos, havia em certo lugar da Dinamarca, no ex­tremo Norte do país, perto do mar, uma grande flo­resta de pinheiros, tílias, abetos e carvalhos. Nes­sa floresta morava com a sua família um Cavalei­ro. Viviam numa casa construída numa clareira rodeada de bétulas. E em frente da porta da casa havia um grande pinheiro que era a árvore mais alta da floresta.

Na Primavera as bétulas cobriam-se de jovens folhas, leves e claras, que estremeciam à menor aragem. Então a neve desaparecia e o degelo soltava as águas do rio que corria ali perto e cuja corrente recomeçava a cantar noite e dia entre ervas, musgos e pedras. Depois a floresta enchia-se de cogumelos e morangos selvagens. Então os pássaros voltavam do Sul, o chão cobria-se de flores e os esquilos saltavam de árvore em árvore. O ar povoava-se de vozes e de abelhas e a brisa sussurrava nas ramagens. Nas manhãs de Verão verdes e doiradas, as crianças saíam muito cedo, com um cesto de vime enfiado no braço esquerdo e iam colher flores, morangos, amoras, cogumelos. Teciam grinaldas que poisavam nos cabelos ou que punham a flutuar no rio. E dançavam e cantavam nas relvas finas sob a sombra luminosa e trémula dos carvalhos e das tílias. Passado o Verão, o vento de Outubro despia os arvoredos, voltava o Inverno, e de novo a floresta ficava imóvel e muda, presa em seus vestidos de neve e gelo.

No entanto, a maior festa do ano, a maior alegria, era no Inverno, no centro do Inverno, na noite comprida e fria do Natal.

Então havia sempre grande azáfama em casa do Cavaleiro. Juntava-se a família e vinham amigos e parentes, criados da casa e servos da floresta. E muitos dias antes já o cozinheiro amassava os bolos de mel e trigo, os criados varriam os corredores, e as escadas e todas as coisas eram lavadas, enceradas e polidas. Em cima das portas eram penduradas grandes coroas de azevinho e tudo ficava enfeitado e brilhante. As crianças corriam agitadas de quarto em quarto, subiam e desciam a correr as escadas, faziam recados, ajudavam nos preparativos. Ou então ficavam caladas e, cismando, olhavam pelas janelas a floresta enorme e pensavam na história maravilhosa dos três reis do Oriente que vinham a caminho do presépio de Belém.

Lá fora havia gelo, vento, neve. Mas em casa do Cavaleiro havia calor e luz, riso e alegria.

E na noite de Natal, em frente da enorme lareira, armava-se uma mesa muito comprida onde se sentavam o Cavaleiro, a sua mulher, os seus filhos, os seus parentes e os seus criados.

Os moços da cozinha traziam as grandes peças de carne assada e todos comiam, riam e bebiam vinho quente e cerveja com mel.

Terminada a ceia começava a narração das histórias. Um contava histórias de lobos e ursos, outro contava histórias de gnomos e anões. Uma mulher contava a lenda de Tristão e Isolda e um velho de barbas brancas contava a lenda de Alf, rei da Dinamarca, e de Sigurd. Mas as mais belas histórias eram as histórias do Natal, as histórias dos Reis Magos, dos pastores e dos Anjos.

A noite de Natal era igual todos os anos. Sempre a mesma festa, sempre a mesma ceia, sempre as grandes coroas de azevinho penduradas nas portas, sempre as mesmas histórias. Mas as coisas tantas vezes repetidas, e as histórias tantas vezes ouvidas pareciam cada ano mais belas e mais misteriosas.

Até que certo Natal aconteceu naquela casa uma coisa que ninguém esperava. Pois terminada a ceia o Cavaleiro voltou-se para a sua família, para os seus amigos e para os seus criados, e disse:

— Temos sempre festejado e celebrado juntos a noite de Natal. E esta festa tem sido para nós cheia de paz e alegria. Mas de hoje a um ano não estarei aqui.

— Porquê? — perguntaram os outros todos com grande espanto.

— Vou partir — respondeu ele. — Vou em peregrinação à Terra Santa e quero passar o próximo Natal na gruta onde Cristo nasceu e onde rezaram os pastores, os Reis Magos e os Anjos. Também eu quero rezar ali. Partirei na próxima Primavera. De hoje a um ano estarei em Belém. Mas passado o Natal regressarei aqui e de hoje a dois anos estaremos, se Deus quiser, reunidos de novo.

Naquele tempo as viagens eram longas, perigosas e difíceis, e ir da Dinamarca à Palestina era uma grande aventura. Quem partia poucas notícias podia mandar e, muitas vezes, não voltava. Por isso a mulher do Cavaleiro ficou aflita e inquieta com a notícia. Mas não tentou convencer o marido a ficar, pois ninguém deve impedir um peregrino de partir.

direita, capaz de amar os outros. E pediu também aos Anjos que o protegessem e guiassem na viagem de regresso, para que, daí a um ano, ele pudesse celebrar o Natal na sua casa com os seus.

Passado o Natal o Cavaleiro demorou-se ainda dois meses na Palestina visitando os lugares que tinham visto passar Abraão e David, os lugares que tinham visto passar a Arca da Aliança, o cortejo da Rainha do Sabá e seus camelos carregados de perfumes, os exércitos da Babilónia, as legiões romanas e Cristo pregando às multidões.

Depois, em fins de Fevereiro, despediu-se de Jerusalém e, na companhia de outros peregrinos, partiu para o porto de Jafa.

Entre esses peregrinos havia um mercador de Veneza com quem o Cavaleiro travou grande amizade,

Em Jafa foram obrigados a esperar pelo bom tempo e só embarcaram em meados de Março.

Mas uma vez no mar foram assaltados pela tempestade. O navio ora subia na crista da vaga ora recaía pesadamente estremecendo de ponta a ponta. Os mastros e os cabos estalavam e gemiam. As ondas batiam com fúria no casco e varriam a popa. O navio ora virava todo para a esquerda, ora virava todo para a direita, e os marinheiros davam à bomba para que ele não se enchesse de água. O vento rasgava as velas em pedaços e navegavam sem governo ao sabor do mar.

— Ah! — pensava o Cavaleiro. — Não voltarei a ver a minha terra.

Mas passados cinco dias o vento amainou, o céu descobriu-se, o mar alisou as suas águas. Os marinhei-1 ros içaram velas novas e com a brisa soprando a favor puderam chegar ao porto da cidade de Ravena, na costa do Adriático, nas terras de Itália.

