24/12/2007

Conto de Natal



Christmas Carolers Art Print by Jon McNaughton

O dr. Bonenfant parafusava na memória, repetindo a meia voz: "Uma recordação de Natal? . . . Uma recordação de Natal?. . . "

E de súbito exclamou:
- Sim, tenho uma, e ainda por cima muito estranha, uma história verdadeiramente fantástica. Eu presenciei um milagre! Sim, minhas senhoras, um milagre, na noite de Natal.
Decerto se admirarão de me ouvirem falar assim, eu que não creio em nada. E no entanto eu vi um milagre! Eu o vi com estes meus próprios olhos!
Se fiquei muito surpreendido? Não. . . se eu não acredito nas suas crenças, acredito na fé, e sei que ela transporta montanhas. Poderia citar muitos exemplos, mas isso lhes causaria indignação, e eu me arriscaria a atenuar o efeito da minha história.
Confessarei primeiro que, se não fiquei convencido e convertido pelo que vi, senti-me pelo menos bastante impressionado, e vou tratar de lhes contar a coisa singelamente, como se tivesse uma credulidade de campônio.
Eu era então médico rural e morava no burgo de Rolleville, em plena Normandia.
O inverno, naquele ano, foi terrível. Logo em fins de novembro, chegaram as neves, após uma semana de geada. Avistavam-se ao longe as grandes nuvens que vinham do norte; e começou a branca descida dos flocos.
Em uma noite, toda a planície foi amortalhada. As granjas, isoladas nos seus pátios quadrados, por trás das suas cortinas de grandes árvores brancas de geada, pareciam adormecer sob a acumulação daquela espuma densa.
Nenhum rumor atravessava mais a campina imóvel. Só os corvos, em bandos, descreviam longos festões no céu, na busca inútil do alimento, abatendo?se todos juntos sobre os campos lívidos e picando a neve com seus grandes bicos.
Nada mais se ouvia que o deslizar contínuo daquela poeira gelada, eternamente a cair.
Aquilo durou oito dias a fio, depois a avalanche parou. A terra tinha sobre o dorso um manto de cinco pés de espessura.
E, durante três semanas, um céu, claro como um cristal azul de dia e, à noite, todo semeado de estrelas que pareciam de gelo, se estendeu por sobre o lençol unido, duro e luzidio da neve.
A planície, as cercas, os olmos, tudo parecia morto, trucidado pelo frio. Nem homens nem animais se aventuravam a sair; apenas as chaminés vestidas de branco revelavam a vida, oculta pelos tênues filetes de fumo que subiam verticais no ar glacial.
Ouvia-se, de tempos em tempos, estalarem as árvores, como se os seus membros de madeira se houvessem quebrado sob a casca; e, às vezes, um grande galho se destacava e caía, pois a invencível geada petrificava a seiva e quebrava as fibras.
As casas, semeadas aqui e acolá pelos campos, pareciam afastadas cem léguas umas das outras. Vivia-se como se podia. Apenas tentava ir visitar meus clientes mais próximos, expondo-me continuamente a ficar amortalhado nalgum buraco.
Apercebi-me em seguida de que um terror misterioso pairava sobre a região. Um flagelo assim, pensavam, não podia ser natural. Julgavam ouvir vozes à noite, silvos agudos, gritos que passavam.
Esses gritos e esses silvos provinham sem dúvida dos pássaros migradores que viajavam ao crepúsculo e que fugiam em massa para o sul. Mas como esclarecer gente assustada?
O pânico invadia os espíritos, e todos esperavam um acontecimento extraordinário.
A forja do velho Vatinel ficava situada nas cercanias do povoado de Épivent, à beira da estrada real, agora invisível e deserta. Ora, como lhe faltasse pão, o ferreiro resolveu ir até a aldeia. Ficou algumas horas a conversar pelas seis casas que constituem o núcleo da região, muniu-se de pão, de novidades e de um pouco daquele medo espalhado por toda parte.
E pôs-se a caminho antes que anoitecesse.
De repente, quando costeava uma cerca, julgou avistar um ovo sobre a neve. Sim, um ovo colocado ali, branquinho como o resto do mundo. Inclinou-se: era de fato um ovo. De onde provinha? Que galinha teria saído do terreiro para pôr naquele lugar? O ferreiro espantou-se, não compreendeu coisa alguma; mas agarrou o ovo e levou-o para a sua mulher.
- Toma, minha velha, está aqui um ovo que encontrei na estrada.
A mulher sacudiu a cabeça:
- Um ovo na estrada? Com esse tempo?, andaste bebendo?
- Não, velha, e por sinal que estava perto de uma cerca, e ainda quentinho! Olha, guardei-o debaixo da camisa para que não esfriasse. Tu o comerás na janta.
O ovo foi metido na marmita onde fumegava a sopa, e o ferreiro pôs-se a contar o que diziam pelas redondezas.
A mulher escutava, pálida.
- Bem que ouvi assovios na noite passada; até pareciam vir da chaminé.
Puseram-se à mesa, tomaram primeiro a sopa e depois, enquanto o marido passava manteiga no pão, a mulher pegou o ovo e examinou-o com um olhar desconfiado.
- E se houver qualquer coisa neste ovo?
- Que queres tu que haja?
- Sei lá!
- Vamos, come, e deixa de asneiras.
Ela abriu o ovo. Era como todos os ovos, e bem fresco.
Pôs-se a comê-lo, hesitando, provando-o, soltando-o, pegando-o de novo. O marido dizia:
- E então? Que gosto tem esse ovo?
Ela não respondeu, e terminou de engoli-lo. Depois plantou no seu homem uns olhos fixos, esgazeados, alucinados; ergueu os braços, retorceu-os e, convulsionada da cabeça aos pés, rolou por terra, soltando gritos horríveis
Toda a noite debateu-se em espasmos tremendos, sacudida de infindáveis tremores, deformada por incríveis convulsões. O ferreiro, impotente para a segurar, foi obrigado a amarrá-la.
E ela gritava continuamente, com uma voz infatigável:
- Tenho o diabo no corpo! Tenho o diabo no corpo!
Fui chamado no dia seguinte. Prescrevi os calmantes conhecidos, sem obter o mínimo resultado. Ela estava louca.
Então, com incrível rapidez, apesar do obstáculo das neves altas, a novidade, uma novidade estranha, correu de granja em granja: "A mulher do ferreiro está possessa!" E chegava gente de toda parte, sem ousar penetrar na casa; escutavam de longe os seus gritos terríveis, lançados com uma voz tão forte que não pareciam de criatura humana.
O cura da aldeia foi avisado. Era um velho e ingênuo sacerdote. Veio de sobrepeliz, como para administrar a extrema-unção, e pronunciou, estendendo as mãos, as fórmulas do exorcismo, enquanto quatro homens seguravam sobre o leito a mulher escumante e contorcida.
Mas o espírito não foi escorraçado.
E chegou o Natal, sem que se houvesse mudado o tempo.
Na véspera, pela manhã, o padre foi procurar-me:
- Eu tenho vontade - disse ele - de fazer essa infeliz assistir à missa do galo esta noite. Talvez Deus faça um milagre em seu favor, na própria hora em que nasceu de uma mulher.
Eu respondi ao cura:
- De inteiro acordo, senhor padre. Se o seu espírito for tocado pela cerimônia sagrada (e nada mais propício a impressioná-la), ela pode salvar-se.
O velho padre murmurou:
- O senhor não é crente, doutor, mas ajude-me. Poderá encarregar-se de conduzi-Ia?
E eu lhe prometi o meu auxílio.
Chegou a tarde, depois a noite; e o sino da igreja pôs-se a tocar, lançando a sua voz queixosa através do espaço quieto por sobre a branca extensão gelada.
Vultos negros chegavam lentamente, aos grupos, dóceis ao grito de bronze da torre.
A lua cheia iluminava de um clarão vivo todo o horizonte, tornando mais visível a pálida desolação dos campos.
Eu tomara comigo quatro homens robustos e dirigi-me à forja.
A possessa continuava a gritar, amarrada ao leito. Vestiram-na decentemente, apesar da sua desesperada resistência, e carregaram-na.
A igreja estava agora repleta, iluminada e fria; os chantres lançavam as suas notas monótonas; a sineta do menino do coro tintilava regulando os movimentos dos fiéis.
Encerrei a mulher e seus guardas na cozinha do presbitério, e esperei o momento que julgava propício.
Escolhi o instante que se segue à Comunhão. Todos os camponeses, homens e mulheres, tinham recebido o seu Deus para lhe abrandar o rigor. Pairava um grande silêncio enquanto o padre terminava o mistério divino.
Por ordem minha, a porta foi aberta, e meus quatro auxiliares trouxeram a louca.
Logo que avistou as luzes, a multidão de joelhos, o coro iluminado e o tabernáculo de ouro, ela se debateu com tal vigor que quase nos escapou e lançou clamores tão agudos que um arrepio de pânico percorreu a igreja; todas as cabeças se ergueram, alguns fugiram.
Crispada e contorcida em nossas mãos, o rosto virado, os olhos fora das órbitas, ela não tinha mais o aspecto de mulher.
O padre se havia erguido; ele esperava. Logo que a viu contida, tomou nas mãos o ostensório cingido de raios de ouro, com a hóstia branca no meio, e, avançando alguns passos, ergueu-o com ambos os braços estendidos acima da cabeça, apresentando-o aos olhares desvairados da demoníaca.
Ela continuava a gritar, com o olhar fixo naquele objeto fulgurante.
E o padre permanecia de tal maneira imóvel que o teriam tomado por uma estátua.
E aquilo durou muito tempo, muito tempo.
A mulher parecia transida de medo, fascinada; contemplava fixamente o ostensório, sacudia-se ainda com estremecimentos terríveis, mas passageiros, e sempre a gritar, mas com uma voz menos lancinante.
E passou ainda muito tempo.
Dir-se-ia que ela não podia mais baixar os olhos, que os tinha pregados na hóstia; não fazia mais que gemer; e seu corpo enrijecido amolecia, entregava-se.
Toda a multidão estava prosternada, de fronte por terra.
A possessa baixava agora rapidamente as pálpebras e erguia-se em seguida, como que impotente para suportar a vista do seu Deus. Ela calara-se. E depois, de súbito, percebi que seus olhos permaneciam fechados. Ela dormia o sono dos sonâmbulos, hipnotizada, perdão, vencida pela contemplação persistente do ostensório de raios de ouro, aniquilada pelo Cristo Vitorioso.
Carregaram-na, inerte, enquanto o padre subia para o altar.
A assistência, abalada, entoou um Te Deum de ação de graças.
E a mulher do ferreiro dormiu quarenta horas seguidas e depois despertou sem nenhuma lembrança do endemoninhamento , nem do exorcismo.
Eis aí, minha senhora, o milagre que eu vi.
O doutor Bonenfant calou-se, depois acrescentou com uma voz contrariada:
- E eu não pude recusar-me a atestá-lo por escrito.


Guy de Maupassant


16/12/2007

Os meus sacos de oiro e os meus sacos de prata

Estavam uns homens a altercar dentro de uma casa, em certa noite, no campo, quando lhes bate um men­digo à porta pedia poisada.

Pois aqui está o meu herdeiro! Este é que o há-de ser! Entre, irmão, diz lá do fundo da casa o homem mais velho. E descanse em paz.

Vossemecê não me deseja a morte nem me derriça em vida, não é verdade? Entre e dê-me o seu nome; o que o mendigo logo fez. Recebeu agasalho por aquela noite e no dia seguinte partiu.

A vida do mendigo não merece relato. Sabe-se apenas que passado muito tempo, em certa noite escura, torna à mesma poisada em cata da sua herança.

Sim senhor! — responderam-lhe os da casa, ali está. Entre irmão e sente-se.

Haviam passado anos; o homem já era muito velho. Andava arrimado a um marmeleiro a muito custo e deixava as pegadas assentes; trazia bocados de mantas esfrangalhadas ao ombro e na cabeça uma carapuça pelada.

Puxa de um mocho, pede licença para descansar e começa logo a contar os trabalhos da sua vida. Como ninguém lhe desse troco — parecia ter caído numa casa de mortos — diz então: julgo ser senhor de uma herança, que o dono desta casa...

Sim, senhor! Pode levá-la. São três sacos de oiro e três sacos de prata.

Três sacos de oiro e três sacos de prata? — exclama o pobre, deslumbrado. E não haverá para aí nenhum carro?

Carros não há, e tudo tem de partir daqui de uma só vez, volvem-lhe secamente.

O mendigo põe os olhos na braseira que está a um lado, e vai-se chegando para ela. Mas ele a chegar-se e o lume a fugir-lhe. O velho, que não é tolo, logo se julga embruxado e compara o caso da sua herança com o da braseira.

Quanto mais perto, mais longe! — suspira longe! — suspira ele. Mas como tivesse muito frio ia indo sempre atrás do lume. Nisto engolfa-se uma rabanada de vento pela porta dentro e arrebata consigo as brasas. O velho vai-lhes no encalço.

Vê-as a deitar faíscas, a espirrar e a saltar sempre para diante; ela também não pára. Anda toda aquela santa noite ao frio e com os olhos nas chamas. No outro dia encontram-no já muito longe a dizer coisas sem tom nem som e a bater o queixo.

Quanto mais perto mais longe! Era toda a sua matação. E também pedia: os meus sacos de oiro e os meus sacos de prata... são meus de direito...

Julgaram-no pateta. E aqui acaba a história.

