08/06/2012

Da Escada


Adelaide chega a casa bastante tarde, pelas três e meia da manhã, e chama o elevador, que não funciona. Carrega de novo no botão, o prédio está completamente silencioso, ela decide subir os cinco andares a pé. Sente-se pesada, bebeu demais, pára ao fundo das escadas e olha para cima, a espiral do corrimão de mármore. Suspira e avança, acelerando sem se aperceber disso, a partir do segundo andar.
Pouco depois, ouve vozes na escada.
Pára, com medo de que sejam ladrões ou drogados. Choveu sem parar todo o dia. Com o Jorge tinha corrido mal outra vez. Ela vestira pela manhã uns collants que lhe estavam grandes e arrependera-se logo à saída de casa de não os ter mudado. Esse escorregar de collants, constante, corrosivo, num dia de muitas urgências que a obrigavam a estar de pé, acabara por transtorná-la. Não tinha querido ir dançar, e dançar era um passo importante da sua rotina com o Jorge. Eles encontravam-se para jantar e dormir juntos uma vez a meio da semana e de novo ao sábado, se ela não estava de banco, para passarem o domingo descansados. Ele ia buscá-la ao hospital, no centro comercial faziam horas para o jantar, escolhiam o restaurante, comiam, iam dançar, iam para a cama, se era quarta-feira ela voltava para casa, se era sábado dormia em casa dele. Mas hoje não houvera dança e decidiram ir para casa do Jorge mais cedo. Já iam amuados porque ele quisera debater mais uma vez a questão da existência ou não de classes sociais, questão que não conseguia despertar o interesse de Adelaide ; quando isto acontecia, ela deixava-o falar, entretinha-se a olhar as pessoas das outras mesas e a criticar intimamente o modo como comiam. Em dada altura, por mero desfastio, ou enojada com um desses gordos pequeno-burgueses, começara a contradizer o Jorge. Para pôr uma pedra em cima das classes sociais foram bebendo brandis, ele não quis desperdiçar a noite e propôs uma sessão de sexo , ela nem chegou a despir-se, e enquanto o acusava das coisas do costume e ouvia dele as acusações do costume, chegara-se à porta e saíra.
As vozes, algures no patamar de cima, suaves, uma pouco mais grave do que outra, continuavam , alternadas. A voz do rapaz, mudando, adolescente, hesitava nos princípios, muitas vezes tornava inaudíveis os fins das frases, que despachava para dentro, temendo talvez a interrupção da rapariga ; parecia não controlar o seu próprio volume de som , o riso era um guinchinho de rato, havia afirmações cuja veemência se frustrava na súbita falha da voz que se tornava de repente excessivamente velada e grave. Ela, por seu lado, atacava com verve e espírito todas as suas deixas e mantinha um ligeiro tom interrogativo que muitas vezes não era suficiente para provocar as respostas. Adivinhava-se que fizesse gestos, pausas expressivas, deitasse olhares intensos, porque havia ali no meio silêncios sérios, e o retomar da conversação parecia a Adelaide que se fazia sempre noutra clave, num patamar superior.
Passando-lhe o medo, Adelaide sentara-se.
- Porque é assim : - disse a rapariga - o corpo morre e a alma é imortal, quer dizer que sobra. O tipo morre, vai para debaixo da terra, passam os anos e abre-se o caixão e não está lá nada; foi-se, ficou um monte de ossos, às vezes nem isso. Ou queima-se e fica feito em cinzas e depois mistura-se no estrume e serve para pôr nos campos e qualquer dia estás tu muito descansado a comer na fruta um bocado do desgraçado. Já imaginaste os milhões e montões de almas imortais que ficam livres, olha só para o passado da Humanidade, os milhões e biliões de almas , onde é que isso está tudo? Hão-de estar em qualquer lado...
- As almas não ocupam espaço, não é? Podem estar em todo o lado e em lado nenhum, é a mesma coisa...
- Não ocupam espaço se forem uma ou duas. Agora milhões e biliões... De vez em quando sinto isso. O peso dessas almas todas em cima de mim.
- Se não ocupam espaço, não ocupam nem uma nem duas, nem um bilião.
- Mas há vários tipos de espaço e o espaço que não se ocupa também existe. Também faz peso.