Porém, o navio estava tão desmantelado que não podia seguir viagem.

— Esperarei por outro barco - disse o Cavaleiro -.

A beleza de Ravena enchia-o de espanto. Não se cansava de admirar as belas igrejas, as altas naves, os leves arcos, as finas fileiras de colunas. Mas mais do que tudo admirava os mosaicos multicolores onde se erguiam esguias figuras de rainhas e santos que poisavam nele o seu grande olhar.

— Ouve - disse o Mercador ao Cavaleiro —, não fiques aqui à espera de outro navio. Vem comigo até Veneza. Se Ravena te espanta mais te espantará a minha cidade construída sobre as águas. De Veneza seguirás por terra para o porto de Génova. Assim atravessarás o Norte da Itália e conhecerás as belas e ricas cidades cuja fama enche a Europa. De Génova partem constantemente navios para a Flandres. E uma vez na Flandres depressa chegarás à tua terra.

O Cavaleiro aceitou o conselho do Mercador e seguiu para Veneza.

Veneza, construída à beira do mar Adriático sobre pequenas ilhas e sobre estacas, era nesse tempo uma das cidades mais poderosas do mundo. Ali tudo foi espanto para o dinamarquês. As ruas eram canais onde deslizavam estreitos barcos finos e escuros. Os palácios cresciam das águas que reflectiam os mármores, as pinturas, as colunas.

Na vasta Praça de São Marcos, em frente da enorme catedral e do alto campanário, o Cavaleiro mal podia acreditar naquilo que os seus olhos viam.

Aérea e leve a cidade pousava sobre as águas verdes, ao longo da sua própria imagem.

Passavam homens vestidos de damasco e as mulheres arrastavam no chão a orla dos vestidos bordados. Vozes, risos, canções e sinos enchiam o ar da tarde.

Nunca o Cavaleiro tinha imaginado que pudesse existir no mundo tanta riqueza e tanta beleza. Não se cansava de olhar os degraus de mármore, os mosaicos de oiro, as solenes estátuas de bronze, as águas trémulas dos canais onde se reflectiam as leves colunas dos palácios cor-de-rosa, as pontes, os muros cobertos de sumptuosas pinturas, as igrejas e as torres. A cidade parecia-lhe fantástica, irreal, nascida do mar, feita de miragens e reflexos. Era igual às cidades encantadas que as fadas fazem aparecer no fundo dos lagos e dos espelhos.

O Mercador alojou o Cavaleiro no seu palácio e em sua honra multiplicou as festas e os divertimentos. Durante o dia percorriam de gôndola a cidade.

Penetravam nas igrejas cobertas de mosaicos e pinturas e paravam nos mercados onde se vendiam aves raras, rendas, tecidos do Oriente, colares de pérolas, anéis de safiras, esporas de oiro e prata, esmaltes e cofres, espadas e punhais com o cabo incrustado de turquesas e marfim, taças e frascos feitos dum vidro finíssimo, multicolor como as águas e leve como espuma.

À noite ceavam na grande sala de mármore azul e verde ao som da música dos alaúdes. Sobre a mesa os criados pousavam grandes travessas com faisões assados e pratos transbordantes de frutos. Depois serviam o vinho vermelho nos copos transparentes.

Lá fora, sob a luz azul da lua, Veneza parecia suspensa no ar.

Certa noite, terminada a ceia, o veneziano e o dinamarquês ficaram a conversar na varanda. Do outro lado do canal via-se um belo palácio com finas colunas esculpidas.

- Quem mora ali? - perguntou o Cavaleiro —.

— Agora ali só mora Jacob Orso com seus criados, mas antes também ali morou Vanina, que era a rapariga mais bela de Veneza. Era órfã de pai e mãe, e Orso era o seu tutor. Quando ela era ainda criança o tutor prometeu-a em casamento a um seu parente chamado Arrigo. Mas quando Vanina chegou aos dezoito anos não quis casar com Arrigo porque o achava velho, feio e maçador. Então Orso fechou-a em casa e nunca mais a deixou sair senão em sua companhia ao domingo, para ir à missa. Durante os dias da semana Vanina prisioneira suspirava e bordava no interior do palácio, sempre rodeada e espiada pelas suas aias. Mas à noite Orso e as aias adormeciam. Então Vanina abria a janela do seu quarto, debruçava-se na varanda e penteava os seus cabelos. Eram loiros e tão compridos que passavam além da balaustrada e flutuavam leves e brilhantes, enquanto as águas os reflectiam. E eram tão perfumados que de longe se sentia na brisa o seu aroma. E os jovens rapazes de Veneza , ^ vinham de noite ver Vanina pentear-se. Mas nenhum ousava aproximar-se dela, pois o tutor fizera saber à cidade inteira que mandaria apunhalar pêlos seus esbirros aquele que ousasse namorá-la.

E Vanina, jovem e bela e sem amor, suspirava naquele palácio.

Mas um dia chegou a Veneza um homem que não temia Jacob Orso. Chamava-se Guidobaldo e era capitão dum navio. O seu cabelo preto era azulado como a asa dum corvo, e a sua pele estava queimada pelo sol e pelo sal. Nunca no Rialto passeara tão belo navegador. Ora certa noite Guidobaldo passou de gôndola por este canal. Sentiu no ar um maravilhoso perfume, levantou a cabeça e viu Vanina a pentear os cabelos. Aproximou o seu barco da varanda e disse:

—Para cabelos tão belos e tão perfumados era preciso um pente de oiro -.

Vanina sorriu e atirou-lhe o seu pente de marfim.

Na noite seguinte à mesma hora, o jovem capitão tornou a deslizar de gôndola ao longo do canal. Vanina sacudiu os cabelos e disse-lhe:

— Hoje não me posso pentear porque não tenho pente.

— Tens este que eu te trago e que mesmo feito de oiro brilha menos do que o teu cabelo.

Então Vanina atirou-lhe um cesto atado por uma fita onde Guidobaldo depôs o seu presente.

E daí em diante a rapariga mais bela de Veneza passou a ter um namorado.

Quando esta notícia se espalhou na cidade os amigos do capitão foram preveni-lo de que estava a arriscar a sua vida, pois Orso não lhe perdoaria. Mas ele era forte e destemido, e sacudiu os ombros e riu. Ao fim dum mês foi bater à porta do tutor.

- Que queres tu? — perguntou o velho.

- Quero a mão de Vanina.