Pode-se-lhe atribuir moral? Talvez; moral de pobre: quem nasceu para vintém não chega a pataco, nem a poder de lei.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

A Maria Lionça


Galafura, vista da terra chá, parece o talefe do mundo. Um talefe encardido pelo tempo, mas de sólido granito. Com o céu a servir-lhe de telhado e debruçada sobre o Varosa, que corre ao fundo, no abismo, quem quiser tomar-lhe o bafo tem de subir por um carreiro torto, a pique, cavado na fraga, polido anos a fio pelos socos do Preguiças, o moleiro, e pelas ferraduras do macho que leva pela arreata. Duas horas de penitência.
Lá, é uma rua comprida, de casas com craveiros à janela, duas quelhas menos alegres, o largo, o cruzeiro, a igreja e uma fonte a jorrar água muito fria. Montanha. O berço digno da Maria Lionça.
Fala-se nela e paira logo no ar um respeito silencioso, uma emoção contida, como quando se ouve tocar a Senhor fora. E nem ler sabia! Bens - os seus dons naturais. Mais nada. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu pobre, e os que, por parentesco ou mais chegada convivência, lhe herdaram o pouco bragal, bem sabiam que a grandeza da herança estava apenas no íntimo sentido desses panos. Na recatada alvura que traziam da arca e na regularidade dos fios do linho de que eram feitos, vinha a riqueza duma existência que ia ser a legenda de Galafura.
Quando Deus a levou, num Março que se esforçava por dar remate prazenteiro a três meses de invernia sem paralelo na lembrança dos velhos, Galafura não quis acreditar. Embora a visse estendida no caixão, lívida e serena, aspergia sobre o cadáver a água benta do costume, sem que o seu rude entendimento concebesse o fim daquela vida. O próprio Prior, tão acostumado à transitória duração terrena, ao ser chamado à pressa para lhe dar a extrema-unção, ungiu-a como se ela fosse mãe dele. Tremia. Até o latim lhe saía da boca aos tropeções, parecendo que punha mais fé no arquejar do peito da moribunda do que na epístola de S. Tiago. Apenas o Dr. Gil, o médico, a tomar-lhe o pulso e a senti-lo a fugir, não teve qualquer estremecimento. Receitou secamente óleo canforado e saiu. Mas o Dr. Gil pertencia a outros mundos.
Médico municipal em Carrazedo, vinha a quem o chamava, dando a santos e a ladrões a mesma tintura de jalapa e a mesma digitalina. Por isso, a insensibilidade que mostrou não teve signíficaçâo para ninguém. A rotina do oficio empedernira-lhe os sentimentos. O ele declarar calmamente, já no estribo do cavalo, que não havia nada a fazer, foi como se um vedor afirmasse que a fonte da Corredoura ia secar. Sabia-se de sobejo que a fonte da Corredoura era eterna, por ser um olho marinho. E assim que a moribunda exalou o último suspiro, e do quarto a Joana Ró deu a notícia, lavada em lágrimas, cá de fora respondeu-lhe um soluço prolongado, que, em vez de embaciar nos espíritos a imagem da Maria Lionça, a clarificava. E o enterro, no outro dia pela manhã, talvez por causa do ar tépido da primavera que começava e da singeleza das flores campestres que bordavam as relheiras do caminho, pareceu a todos uma romagem voluntária e simples ao cemitério, onde deixavam como uma Salve-rainha pela alma dos defuntos o corpo da Maria Lionça. Não. Não podia morrer no coração de ninguém uma realidade que em setenta anos fora o sol de Galafura.
Em pequenina, logo o seu riso escarolado encheu a aldeia de lés a lés. Velhos e novos acostumaram-se desde o primeiro instante àquele rosto miúdo e rosado3 onde brilhavam dois olhos negros e perscrutadores. Depois, durante a meninice e a mocidade, foi ela ainda o ai Jesus da terra. Qualquer coisa de singular a preservava do monco das constipações, dos remendos mal pregados, das nódoas de mosto nas trasfegas. Airosa e desenxovalhada, dava o mesmo gosto vê-la a guardar cabras, a comungar ou a segar erva nos lameiros. E quando, já mulher, se falava pelas cavas nas moças casadoiras do lugar, nenhum rapaz lhe pronunciava o nome sem uma secreta emoção. Além de ser a cachopa mais bonita, dada e alegre da terra, era também a mais assente e respeitada. Quer nas mondas, quer nas esfolhadas, o seu riso significava tudo menos licença. E ninguém lhe punha um dedo. Olhavam-na numa espécie de enlevo, como a um fruto dum ramo cimeiro que a natureza quisesse amadurecer plenamente, sem pedrado, num sítio alto onde só um desejo arrojado e limpo o fosse colher. Embora igual às outras, pela pobreza e pela condição, havia à sua volta um halo de pureza que simbolizava a própria pureza de Galafura. Na pessoa da Maria Lionça convergiam todas as virtudes da povoação. Quem é que merecia a dádiva de uma riqueza assim?
Foi preciso que o Lourenço Ruivo acabasse a militança e voltasse a Galafura com a mão mais apurada para apertar a dela sob a estola. O padre Jaime, o prior de então, abençoou-os como se fossem filhos, E Galafura, depois do arroz doce, pôs-se confiada à espera da felicidade futura do casal. Esquecidos das manhas e artimanhas da vida, todos sonhavam para os dois a ventura que não tinham tido. Só o destino, fiel às misérias do mundo, sabia que fora reservado à Maria Lionça um papel mais significativo: ser ali a expressão humana dum sofrimento levado aos confins do possível. Torná-la imune à desgraça seria desenraizá-la do torrão nativo.
O polimento do Ruivo, em que a aldeia pusera tantas esperanças, delira-lhe apenas os calos gerados pelo rabo do enxadão. Não fizera dele o companheiro que a rapariga merecia. Engravatado aos domingos e de costas direitas o resto da semana, ao fim dos nove meses sacramentais, quando o Pedro nasceu, gordo, caladão, rosado, em vez de tirar daquela presença ânimo para se atirar às ]eiras, acovardou-se de uma boca a mais na casa, empenhou-se e partiu para o Brasil.
A Maria Lionça, essa, ficou. Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam com os homens vivos do outro lado do mar, também ela teria de sofrer a mesma separação expiatória, a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperança continuamente renovada e desiludida na loja da Purificação, que distribuía o correio com a inconsciente arbitrariedade dum jogador a repartir as cartas dum baralho.
- O teu homem tem-te escrito, Maria? - perguntava o prior de Páscoa a Páscoa.
- Ele não, senhor. Há quinze anos...
Não acrescentava a mínima queixa à resposta. Fiel ao amor jurado, deixava que todos os encantos lhe mirrassem no corpo, numa resignação digna e discreta. Com o filho sempre agarrado às saias, como um permanente sinal de que já pagara à vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas fofas e gordas. Depositária do pobre património do casal, queria conservá-lo intacto e granjeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razão para se manter firme e corajosa ao leme do pequeno barco.
- Nada, Maria? - O prior já nem se atrevia a alargar a pergunta.
- Nada. Respondia sem revolta ou renúncia na voz. Objectivava a situação, lealmente. O que sentia por dentro, era o segredo da sua serenidade.
Até que um dia o Ruivo deu finalmente notícias. Regressava. E Galafura solidária com a grandeza humana da Maria Lionça, dispôs-se a esquecer todas as ofensas e a receber festivamente a ovelha desgarrada.
Quem representava esse perdão colectivo e essa saúde da alma da terra era o Pedro, o filho, que ao lado da mãe, na estação de Gouvinhas, deixava a imaginação correr desenfreada pela linha fora até se perder nos últimos degraus da escada fugidia feita de aço e sulipas.
Infelizmente, o comboio que surgiu ao longe, avançou e passou junto dele a travar o passo, trazia dentro uma desilusão. O pai pareceu-lhe uma sombra esbatida da imagem recortada que sonhara.
- Seu moço está mesmo um homem 1 A voz rouca e dolente foi apenas a confirmação duma ruína que se lhe estampava no rosto esquelético, cor de palha. O Ruivo que ficara em Galafura, na caução dum retrato em corpo inteiro, era a saúde personificada. E o Ruivo que, escanchado sobre a cavalgadura que o conduzia, respirava - à sobreposse, só abstractamente se identificava com o original. Talvez para justificar essa desfiguração, culpado diante da mulher, do filho e dos montes eternamente arejados e limpos da Mantelinha, o renegado confessou tudo. Vinha doente e desenganado. Males ruins... Já lhe custava engolir. E aquela abafação a apertar, a ,apertar... Mas nada de aflições. Voltava só para morrer.
No hospital da Vila os doutores ainda lhe fizeram um furo no pescoço para o aliviar do garrote. Mais uns contos de réis, mas paciência. Galafura, na pessoa da Maria Lionça, se não podia apertar nos braços generosos um corpo comido dos vícios do mundo, queria que ele respirasse ao menos livremente o seu ar puro.
Um mês depois estava estendido sobre a cama onde noivara, imóvel, muito amarelo, muito seco, já com a alma a dar contas a Deus. E no dia seguinte, pela manhã, a boca do cemitério de Galafura, tragava-lhe os ossos descarnados.
Do rescaldo dessa mortalha singular, saiu mais viva ainda a figura de Maria Lionça. Nem o chorou fora dos limites do seu amor atraiçoado, nem se carregou dum luto para além da melancólica negrura que lhe apertava o coração. Manteve-se na justa expressão do sentir de Galafura, enojada e apiedada ao mesmo tempo. Digna e discreta, enterrou-o e começou a pagar os juros da operação. A trovoada não perturbou nem ao de leve o ritmo dos seus passos.
O filho, o Pedro, é que não resistiu ao desencanto. Envergonhado dum pai que lhe passara apenas pelos olhos como um fantasma de podridão, e sem poder abarcar a grandeza daquela mãe que fazia do absurdo o pão da boca, abalou piara Lisboa, sem Galafura saber a quê. E nova via sacra começou na loja do correio.
- Não tens nada, Maria. Velha, branca, igual, a Lionça voltava pelo mesmo caminho e sentava-se ao lume a fiar, pondo na regularidade do fio a estremada regularidade da sua vida. E Galafura, tanto ao passar para os lameiros como na volta, saudava respeitosamente nela uma permanência que resgatava a traição do marido e a fraqueza do filho. Como à mimosa familiar do adro, ou à fonte incansável do largo, assim a viam, segura e repousante no seu posto, e capaz de todos os heroísmos dum ser humano. O tempo dera-lhes a chave daquela existência, destinada, afinal, mais às provações do sofrimento do que ao gosto das alegrias. Só ela os podia esclarecer e ajudar no desespero de certas horas e situações.
Movediço como a insensatez da sua idade, o filho fizera-se marinheiro. E Galafura, humosa, enraizada no dorso da serra de S. Gunhedo, olhava esse rebento, mergulhado em água, como um proscrito. Antes o degredo do pai no Brasil, ao menos aproado a um chão que fazia parte da cosmogonia de Galafura. Diluída na imensidão do mar, a imagem do rapaz perdera toda a nitidez. E sumir-se-ia irremediavelmente na consciência da povoação, sem a ajuda da Maria Lionça. Quando inesperadamente chegou um telegrama da capitania de Leixões e ela partiu, é que viram todos como fora capaz, sózinha, de manter indelével a realidade do ausente. Se se metia a caminho, se enfrentava de rosto calmo a primeira viagem distante e o pavor da cidade, lá tinha as suas razões, que eram necessariamente razões de Galafura.
Tal e qual. No dia seguinte a aldeia viu com espanto e comoção que trouxera nos braços de sessenta anos o filho morto. Deram-lho no hospital, a exalar o último suspiro. Meteu-se então no comboio com ele ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licença a todos, que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo. E assim conseguiu sentá-lo e sentar-se a seu lado.
Galafura quase que não compreendia como pudera com ele, embora fosse meão e magro.
O que é certo é que pudera, e sem lágrimas nos olhos lhe falava ternamente mal o revisor aparecia no compartimento.
- Dói-te, filho? Dói-te muito? Pois dói... Dói...
Encostava-o ao ombro, enrolava-lhe a manta nas pernas hirtas e mostrava os bilhetes,
Em Gouvinhas apeou-se. À porta da estação, o guarda arregalou muito os olhos, mas deixou passar. E daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço eterno de sua mãe. 