- Não acredito nisso das almas - disse ele - quando se morre, morre-se todo e pronto. Não sobra nada. Nem pó.
- Então - perguntou ela, mas o seu tom não era de desafio - porque é que eu tenho medo de morrer à fome?
- Tens medo de morrer à fome? - perguntou o rapaz com o seu riso de rato. - Porquê?
- Sei lá! Até tenho pesadelos com isso e acordo e vou ao frigorífico só para ver se há alguma coisa para o pequeno-almoço. Acho que a minha mãe até já percebeu e deixa-me sempre tudo bem à vista, para eu não me assustar.
- Mas acordas com fome?
- Não tenho fome. Nunca sequer cheguei a ter fome. É por isso é que eu acho que as almas que sobram das pessoas que morrem, voltam ao mundo nos bebés que vão nascendo.
- E os bebés choram porque têm fome? É isso?
- Eu é que acho que devo ter morrido à fome noutra vida. E que é por isso que me faz impressão nesta vida.
- Nasceste com a alma doutra pessoa? Uma coisa já gasta, em segunda mão? Não achas um bocado porco isso tudo? É como usar uns sapatos velhos ou comer a pastilha elástica doutra pessoa.
- Não se consegue explicar isso, mas a morte é capaz de ser uma forma de lavar as almas, de apagar o que lá está, como nos dvd , para se poder gravar outra vez.
- Mas se apagam o que lá está, como é que te podes lembrar que morreste à fome?
- Ficam lá uns restos, não sei. Podem apagar as coisas, mas não as sombras que elas deixam.
- Mas tu não achas - disse ele, pela primeira vez com uma certa veemência - que esta vida...quer dizer, é uma merda tão grande, e ainda por cima nos obrigam a voltar?
- Ninguém te obriga a voltar.
- Então para onde é que vai a minha alma?
- Não sei.
- Ou voltam todas ou não volta nenhuma. Porque é que há-de haver umas almas que voltam e outras que não?
-Sim, se calhar obrigam-te a voltar. Não tens outra hipótese. Mas há pessoas que não acham nada que esta vida é uma merda. São felizes. Querem cá voltar, não querem morrer tudo de uma vez. Mas é que nem sequer se trata de querer ou não, porque uma alma não tem para onde ir a não ser para dentro de outro corpo. O que é que achas que uma alma andava por aí a fazer sozinha a voar, para onde é que ia? Isso são almas penadas. E eu se calhar tenho esta mania porque a minha alma, ou a alma que agora é a minha, já pertenceu a um tipo que morreu à fome, num campo de concentração ou a uma criança, em África, ou noutro sítio.
Houve aqui um silêncio prolongado que fez Adelaide hesitar. Sabia que bastava mexer um músculo, arranhar com o pé no degrau, para que eles se calassem, se debruçassem a ver quem ali estava. E aquilo que iriam dizer a seguir, a frase misteriosa e salvadora que os faria ligarem-se para sempre, ou continuarem hesitantes à procura do caminho de um para o outro, perder-se-ia, provavelmente sem apelo.
- Eu sinto - disse o rapaz por fim - também, às vezes, que sou outra pessoa. Se eu fosse eu, estás a ver, seria o eu do dia-a-dia, mas o eu não é o meu eu do dia-a-dia, porque eu sou outro, ou então, o eu normal já não sou eu, já fui eu, mas agora já não sou eu, ou ele é que sou eu...? O que eu quero dizer é que eu sou o eu normal do dia-a-dia, o eu que tu vês e os outros vêem, o que vai à escola e ouve... mas sou diferente disso, sou outro que não é esse. Se eu fosse eu já cá não estava.
- E essa pessoa que tu sentes que és, é capaz de ser uma alma doutra pessoa dentro do teu corpo a fazer-te medo de coisas de que não tens nada que ter medo.
- Eu não tenho medo - disse ele - sinto é que não sou eu.
- Sentes que és pessoas diferentes, como é que sabes qual é que és tu e qual é que não és?
- Sou sempre eu.
- Mas umas vezes mais do que outras...
- Sim, por exemplo agora.
- Agora és tu.