- Vanina está noiva de Arrigo e não há-de casar com mais ninguém. Sai depressa de Veneza. Tens um dia para saíres da cidade. Se amanhã ao pôr do sol ainda não tiveres partido eu mandarei sete homens com sete punhais para te matarem.

Guidobaldo ouviu, sorriu, fez uma reverência e saiu.

Mas nessa noite, no silêncio da noite, a sua gôndola parou junto da varanda da casa de Orso. De cima atiraram um cesto preso por uma fita e dentro dele o jovem capitão depôs uma escada de seda.

O cesto foi puxado para a varanda, e a escada, depois de desenrolada, foi atada à balaustrada de mármore cor-de-rosa. Então, ágil e leve, Vanina desceu com os cabelos soltos flutuando na brisa.

Guidobaldo cobriu-a com sua capa escura, e a gôndola afastou-se e sumiu-se no nevoeiro de Outubro.

Na manhã seguinte as aias descobriram a ausência de Vanina e correram a prevenir o tutor.

Jacopo Orso chamou Arrigo e com ele e os seus esbirros dirigiram-se para o cais.

Mas quando ali chegaram o navio de Guidobaldo já tinha desaparecido.

— Conta-me o que sabes — disse Orso a um velho marinheiro seu conhecido.

E o homem contou:

— O capitão e a tua pupila chegaram aqui a meio da noite. Mandaram chamar um padre que os casou, além, naquela pequena capela que é a capela dos marinheiros. Mal terminou o casamento embarcaram. E ao primeiro nascer do dia o navio levantou a âncora, içou as velas e navegou para o largo.

Jacob Orso olhou para a distância. O navio já não se avistava, pois a brisa soprava da terra. As águas estavam verdes, claras, ligeiramente ondulantes, cobertas de manchas cor de prata.

O tutor e Arrigo queixaram-se à Senhoria de Veneza e ao doge. Depois mandaram quatro navios à procura dos fugitivos: um que navegou para Norte, outro que navegou para Oriente, outro que navegou para o Sul, outro que navegou para Ocidente. Mas o mar é grande e há muitos portos, muitas baías, muitas cidades marítimas, muitas ilhas. E Vanina e Guido-baldo nunca mais foram encontrados.

Terminada a narração o Mercador encheu dois copos com vinho e ele e o dinamarquês beberam à saúde de Vanina e do navegador.

E assim, em conversas, festas, ceias e passeios se passou um mês. E ao cabo desse mês o Mercador disse ao Cavaleiro:

- Não partas. Fica comigo. Associa-te aos meus negócios e estabelece a tua vida aqui. Não há nenhum lugar no mundo melhor do que Veneza. É aqui que todos os dias são cheios de alegria e de surpresa. Fica comigo.

— Não — disse o Cavaleiro -. Tenho de partir. Pro-minha mulher, aos meus filhos, aos meus parentes e criados que estaria com eles no próximo Natal. Partirei daqui a três dias.

E daí a três dias, montado num belo cavalo que c Mercador lhe oferecera, o dinamarquês deixou Veneza.

Além do cavalo o seu amigo dera-lhe também cartas de apresentação para os homens mais poderoso; das cidades do Norte da Itália. Assim ele seria em toda a parte bem recebido.

Abril enchia a terra de flores, todos os regatos cantavam, o céu era azul, o ar morno, a brisa leve. E por planícies, vales, colinas e montes seguia o Cavaleiro.

Aconselhado pelo Mercador, tinha resolvido fazer a meio da viagem para Génova um desvio para sul para conhecer a célebre cidade de Florença.

Passou por Ferrara e Bolonha e viu as altas torres de São Giminiano. Dormia nas estalagens ou pedi; abrigo nos conventos.

E no princípio de Maio chegou a Florença.

Vista do alto das colinas floridas a cidade erguia no céu azul os seus telhados vermelhos, as suas torres, os seus campanários, as suas cúpulas. O Cavaleiro atravessou a velha ponte sobre o rio, a ponte ladeada de pequenas lojas onde se vendiam coiros, colares de coral, armas, pratos de estanho e prata, lãs, sedas, jóias de oiro.

Depois foi através das ruas rodeadas de palácios, atravessou as largas praças e viu as igrejas de mármore preto e branco com grandes portas de bronze esculpido. Por toda a parte se viam estátuas. Havia estátuas de mármore claro e estátuas de bronze. Outras eram de barro pintado. E a beleza de Florença espantou o Cavaleiro tal como o tinha espantado a beleza de Veneza. Mas aqui tudo era mais grave e austero.

Procurou a casa do banqueiro Averardo, para o qual o seu amigo veneziano lhe tinha dado uma carta.

O banqueiro recebeu-o com grande alegria e hospedou-o em sua casa.

Era uma bela casa, mas nela não se via o grande luxo dos palácios de Veneza. Havia uma biblioteca cheia de antiquíssimos manuscritos, e nas paredes estavam pendurados quadros maravilhosos.

Ao fim da tarde chegaram os amigos do banqueiro Averardo.

Sentaram-se todos para cear e, enquanto comiam e bebiam, iam conversando.

Então o espanto do Cavaleiro cresceu.

Na sua terra ele procurava a companhia dos trovadores e dos viajantes que lhe contavam as suas aventuras e as histórias lendárias do passado. Mas agora, ali, naquela sala de Florença, aqueles homens discutiam os movimentos do Sol e da luz, e os mistérios do céu e da terra. Falavam de matemática, de astronomia, de filosofia. Falavam de estátuas antigas, falavam de pinturas acabadas de pintar. Falavam do passado, do presente, do futuro. E falavam de poesia, de música, de arquitectura. Parecia que toda a sabedoria da terra estava reunida naquela sala.

Já no meio do jantar levantou-se uma discussão sobre a obra de Giotto.

— Quem é Giotto? — perguntou o Cavaleiro -.

— Giotto — respondeu do outro lado da mesa um homem de belo aspecto e longos cabelos anelados que se chamava Filippo — é um pintor do século passado que foi discípulo de Cimabué.

- E Cimabué quem é? - perguntou o Cavaleiro -.

Filippo sorriu e respondeu:

— Tal como Adão foi o primeiro homem da terra assim Cimabué foi o primeiro pintor da Itália. E foi ele quem descobriu o talento do jovem Giotto. Passou-se isto há mais de cem anos numa manhã de Primavera. Voltava então Cimabué duma viagem quando, a meio do caminho, na vertente dum monte, num lugar solitário e selvagem, viu um grande penedo todo coberto de desenhos. Eram desenhos simples, mas cheios de beleza e de verdade.