Miguel Torga, Contos da Montanha





15/12/2007

Luna Cohen

O ilhéu era a sentinela entre S. Vicente e Santo Antão

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Sentada num dos assentos ao longo de uma das paredes do aeroporto de Ikeja, Luna bebeu a cerveja quase de uma só vez. O líquido no fundo foi dançando num corrupio seguido, o tempo do balanço do copo nas suas mãos nervosas. Beber o resto? A bebida perdia o sabor entre duas cadências de segundos. Uma poção quente e enjoativa quando não saboreada em devido tempo. Por detrás do assento, um gradeamento separava-a da multidão num outro compartimento, curiosa, a espreitar os passageiros do último avião, alguns ainda a dessedentarem-se no bar onde ela se encontrava havia quase duas horas. Na sua frente um inglês de passagem, à espera do próximo avião para Kano. Viajante internacional, intermediário de negócios ou passador de heroína? Um gole, dois cigarros, nada mais. Uma conversa entre quem aguarda e está à espera, e outrem desejosa de chegar ao fim da viagem, ou seja, de tomar um transporte até Lagos e daí a Ile-lfe, a mais ou menos seiscentos quilómetros deste lugar onde se encontra neste momento com um estranho a seu lado a falar de nada, justamente a mastigar a conversa.
A ventoinha do tecto roda sempre. A multidão espreita, ri, fervilha. No bar servem-se refrescos e tudo quanto seja bebível. A gare aérea, baixinha ao rés do chão, com uma cobertura parecida com a madeira, talvez seja mesmo madeira.
Fora uma manhã intensa a cumprir formalidades, a correr de balcão a balcão. E os funcionários sem pressas. Indiferentes, largam frases curtas, formais. "The pink one". Entregou um dos impressos. "The pink one", insistiu o empregado. Ficou a olhar para ele, a boca semiaberta. Ele devolveu-lhe o papel, tirou-lhe os outros da mão e escolheu um pequeno impresso cor-de-rosa. Escreveu qualquer coisa no verso e pôs-lhe um carimbo em cima. Passou-lho para as mãos. Luna continuou de balcão em balcão e entregar papéis brancos, amarelos. Alcançou o extremo da sala e encontrou-se em frente de uma porta.
Entrou. Seria outro balcão, desta vez com guichets. Já não havia mais papéis. Entregara-os todos. Não só isso. Haviam-na passado a pente fino. De onde vinha, quanto tempo ia ficar, se trazia dinheiro, quanto, finalidade da vinda para o país, autorização da entrada, "Está aqui. Foi-me passada pelo consulado britânico em Portugal," onde se ia instalar, tudo registado e confirmado nos montes de impressos preenchidos e entregues a funcionário aqui e mais além e logo a seguir, nunca mais parava de entregar tantos papéis de tantas cores e tonalidades. E agora?
Um fulano gordo, camisa e calças brancas, os dentes muito certos e bem arruma-dos. "Miss Cohen? Professor Kahn mandou-me para a acompanhar."
Ela acenou um sim contente, contente por encontrar a pessoa número um da sua próxima estadia na Nigéria. Fularin cumprimentou-a com efusão de velhos conhecidos. Em África é assim. A apresentação e as amizades fazem-se sem reticências. "Venho da parte do professor Kahn. Tenho o automóvel no parque para a levar até Varsity." Queria dizer University. "Já trocou dinheiro? Pode fazê-lo aí."
Levou-a a um pequeno e claro corredor. Havia um guiché à esquerda. Fularin deu alguns passos, abanando-se e limpando a testa.
Quando voltou, ele sugeriu uma bebida. Ia levá-la ao bar do aeroporto.
Havia quase duas horas no mesmo lugar. À espera. Fularin deixara-a com um copo na frente, prometera voltar dentro em pouco.
Vira-o por aí, aos abraços, apertando a mão a um outro pessoal, rindo sempre, andando para aqui para acolá.
"Este Fularin é incrível". O ar sério do inglês intrigou-a. Luna olhou para ele. Camisa aberta, cara lustrosa, ar cívico. "Conhece-o?" "Oh", e ele sacudiu a cabeça como quem tem uma lon-da história a contar. Se o conhecia! O inglês conhecia muita gente em todo o lado. Andava a montar a rede telefónica na Nigéria. Fizera já o mesmo em Istambul. E contou coisas de Istambul. Gente simpática. Compras de pedras preciosas, jóias raras. Levara-o um amigo a uma dessas lojas. Numa antecâmara um indivíduo sorridente, recebe-o de braços abertos. Sentados em otomanas de pele de camelo trocam-se cumprimentos, bebem chá quente muito doce. O amigo ficara à porta. Angariador? Talvez guarda-costas, pensara ele ao vê-lo pouco depois, através da vidraça, da maneira como se tinha encostado no umbral e como tinha o braço estendido, ligeiramente levantado de encontro ao outro lado da porta.
O dono do estabelecimento fizera um pequeno sinal ao homenzinho para correr o cortinado. Depois disto, a magra figura ficou postada do lado de lá com o ar de quem não tem nada a fazer.
O sujeito balançou uma minúscula campainha e aguardou os dois empregados. Apareceram com uma caixa, pequena cómoda de madeira pau-rosa e sândalo, de estreitas gavetas com puxadores disfarçados na ranhura da madeira. Pousaram-na e retiraram-se. Com servilidade? Não, apenas lançaram o olhar de revés para o inglês a medir as suas posses.
Corrida a cortina, o mesmo indivíduo começou a abrir as gavetas. Um mudo deslumbramento a desfilar perante os seus olhos.
"E comprou alguma coisa?"
O tempo parou. Aterrou um Boeing. Vira-o aproximar-se como se viesse de encontro às portas envidraçadas do barzito. Através do gradeamento, mesmo por detrás do comprido sofá estofado, levantou-se o silêncio do tagarelar sem parar desde a sua chegada. O avião passou sobre o telhado de madeira e o silêncio estendeu-se pelos outros compartimentos. Depois, a pera. Escutava-se com atenção, o pescoço ligeiramente para a frente, até diluir-se no calor o derradeiro bafo do motor. "Mummy, mummy," ouviu-se ainda, pouco se tinham recomposto do hiato da chegada e do aterrar do avião da Costa do Marfim.
O inglês continuava a narrar. Luna ouvia-o e sorria. "E eu a pensar que essas coisas só aconteciam nos romances cor-de-rosa". "O quê?," interpelou o inglês.
Luna estava inquieta. Fularin nunca mais aparecia. O inglês continuava a conversar, a relatar. Fez uma pausa.
Levantou-se, foi até ao balcão. Voltou com um copo na mão e sentou-se de novo. "Não dê confiança a esse Fularin." "Porquê?", perguntou Luna curiosa. "Porquê?", insistiu a querer saber. "Forget it", aconselhou-lhe o inglês. E mudou de conversa.
"Minha mulher está em Londres. Sou engenheiro, mas lá o trabalho não garante o sustento de uma casa."
Luna sente um pequeno enjoo. Longas horas de voo durante toda a noite, não pudera comer nada, quer em Roma quer em Milão. Os restaurantes fechados, apenas o bar onde se vendem sandes ressequidas embaladas em plástico transparente. Aqui também, só refrigerantes, cerveja, talvez whisky. Longe ia o tempo quando eram oferecidas refeições nos aeroportos ou bebidas esquisitas em Cairo ou em Bombaim. As companhias já não se afoitam em despesas extras. Os passageiros são largados como gado em cada etapa.
Levantou-se com um pequeno sobressalto. Senhor meu pai, não vi as minhas malas ainda. Ninguém me trouxe as malas!
Foi até à porta e sentiu náuseas outra vez. Um porteiro, impassível, não a deixou passar. "Por aqui só os passageiros". "Mas eu sou passageira." "Agora já não o é." E os seus dentes brancos, limpos, não são agressivos.
A ventoinha do tecto espalha o ar fresco aos quatro cantos. Luna não sabe como explicar àquele indivíduo de calças azuis e camisa branca. Deveria ter as malas consigo, mas ainda não as viu.
Retornou ao bar e, encostada à vidraça, estendeu o olhar pelo espaço aberto. Passageiros .de vestes claras, outras coloridas como o arco-íris, caminham ao longo da pista. Vinham calmos, sorriam e, no ar, o aroma a perfume francês. Quando entrara em Milão no avião da frota nigeriana, sentira no interior do avião o mesmo cheiro a pairar no ar. A algazarra rompeu de novo e, da gare, acenava-se para os familiares. Os panos bem arrumados à volta do corpo e as meio soltas capulanas protegem-nas do calor. Os companheiros lançam as pernas muito direitas. Os ombros são largos sob os casacos de alpaca. Os mais velhos trazem a roupa tradicional e na cabeça uma espécie de boné sem pala, redondo, ligeiramente levantado à frente, com uma pequena ondulação.
Fularin vislumbrou-a de longe, a testa encostada aos vidros, espraiando a vista para os campos secos onde o calor despega-se da terra e a grama nasce rija e espalha-se pelo solo descoberto.
As voltas dadas para encontrar a bagagem foram nulas. Estivera até numa espécie de armazém onde estavam empilhadas e etiquetadas malas desaparecidas em voos dos meses de Fevereiro, de Março, de Abril. Desistiu de continuar a procurar.
Em passinhos saltitantes seguiu atrás de Fularin até ao parque onde ficara o automóvel. As sandálias de tiras finas e transparentes deixavam o pó espalhar-se em camada ocre muito ténue sobre os seus pés ardentes do calor.
A estrada vai sendo comida a uma velocidade impossível de descrever. O carro não se detém, nem nos buracos onde salta e geme, nem nos espaços onde a terra levanta nuvens de poeira vermelha envolvendo-os completamente. A viagem parece decorrer num filme no qual a preocupação é fixar as diversas etapas de um próximo acidente.
A tarde torna-se fresca e Luna tenta segurar a cabeça atirada para um lado para o outro lado como a querer ser arrancada do pescoço. Começaram a aparecer pequenas fogueiras onde descansam caldeiras fumegantes assentes em três pedras. Na estrada as mulheres acenam convidando a parar.
"De que se trará, senhor?" Fularin volta-se um pouco. "Milho, milho verde." "Ah, gosto tanto de milho cozido."
Recostou-se melhor e deixa cair a cabeça para trás. Com o dedo grande do pé tenta soltar as tiras da sandália no outro pé. Conseguiu-o. Os dedos dançam libertos, os pés acariciam a rede fresca do tapete.
"Aprecia, miss Cohen?" Os dentes de Fularin mostram-se com satisfação. Está feliz. Porquê?
Luna ri-se intimamente da satisfação do gordo Fularin.
O carro encosta-se à berma. O chofer sai com presteza enquanto Fularin continua sentado no banco da frente. Torna com um saco plástico onde traz seis enganhas de milho verde cozido a fumegar. Durante algum tempo vão encontrando mulheres vestidas de panos garridos, estampados, com desenhos bastante simétricos, a acenarem com uma colher de pau no ar, junto às caldeiras onde ferve o milho verde. Luna vai roendo o milho com uma fome de doze horas. Fularin torna a mostrar os dentes, satisfeito. Luna continua a olhar para a estrada, os vidros descidos. O ar da tarde entra morno no interior do carro. Adormeceu, acordou, tornou a adormecer, nunca mais chegavam. Quando atravessaram lbadan ainda teriam de percorrer uns sessenta quilómetros antes de alcan-çarem a cerca do campus de ïle-lfe.
Na cama onde dorme há horas, o corpo de Luna não acusa vontade de despertar. O steward aguarda, sentado no patim da porta da frente da vivenda do campus, onde Professor Kahn a instalara. Os arbustos bastantes juntos trazem ao quarto um ruído característico. Foi quando Luna acordou. Sentou-se na cama, puxou o lençol e começou a perscrutar o ruído ténue e contínuo. Lembrou-se de cobras, lacraus, lagartos. Deu um salto na cama e saiu a correr do quarto. No corredor espreitou através da porta para debaixo da cama e sentiu-se mais tranquila. Os mosaicos frescos debaixo dos pés maram-na. Sentiu-se segura e foi então buscar água num tambor de ferro a um canto da cozinha. Trouxe dois baldes cheios e colocou-os dentro da banheira. Ia tirando água com um copo, curvava-se para se molhar e poder ensaboar-se.
Quando acabou de se banhar, despejou o resto da água do balde sobre os ombros. Já estava calma de todo.
Não lhe custou adaptar-se à vida tranquila de Ife. Trabalhava com o Professor Kahn na continuidade de cartas trocadas em longos meses de correspondência. Ambos judeus, tinham muitos pontos comuns além do trabalho, divergente apenas uma alínea. Professor Kahn preocupava-se demasiado com Israel. "Está a ver, não é, miss Luna? Desejo conhecer a nossa pátria. Ali estão as minhas raízes, para lá vou viver após a minha reforma. Munique representa para mim o local onde por acidente vi a luz do dia. Um acidente no qual os meus não pediram a minha colaboração." Um riso curto e seco. "Não pensa o mesmo, miss Luna."
Luna endireitou o cigarro na boquilha e lançou o fumo pouco depois, longo, leve, um fumo digerido e bem saboreado. Não respondeu. Não tinha problemas desses. Judia sim, mas a sua pátria era onde nasceram os avós, os pais, ela própria, onde vivera, estudara e passara a juventude. A sua pátria nunca poderia ser Israel. Jamais pensara nem ao de leve neste pormenor de Israel porque era um caso resolvido no seu sub-consciente.
Continuou a olhar para os convidados do Deão. Chegavam em grupos familiares para o almoço no Staff Club.
Luna pensou na necessidade de ir ao cabeleireiro. Não se adaptava a ter de lavar a cabeça em casa. Era um desconforto. "Professor Khan, conhece um bom cabeleireiro em lbadan?"
Professor Kahn estava exuberante. Não bebia vinho todos os dias, era superior às suas posses, mas de vez em quando excedia-se, desforrava-se.
"Ih, Ih, Ih, cabeleireiro, miss Luna? Quer trancinhas besuntadas com graxa?" "Graxa, Professor Kanh?"
Desviou a sua atenção para um grupo familiar de quatro pessoas, vieram em dois carros com chofer, o chefe do clã no primeiro, seguido da mulher e da filha no seguinte. O velho chefe, homem de meia idade, vestes brancas, aproximou-se do anfitrião, dobrou os joelhos no mosaico cinzento e vergou-se até tocar com a testa no chão. Levantou-se e aproximou-se então dos demais.
Luna ia-se habituando a estes rituais tribais com sistemas de classe e tradições bem definidas em público. Traduzem o respeito pelo "mais velho", também é reverência. Neste momento é a saudação entre dois amigos da tribo etche. É o exercício do estabelecido. Pediu uma chávena de chá e foi sentar-se num cadeirão ao pé da piscina. Os sar-dões enormes, verdes, alguns com uma mancha rósea ou castanha no dorso passeavam-se por aí. As sardaniscas, maiores e mais gordas, levantavam a cabeça e assemelhavam-se a um bicho pronto a atirar-se.
Sentiu um frio pela espinha abaixo.
"Então essas pesquisas?" Luna levantou a cabeça e olhou sorridente para o Dr. Da Silva. Tão bom ouvir falar português a milhares de quilómetros de Lisboa. "Olá, então?"
Da Silva trazia um blusão e calças iguais. Jeans impecáveis. A camisa toda aberta. Um fio de ouro com um crucifixo. "Tudo bem, Luna?" "Sei lá". Luna sorriu. "Olhe, venho de uma viagem de quase dois mil quilómetros. Trouxe imenso material para a minha tese de doutoramento. E você, que tal o seu trabalho, gosta?" "Sei lá." Luna desabafa. "Não devo chegar a lado nenhum. Professor Kanh sempre a falar de Israel, Professor Grübber no mesmo. Você sabe, eu também sou judia, no entanto, mentalmente sou cabo-verdiana. Por vezes fico bloqueada com as conversas deles, compreende?"
"Olhe uma coisa, Luna, faça o seu trabalho e não dê importância a isso. Eles masturbam-se com esse tema, está a perceber? Não gosto nada destes bichos." Apontou para os sardões a treparem para os arbustos aí a dois passos. "Eu quando regressar ao Brasil, levo todo o material de recolha para a minha tese. Deixe-os falar, masturbam-se é só. Sabe, dei um salto a Nairobi. De avião. Voltei via Nsuky. Falei com a ex-mulher de Uli Schneider. Ela tem responsabilidades, é agora deusa yorubá, foi-me apresentada pelo técnico nuclear egípcio, casado com aquela moça americana. Não a conhece? Não, refiro-me à americana. Está no departamento das Artes. Não faz nada. Entretem-se por aí. Da próxima vez vou até Calabar. Vou lá descobrir muita coisa para a minha tese."
Da Silva estava exuberante. Continuou a falar, a contar.
O almoço decorreu num ambiente abafado. O calor era cortado pelo cheiro da carne servida com uma espécie de funge. As ventoinhas giravam mas não abrandavam o ar quente. O termómetro marcaria 40° talvez, Luna não percebia os Farenheits, diga-se. Pela altura do mercúrio tentava adivinhar a temperatura.
Nessa noite não dormiu ou melhor, dormiu mal. Um moço inglês engenheiro, duas professo-rinhas alemãs do departamento de línguas modernas e ainda o Dr. Odgi jovem nigeriano descendente de yorubás acompanharam-na a casa.
O campus abrangia uma área de muitos hectares, bem guardado, e nessa hora tardia seria melhor não se aventurarem a regressar a casa fora das cercas. Trouxeram uma garrafa de whisky, algumas cervejas e trataram de passar a noite da maneira mais agradável. Dr. Odgi, des¬contraído, não era mais uma pessoa do curso de férias em Lisboa. Quando o conhecera então, parecera-lhe tímido e insignificante. Revelava-se agora um outro indivíduo, cheio de preocupações, atento às mudanças em África.
Luna começou a sentir cólicas acompanha¬das de espasmos. Abusara dos picantes mas não se queixava. Os amigos queriam novas da revolução em Portugal. Luna ia relatando coisas do M.F.A., do Copcon.
Uma das alemãs tirou um pacotinho da mala de mão e foi ferver água para fazer chá.
Luna contou sobre o 11 de Março. Não faziam a mínima ideia de muitas coisas. Mas sabiam de outras.
"E sobre os helicópteros? Quem os levou afinal?"
Luna admirou-se. "Quem vos contou sobre isso?"
Estava cansada. Não tinha vontade de falar mais.
"Olhem, há dois quartos vagos. Acomodem-se, estejam à vontade. Vou-me deitar. Desculpem-me, mas não estou bem."
Dr. Odgi retirou-se pois tinha conseguido uma vivenda no campus para aí há dois meses. Com um sorriso maroto um atirou-lhes "have a good time" e saiu puxando a porta de mansinho.
No quarto chegavam até ela frases, alusões ao 25 de Novembro. Ainda ouviu "...três mil armas distribuídas!". "Por quem?"
Arrependeu-se de não se ter referido à reforma agrária ou às nacionalizações. Sobretudo às nacionalizações porque vivera esses dias em Lisboa. Os cartazes, os panos atravessados no alto das ruas e casas da Baixa, o apoio da cidade, do povo quando se soltavam slogans alegres e livres durante os desfiles, as canções a transbordarem das bocas das mulheres, estas segurando estandartes de esperança.
Encolheu-se na cama e apertou o ventre.
Foi uma noite de cólicas. No dia seguinte, como não tivesse aparecido, vieram procurá-la cerca das quatro da tarde. Estava sem forças, mal balbuciou duas palavras. Os amigos tinham partido muito cedo para lbadan e julgou as suas horas contadas ali sozinha.
Curtiu uma infecção intestinal durante três semanas. O empregado vinha, punha-lhe um termo com chá ao lado, fazia a limpeza e ia sentar-se na casa de jantar a estudar. Andava a seguir um curso por correspondência. À tarde arranjava-lhe outro termo com chá, colocava um pacote de tostas na mesa de cabeceira e ia-se embora.
Abalada pela estadia na cama, não tinha vontade de nada. Deixava-se ficar na cadeira de lona, a seguir as nuvens de mosquitos e bichinhos a voejarem contra a rede da janela à procura da luz acesa dentro da safa. Apareciam ao entardecer mas, de toda a maneira, as redes em qualquer das janelas impediam-nas de invadir o interior da moradia. No campus havia um jardim zoológico. E se também um daqueles bichos se lembrasse de fugir e começasse por aí a rondar? Levantou-se de um salto e foi verificar a porta. Estava fechada. Tranquilizava, sentou-se de novo, sem vontade para mais nada a não ser prestar atenção ao bater dos insectos contra a rede onde alguns iam ficando presos.
Da Silva viera vê-la numa tarde, andava ela a passear à volta da vivenda, a pisar a erva fresca e densa por todo o lado. Da Silva não saiu da passadeira e chamou-a. "Venha cá, quero dar um grande abraço à nossa ressuscitada".
Luna, agradecida, só sabia repetir: "É tão bom estar-se de saúde outra vez. É tão bom!"
Sentaram-se na varanda. Ia aspirando o cheiro acre da terra molhada enquanto Da Silva preparava um teste. "Olhe aqui, Luna, você alguma vez viu um historiador fazendo investigações para o seu doutoramento, ter de preparar um teste como este aqui?" Oiça, oiça.
— Você já tomou o seu cafezinho?
— Sim, dona Clara, estou acabando mesmo agora.
— Já pensou...?
Não acabou porque Luna ria e como não lhe acontecia desde aquela noite.
A tarde foi agradável. Da Silva era bem amigo. À saída ainda lhe disse duas tretas com humor e finalizou: "Veja se evita andar a passear na relva. As cobrinhas aparecem com a chuva e devem andar por aí. Mesmo pequeninas elas gostam de dar a sua picadi-nha, benzinho."
Despediu-se do Da Silva e fugiu para dentro de casa. Já sentia cobrinhas a subirem-lhe pelas costas acima, rastejando como seda a estalar e a enrolarem-se debaixo do vestido cor-de-rosa com ramagens verdes.
Professor Kahn, apreensivo pela sua súbita magreza, propôs-lhe continuarem o trabalho no semestre seguinte. Ficou aliviada. E se eu fosse assistir às festas do aniversário da independência em Cabo Verde?, pensou.
Até ao dia da partida andou impaciente. O tempo não passava tão depressa como desejava. Queria fazer umas pequenas compras, mas ser-lhe-ia quase impossível. No campus havia um supermercado, uma livraria, o banco e os correios. Talvez pudesse escolher discos na livraria. Da Silva levou-a à cidade, chamavam eles, mais parecia uma aldeola, a cerca de dois quilómetros, à boutique de uma jovem americana. Comprou colares e aproveitou para visitar o museu. Casa baixa de chão cimentado, onde de olhos arregalados pôde admirar peças autênticas de uma cultura milenária, únicas no mundo. O empregado, o Peter, vira-a entrar no museu e viera a correr entregar-lhe um fio de missangas multicores.
A caminho de Ikeja lembrou-se do milho verde cozido. O carro voava. Dr. Odgi acompanhava-a. Goiabas perdiam-se na berma da estrada. "Não gosta de goiabas, Dr. Odgi? São tão boas!"
Dr. Odgi tinha os olhos grandes, pareciam duas amêndoas. Sorriu. "Não comemos disso."
"O quê?" Luna admirou-se. "Não comem goiabas? Em Cabo Verde fazemos goiabada e comemos goiabas maduras. É tão bom!"
O carro saltava e voava. Uma vegetação densa e cerrada ladeava a estrada. Atravessavam uma zona de verde sem fim com grandes árvores a sobressaírem dos arbustos de folhas rijas e de um verde escuro pujante. Seria difícil descortinar algo através da folhagem sussurrante.
"Será floresta virgem?", perguntou Luna.
"Não, são quintas", respondeu Dr. Odgi meio aborrecido.
Luna encostou-se a um canto do carro. Dormitava ainda quando chegaram ao aeroporto.
O avião devia partir às seis da manhã. Dr. Odgi levou-a ao hotel para jantar e passar a noite. Parecia já estar na Europa. Até eles chegava o som de uma orquestra num dos salões. Era uma festa privada, uma festa de multinacionais, possivelmente um encontro de magnates de petróleo. A Europa e o imperialismo ficavam para além daquela porta. Deste lado era a exploração.
O departamento não lhe pagaria a estadia no hotel. Não fazia parte do contrato. Deu cerca de trezentos e cinquenta francos pelo quarto, pagos em cheque de viagem. Pelo jantar foi outra lou¬cura. Como não tinha pairas acabava por pagar sempre a dobrar. Começou a pensar na sua vida e nos meses passados em Ife, fez um rápido balanço se teria valido a pena. A caminho do quar¬to ia deitando contas. Dr. Odgi lembrou-lhe: "Já disse ao criado para a acordar às quatro e meia. Está certo?"
Atravessaram um longo corredor ao ar livre para alcançar o outro corpo do edifício. A humidade na armação coberta de trepadeiras e de flores de cardeal ficava peganhenta nas mãos quentes de Luna. Ia estar tudo certo. Ia a Cabo Verde.
Foi boa esta experiência. Abriu-lhe os olhos. Nem para si já contam os pequenos problemas do professor Kahn, do professor Grübber, de Israel, sei lá. Problemas substitutos de outros, bo¬lorentos, na média burguesia.
Arrumou a roupa na cadeira e sentou-se na ponta da cama. Ligou o ar condicionado e deitou-se sobre a colcha de algodão a pensar nas ruas térreas e lamacentas à entrada de Lagos, nos dois ou três arranha-céus de lbadan a dominarem um mar de casas baixas e mal alinhadas a par de vivendas com jardins bem cuidados e crianças meio nuas a apontarem para ela a rir "Oybo, oybo", e mais riam mais apontavam para Luna atónita. Além, ao lado do mercado, outras crianças agachadas, de cócoras umas três, libertando-se calmamente de fezes incómodas. Lembra-se disto e sorri.
Quando de madrugada bateram à porta do quarto, Luna ia a meter-se debaixo do cobertor. Gelara com o ar condicionado, tinha a garganta ferida, ia ter anginas desta vez.
Meio estremunhada bocejou e ficou assim na borda da cama. Não conseguia coordenar bem as ideias. Despiu a camisa de noite com nervosismo e atravessou nua a curta distância para a casa de banho. Um tanto alheada meteu-se debaixo do chuveiro. Enquanto a água lhe escorria pelo corpo, morna e lisa, Luna divagava. Quando aterrasse na Ilha do Sal tomaria a avioneta para S. Vicente. Nunca tinha estado no aeroporto de S. Pedro. Mas ia jurar. Rodeada pelo mar de pedras de S. Pedro haveria de descortinar lá longe o ilhéu dos Pássaros. Ou não? Não importa. O ilhéu era a sentinela entre S. Vicente e Santo Antão. Mas ela nada receava. Tinha o passe e a senha.