- Há uns dias tive que ir ao dentista e estava de boca aberta e ele tem um espelho enorme à frente da cadeira, daquelas que sobem e descem e deitam e levantam, vi-me no espelho e não era eu, com um babete à frente e uma coisa pendurada na boca. Não era o eu de todos os dias, era um tipo que eu vi num vídeo, um médico ou coisa assim, que matava gente, violava as mulheres e depois matava-as com uma anestesia e ninguém o apanhava, só lá para a quinta ou sexta mulher é que a polícia começou a desconfiar do homem.
- Mas não eras tu.
- Não.
- E porque é que foste pensar que eras um médico maluco que mata mulheres e não pensaste que eras um homem do talho com um cachimbo esquisito na boca?
- Também podia ser.
- Mas não foi. É o mesmo comigo. Porque é que eu tenho medo de morrer à fome? Lá em casa sempre houve tudo, muito, a minha mãe é fanática da cozinha, mata e esfola coelhos à mão, já te contei essa? Pega nos coelhos pelas orelhas e dá-lhes uma cacetada com o rolo-da-massa e depois tira-lhes a pele como se lhes despisse uma camisola.
- Achas que os animais também sabem que vão morrer? - perguntou o rapaz.
- Eles não podem falar, não é? Mas podem sentir e eu acho que eles sentem medo. Estás a ver o Estevão, o meu cachorro, sabe logo quando vai apanhar no focinho, fica a tremer de medo, achas que quando pegam num coelho pelas orelhas e o deixam pendurado no ar ele não sabe que lhe vai acontecer alguma coisa de mal? É claro que sente e é horrível, quando se pensa nisso e estamos a comer um frango e sabemos que o desgraçado deve ter sabido que ia morrer.
- Um frango? - perguntou ele - Achas que o frango também tem sentimentos?
- Então o coelho tem e o frango não tem porquê? São tudo bichos e até do mesmo tamanho, mais ou menos.
Aqui houve outro silêncio, mas breve, transitório. Adelaide estava a sentir-se muito cansada e fechou os olhos. Aquela conversa de coelhos e de frangos parecia não ir a lado nenhum. Eles eram tão miúdos... Começou a duvidar do seu poder, desconfiando ao mesmo tempo do valor e da importância do que diziam. Talvez não tivesse grande consequência interrompê-los, aquela não parecia uma conversa fundadora; mas o seu era um poder inevitável, mais cedo ou mais tarde teria de subir e revelar-se.
- Achas que a sotôra de Português tem alma?- perguntou ele.
- Deve ser a alma dum cão raivoso que morreu numa floresta gelada para onde teve de fugir sozinho depois de morder toda a gente na aldeia - disse ela.
- É lixada , parece que gosta de gozar connosco.
- Se tiver alma, vai para o Inferno.
- Para o Inferno? Não achas que ela reencarna numa toupeira ou numa cobra ou num animal assim repelente?
- Acho, acho. Mas de cobra não, eu gosto de cobras. Uma coisa mais horrível, reencarna num cancro ou numa doença que não tem cura. O que me faz impressão é... Já viste que nunca mais nos livramos do que fazemos? O que se faz, fica feito para sempre e não pode ser desfeito. E sofremos as consequências pelas várias vidas fora.
Ele concordava, entusiasmou-se:
- Dá um bocado de medo de mexer até um dedo. Já viste se eu agora te vou dizer uma coisa com uma intenção e tu percebes outra coisa ou percebes que a minha intenção era outra, muito diferente... quando me responderes, já vai ficar tudo lixado só porque não percebeste o que eu disse, nem a intenção com que disse.
- Podemos falar mais e tentar perceber.
- Mas não vês que se eu disser uma coisa e tu perceberes outra, quando disseres a coisa seguinte já vais partir do princípio que eu disse uma coisa que não disse, ou não disse com essa intenção, e portanto o que tu disseres já vem enganado e mesmo que eu diga que não era o que eu queria dizer, tu se calhar vais achar que aquilo que percebeste do que eu disse é mais importante do que aquilo que eu disse mesmo ou julgo que disse... E por aí fora, sem fim... Cada vez nos afastamos mais e estamos cada vez mais longe daquilo que queríamos dizer no princípio. Parece que, de cada vez que queremos acertar e dizer exactamente o que se passa, mais nos enganamos. É como estar a lutar contra uma corrente forte, que nos afasta da praia, e vemos a praia cada vez mais longe, e vamos arrastados para o alto mar e ninguém nos pode ajudar.