— Quem será o pintor que vem pintar as pedras das colinas? — exclamou Cimabué, maravilhado e cheio de surpresa.

E abandonando o seu caminho atou o cavalo a uma árvore e resolveu ir examinar outros pedregulhos que se avistavam ao longe.

Depois de ter caminhado quase meia hora por entre pinheiros, ciprestes, urzes e tojos, encontrou um rebanho com o seu pastor.

Enquanto as ovelhas pastavam a erva tenra de Abril, o pastor, ajoelhado em frente dum penedo, desenhava.

Era um rapazito que aparentava uns doze anos de idade e estava tão atento, tão absorvido no seu trabalho, que não viu chegar Cimabué nem ouviu o barulho dos seus passos. Estava a desenhar um cordeiro. E havia tanto amor, tanta verdade e tanta beleza no seu desenho que o coração de Cimabué se encheu de espanto e de alegria.

- Ouve, rapaz — disse ele - quem te ensinou a desenhar?

Vendo perto dele aquele homem da cidade o rapaz pôs-se em pé num salto. Depois sorriu e respondeu:

- Ninguém me ensinou. Aprendi sozinho.

— Onde vives?

— Nestes montes.

- Que fazes?

- Guardo o meu rebanho.

- Como te chamas?

-Giotto.

- Ouve, Giotto. Deixa as tuas ovelhas e vem comigo para Florença. Farei de ti meu discípulo e serás um dia um grande pintor.

E assim foi. O pastor seguiu Cimabué que lhe ensinou todos os segredos da sua arte. O talento deste discípulo espantava todos os dias o seu mestre e em breve espantou Florença. Giotto tornou-se assim o pintor mais célebre daquele tempo. E Dante, que ele retratou e que foi seu amigo, fala dele no seu poema.

- Quem era Dante? — perguntou o Cavaleiro —.

- Dante foi o maior poeta da Itália, um poeta que conhecia os segredos deste mundo e do outro, pois viu vivo aquilo que nós só veremos depois de mortos.

— Como é isso? — espantou-se o Cavaleiro —. É uma história tão extraordinária que muitos crêem que Dante a sonhou.

— Diz-me essa história — pediu o Cavaleiro —. E Filippo começou a contar:

— Quando Dante tinha nove anos de idade viu um dia na rua uma rapariguinha, tão jovem como ele, e que se chamava Beatriz. Beatriz era a criança mais bela de Florença: os seus olhos eram verdes e brilhantes, o seu pescoço alto e fino, os seus cabelos leves e loiros, trémulos sob a brisa. E caminhava com ar tão puro, tão grave e tão honesto que lembrava as madonas que estão pintadas nas nossas igrejas. Dante amou-a desde essa idade e desde esse primeiro encontro. Mas passados anos, em plena juventude, Beatriz morreu. Esta morte foi o tormento de Dante. Então, para esquecer o seu desgosto, começou uma vida de loucuras e erros. Até que um dia, numa Sexta-Feira Santa, a 8 de Abril do ano de 1300, se encontrou perdido no meio duma floresta escura e selvagem. Aí lhe apareceram um leopardo, um leão e uma loba. Dante olhou então à roda de si e viu passar uma sombra. Ele chamou-a em seu auxílio e a sombra disse-lhe:

— «Sou a sombra de Virgílio, o poeta morto há mais de mil anos, e venho da parte de Beatriz para te guiar até ao lugar onde ela te espera.»

Dante seguiu Virgílio. Primeiro passaram sob a porta do Inferno onde está escrito: «Vós que entrais deixai toda a esperança».

Depois atravessaram os nove círculos onde estão os condenados. Viram aqueles que estão cobertos por chuvas de lama, viram os que são eternamente arrastados em tempestades de vento, viram os que moram dentro do fogo e viram os traidores presos em lagos de gelo. Por toda a parte se erguiam monstros e demónios, e Dante agarrava-se a Virgílio tremendo de terror. E por toda a parte reinava a escuridão como numa mina. Pois era ali um reino subterrâneo, sem sol, sem lua e sem estrelas, iluminado apenas pelas chamas infernais.

Depois de terem percorrido todos os abismos do Inferno voltaram à luz do sol e chegaram ao Purgatório, que é um monte no meio duma ilha subindo para o céu. Aí Dante e Virgílio viram as almas que através de penitências e preces vão a caminho do Paraíso. Neste lugar já não se viam demónios, mas em cada nova estrada surgiam anjos brilhantes como estrelas.

Até que chegaram ao Paraíso Terrestre, que fica no cimo do monte do Purgatório. Aí, entre relvas, bosques, fontes e flores, Dante tornou a ver Beatriz. Trazia na cabeça um véu branco cingido de oliveira: os seus ombros estavam cobertos por um manto verde e o seu vestido era da cor da chama viva. Vinha num carro puxado por um estranho animal metade leão e metade pássaro.

- Dante - disse ela —, mandei-te chamar para te curar dos teus erros e pecados. Já viste o que sofrem as almas do Inferno e já viste as grandes penitências daqueles que estão no Purgatório. Agora vou-te levar comigo ao Céu para que vejas a felicidade e a alegria dos bons e dos justos.

Guiado por Beatriz, o poeta atravessou os nove círculos do Céu. Caminharam entre estrelas e planetas rodeados de anjos e cânticos. E viram as almas dos justos cheias de glória e de alegria. Quando chegaram ao décimo Céu Beatriz despediu-se do seu amigo e disse-lhe:

—Volta à terra e escreve num livro todas estas coisas que viste. Assim ensinarás os homens a detestarem o mal e a desejarem o bem.

Dante voltou a este mundo e cumpriu a vontade de Beatriz. Escreveu um longo e maravilhoso poema chamado «A Divina Comédia», no qual contou a sua viagem através do reino dos mortos.

A notícia desta viagem causou grande espanto em Florença. Quando Dante passava na rua todos se viravam para o ver, pois diziam que ele ainda tinha a barba «chamuscada pelo fogo do Inferno que tinha atravessado».

- É verdadeiramente a história mais extraordinária que ouvi em toda a minha vida — disse o Cavaleiro —. Compreendo que Dante tenha sido recebido com grande espanto e curiosidade. E, mais ainda, julgo que daí em diante deve ter sido um homem de grande autoridade respeitado e escutado por todos os seus concidadãos.