Orlanda Amarílis, Ilhéu dos Pássaros

14/12/2007

O Pão-de-ló



O Colégio contratou para professor de música o senhor Macedo, mestre de banda em Aguiar da Pena. Dele se apregoava que era pessoa idónea tanto para dirigir orquestra como charanga, e inexcedível de batuta em punho quando regia uma missa a instrumental. Viera das bandas do Porto, mas qual fora o seu passado ninguém investigara, nem houvera ensejo de ele o dizer. Aparecera na vila inculcado aos filarmónicos da terra, que careciam dele, por um patrício com loja de tamanqueiro na Rua Escura. Estipulados os honorários, ali pegou de estaca com mulher e um filho já espigadote.
Os directores do Colégio – dizia o P. e Sulpício, o mais melómano dos prefeitos, que inspirados pela Virgem do Heptacórdio – assoldadaram-no pois, e um tufão de jucundidade varreu a bisarma taciturna, sua pedra, abóbadas e horizontes esquálidos. Muitos alunos correram pressurosamente a inscrever-se na aula de música, mediante uma espórtula tão insignificante que não houve papá ou tutor que a não suportasse de bom grado.
O senhor Macedo vinha no sábado à tardinha, dava uma primeira lição, e despedia no domingo depois da segunda lição, salvo os dias em que a banda tinha compromisso em festividade ou arraial. Nessa eventualidade trocava os dias com a quarta e quinta-feira. Os alunos, diante deste móvel calendário, no sábado de tarde, durante o recreio, que era a hora crucial para a chegada do mestre, postavam-se aos dois grandes janelões, virados para a serra da Estrela, de olhos no caminho, ao longe, um pouco além do Miradouro, onde ele devia surgir. No Inverno, estava-se a mil metros de altitude, com o frio que inteiriçava a terra, não se pensava em abrir a vidraça, e, muito menos nos dias de codo, quando as árvores se transformam em andores cintilantes de pedrarias. E os rapazinhos comprimiam o nariz contra os vidros, dando cotovelada e espremendo-se para caberem todos.

– Está a chegar à nascente – dizia um.
– Está nada! É um cabreiro com o rebanho – opunha outro.