Ele calou-se e pela primeira vez a rapariga não lhe deu resposta. Adelaide sentiu um aperto na garganta, encolheu-se mais no seu canto, esperou que algum deles soubesse o que fazer.
- E se eu faço uma coisa que te magoa muito? - perguntou ela - E depois morro ou tu morres e não há mais conversa? Não achas pior do que tentar acertar? Ou mesmo do que andar enganado?
Ele não disse nada.
- Na nossa turma somos trinta - disse a rapariga - . Na tua turma, para aí outros trinta e tal, não é? Na escola toda, deve haver o quê? Seiscentos, mil? Então porque é que só tu e eu é que estamos aqui sentados a esta hora, nesta escada, deste prédio e a minha mãe já deve andar maluca à minha procura ?
- Mas tu se calhar podias estar aqui com outro a dizer as mesmas coisas.
- Se calhar não podia, estás a ver, e é isso é que faz confusão.
Aqui houve outro silêncio, mas Adelaide ouviu a rapariga mexer-se, sentiu-se mais intrusa do que antes porque imaginou que eles se beijavam pela primeira vez.
- Olha, Bruno.
- É bonito.
- És capaz?
- Chega cá.
- Cuidado com o cabelo.
- Está quieta.
- Não consegues?
- É lixado de abrir.
- Não, tira, tira. Tens de puxar, se não, não dá.
- Onde é que arranjaste?
- Toma, dou-te. Para te lembrares de mim.
- Não.
- Sério, dou-te.
- Não quero, obrigado. É teu, fica com ele.
- Mas eu quero dar-to.
- Não gosto de usar coisas ao pescoço.
- Mas toda a gente usa.
- Só os maricas.
- Parvo.
-Não fiques chateada, detesto usar coisas ao pescoço e pulseiras e essas merdas.
- Está bem, não uses dá cá.
Uma pausa. E depois, ele:
- Achas que se duas pessoas gostarem muito uma da outra, depois de morrerem , quando entram noutro corpo, encontram a pessoa de quem gostaram na vida anterior?
- Isso queria dizer que pelos tempos fora as duas pessoas andavam sempre uma com a outra, era capaz de ser um bocado monótono. Não havia grande variedade, estás a ver. Acabavam por não aprender nada.
- Mas se elas se sentissem bem uma com a outra... E se cada uma tivesse vivido várias vidas, já não seriam as mesmas pessoas.
- Se não eram as mesmas, porque haviam de se encontrar outra vez?
Era evidente que tinha ficado magoada com a recusa dele. A curiosidade de Adelaide aguçava-se, porque aquela era uma primeira ferida, que exigia um primeiro tratamento. Mas o rapaz também compreendera que só avançando podia reparar o mal. E disse, violento:
- Pois eu não quero cá voltar. Nem sequer quero cá ficar por muito tempo. Digo-te, já fiz um pacto comigo mesmo, vou-me embora se a minha vida não melhorar.
- Vais-te embora para onde?
- Logo vês.
- Está-se assim tão mal no Grande Forte do Silêncio?
- Fortaleza. Segurança Máxima. Cada vez pior. Quando se mexem, nem que seja ao de leve, acho que se vão atirar um contra o outro e que se vão despedaçar. Tipo Luta de Titãs. Mas agora os dragões já não lançam chamas. Recolheram as garras, pôs-se cada um no seu canto, nem se olham, só rosnam quando um entra no espaço do outro . Ao jantar, tremo o tempo todo. Fica-me a comida entalada numa bola na garganta, não passa. Penso : é agora, ele vai atirar-lhe com a faca do bife, é agora, ela vai estrangulá-lo com o guardanapo.
- Não podes estar sempre a pensar neles. Tens de pensar na tua vida.
- Com o peso daquelas duas almas em cima de mim? Não consigo pensar em nada.
- E as tuas irmãs?
- Risinhos, galinhas.
- Não te podes chatear tanto. Não ligues, finge que não existem.