— De facto — disse Filippo — devia ter sido assim, mas não foi assim que aconteceu. Quando, depois de ter atravessado os três países da morte, o poeta voltou a Florença encontrou a cidade apaixonada por grandes lutas políticas. Havia nesse tempo dois partidos que dividiam a Itália: o partido dos Guelfos e o partido dos Gibelinos. Dante era gibelino, e aconteceu que nesse ano de 1300 ele foi eleito para o Governo da cidade. Mas tempos depois o seu partido foi vencido e o poeta foi exilado. Mais tarde os seus inimigos também o condenaram a ser queimado vivo. Felizmente nessa altura ele já estava longe de Florença, e assim escapou à morte e ao suplício. Mas nunca mais pôde voltar à sua cidade natal e viveu até ao fim da sua vida vagueando como refugiado político pelas outras cidades italianas. E foi neste exílio, separado de Beatriz pela morte e separado de Florença pela injustiça dos homens, que Dante escreveu a «Divina Comédia»...

Houve um silêncio quando Filippo acabou de falar.

Mas logo dois sábios começaram a discutir as leis que regem os movimentos dos sete planetas. E o Cavaleiro maravilhado com tudo quanto ouvia e via resolveu demorar-se algum tempo mais naquela cidade.

De dia percorria as ruas e as praças e visitava os conventos, os palácios, as bibliotecas e as igrejas. Ã noite ouvia as sábias conversas dos amigos de Averardo.

E passado um mês disse-lhe o banqueiro:

— Associa-te aos meus negócios e estabelece a tua vida em Florença. Há no mundo cidades mais pode rosas e mais ricas, mas é aqui que existe a maior ciência. Se queres estudar Matemática e Geometria fica em Florença. Se queres aprender a regra do número de oiro fica em Florença. Se queres saber como se movem os astros no céu fica em Florença. Se queres compreender a escultura, a pintura, a arquitectura e a poesia fica em Florença.

Mas o Cavaleiro sorriu e respondeu: — Agradeço-te o teu convite. Desde que aqui estou todos os dias me espanto e me maravilho com aquilo que vejo, oiço, e aprendo. Mas lá longe, no meu país do Norte, os meus filhos, a minha mulher e os meus criados estão à minha espera. Quero passar com eles j o próximo Natal como lhes prometi. Dentro de três dias terei de partir.

Então Averardo deu-lhe uma carta de recomendação para um rico comerciante da Flandres, seu cliente e amigo.

E três dias depois o Cavaleiro deixou Florença.

Viajava agora com pressa para embarcar no porto de Génova num dos navios que, no princípio do Verão, sobem da Itália para Bruges, Gand e Antuérpia.

Mas já no fim do caminho, a pouca distância de Génova, adoeceu. Foi talvez do sol que o escaldava enquanto cavalgava por vales e montes, ou foi da água que bebeu de um poço onde iam à noite beber os sardões.

Tremendo de febre, foi bater à porta dum convento. Os frades que o recolheram tiveram grande trabalho para o salvar, pois o Cavaleiro parecia ter o sangue envenenado e delirava dia e noite. Nesse delírio imaginava que nunca mais conseguia chegar ao seu país, pois Veneza erguia-se das águas e arrastava-o consigo para o fundo do mar, e as estátuas de Florença formavam exércitos de bronze e mármore que não o deixavam passar.

Os frades trataram-no com chás de raízes de flores, com pílulas de aloés, com xaropes de mel e vinho quente, com pós misteriosos e emplastros de farinhas e ervas. A febre foi baixando lentamente e só acabou de todo ao fim dum mês e meio. Então o Cavaleiro quis seguir viagem, mas estava tão fraco, magro e pálido que os frades não o deixaram partir.

Teve de esperar mais um mês no pequeno convento calmo e silencioso. Estendido na sua cela caiada escutava o murmurar das fontes na cerca e os cânticos dos religiosos. Depois, à tarde, passeava no claustro quadrado admirando nas paredes as suaves pinturas dos frescos que contavam os milagres maravilhosos dos santos. Na parede da direita via-se Santo António pregando aos peixes e na parede da esquerda via-se São Francisco fazendo um pacto com o lobo de Gubbio.

No meio do claustro corria uma fonte e em sua roda cresciam cravos e rosas brancas. No céu azul as andorinhas cruzavam o seu voo.

E das colunas, do murmúrio da fonte, das flores, das pinturas e das aves erguia-se uma grande paz como se os homens, os animais, as plantas e as pedras tivessem encontrado um reino de aliança e de amor.

Nesta paz as forças do Cavaleiro cresciam dia a dia até que, ao cabo de cinco semanas de descanso, ele pôde despedir-se dos frades e continuar o seu caminho.

Então dirigiu-se para Génova.

Mas quando chegou ao grande porto de mar era já o fim de Setembro e os navios que seguiam para a Flandres já tinham partido todos. Percorreu os cais, falou com os capitães, foi à casa dos armadores. A resposta que lhe davam era sempre a mesma: só daí a vários meses poderia arranjar navio para a Flandres.

Primeiro o Cavaleiro ficou desesperado com estas notícias e durante dois dias não comeu nem dormiu. Mas depois recuperou o ânimo e resolveu seguir viagem por terra, a cavalo, até Bruges.

Atravessou os Alpes, atravessou os campos, as planícies, os vales e as montanhas da França.

Agora só parava para comer e dormir, ansioso de chegar antes do Natal à sua terra.

Mas quando chegou à Flandres era já Inverno e sobre os telhados e os campos caía a primeira neve.

O Cavaleiro dirigiu-se para Antuérpia e aí procurou o negociante flamengo, para o qual o banqueiro Averardo lhe tinha dado uma carta.

Encontrou o negociante em sua casa, aquecendo as mãos à lareira, vestido com uma bela roupa de pano verde, larga e debruada de peles pretas. O flamengo recebeu o viajante com grande amabilidade e convidou-o para ficar em sua casa.

Mal se sentaram para jantar o Cavaleiro espantou--se com o paladar da comida que estava temperada com especiarias para ele desconhecidas.

O negociante riu-se, abanou a cabeça e disse:

— Vê-se que conheces mal o mundo novo. Indignado com estas palavras, o Cavaleiro começou a narrar a sua viagem.

Quando ele terminou o flamengo disse:

— Contaste uma bela história, mas daqui a pouco vai chegar alguém que te contará histórias muito mais espantosas.