A distância era grande até a lomba do caminho, e seria preciso ter olhos de lince para distinguir-se dali silhueta humana. Mas cada um deles se entregava a este jogo de curiosidade mental, espreitando por óculo de ver ao longe, calibrado pela fantasia. E amassagavam mais o focinho deslavado contra os rectângulos de vidro, que tinham de varrer com a mão, de quando em quando, embaciados pelo hálito de tantas bocas. Diante deles, até a guarita branca do Miradouro, estendia-se profundo e extenso um horizonte gris e parado de Dezembro. As águas do Longa cortavam com seus filetes brancos e ténues como retrós, tão perto estavam da madre, reluzindo ora aqui ora além por entre os amieiros, a paisagem baça e siderada. Corvos muito grandes e muito negros, que davam a ideia de retingidos a tinta de nanquim, cruzavam a espacidão côncava, animados dum impulso irreal. A Ocidente, uma coluna de fumo, estorgada, fogueira de pastores, subia, subia no ar, dissolvia-se sem cocar nem franjado.
Os alunos não se cansavam de olhar. Pois havia alguma dúvida que dum instante para o outro ia descoser da vaguidão do horizonte o vulto tropiqueiro do cavalinho que trazia o senhor Macedo, ou as abas a fraldejar do seu capindó, se vinha a pé? E empinocavam-se uns sobre os outros, pois que o posto de observação era estreito para todos. Choviam os protestos. Trabalhava, por vezes, o sopapo. Uns que tais despegavam-se do cacho às upas.
Se o mestre vinha a cavalo, abalavam todos para a portada, e as boas-vindas eram tanto para ele como para o garraninho vermelho, pequenote, de grande cauda vassoiruda e compridas clinas despenteadas, olhos grandes a rir e a dizer para todos: cá estou, amigos, cá estou!
Os seus olhos, com efeito, eram lagos de doçura. Abraçavam-no uns pelo pescoço, enquanto outros lhe puxavam o rabo e davam palmadinhas nas ancas. Este ou aquele descobria que, mirando-se no espelho risonho das suas pupilas, era mais pequenino, ágil e mais bonito, e punham-se de joelhos diante dele, porque baixara logo a cabeça e reatava as suas meditações. Em tudo o cavalinho permanecia quieto e benevolente com a petizada, como se estivesse divertido ou hipnotizado.
Mas eles breve se saciavam do enlevo, que não sofria renovamento. Uma fífia de flauta ou de violino fazia-os galgar de cambulhada para a sala de música. E dali a pouco a serra coroava-se dum diadema dionisíaco de sons.

Às vezes – os tais dias de função nas aldeias –, o viso do caminho a sul escurecia sem despontar o senhor Macedo. Resvés das urzes, ao alto da balsa, onde quanto ao professor de geografia, o P. e Sulpício, o Longa tinha a nascente, um fuminho adensava-se, como se a terra vestisse a sua samarra de noite. O lume de água apagava-se mesmo nos meses pluviais, quando era um candelabro. No Verão, mal luminescia.

-Mas, ó padre Sulpício – não perdia ensejo de contestar o P.e Barros, que era marrão – o senhor averiguou bem que ali é que nasce o Longa? Ou decretou?
Sim, ele havia decretado contra os ventos e marés da opinião estabelecida que ali nascia o Longa. O senhor Flora, professor de primeiras letras, que era dali natural, sustentava que o Longa nascia no chafariz dos Chantres, ao fundo do lugar. A madre era aquele depósito valente de água, que brotava de duas bicas, com fartura cabonde para abastecer a população. Nos meses tórridos ou meses de inverno pegado, o jorro era inalterável, alimentado por canalículos de granito, que não podiam transportar mais água nem menos, dada a compressão do grande maciço de pedra da serra (pena-penha) sobre a rede subterrânea hidrográfica.
O P.e Sulpício, bom homem e grande ratão, sustentava que com certos rios e ribeiros do planalto havia que desconfiar da origem. Geograficamente, qual era ela? A que vinha de mais longe. Ora, tendo contornado a povoação, pelo lado da Senhora da Pena Esquecida, descobrira um fio de água que vinha saltante e cantante lançar-se no arroio proveniente do chafariz dos Chantres. Medira-o até a confluência, e inclinara-se a que fosse aquele o verdadeiro manancial do rio que atravessa montes e vales, rega milharais e hortejos, faz moer centenas de moinhos e azenhas, produz gordos robalos e trutas, lampreias de Ponte Mariz em diante, e enguias em barda para a foz, e forma a ria especiosa que torna Ulmeiro a Veneza de Portugal. Havendo, porém, perlustrado o terreno com os discípulos durante vários passeios dominicais, acabara por descobrir, perto do Miradouro de Aguiar da Pena, uma fontainha vivaz, borbulhão miraculoso que nunca secava, mais longo em profundidade geográfica que as outras nascentes, e tivera de reconvir que era aí que devia considerar-se a origem do Longa.
Na aula de geografia, acontecia perguntar:

– Menino, onde nasce o Longa?
Para o arreliar diziam apenas:
– Na serra da Pena...

Se o quisessem ver sorrir e de bom humor acrescentassem:
– ...junto do Miradouro de Aguiar da Pena.

Um pinheiro manso, extático, marcava-lhes no ar, às vezes nebuloso, um alvo menos fugidio aos olhos. Levantava-se ali como um gigante, dos contos antigos, a guardar um vau. Nos dias claros, reflectia-se na bacia de água, que se cavara ao pé, e os pastores vinham sentar-se à sua sombra a britar os pinhões.
Macedo era um homem seco de carnes, bronzeado e alto, que se poderia julgar um dos frades de Zurbarán, liberto da coca do capuz. A pele estalava-lhe, recalcada sobre os ossos da face, atando os queixos que, com o bigode caído à Vercingetorix, lhe dava um ar nada comum, o seu tanto tumular. Ria pouco, de humor muito desigual, não obstante ser homem de bom fundo. Umas vezes mostrava-se-nos sombrio de todo, sem chegar a ser brusco, outras vezes a sua efusão, com os padres mormente, expandia-se franca e satisfeita, prevalecendo ao recato monacal, adoptado na Casa.
Para os colegiais, a sua presença significava um dia de salvatério à ferrugenta grilheta do hic, haec, hoc, do emprego do nome predicativo, e da crónica do vasto e aborrecido orbe terráqueo. A música era o rubi, o grande rubi sobre que rodava toda a engrenagem da libertação, e por isso, não falando no mais, todos romperam a solfejar e cada um a preparar-se para tanger seu instrumento.


*


Atrás duma inovação daquelas, veio a sua complementar. Chegou ao conhecimento do P.e Ireneu das Dores, o director, que para os lados de Valbom uma filarmónica, excomungada pelo bispo, sucumbida à concorrência, ou falha de mestre capaz, decidira dissolver-se, para o que iam ser postos em almoeda seus instrumentos e barretinas. Quem dava mais? Comprou-os o Colégio da Pena por uma tuta-e-meia, salvo o fardamento, já se deixa ver.
Chegou o instrumental em dois grandes caixotes, porque um só seria excessivamente volumoso com o bombo e caixa. Muito bem acondicionados em palha de embalagem, os metais, trabalhados à pasta Amora, que tinham estado em exposição a tentar o comprador, reluziam como o sol. Não traziam amolgadura que desse nas vistas, mas, procurando bem, dava-se conta, mercê de sinais quase microscópicos, que o baixo, barítono e trombones tinham entrado algumas vezes nos banzés de fim de arraial, arvorados em maças de Hércules e por certo réus de muita cabeça rachada.
Os alunos plantaram-se em volta dos caixotes, olhos acesos, boca escancarada, suspenso o fôlego, levemente flectidos no jeito de aprender, numa cabeceira o P. e Ireneu e o P. e Sulpício, dando o centro a mestre Macedo, na outra o P. e Barros, comprimido entre o Zé Ratatau e o Martinho Somelga. O Repas com um martelo e um cinzel procedeu à efracção dos mágicos volumes, mais cautelosamente que um médico manobrando o fórceps. Depois quando todos os instrumentos vieram a lume e que cada um atropelava os outros para os dispor contra o muro e se apresentaram perfilados sobre suas bocas, ou, aqueles que não davam pedestal, deitados sobre o velho Erard, com olhos ansiosos os estudantes consultavam os professores. Ia fazer-se a distribuição. Havia semanas e semanas que os padres matutavam no magno problema, de acordo com Macedo. A última palavra era do mestre. A vocação de cada um tinham-na eles pulsado e classificado numa escala segundo o bom ouvido musical e a falta de bossa.
Por minha parte todo me temia. Eu começara por querer aprender flauta, instrumento por que tinha um filé particular, mas que ao cabo de teimosas e infrutíferas tentativas me vira forçado a abandonar por incapacidade para o sopro. Dali passara à rabeca. O Semitela, pai do nosso criado, possuía uma, muito velha, que herdara dum tio imaginário, em que eu vira uma vez um figurão de
Lisboa tirar desenfastiadamente variações plausíveis, e dizer:
– Arrisca-se a ter aqui um «Stradivarius». Guarde-a!

Minha mãe mandou-me a rabeca, à experiência, tentando ao Semitela com boa espórtula, e foi uma risota geral na casa sorumbática. Tinham-lhe aparado o braço de modo a torná-la uma rabeca de descante, ao sabor do corridinho e da chula, e mais modinhas de batuque. O velho Macedo, que tocava todos os instrumentos, afinou-a, mesmo assim, passou resina no arco, e tirou dela meia dúzia de compassos, que estarreceram a todos. Mas breve a encafuava na suja bolsinha de amostras pronunciando:
– É boa para os cegos que andam pelas portas.
Tentei a mandolina. Ao fim de dois meses não tinha passado do primeiro tempo duma valsa.
– Pega tu... pega tu... e lá, ó Sisto, atreves-te com a requinta?

Quem falava era o P.e Sulpício, braço direito de Macedo e seu lugar-tenente. Ele é quem tocava órgão no coro, sempre que Macedo faltava.
O pega tu era o cornetim para o Eugénio, a flauta para o Miranda, em que já era sabido, a requinta para o Henrique. E tu, mais tu, aquele, para o Zé Ratatau a caixa, pratos para o Martinho Somelga, bombo para o criado, a mim não se me dava nada. Restava uma trompa. O padre encarou-me em silêncio:
– Tu serás capaz de dar conta do recado?
– Eu, quê? A trompa? Resta saber se quero...
– Ai não queres? Melhor.
O Macedo olhou para mim:
– Aceite a trompa, menino Alexandre, depois se verá...

E conformei-me. Dois meses decorridos, acertava com o meu acompanhamento menos mal: epó, epó, epopopó!
O casarão, entretanto, tornara-se no cume da serra, em véspera de feriado, o mais vibrante e estrondoso vulcão de ruídos polifónicos que imaginar se pode. As janelas vomitavam gamas como ondas de lava. Os sábados eram os dias cíclicos da astronómica erupção. Uma tarde, a hora de noa, encontrei-me de joelhos diante da Senhora da Pena, muito reginal no seu altar de prata e mármore precioso, a pedir-lhe com todas as veras da alma que dispusesse as minhas faculdades de modo a sair-me bem como executante de trompa na filarmónica do Colégio. Assim era difícil? A mim sempre me pareceu mais complexo que o latim ou a álgebra. Todavia lá ia, dá-lhe que dá-lhe, e se às vezes o Macedo me deitava um olho feroz ou o trombone à direita me largava um cotovelão porque me atrasara no compasso, logo me remetia o melhor possível: pó, pó, po-po-pó... pó.
Chegou o mês de Junho, mês das peregrinações. Um dos romeiros, que estava a fazer a semana do Espírito Santo, homem das bandas de Lamego, calça de saragoça, corrente de oiro de tranqueta, dois fios, e um dobrão de D. João V ao pendurão, veio parlamentar com o P.e Ireneu quanto à possibilidade de acompanharmos de fanfarra a grande procissão da sua terra que formava no Miradouro da Nave e avançava para o Santuário, triunfalmente, de pálio, guiões, cruzes alçadas entre bandeiras das confrarias e lanternas. O padre consultou Macedo. Sim, desde que trouxesse o filho para o cornetim, podia dar-se-lhe um jeito...
Era dali a seis dias e passámos a ensaiar-nos muitas horas, de manhã ao sol-pôr, com jubiloso menoscabo dos compêndios para nos desempenharmos com honra duma comissão que representava uma vigília de armas.


*


No sábado à tarde chegou o Macedo Filho. Era um esbelto moço, bigodinho apenas a sombrear-lhe o lábio, alto, desempenado, cabelo em asa de corvo sobre a têmpora direita. Vestia um fatito de cotim, mas de bom corte ou assim me pareceu, que não prejudicava nada a sua elegância natural. E como era simples e sociável conquistou-nos logo a todos e em volta dele éramos outros que tais mirmidões para com uma pessoa real. Contou-nos os passeios que dava com a banda de Aguiar, em que tanto tocava cornetim, como requinta, trombone de vara, ou saxofone. Arranhava todos os instrumentos como o pai, mas do que mais gostava era de violino. Na vila, uma menina brasileira ouvira-o tocar, e agora era sua discípula e ia dar-lhe lições em casa. Embora de génio cordial e expansivo, que necessidade tinha de no-lo dizer?! Reparei que a voz lhe mudara de tom, velando-se de certa doçura e quebrando-se em reticências, ao mesmo tempo que baixava os olhos. E logo tracei o meu horoscópio: se a menina era realmente o que devia ser, linda, afável e prendada, amava com certeza aquele bonito rapaz, digno herói dum romance abençoado. Ele, por sua vez, se a discípula era a deidade que prometia, devia saber derribar todos os obstáculos até chamar-lhe sua e serem felizes. E, construído o enredo, fiquei tão certo dele como da luz que nos alumia.
O domingo, festa do Pentecoste, ficou para nós data memorável pelo relambório e exaltação. Das três festas da Pena, Espírito Santo, S. Barnabé e Assunção, era aquela primeira por que eu delirava. Naquele ano, houve uma semana de grande solenidade com ladainhas à tarde em que cada um de nós, que tocava metais, fazia vibrar o seu instrumento com altívolo clangor. O largo coalhou-se de barracas de tendeiros e as casuchas, que os padres alugavam às famílias penitentes, regorgitavam de fiéis, como se diria da Estalagem do Perna de Pau numa novela de capa e espada. A cada momento chegavam votos e procissões das desvairadas partes da diocese. Acaso se não celebravam, com a descida da Pomba sobre a cabeça dos Apóstolos, a revinda à terra do sol equinocial e as pompas ressurrectas da Terra?! Tudo eram cantigas nos ares, e nos campos, das aves, dos insectos e das raparigas. A vizinha Sara cantava e recantava a fazer lindos chambres, e na horta, por baixo da camarata, um grilinho arpejava seu arrabil, por ora um arrabil trémulo, com longas síncopes, quase um tanger de ferrinhos por um anjo a cair de sono.
– Vamos, meninos! – veio dizer, obra de meia manhã, o homem saragoçano aos filarmónicos amoravelmente engalfinhados ao Macedo Filho. – A procissão está a formar no Miradouro. Falta só o senhor Abade, e esse não tarda.
Meninos!? – pensaram muitos. – Nós somos alguns meninos? Nós somos músicos. Os músicos que vão ganhar dinheiro. Dobre a língua, amigo de Penude!
Ninguém se permitiu fazer qualquer observação à sem-cerimónia paternal do mordomo encartado. Mas o senhor Macedo, que chegou naquele instante, lhe deu o retruque:
– Vá andando, patrãozinho, que a filarmónica lá vai ter. Todos nós sabemos muito bem qual é a nossa obrigação, sem esquecer a hora.
Dentro de vinte minutos estávamos no Miradouro. Tínhamos descido debaixo de forma ao largo da feira, ordem, à frente homens de pêlo na venta, mulheres barbadas, e raparigas sólidas como granadeiros, ajoujados de rosários de castanhas, que lhes desciam do pescoço aos pés, na cabeça coroas de loureiro e alecrim, flores e palmas ao peito, e um tirso na mão de mimosa florida ou oliveira. E todos marchavam a passo ritmado, com uma gravidade impressionante, certos de cumprir um rito supremo misterioso e propiciador, que lhes comunicava um poder oculto. Tão estranho espectáculo, pelo imprevisto, imponência gloriosa e hermética primitividade, insuflou-nos o mais respeitoso entusiasmo. Luziam ao alto as cruzes antigas com tintinábulos e Cristos de saio entre lanternas, cingidos os vexilários de opa vermelha e roxa, consoante a confraria, e as bandeiras das irmandades com estupendas figuras pulcras ou hediondas, de mãos erguidas a abençoar, ou rabeando no fogo do Purgatório.
Eram duas ou três freguesias, que se haviam agregado para beneficiarem de acompanhamento musical atrás de seus abades, todos gordinhos e de ar afável, no que rendiam as melhores graças a Deus.
A uma pancada do bombo por Flaviano, rompemos com o pase-calle que sabíamos de cor e salteado. O Macedo Filho atirou duas notas de cornetim, claras e vibrantes como duas gaitadas num poldro. E a passo firme, cadenciado posto que moroso, fomos seguindo pálios e cruzes, soprando com denodo e catrapiscando as moças turdetanas, de lanugem no lábio e testa olímpica, arreadas das camândulas de ordem telúrica que eram as panateneias que na forma iam mais perto de nós. Quando a procissão se embrenhou no templo, retirámos tocando ainda uma mazurca que fez atropelar-se à nossa volta o poviléu azabumbado.
Não sei que espórtula cobrou a filarmónica. Competiram-me 200 réis, uma fortuna ao tempo, que derreti em rebuçados.