- Quem não vai existir sou eu.
- Cala-te com isso. Se começas a pensar assim, a certa altura até já achas normal e isso é perigoso.
- Mas queres que eu te diga ou não queres saber?
Ela calou-se. Em baixo, Adelaide dividia-se : uma era a médica de hospital competente perante a ameaça de suicídio, a outra a vencida, silenciosa perante os ecos da escada. Depois ouviu, incrédula, o ronco do elevador. Alguém subia, alguém com o poder de fazer andar o mesmo elevador que se recusara a transportá-la. Olhou para o relógio, eram quatro e dez, o seu primeiro impulso não foi esconder-se dos miúdos, mas temer por eles qualquer interrupção, o medo que alguém mais viesse ouvir o que diziam . Alguém, quem sabe, que não tivesse conquistado, sentado na pedra fria, com os joelhos gelados e fixos, o mérito de os ouvir. Ficaram todos calados à espera de que o elevador parasse, o que fez, todo insólito, encravando a meio de dois andares. Adelaide calculou que em breve se ouviria um restolhar de gente, gritos de socorro, murros na porta. Mas ninguém chamou. E, passado pouco tempo, ela pôs o fenómeno na classe das coisas que acontecem sem razão alguma, descarga arbitrária de electricidade ou poltergeist de trazer por casa, e estava a tentar mudar silenciosamente a posição das pernas, esticando-as uma a uma lentamente e mimando-as de massagens calorosas, quando a rapariga disse:
- Os meus também não são fáceis de aturar, o que é que imaginas? A maior parte do tempo até parece que estavam melhor sem mim, ficam ali todos melados, olhos nos olhos, e vão-se fechar no quarto, outra lua-de-mel, Adélia? E lá vão eles, nem lhes ponho a vista em cima. E a minha mãe já a ouvi dizer que gosta de mim, claro que gosta, sempre sou filha, mas que se eu não tivesse nascido era igual. A ver se eu me ralo.
- Não contes isto a ninguém - pediu ele. - Fiz este pacto. Dei a Deus um ano para melhorar as coisas. Se Ele não quiser, e não o fizer, vou para debaixo do comboio.
- Achas que Deus está preocupado contigo?
- Problema Dele.
- Porque não te atiras antes de um penhasco? Último voo para Paris.
Ele calou-se. Estava magoado.
- Olha - disse ela .- Estou toda arrepiada.
Adelaide imaginou-a a mostrar o braço ao amigo, no escuro. Ele teria de lhe fazer uma festa para a sentir gelada. De repente, sem razão nenhuma, levantaram-se e começaram a descer as escadas, depressa, comendo degraus. Num instante chegavam ao patamar onde Adelaide, apanhada de surpresa, tentava compor uma imagem credível, procurando decidir se devia levantar-se e fingir que vinha agora mesmo a subir as escadas ou que se encontrava adormecida como qualquer vagabundo vulgar sem outro sítio onde passar a noite. Resolveu ignorá-los. Deixou-se estar sentada a olhar em frente, os braços rodeando os joelhos, contemplando, sonhadora, a janela e a chuva que continuava a cair lá fora . Só mexeu a cabeça para que o cabelo lhe tapasse a cara. Ouviu-os chegar e estacar a um passo dela, era mais que certo que trocavam algum olhar que ela não quis ver.
Inclinou o tronco para se chegar ainda mais ao corrimão e alargar o espaço da passagem. Sentiu os poderosos cheiros deles, os ténis molhados, o tilintar de mochilas e percebeu que o rapaz se adiantava, de cabeça baixa, as costas curvadas, fugindo nas pernas muito altas . Mas a rapariga voltara-se para encarar Adelaide, com um pé em cima e o outro dois degraus abaixo, o que lhe dava um aspecto provocante de pegador de touros. Levantando os olhos para ela, Adelaide sentiu-se um fantasma, uma alma que ainda não fora para lado nenhum . Mas a rapariga não mostrava medo, nem qualquer espécie de perplexidade. Via-se que o sobrenatural não a impressionava. Curvando a cabeça até quase tocar a cara de Adelaide, com um sorriso, levou um dedo à boca a impor silêncio.

in Império do Amor, Tinta Permanente, 2001