De facto, passado pouco tempo, bateram à porta da casa, ouviram-se passos na escada, e depois penetrou na sala um homem alto e forte, de aspecto rude, pele queimada pelo sol e andar baloiçado.

— Este é um dos capitães dos meus navios - disse o negociante -. Voltou há dois dias duma viagem.

O recém-chegado poisou em cima da mesa três pequenos cofres e disse:

- Aqui estão três amostras das mercadorias que trago.

O primeiro cofre estava cheio de pequenas pérolas, o segundo cofre estava cheio de oiro e o terceiro cofre estava cheio de pimenta.

Espantou-se o Cavaleiro com aquilo que via, pois naquele tempo a pimenta era quase tão rara como o oiro.

O dono da casa pôs mais lenha na lareira, serviu vinho aos seus hóspedes, e os três homens sentaram--se em frente do lume.

Então, a pedido do negociante, o capitão começou a falar das suas viagens. Contou como desde mui to novo tinha seguido a carreira de marinheiro viajando por todos os portos da Europa desde o mar Báltico até ao Mediterrâneo. Mas era sobretudo entre a Flandres e os portos da Península Ibérica que viajava. Um dia, porém, teve desejo de ir mais longe, de ir até às terras desconhecidas que surgiam do mar. Então resolveu alistar-se nas expedições portuguesas que navegavam para o sul à procura de novos países. Veio a Lisboa e aí embarcou numa caravela que partia a reconhecer e a explorar as costas de África.

Seguiram das margens do Tejo para as Canárias, onde pararam alguns dias. Depois continuaram viagem, aproximaram-se da terra africana, dobraram o cabo Bojador e seguiram, à vista das costas desertas, queimadas pelo sol, sem árvores, e sem homens. Junto ao cabo Branco ancoraram o navio num abrigo formado por altos penedos. Então homens de pele sombria, envolvidos em mantos flutuantes e montados em camelos, vieram à orla da praia negociar com os portugueses. E as caravelas continuaram a navegar para o sul, muito para o sul. Uma brisa constante inchava as grandes velas e os mastros e os cabos gemiam docemente. Até que, para além das intermináveis costas nuas e vazias, sem árvores e sem sombra, surgiram as primeiras palmeiras. Depois começaram a aparecer espessas e verdes florestas que cobriam toda a terra desde as praias brancas até aos distantes montes azulados. E dessas florestas surgiam homens nus e negros que embarcavam em pirogas e rodeavam os navios. Os marinheiros portugueses traziam ordem de se entenderem com eles. Mas isto era difícil. Em geral as pirogas não chegavam ao alcance dos navios e outras vezes mesmo os negros desapareciam entre o arvoredo mal as caravelas ancoravam. Então os marinheiros que desembarcavam eram recebidos com flechas envenenadas dos homens escondidos.

Porém, havia paragens onde os africanos e os portugueses já se conheciam e negociavam. E às vezes, em lugares da costa onde nunca um navio tinha parado, acontecia serem acolhidos com festa e alvoroço. Então, bailando e cantando, os negros vinham ao encontro dos navegadores que, para corresponderem ao bom acolhimento, bailavam e dançavam também à moda da sua terra.

Mas o entendimento entre ambas as partes, muita vez, pouco mais avançava, pois uns e outros não entendiam as respectivas linguagens, e mesmo os intérpretes berberes não conheciam a fala usada em tão longínquas paragens. Este desentendimento das línguas foi a causa de muitas mortes e combates. Assim 9 W um dia a caravela ancorou em frente duma larga e bela baía rodeada de maravilhosos arvoredos. Na longa praia de areia branca e fina, um pequeno grupo de negros espreitava o navio. Então o capitão resolvei mandar a terra dois batéis com homens para que tentassem estabelecer contacto com os africanos. Mas logo que os batéis tocaram a areia os negros fugiram e desapareceram no arvoredo.

- Talvez tenham tido medo por ver que nós só mós muitos e eles são poucos — disse um português chamado Pêro Dias —.

E pediu aos seus companheiros que lhe deixas sem um batel e embarcassem todos no outro e se afastassem da praia. Mas os companheiros acharam este plano tão arriscado que não o quiseram aceitar. Porém, Pêro Dias insistiu tanto que eles acabaram por fazer como ele pedia e remaram para o largo.

O português mal ficou sozinho caminhou até meio da praia e ali colocou panos coloridos que tinham trazido como presente. Depois recuou até à orla do mar, encostou-se ao batel que ficara e esperou. Ao cabo de algum tempo saiu da floresta um homem que trazia na mão uma lança longa e fina e avançava negro e nu na claridade da praia. Avançava passo por passo, lentamente, vigiando os gestos do homem branco que junto do batel continuava imóvel. Quando chegou perto dos panos parou e examinou com alvoroço a oferta. Depois ergueu a cabeça, encarou o português e sorriu. Este sorriu também e avançou uns passos. Houve uma pequena pausa. Depois, num acordo mútuo, os dois homens, sorrindo, caminharam ao encontro um do outro. Quando entre eles ficaram só a seis passos de distância, pararam.

- Quero paz contigo - disse o branco na sua língua-.

O negro sorriu e respondeu três palavras desconhecidas.

— Quero paz contigo — disse o branco em árabe —. O negro tornou a sorrir e tornou a repetir as palavras ininteligíveis.

- Quero paz contigo - disse o branco em berbere —.

O negro sorriu de novo e mais uma vez respondeu as três palavras exóticas.

Então Pêro Dias começou a falar por gestos. Fez o gesto de beber e o negro apontou-lhe a floresta. Fez o gesto de comer e o negro apontou-lhe a floresta. Com um gesto de convite o marinheiro apontou o seu batel.

Mas o negro sacudiu a cabeça e recuou um passo. Vendo-o retrair-se o português, para voltar a estabelecer a confiança, começou a cantar e a dançar. O outro, com grandes saltos, cantos e risos, seguiu o seu exemplo. Em frente um do outro bailaram algum tempo.

Mas no ardor do baile e da mímica Pêro Dias ergueu no ar a sua espada, que faiscou ao sol. O brilho assustou o nativo, que deu um pulo para trás e estremeceu. Pêro Dias fez um gesto para o sossegar. Mas o outro começou a fugir, e o navegador precipitou-se no seu encalce e agarrou-o por um braço. Vendo-se preso, o negro principiou a debater-se, primeiro com susto, depois com fúria. Com gritos roucos e sílabas guturais respondia às palavras e aos gestos que o tentavam apaziguar. Ao longe, no mar, os companheiros de Pêro Dias avistaram a luta e principiaram a remar para a praia.