*


Continuámos a consagrar à música as tardes de sábado e as manhãs de domingo. Macedo vinha num dia e regressava noutro. Nesses dias, um serão apenas, mal-humorado e sonolento, era para o alius, alia, aliud, os triângulos isósceles e escalenos.
O Colégio estava à cunha e já se disputavam os lugares na banda. O Macedinho idolatrado revezava-se com o pai a ensinar-nos, como dizia o P.e Ireneu, a arte de Euterpe. Por fim, era em geral o filho que dava a lição. Mas não se detinha. Ela terminada, ala. Por ali fora no garranito, nem uma seta. Com ele, muito mais do que com o pai, não cabíamos no grande janelão, que olhava a Sul, a esmurrar os narizes contra a vidraça. Nos dias em que havia festa de igreja, compareciam os dois. O jovem Macedo pegava da flauta e, com o pai ao órgão, interpretava Palestrina. E a nave do templo convertia-se num céu aberto.
Uma quinta-feira, dia santo de guarda, apareceu em burros albardados com colchas brancas e em éguas parideiras, rabo de espanejador, a sociedade de Sarçal de Cima. O comendador Apolónio Dias mandava celebrar no Santuário uma missa a instrumental em acção de graças a Nossa Senhora que se dignara salvar a sua consorte, D. Ausenda da Natividade, duma perniciosa que estivera a mandá-la desta para melhor. O espiritismo do brasileiro estava paredes meias com a macumba e a eucaristia. De modo que não era de estranhar de sua parte um voto ao Deus dogmático. Não tinha semelhante rabugem vingado no toro vassoirudo do castanheiro cristão?
Na comitiva brilhavam, sem falar em minha santa mãezinha, a tia Maurícia e a velha ama Isabel do Rosário, o bom do P.e Xavier que foi o celebrante, cada vez melhor escopeta de perdizes e incorrigível batoteiro ao monte, mestre nos saltos a pataco e micos a tostão em casa do Sancho Guedes, os dois Barreiros, o Ceroula-Curta, a professora e o marido, o senhor Santos. Para esse dia auspicioso, a nossa banda, como se abordasse matéria nova, ensaiou-se e tornou-se a ensaiar. O Macedinho filho, para o oficlide, estanciava havia três dias no Colégio. P.e Xavier e Macedo tinham sido contemporâneos em Pinhel, discípulos do reverendo Uriote, aquele célebre padre-mestre que acendia tão bem lume friccionando dois pauzinhos, como batucando com os nós dos dedos nas cabeças de pederneira dos alunos. Foi ao padre que, ao evocar os bons tempos, ouvi a história dos dois canzarrões da serra da Estrela que, na estalagem da Hespanhola, varriam, lambiam e lavavam com língua minuciosa e rápida por detrás da porta, na copa, os pratos que tinham servido a uns hóspedes para em continente servirem a outros.
Foi numa quinta-feira, depois da semana da Pascoela, que o Sarçal veio em peso até o Santuário da Pena. Os padres do Colégio, que aparavam as unhas rentes, ofereceram achas e fogão para aquentar aqueles dos pitéus que desmereceriam saboreados fora do seu ser térmico. Além disso, puseram-lhes à disposição o refeitório, depois de convidado o P.e Ireneu para presidir, e ainda, por direito próprio, o P.e Sulpício, nosso prefeito, que era vizinho e contubernal do comendador.
Pois o melhor da festa foi este ágape em que se imolaram óptimos petiscos cozinhados na Roborosa, onde sobrevivia dos gerais nas Bernardas a tradição da velha culinária, e muita doçaria de Salgueirinho, que guardara paralela pragmática conventual, com receitas de se lhes lamber o beiço. E então de vinho não se fala, que até o senhor Guedes mandou meia dúzia de garrafas do Gerifalto, cógueda arisco e buliçoso, que fazia, deitado no copo, uma chilreada de melros.
O gosto de minha mãe seria ter-me no regaço, se eu já não fosse tão grandinho e tais mimos celestes ao tempo para mim não equivalessem a enfados. Mas eu já perdera aquele frígido retraimento que a Isabel do Rosário chamava desapego e não era mais que a chocada estranheza da transplantação dum mundo espontâneo de liberdade e discrime para aquele regime de férula e culto artificial da pessoa, como empa recurva sobre a espaldeira da latada. A visita de minha mãe começava a ser-me agradável pelo facto mesmo da reacção que se ia operando em mim das boas forças instintivas contra as entorses eclesiástico-escolares. Tinha-se assentado ao fundo da mesa com a irmã e a boa serva, enquanto na cabeceira trocavam brindes afectuosos o P.e Xavier, já um pouco derramado, o P.e Ireneu, e mestre Macedo.
O Macedinho, a certa altura, desertou, e pelo sorriso baboso do velho mestre e uma voz lisonjeiramente indiscreta do P.e Sulpício percebi que todo o tempo que estivesse apartado da discípula, a brasileira, lhe eram séculos. E eu quase odiei a sinhazinha melodiosa que nos roubava a presença do amigo.
Estava-se nos papos-de-anjo, regados a vinho do Ceroula-Curta, digno da galheta dum cardeal, disse o P.e Xavier:
– Ó Macedo, tu havias de me fazer uma missa cantada, aí para umas cinco vozes ou mesmo mais, que depois eu ensaiaria nas horas vagas com os colegas. Não sei se te lembras, eu tinha e tenho uma voz nada despicienda de barítono...
– Voz de estentor – respondeu o maestro. – Não havia como tu para cantar o Alma de Dios. Quando se juntava a ti o Taborda, que era outro portento mas em falsete, acordavam os mortos no cemitério.
Desataram todos a rir. P.e Xavier volveu a certa altura:
– Então és capaz de me fazer essa missa? Tu tinhas bossa...
– É coisa demorada, amigo. Demorada e nem sempre vem a inspiração...
– Ora, ora! Para ti, fazer música é o mesmo que eu rezar os responsos...
– Ou matar meia dúzia de perdizes – interpôs o P. e Sulpício.
– Está enganado, colega! – replicou o P.e Xavier. – Matar uma perdiz exige mais conhecimentos que traduzir uma fábula de Fedro.
Pequena risada, insuficientemente aplauditiva.
– Pois, sim, sim – proferiu Macedo, é provável que desvanecido com a facúndia que lhe atribuíam. – E quem ganha o pão para minha casa? Não sabes que tenho de acompanhar a banda por festas e romarias?!
– Maganão, dizem para aí que o teu rapaz vai casar com a filha do Nepomuceno, brasileiro, herdeira da maior fortuna do concelho…
Macedo sorriu e no seu sorriso blandífluo, a descair no balofo, perpassou, mais que a perspectiva fagueira, a vaidade ou ternura paterna:
– Não sei. Já o ouvi. O meu filho não me diz nada...
– Pois é tudo cheio...
– Será. Ele é que lhe vai dar lições de violino. Ou melhor, deu. Há coisa de duas semanas o senhor Nepomuceno despediu-o. – E acrescentou, vendo-se bem que esta indiscrição era obra do seu temperamento benigno, sem segundos planos, e devida um pouco aos fumos do genuíno Gerifalto: – Constou-me que o pai faz guerra de morte ao casamento, mas a menina chora e bate o punho. Persuado-me que levará a melhor. Quando as mulheres querem…
O P.e Barros era amigo particular do Nepomuceno e teve um aparte que gelou o sorriso nos lábios de Macedo:
– Bem vê, senhor Macedo, o pai não a quer dar a um rapaz, que pode ser muito prendado, mas não tem onde cair morto. Sob este aspecto, devemos concordar que tem a sua razão.
Calaram-se todos e o velho em voz triste e abafada murmurou:
– Meu filho é uma jóia de moço. A menina poderá ser uma santa, uma beleza e valer um condado. Não arranja melhor esposo. Sim, fortuna pede fortuna. O meu filho é pobre, mas é um artista de cara... Todo o instrumento ao fim de certo tempo se lhe torna familiar. Sobretudo é compositor. Só queria que conhecessem as pastorais que para lá tem...
Decorreu mole e larvar um grande silêncio, e P.e Xavier, pegando do copo, em que um velho vinho do Porto, trespassado pela lançada crua da luz, derramava um brilho ofuscante de topázio, proferiu:
– Vamos a beber!
P.e Xavier ergueu o cálice à saúde da senhora de Apolónio Dias, que não comparecera, pelo melindre que havia a observar com a sua convalescença, posto que em bom caminho, louvores a Nosso Senhor, que tudo pode e manda. E, muito derretido e pingueiro, o comendador rompeu aos soluços como se por retrospecção agoirenta a visse no ataúde.
Chocaram-se os cálices e breve as lágrimas de Apolónio se vidraram com os esmaltes cor-de-rosa do sorriso. E P.e Sulpício deitou mais uma rodada. Reiterou P.e Xavier:
– Posso contar com a missa?
– Talvez... Sabes, requer estudo... É também uma questão de oportunidade... e de vagar... Gostaria de fazer-te papa fina...
– Pois, para missa pataqueira, basta-nos esta, do tempo da Maria Castanha. O ano que vem, temos o prelado de visita pastoral pelas freguesias da diocese. Gostava de apresentar-lhe coisa rija... que galvanizasse os devotos.
– Está bem. Vou tentar...


*


Meses depois, pelas férias da Páscoa, na véspera de regressar à Pena, P.e Xavier chamou- -me a casa e disse-me:
– O Alexandre faz-me um favor? Leva-me este pão-de-ló ao Macedo, o mestre de música...? Queria mandar-lhe umas perdizes, mas tenho andado com uma macaca, que até parece feitiço. Ontem saltou-me um bando, e não deitei uma abaixo. Deve ser das pólvoras que andam falsificadas…
– Levo-lhe o que quiser.
– O homem sempre me mandou a missa. Olhe, anda para ali – e mostrava-me um grande rolo, meio descarapuçado, donde emergiam as notas bem erectas e traçadas a primor nas linhas paralelas da pauta musical. – Chamei cá o Lucas dos Alhais... Não sei se o Alexandre sabe que é o melhor canário que há de Viseu para cima em cantorias de igreja. Dei-a também a ler, em Lamego, ao chefe da orquestra do Seminário. Ninguém lhe meteu dente. Ao fim de muito trabalho, este lá conseguiu solfejar um bocado do hosana. É uma coisa estapafúrdia de todo. O Macedo estava doido quando a compôs. E realmente, segundo me contaram, andava fora de si, empolado de todo. Compreende-se: o filho tinha armado a aboiz à filha do brasileiro, e por pouco lhe escapou. Olé! Foram atrás deles a tempo – a tempo, eu sei lá! – e engavetaram o raptor. Hoje o pai é o mesmo mísero que vive do ofício, por sinal magro nestas terras. Quanto lhe dará o Colégio? Nunca além dos seus dez mil réis por mês, imagino eu. E amarga-os, diga-se a verdade. O filho trazia a pequena do Nepomuceno presa pelo beiço. Mas pelo que ouvi ao meu colega de Aguiar, o P.e Secundino dos Anjos, que foi um dos que se meteram a morigerar a menina e a dissuadi-la de tão tolo fatacaz, vê-a por um óculo. Por modos apareceu um bacharel dos lados de Viseu de boa família, todo pinoca e bonitote, e é ele que há-de acabar por levantar a vaza. Sim, senhor. A missa foi por lá feita no período de euforia, quando o velho Macedo tinha o casamento do filho por favas contadas. Aquele hosana, de facto, parecia cem aldeias pobres a berrar à sorte grande que lhes caísse do céu ou então uma malhada depois de debulhar uma jeira farta. Quer que lhe diga? O maestro de Lamego abundou neste juízo mutatis mutandis:
– Sim, sim, ponha lá que são os vindimeiros no lagar, meio bêbados, ao envasilharem o mosto... Não faz sentido! Com coisas sérias não se brinca. Só queria que o menino Alexandre ouvisse! Não serve... é uma maluqueira pegada! Leva-me o pão-de-ló ao pobre diabo?
– E se não vem tão cedo à Pena?
– O pão-de-ló espera uns dias, que se não estraga. Aqui para nós, com alguma coisa o havia de recompensar.


*


Dois dias depois do meu regresso à Pena, aconteceu vir dar lição de música aos colegiais o velho mestre. Se desprevenidamente o houvesse encontrado num caminho não o teria reconhecido. A pele do rosto, escalada sobre a armadura óssea, revestia-se de tons mortuários, agora duma perfeita lividez à Ribera. Os olhos não lhe derramavam luz. Dei-lhe o pão-de-ló e de princípio não atinou. Quando acentuei o recado, olhou para mim muito fito, e soltou uma casquinada de riso tão cava e sarcástica que me gelou. Quase me senti ofendido. Que queria aquilo significar? Não era mesmo desfazer do obséquio do excelente P.e Xavier, batedor de lebres, batoteiro ao monte, e boa goela a beber e cantar os latins?


*


Desapareceu de Aguiar o Macedinho filho. Para onde foi e não foi, morreu, matou-se, na vila e termo nunca se conseguiu apurar.
O velho continuou a dar-nos lições de música e a reger a banda da terra por festas e arraiais, onde a rogavam a troco dum ratinhado salário. Nunca mais sorriu. Parecia, como nunca, fundido em bronze, a pele escura cada vez mais esticada sobre os malares e encarquilhada nas capelas dos olhos. Ao imediato conspecto, dava mesmo a impressão de defunto que se erguesse da campa. Derreado da coluna, cavavam-se-lhe na face fundas regueiras, dir-se-iam saguão das lágrimas. Passou a interessar-nos muito menos. Nós deixámos de amolgar as ventas contra a vidraça à espreita do seu vulto no caminho velho de Aguiar, entre o Miradouro e o pinheiro manso, lá onde o P.e Sulpício tinha riscado que nascia o Longa. Automaticamente nos ministrava o ensino e se dirigia a nós. E nós ouvíamo-lo tão automaticamente como recitávamos na aula de catequese: Os novíssimos do homem são três, mundo, diabo e carne. Não se tornara odioso, mas enfadonho. O mecânico das suas lições acabara por imprimir à própria música sonolência e não sei que espírito libertino da desafinação.
Um sábado faltou. Orientou o ensaio o P.e Barros. Percebia tanto de harmonia como de francês, de que se tomara professor encartado. Mas era um dos que tinham a vara. De resto, a banda agora seguia por si, com umas ventosas do P.e Sulpício. Iam-se uns executantes, surgiam outros na sua esteira, e lá avançavam a ritmo inquebrantado. Os veteranos instruíam os pexotes.
Noutro sábado o P.e Barros descaiu em esvaziar o saco das novidades. O velho Macedo enlouquecera. Estava liru de todo. Altas horas, Aguiar acordava a estrondosas volatas musicais. Era ele que subira para o coreto, com o seu cornetim, onde arrastava o compadre, que lhe permanecia fiel, primeira requinta, e tocavam ambos para a Lua, a noite, os ecos adormecidos, até amanhecer. E a voz altanada dos instrumentos parecia repetir a pergunta que a cada passo fazia, em casa e pelos caminhos, a Deus, que, segundo ele, assistia frio e conformado a todas as turpitudes e necedades dos homens:
– Que fizeste do meu filho?
O bacharel felizardo casara e entrara nas graças da menina. Era um par ditoso, e grato o comendador aos amigos, às boas almas, aos padres Barros e Secundino, que haviam contribuído para que a sua herdeira não caísse no precipício, que o mesmo eram as garras de um gajinho que, lá por possuir talento para a música e ser bem-parecido, não deixava de ser um borra-botas, senhor das nuvens e da sombra das paredes.


*


Um dia veio à Quinta do Gerifalto, a convite do Ceroula-Curta, um músico de nomeada. Era simultaneamente um curioso, investigador de velharias e bugiarias douradas. Foram a Sarçal, à quinta do Sancho Guedes, que ele espiolhou de cima a fundo, depois à igreja, donde lhe aconteceu ir dar ao presbitério.
– Que é aquilo ? – perguntou para o bom P.e Xavier face a uma vasta copeira a abarrotar de coisas e loisas.
Aquilo era, além dos apetrechos de caçador, polvorinho, chumbeira, cargas de chifre, invólucros de pólvora, sobretudo a papelada que ali se acumulava da freguesia numa ressaca de muitos anos, sermonários rotos, manuscritos, contas de pé-de-altar, breviários, ordenações da diocese, hinários antigos sem rosto, trinta por uma linha de um levita concomitantemente escopeteiro dos montes e cultivador de duas grades de terra.
– E isto ? – e levantou a mão para uma folha de música.
– É quanto resta duma missa cantada, feita por um doido. O resto foi-se em buchas para a espingarda.
O visitante cravou os olhos na pauta e mentalmente pôs-se a lê-la. Era o Hosana.
Depois de lê-la uma vez, releu-a, e por entre dentes se pôs a trauteá-la. E quantos ali estavam viram que, pouco a pouco, o maior exaltamento o empolgava e arrebatava para fora de si
– Mas é genial o que aqui está! – exclamou ele. – Quem é o autor? Onde está o resto, senhor Abade?
P.e Xavier referiu, desdenhando, quem era o autor. Só restava aquela página. Prestava? Não estava a mangar? Pois ninguém lhe dera importância, mas ninguém.
– Este hosana é estupendo! – tornou o musicólogo.
– É Wagner, mas do bom, o que aqui está. Que crime o senhor praticou, padre! Este fragmento é assombroso. As vozes vão num crescendo da mais original e maravilhosa polifonia e parece que tudo estremece e delira: as almas, os corpos, o céu e a terra. Os anjos saem de seu êxtase e cantam e dançam com os homens e os elementos. Morreu o autor? Que me diz? Morreu doido e foi sempre um pobre de Cristo!? Só assim se compreende. Oh, que pena não ter podido esse homem realizar-se, ter materializado, ou melhor dado asas a seus sonhos, que eram admiráveis! Como se chamava ele?
– Macedo.
– Só?
– Não me lembro do resto do nome.
– Macedo, Macedo anónimo, Macedo heróico, Macedo santo! – rompeu num estampatório, meio desvaire, meio romantismo, próprio dos seres, como sejam os poetas e músicos, que andam em desequilíbrio acima das coisas vulgares do mundo, estampatório que emparveceu o padre e seus familiares: – Ajoelho perante a tua alma errabunda e maldita! Mais uma que se afogou no pantanal! Vou erguer-te uma ara entre os ídolos e demiurgos que venero e que imploro nas horas de silêncio e dúvida! Ignorado artista, salve!