O negro viu-os aproximarem-se, julgou-se cercado e perdido e apontou a sua lança. Pêro Dias com a espada tentou aparar o golpe mas ambos caíram trespassados.

Os portugueses saltaram do batel e correram para

os corpos estendidos. Do peito do negro e do branco corriam dois fios de sangue.

— Olhem — disse um moço —, o sangue deles é exactamente da mesma cor.

De bordo veio o capitão com mais gente e todos durante uma hora choraram o triste combate.

O sol subia no céu e aproximava-se o calor do meio-dia. Não sabendo quando voltariam a desembarcar, o capitão resolveu não levar para bordo o cadáver de Pêro Dias. Os dois corpos foram sepultados ali mesmo, na praia. E com a lança do gentio e a espada do cristão, os marinheiros fizeram uma cruz, que espetaram na areia entre os túmulos dos dois homens mortos por não poderem dialogar.

Chegado a este ponto da sua narrativa o capitão flamengo calou-se uns momentos olhando o lume.

O negociante serviu de novo vinho aos seus hóspedes e até altas horas continuaram a ouvir o marinheiro da Flandres contando as longínquas viagens, as ilhas desertas, as árvores descomunais, as tempestades, as calmarias, os povos misteriosos.

No dia seguinte o Cavaleiro disse ao negociante que queria seguir por mar para a Dinamarca.

— Estamos em Novembro - respondeu o Flamengo —, o frio aumenta todos os dias e está anunciado um Inverno rigoroso. Creio que não acharás tão cedo um navio que te leve à tua terra. Com medo dos gelos e dos temporais ninguém agora se arriscará a viajar para o Norte.

Esta notícia deixou o Cavaleiro consternado. Primeiro não se quis conformar, e durante três dias percorreu a cidade de Antuérpia. Falou com capitães e armadores, mas a resposta foi sempre a mesma.

— Nesta época do ano e com Inverno tão rigoroso não há navio nenhum que se atreva a navegar para Norte.

Na noite do terceiro dia, depois do jantar, quando se sentaram os dois ao lado da lareira, o negociante serviu vinho ao seu hóspede e disse-lhe:

- Tenho uma proposta a fazer-te. Vejo que gosta de viagens e aventuras e eu preciso de homens dispostos a correr o mundo. Pois os meus negócios to dos os dias aumentam e procuro associados que possam ajudar. Chegou o tempo das navegações, começou uma era nova e os homens capazes de empreendimento podem agora ganhar fortunas fabulosas Associa-te comigo. Viajarás nos meus navios. E talvez mesmo um dia possas navegar para o Sul, para as no vás terras, nas caravelas dos portugueses.

Mas o Cavaleiro sacudiu a cabeça e respondeu: r 0 - As histórias dos mares, das ilhas, dos povos des conhecidos e dos países distantes são maravilhosas e enchem-me de espanto. Mas prometi chegar este Natal à minha casa. Farei a viagem por terra e partirei amanhã.

— Vai ser uma viagem dura — disse o Flamengo —.

E assim foi. Os rios estavam gelados, a terra coberta de neve. O frio aumentava e os dias eram cada vez mais curtos. Os caminhos pareciam não ter fim. De noite nas estalagens o Cavaleiro sonhava que os palácios de Veneza, as estátuas de Florença e os negros nus da costa africana se erguiam dos campos cobertos de neve, o rodeavam e o impediam de continuar.

Então acordava em sobressalto e parecia-lhe que todas as forças do mundo se tinham reunido para o separar da sua casa e dos seus. Mas de madrugada partia novamente.

Caminhou durante longas semanas. Como os dias eram curtos e não se podia viajar de noite, avançava lentamente. Enrolava-se bem no capote forrado de peles que comprara em Antuérpia, mas mesmo assim o frio gelava-o até aos ossos.

Finalmente, na antevéspera do tal, ao fim da tarde, chegou a uma pequena povoação que ficava a poucos quilómetros da sua floresta. Aí foi recebido com grande alegria pêlos seus amigos, que ao cabo de tão longa ausência já o julgavam perdido. Um deles hospedou-o em sua casa e emprestou-lhe um cavale seu, pois o do viajante vinha exausto e coxo. O Cavaleiro pediu notícias daqueles que deixara.

— Estão à tua espera, afligem-se pela tua demora «rezam pelo teu regresso - respondeu um amigo —.

E na madrugada seguinte o peregrino partiu.

Era o dia 24 de Dezembro, um dos dias mais curtos do ano, e ele caminhava com grande pressa, pois queria aproveitar as poucas horas de luz.

Antes da meia-noite, sem falta, tinha de chegar à sua casa na clareira de bétulas.

E ao fim de três quilómetros de marcha, cheio de confiança, penetrou na grande floresta. A alegria de estar já tão perto dos seus fazia-lhe esquecer o cansaço e o frio.

Mas agora, depois de quase dois anos de ausência, a floresta parecia-lhe fantástica e estranha. Tudo estava imóvel, mudo, suspenso. E o silêncio e a solidão pareciam assustadores e desmedidos.

O Inverno tinha despido as árvores, e os ramos - nus desenhavam-se negros, esbranquiçados, avermelhados. Só os pinheiros cobertos de agulhas continuavam verdes. Eram daqueles pinheiros do Norte que se chamam abetos, que são largos em baixo e afilados em cima, que têm o tronco coberto de ramos desde o chão e crescem em forma de cone da terra para o céu.

A neve apagara todos os rastos, todos os carreiros. E através do labirinto do arvoredo o Cavaleiro procurava o seu caminho. O seu plano era chegar ainda com dia a uma pequena aldeia de lenhadores que ficava perto do rio que passava junto da sua casa. Uma vez encontrado esse rio, mesmo de noite, não se poderia perder, pois o curso gelado o guiaria.

À medida que avançava, os seus ouvidos iam-se habituando ao silêncio e começavam a distinguir ruídos e estalidos. Era um esquilo saltando de ramo em ramo, uma raposa que fugia na neve. Depois ao longe, entre os troncos das árvores, avistou um veado. Caminhava em direcção ao nascente e ao fim de uma hora encontrou na neve rastos frescos de trenós.

— Bom sinal — pensou ele — , não me enganei no caminho.

De facto, seguindo esses rastos, depressa chegou à pequena aldeia dos lenhadores.

Todas as portas se abriram, e os homens da floresta reconheceram o Cavaleiro que rodearam com grandes saudações. Este penetrou na cabana maior e sentou-se ao pé do lume enquanto os moradores lhe serviram pão com mel e leite quente.

— Já pensávamos que não voltasses mais — disse um velho de grandes barbas -.

— Demorei mais do que queria — respondeu o peregrino -. Mas graças a Deus cheguei a tempo. Hoje antes da meia-noite estarei em minha casa.

_ É tarde _ disse o velho - o dia já escureceu, vai nevar e de noite não poderás caminhar.

— Nasci na floresta - respondeu o peregrino — conheço bem todos os seus atalhos. Seguindo ao longo do rio não me posso perder.

— A floresta é grande e na escuridão ninguém a conhece. Fica connosco e dorme esta noite na minha cabana. Amanhã, ao romper do dia, seguirás o teu caminho.

— Não posso — tornou o Cavaleiro —, prometi que estaria hoje em minha casa.

— A floresta está cheia de lobos esfomeados. Que farás tu se uma matilha te assaltar?

Mas o Cavaleiro sorriu e respondeu:

— Não sabes que na noite de Natal as feras não atacam o homem?

E tendo dito isto levantou-se, despediu-se dos lenhadores, montou a cavalo e seguiu o seu caminho.

Dirigiu-se para a esquerda procurando o curso gelado do rio. Mas mal se afastou um pouco da aldeia a neve começou a cair tão espessa e cerrada que o Cavaleiro mal via.
— Depressa — pensava ele —, tenho de chegar depressa ao pé do rio.
E puxando mais o capuz para a testa continuou a avançar.
Mas o rio não aparecia, e a noite começou a avançar.
O homem parou e escutou.
— Era mais prudente voltar para trás — pensou ele —. Mas se eu não chegar hoje, a minha mulher, os meus filhos e os meus criados pensarão que morri ou me perdi nas terras estrangeiras. Passarão um Natal de tristeza e aflição. É preciso que eu chegue hoje.

E continuou para a frente.

Agora nenhum ramo estalava e não se ouvia o menor rumor. Os esquilos, as raposas e os veados já estavam recolhidos nas suas tocas. O cair da neve parecia multiplicar o silêncio.
E o rio parecia ter-se sumido.
- Talvez me tenha enganado no caminho — pensou o Cavaleiro —, vou mudar de direcção.
E virou um pouco mais para a esquerda. Mas continuou a escurecer, a neve continuou a cair, o silêncio continuou a crescer e o homem e o rio não se encontravam.
E devagar anoiteceu mais.
As horas uma por uma foram passando e longamente o Cavaleiro avançou perdido na escuridão.
Por mais que se enrolasse no seu capote, o a arrefecia-o até aos ossos e as suas mãos começavam
gelar.
Já não sabia há quanto tempo caminhava, e a floresta era como um labirinto sem fim onde os caminhos andavam à roda e se cruzavam e desapareciam.
— Estou perdido - murmurou ele baixinho —.
Então a treva encheu-se de pequenos pontos brilhantes, avermelhados e vivos.
Eram os olhos dos lobos.
O Cavaleiro ouvia-os moverem-se em leves passos sobre a neve, sentia a sua respiração ardente e ansiosa, adivinhava o branco cruel dos seus dentes agudos.
Em voz alta disse:
— Hoje é noite de trégua, noite de Natal.
E ao som destas palavras os olhos recuaram e desapareceram.
Mais adiante ouviu-se o ronco dum urso.
O Cavaleiro estacou a sua montada e a fera aproximou-se. Vinha de pé e pousou as patas da frente no pescoço do cavalo.
O homem ouviu-o respirar, sentiu o seu pêlo tocar-lhe a mão e viu a um palmo de si o brilho dos pequenos olhos ferozes.
E em voz alta disse:
— Hoje é noite de trégua, noite de Natal.
Então o bicho recuou pesadamente e grunhindo desapareceu.
E o Cavaleiro entre silêncio e treva continuou a caminhar para a frente.
Caminhava ao acaso, levado por pura esperança, pois nada via e nada ouvia. As ramagens roçavam-lhe a cara e caminhava sem norte e sem oriente.
O cavalo enterrava-se na neve e avançava muito devagar. Até que de repente parou. O homem tocou com as esporas mas ele continuou imóvel e hirto.
— Vou morrer esta noite — pensou o Cavaleiro —. Então lembrou-se da grande noite azul de Jerusalém toda bordada de constelações. E lembrou-se de Baltasar, Gaspar e Melchior, que tinham lido no céu o seu caminho. O céu aqui era escuro, velado, pesado de silêncio. Nele não se ouvia nenhuma voz nem se via nenhum sinal. Mas foi em frente desse céu fechado e mudo que o Cavaleiro rezou.
Rezou a oração dos Anjos, o grande grito de alegria, de confiança e de aliança que numa noite antiquíssima tinha atravessado o céu transparente da Judeia. As palavras ergueram-se uma por uma no puro silêncio da neve:
— Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Então na massa escura dos arvoredos começou ao longe a crescer uma pequena claridade.
— Deus seja bendito — murmurou o Cavaleiro —. Deve ser uma fogueira. Deve ser algum lenhador per dido como eu que acendeu uma fogueira. A minha reza foi ouvida. Junto dum lume e ao lado de outro homem poderei esperar pelo nascer do dia.
O cavalo relinchou. Também ele tinha visto a luz. E reunindo as suas forças, o homem e o animal recomeçaram a avançar.
A luz continuava a crescer e à medida que crescia, subindo do chão para o céu, ia tomando a forma dum cone.
Era um grande triângulo radioso cujo cimo subia mais alto do que todas as árvores.
Agora toda a floresta se iluminava. Os gelos brilhavam, a neve mostrava a sua brancura, o ar estava cheio de reflexos multicolores, grandes raios de luz passavam entre os troncos e as ramagens.
— Que maravilhosa fogueira — pensou o Cavaleiro —. Nunca vi fogueira tão bela.
Mas quando chegou em frente da claridade viu que não era uma fogueira. Pois era ali a clareira de bétulas onde ficava a sua casa. E ao lado da casa, c grande abeto escuro, a maior árvore da floresta, esta vá coberta de luzes. Porque os anjos do Natal a tinham enfeitado com dezenas de pequeninas estrelas para guiar o Cavaleiro.
Esta história, levada de boca em boca, correu os países do Norte. E é por isso que na noite de Natal se iluminam os pinheiros.


Sophia de Mello Breyner Andresen