In RIBEIRO, Aquilino. Casa do escorpião: Novelas


11/12/2007

Os Amantes Aprovados




É uma história simples. No ano de mil novecentos e trinta e tal, vivia na vilazinha de ..., no litoral, uma viúva respeitável, gorda, de olhar brando e bandós a picarem de cinzento. Tinha tido onze filhos, dos quais nove sobreviviam, e toda a aventura da sua vida fora a de, como mulher dum magistrado pobre, ter percorrido o país no decurso duma carreira anónima e sem fé. Triste, talvez não. O marido fora um tipo folgazão, sociável em extremo e que fizera grandes amigos, dos quais muitos também sobreviviam. A sua morte, acontecida em pleno vigor físico e quando esperava a promoção a juiz de segunda classe, provocara uma crispação de pânico nos nervos dos colegas e de toda uma pandilha fervorosa dos vícios de província, que são a má-língua, a política e o interesse - essas fístulas crónicas dos homens de quarenta. Os órfãos, de princípio socorridos com uma generosidade exaltada demais para permanecer fiel, foram aos poucos deixados sob a mão de Deus Padre, para que se criassem. Sabia-se que a mãe era senhora séria e de bons princípios, e isto sossegava - vamos saber porquê! - as consciências. Tinha ela na terra uma casa, pouco mais que um sobrado de pescadores, e para lá se arrumou com as crianças. Duas, protegidas por padrinhos, teriam estudos pagos e donativos de vestuário; os outros cresceram um pouco à sorte, no hábito dessa tragédia ensossa, pasmada, fria, da burguesia pelintra. Podia-se dizer que existiram entre a escola e o emprego na burocracia, sem conhecerem a cor do dinheiro. Entalados numa engrenagem de dívidas, promessas, esmolas, de caridade sopesada até à última gota na balança dos que em cada dádiva ou tutela parecem endossar a batata podre dum conceito inútil, da moralidade mais rapada e sem brilho, adquiriram todos uma sobreposição de personalidade que os fazia muito idênticos. Assim, todos sabiam dissimular e nunca manifestavam a tempo qualquer sentimento; reagiam por aprendizagem, não por instinto, e na sua alma tudo estava pregado e postiço como a lua no teatro do próprio Shakespeare.
Com o tempo e a colocação do mais velho como prefeito dum colégio, mudaram-se para uma sobreloja, deixando o bairro excêntrico em cujas valetas os detritos de peixe atraíam grandes moscas verdes. Viviam pior que nunca, mas tinham conseguido o que se chama "ganhar pé". Possuíam um relativo crédito e, comprovada a sua penúria, os seus antecedentes duma honesta monotonia e o facto abonatório de que tinham vivido bem, a sociedade apaziguara-se um tanto e concedera-lhes certos direitos. Por exemplo, as raparigas traziam golas de velha pele sarnenta, sem que o mundo se risse, porque, nelas, os atributos da classe, o luxo, eram por assim dizer uma aquisição histórica. Admitiam-nas na intimidade superficial das pessoas finas, homenageando-as com a confiança de lhes pedirem favores como os de passarem bilhetes de rifa ou recortarem florinhas de papel para o Dia do Capacete. Enfim, podia-se afirmar que tudo corria bem, se algo de muito estranho e de imprevisto não abalasse a comovida paz dos benfeitores que são a multidão em geral quando se sente despreocupada. Constou que a viúva tinha um amante. Tínhamos dito que era ela mulher gorda, grisalha, de olhar brando, mas não seria bem assim. Era de facto um tanto pesada, com um andar cambaleante de quem sempre calçou chinelos de pasta ou de corda ou de seleiro; não vestia mais do que batas de algodão preto e parecia bastante mal, mesmo aos domingos, sobretudo aos domingos, quando, na missa das nove, se ajoelhava na sua almofadinha de setineta vermelha, ao lado do "altar das Dores". Tinha um rosto inexpressivo do muito que a fadiga se sobrepusera às emoções, e não parecia gostar de rir nem de chorar, nem sequer de observar os outros nessas ocupações. De resto, possuía ainda belos olhos, e a sua frieza de maneiras dava-lhe uma graça um tanto hostil que infundia ternura, depois de ter provocado receio. Era frequente vê-la atravessar a ruazinha de velho macadame, para vir arrastar pelo braço um ou outro filho que se filiava na trupe de garotio para, no átrio do cinema, esmolarem a quantia bastante à entrada. Fugiam-lhe para, no poleiro da geral que era como uma assembleia de jurados apinhados em degraus rente às coxias, uivairem ameaças contra "o cínico" daqueles filmes do Tim Mac Coy de belos dentes que se rolava num fosso da pradaria em chamas. Ai a linguagem desses ladrões de gado, desses sheriffs, dessas "cavadoras de oiro" que sugeriam fome e água de lavar pratos! "Labora num grande erro" - diziam, explicando a intriga e a traição, enquanto, com um rumor de vento infiltrado por fendas de pedreiras, ardia um rastilho de dinamite. Os rapazes precipitavam-se, no intervalo, até à rua, engalfinhavam-se possessos de coragem, imitando tiros; e iam, na lojeca próxima, comprar um pão encortiçado, de domingo, com talhadas de marmelada, ou cartuchos de paciências ou pastilhas Naval que chupavam laboriosamente, mostrando-as na língua uns aos outros, para suscitar invejas.
- Raça! - exclamava a proprietária, que vinha, por condescendência, ajudar na loja, porque a frequência era aos magotes, e ondas de garotos embatiam contra os mostradores onde melavam os "caramilos" junto das onças de tabaco. Era uma mulher oxigenada, vistosa, cheia de ambições mal encabadas no seu ofício de mestra de meninos. Detestava as crianças, as suas roupetas com cheiro de peixe e de surro, as suas chancas tachadas, as suas sacolas de serrapilheira com flores pintadas e que a chuva esborratava; aplicava nelas o ódio pelo mundo de chateza e de frio que conhecera desde a infância, quando, deportada do seu nabal onde o pai sorvia cotos de cigarro sentado nos montículos de pilado, se fizera letrada. Casara ali na vila com um tipo mesquinho que usava manguitos de cotim e pesava quilos de arroz com a proficiência dum Shylock. A filha, bonita como ela, criara-a para outra classe, outro meio, outra vida. Quantas lágrimas raivosas, esses vestidos de folhos, essas sombrinhas japonesas! Quantos favores equívocos, nauseados, em que acumulava tédio e impotência, para que ambas, na Assembleia, sorrissem um pouco duramente, como quem pressente ter-se enganado na porta e no lugar, e espera a todo o momento uma advertência, uma rectificação!
- Raça! - dizia, quando estendia sobre o balcão, procurando não tocar as mãozinhas onde o ranho seco escamava, os confeitos ou os pães varridos de farinha, muito lambidos, cor de cinza. E, em particular, a sua aversão atingia os filhos da viúva. Desprezava-os porque os achava pobres, raquíticos, enfadonhos, sérios; porque tinham hábitos finos, viviam disciplinados como formigas, usavam com naturalidade os seus trapos polidos com benzina, e porque as crianças abastadas os tratavam com deferência. Alguma vez a sua Loló, magra e frenética criatura de olhos verdes, brincara nos jardins dos palacetes, usara as trotinetes dos pequenos burgueses, fora conduzida a casa pelos seus criados? Loló percorria as ruas perseguida por uma turba de catraios de fralda ao vento que se dispersavam quando ela parava para os reconhecer - o que não acontecia nunca. Mesmo assim, denunciava-os a eito, a mãe se incumbia de distribuir reguadas nos nós dos dedos, ferindo, esfolando, com um olhar mau, nublado, e que fazia gritar os menos estóicos antes que se aproximasse deles. Ah, aquela viúva fora por muito tempo um espinho enterrado no centro do peito, fora um pouco como uma sombra projectada sobre um écran onde a paisagem corre! Admirava-lhe as belas maneiras, o ar sóbrio, sem sorrisos, porém sem amargura; invejava-lhe a tranquilidade com que parecia existir entre os filhos, que cresciam feiotes e pelados como ratos dos bueiros. De súbito, apareciam todos grandes, as raparigas com a sua beauté du diable, os seus vestidos inesperadamente à moda, tentando destinos, vivendo; os rapazes tinham agora boas relações, faziam carreira, modestamente, sem importunar, seguros. Também a sua Loló, delgada e cheia de it, dançava um pouco o charleston e namorava um miliciano. Mas as outras crianças, sempre as mesmas, com o seu cheiro de marisco na pele, com os seus narizes lacrados de monco amarelo, com os seus gritos à Tarzan, a sua bola de trapo, essas não cresciam. Continuava a sacudir-lhes as orelhas com varadas, enquanto lhes encaixava as medidas de peso ou de lenha. E um sol tão branco arredondando-se sobre o mar! E o trepidar dos carros no Largo de S. Tiago, na Avenida, na Praça! Meu Deus, meu Deus! Havia uma lampadazinha sobre a mesa onde corrigia exercícios, à noite, e a luz amarela escorria nimbando a sua cabeça oxigenada. Os frequentadores do cinema viam-na, e, na impressão imediata dos cartazes onde se contorciam mulheres como chamas, comentavam: "Parece uma vamp... a Brigitte Helm... a Marlène..." E ela sentia na pele, à flor da sua pele branca, empoada e levemente flácida, que falavam dela, e como.
Foi ela a primeira a compreender e a revelar que a viúva tinha um amante. Era um rapaz de vinte anos, muito estranho, magrinho, e que leccionava num colégio; chamava-se David, tinha vindo das Ilhas, sem recursos, para estudar. Era interno, portanto, e passara a pagar com explicações aos primeiros ciclos as suas propinas. A viúva conhecia-o como colega dos filhos mais velhos, há bastante tempo, vira-os nas mesmas manhãs de Verão saírem juntos para o banho, com a toalha enrolada presa pelo cinto do maillot. Nos dias de aniversário, David sempre mandava um postal ilustrado às meninas - sempre garotas ricas entre flores, em áleas de jardins, e cores muito brilhantes. Ele era tristonho, quase bronco quando desconfiava de alguém ou simplesmente não conseguia adaptar-se; mas, familiarizando-se, rasgada a sua casca de timidez feroz, de orgulho mais feroz ainda, era maravilhoso. Havia nele uma coragem de sinceridade que nem era maculada pela consciência de virtude que a razão nisso podia surpreender. Na sua aceitação de tudo o que acontece, de tudo o que triunfa, de tudo o que perde, de tudo quanto é inútil ou sem estética, de tudo quanto é belo para vexame da nossa própria alma, havia paz. Às vezes sorria, quando todos se agrupavam fazendo traduções do latim, repuxando uma beiça sinistra sobre o queixo. Sorria, com o livro aberto diante dele, como se seguisse uma imagem deveras cheia de interesse e de humor.
- Em que pensa? - perguntava-lhe a viúva. Ela sorria também.
- É tão tolo viver exactamente assim - dizia David. - Dividimos o tempo e emparedamo-nos dentro dele. Mas não há tempo, o tempo não existe, o tempo é apenas memória. Olhe as violetas nessa jarra... murcharam, mas não têm a recordação da sua frescura, portanto existem num tempo único - compreende?
- Compreendo. - E ela já não sorriu. O rosto cansado estremeceu, crispou-se, e voltou a adquirir a sua fria brandura habitual. Sim, tinha compreendido. Durante muitos dias esgotou-se em imobilizar-se dentro dela própria, em rastejar em torno da sua alma, para que ela não pressentisse quanto a vigiava, vendo se dormia ou velava; durante muitos meses viveu metodicamente entre a sua pequena gente escura, questionadora, mesquinhamente ansiosa e que se atraiçoava de quarto para quarto, de prato para prato. Julgava-se sossegada e igual a outrora, surpreendia-se a rir jovialmente, porque tal libertação a exaltava e lhe dava uma espécie de febril felicidade. Depois, recaía de súbito; David obcecava-a até ao ódio, queria que ele partisse, inventava planos para o afastar, para deixar de o receber, para não o ver mais; achava-o sem importância, voltava a rir-se da sua cegueira, a acusar-se de insensatez, de malignidade, de vileza. Rezava muito, mas, na sua prece, no mais ardente voto, brotava-lhe do coração o nome dele, mergulhava numa prostração terna, exasperada e submissa por fim. Adoecia e renascia da doença como a serpente que se desprende da própria pele e se esgueira vigorosamente para fora do ninho bolorento. Assaltavam-na escrúpulos que se traduziam em manifestações de sacrifício; o seu amor pelos filhos parecia recrudescer, escravizava-se a eles, contente se dominava a própria impaciência e o juízo desfavorável que o carácter deles, as suas pegas, a sua nulidade, o seu egoísmo desamparado e impotente lhe provocavam. Matava-se lidando inútilmente, infeliz quando percorria a casa e via que todas as coisas estavam correctas nos seus lugares, que a poeira vogava no ar sem poisar; tudo era tranquilo e mesmo, sob a mesa da sala, os gatos dormiam indiferentes a travessuras no velho tapete inglês muito rapado nas bordas como um caminho trilhado de roda dum capinzal. Sentava-se um momento, com as mãos no regaço, como alguém que espera num banco de estação; a imobilidade doía-lhe, agitava-a uma saudade de lágrimas que não podia chorar, e tudo o que até ali vivera lhe parecia importuno na sua memória. Punha-se a pensar então em David, o sangue pulsava- -lhe devagarinho nas têmporas, ela sorria como uma rapariga. Pensava nele, encontrando sofrimento e alívio porque ele lhe aparecia de repente tão distante como alguém já morto, como alguém a quem, à força de dedicar sentimentos e projectos, nos aproximou da indiferença e da erosão da alma. A vida como que estancava, ficava-se distraída a olhar pela janela o céu frio de Primavera que tão bem lhe sugeria toda a vila desenhada numa luz apática, com sombras que cresciam rapidamente pelos muros, com campos e noras, flores miniaturais balançando-se imperceptìvelmente como cabecinhas senis; e os areais onde se compunham redes, escurecidos aqui e além pelos detritos do mar, com recortes de babugem que, devagar, se evaporava. O céu frio de Primavera sobre a vila! Sobre as gavinhas tenras cheias ainda de penugem cinzenta; sobre os talos novos de roseira que, partidos, vertiam seiva doce; sobre os campos, sobre os campos... Frios, dum verde inacabado, com terra fria, fechada, hostil ainda, por debaixo. Esse arrepio agudíssimo do fim de tarde de Primavera comunicava-se-lhe. E, trémula, retomando a custo o movimento, a vontade, voltava a apropriar-se de si mesma.
Quando falaram as vozes, dizendo que David e ela eram amantes, isso apenas se explicaria pelo pressentimento de catástrofe a que são sensíveis as colectividades. Viam-se pouco, nunca se tocavam; mas havia decerto neles uma exaltação de paixão que o próprio silêncio, a própria ausência e aparência de serem estranhos, confidenciava. Os filhos passaram a abandonar mais a casa, a tratá-la com uma cerimónia constrangida. Alguns choravam um pouco pela nostalgia da simbólica mãe; de resto, fora sempre o símbolo de mãe que eles tinham amado, e não a ela. Não a ela. Outros faziam-se mais viris com essa realidade que no fundo da alma os vexava; e torturavam-na.
- É verdade? É verdade? - diziam. - Sempre fomos bons filhos, a pobreza não nos fez corar nunca, bruníamos as nossas roupas ao serão para te poupar canseira, desprezámos as raparigas para não te abandonarmos. Destruíste tudo isso. Já não podemos ter confiança, porque tu nos cuspiste na cara.
- Mãe, mãe! - diziam as moças, com trejeitos duma cólera ávida, repelente, destruidora, a cólera sem finalidade das mulheres, que é apenas pretexto duma afirmação, duma quase vingativa expansão do sexo. - É uma canalhice!...
E o próprio David, que sentenciava com uma voz em que se entrevia mais o prazer da audácia que a intenção de a poupar a ela:
- Não há acções canalhas, mas almas canalhas. A mesma acção vivida por almas diferentes não é a mesma acção.
Ela suspirava, levava a mão ao rosto como se fosse defender uma pancada. Não compreendia; não compreendiam. E, quando David encostava a cabeça nos seus joelhos, o silêncio denso os envolvia, o silêncio amassado com todo o vociferar da rua onde brincavam crianças e se descompunham peixeiras, com todos os soluços de agonia dos que morriam na solidão terrível daqueles a quem o próprio pecado abandonou, ela encontrava felicidade. Um dia, constou que se tinham matado. Ela aparecera com duas balas no peito, no soalho do seu pequeno quarto onde se respirava essa miséria estéril dos que apenas duram, apenas dormem, apenas sonham, apenas mentem. Castiçais de vidro, sobre a cómoda, diante de imagens baratas de arraial de peregrinação, tinham velhos pingos de estearina cobertos de pó. David respirava ainda.
O caso, muito abafado, passou depressa, pois o mundo gosta de resgatar a sua responsabilidade com o esquecimento. Sim, com o esquecimento que antecede sempre a redenção. Tudo passou depressa; portanto, poucos anos depois, a vizinhança só banalmente se referia à viúva, aos filhos que tinham partido ou porque casavam, ou porque os vitimara uma febre, um desastre, ou porque a província os devorara como pequenos burocratas. Só quem fielmente se lembrava de tudo era a loira mestra de meninos, que continuava a corrigir problemas na sua mesa iluminada pelo candeeirinho que o tempo entortara e cujo abat-jour ficara sujo e pingão como um saiote de bailarina de guignol. A luz amarela fazia resplandecer os seus cabelos, e ainda os frequentadores do cinema olhavam, com um interesse logo extinto, o recorte da sua cabeça na vidraça. Mas já não faziam comentários.
- Raça! - murmurava a mulher, riscando ferozmente de vermelho os cadernos cheios de borrões cor de violeta e onde a tripa da tinta se desenhava. Loló engordara e já não tinha olhos verdes, já não usava sombrinhas japonesas; já não tinha pretendentes vestidos de flanela branca como Conrad Nagel, como o Barrymore; casara com não sei quem, desia aos tropeções a sua escada estreitinha, agarrando-se de lado ao corrimão, com uns velhos sapatos debruados de pelúcia e que ganhavam pulgas - oh, esses sapatos de lã que criavam pulgas alimentavam a comunicabilidade calaceira, morosa, feliz, com mais do que uma vizinha! -, ia escolher papos-secos na padaria, fazendo-lhes estalar a crosta entre os dedos, espremendo razões de protesto em todas as coisas que aconteciam.
- Raça! - dizia ela também. A mãe, ainda oxigenada, corajosa ainda porque se pintava sobre as rugas, sobre as feições desfeitas, desprendera-se muito dela. Às vezes pensava na viúva, em David, no seu amor que sentia vivo, penetrado no próprio céu frio de Primavera, fluindo de todas as coisas, mesmo as mais ingratas e inexpressivas coisas do mundo. Tinham-se amado - eles. Naquela casa de sobreloja onde habitara a viúva, não podia ver ninguém correr um estore, abrir uma janela, atirar fora os restos dum cinzento, sem que julgasse que tudo estava a acontecer ainda. Que, no quarto, que recebia luz duma clarabóia do corredor, dois seres tão verdadeiros como só podem ser os que compreendem que a morte participa da vida e a completa, agonizavam, sem tragédia, sem veemência, porque a tragédia, a veemência, não é dos que cumprem, mas dos que apenas os imitam. Os cartazes expostos no passeio do cinema, as mulheres serpentinas de olhar vidrado ou fulgurante, as paixões estereotipadas dum mundo senil, esgotado, impaciente! E aquela criatura, sem juventude, que vestia batas de chita, que era talvez um tanto estúpida e sem importância, mas cuja fealdade, limitação, pobreza, mereciam uma aprovação através do amor! Assim sentia a mestra de meninos que continuava a distribuir aos domingos pacotinhos de pastilhas Naval, reclamando o dinheiro certo na palma da mão para a dispensarem dos trocos. Os garotos apinhavam-se, repeliam-se, esmagavam-se contra o balcão, ela dizia "raça!", entediada e, apesar de tudo, lírica, porque não abdicava dos seus cabelos loiros, da sua solenidade, e porque, enfim, em cada esteta falhado há um lírico que se procura.
Esta é a história simples dos que chamamos os amantes aprovados. Esquecíamo-nos de dizer que David sobreviveu. Que lhe aconteceu depois, não sabemos. Ou antes, na última vez que fomos à cidade, encontrámos na rua um homem que se lhe assemelhava muito; os cabelos eram mais raros e usava óculos. De resto, caminhava muito depressa e não o pudemos observar muito. Parecia um desses eruditos pobres que vivem num saguão, dormem sobre uma arca e eles próprios cozinham um arroz esturrado numa máquina de petróleo. Era bem ele, com o seu olhar retraído, fino, persistente, mas não podemos jurar. O mundo está cheio de pessoas que se parecem e todas se continuam, sim, todas se continuam. De qualquer modo, o David que nós conhecemos há muito... Mas nada temos já a acrescentar a esta história.


In BESSA-LUÍS, Agustina. A brusca