06/12/2011

A carreira do sr. Colleret

légendes de SAINT NICOLAS

Seria Soissons, Montdidier, Saint-Quentin ou talvez Laon — quem sabe? — a cidade onde, no dia 25 de dezembro de 1808, o Imperador Napoleão, no apogeu do poder e da glória, foi de Compiègne presidir à inauguração de um novo quartel. Esse pormenor não tem importância, nem vale a pena verificá-lo. Aliás, é costume, quando se transforma em conto uma história verdadeira, mudar cautelosamente os nomes do lugar e as datas, a fim de tornar os heróis irreconhecíveis; e nós não queremos faltar a essa tradição.
O que é de indiscutível autenticidade é que, na véspera desse dia, a cidade feliz que se preparava para receber o “senhor do mundo” vivia na agitação e na febre que precedem os grandes acontecimentos. À entrada da cidade erguia-se um arco de triunfo, de lona pintada, rematado por uma grande águia dourada de bico recurvo, obra do decorador do teatro municipal. Outro arco, todo de baionetas, coronhas de espingarda e pistolas, fora preparado pelos militares da guarnição no pátio do novo quartel. Entre essas duas portas triunfais, ao longo de todo o percurso que Sua Majestade havia de fazer a pé, estavam dispostos troféus e bandeiras, grinaldas de hera e de carvalho, salpicadas de vistosas flores de papel de cor e presas a mastros encimados por lampiões.
No dia 24, véspera do grande dia, já todas as autoridades da região tinham chegado à cidade. As estalagens estavam repletas, não havia família grada da terra que não hospedasse em sua casa algum visitante de categoria. Uma proclamação do prefeito convocara toda a legião dos funcionários. Do mais elevado ao mais obscuro, todos deviam comparecer à chegada do imperador e formar cortejo atrás dele, desde a entrada da cidade até ao novo quartel. E era por isso que o Sr. Colleret, naquela véspera de Natal, à noite, estava muito ocupado em escovar a sua melhor sobrecasaca e limpar mais uma vez os sapatos menos desgastados que tinha.
O Sr. Colleret era um rapaz de vinte e quatro anos, escriturário de classe inferior na repartição das finanças; recebia de ordenado oitocentos francos, parte dos quais lhe era descontada por uma caixa de aposentadoria, muito solícita do seu bem-estar futuro... Não tinha proteções nem esperança de promoção, embora fosse um empregado modelo, pontual, exato e escrupuloso. Não possuía nenhum protetor influente, e portanto era pouco distinguido pelos chefes.
Nos seus sonhos mais ambiciosos, sua mais alta perspectiva era terminar seus dias administrativos, ao fim de trinta anos de trabalho, como diretor de finanças, com 1800 francos de vencimento.
Por isso o Sr. Colleret não estava lá muito alegre ao limpar nessa noite, sozinho no seu miserável quarto alugado, os pobres sapatos de verniz. Pensava noutras noites já distantes, em que também limpava os sapatos como agora. Mas então era para ir pô-los na chaminé, na certeza de que o Menino Jesus passaria por ali durante a noite, para lhe deixar coisas bonitas. Quem viria naquele Natal fazer-lhe surpresa assim? Que divindade benfazeja se lembraria dele? No entanto, ao deitar-se, por uma espécie de superstição, embora soubesse muito bem que nada tinha a esperar, deixou os sapatos um pouco mais longe da cama e um pouco mais perto da chaminé do que habitualmente. Na manhã seguinte, ao acordar, foi encontrá-los vazios como os deixara na véspera, e quase teve uma decepção. Vestiu-se, entristecido.
Lá fora os tambores rufavam. Ouviam-se ao longe as bandas militares que percorriam a cidade, e da rua subia o rumor da multidão de camponeses, que iam chegando sem cessar das aldeias vizinhas e circulavam de boca aberta, para ver as bandeiras e as ornamentações.
A concentração dos funcionários estava marcada para as dez horas. O Sr. Colleret, como era seu hábito, foi pontual. Na praça, diante do arco de triunfo, as autoridades formavam já um grande semicírculo. O grupo importante compreendia, além do prefeito, do presidente da Câmara e do chefe da Polícia, o presidente do tribunal da comarca, os conselheiros, o procurador-geral, toda a magistratura envergando a toga. Havia generais, professores universitários, dois bispos; depois, formando as alas desse corpo central, os inspetores dos serviços florestais, os chefes das repartições, os juízes de paz, os párocos; e os cargos diminuíam de importância à medida que se afastavam do grupo central. Nas extremidades do semicírculo ficavam os empregados da alfândega, os comandantes dos bombeiros, os fiscais e apontadores de obras públicas, e por fim, fechando o brilhante conjunto, a multidão humilde dos escriturários.
O Sr. Colleret, o mais ínfimo deles, ocupava a extremidade da fila. Não era homem para se salientar, e deixou-se ficar modestamente no lugar que lhe competia. Como esse lugar era o último de todos, estava encostado a um dos pilares do arco triunfal e via à sua frente as pessoas graúdas do importante grupo central, onde não conhecia ninguém, congratularem-se uns com os outros pela festa, trocarem apertos de mão e cumprimentos, tudo num esplendor de uniformes de gala, de togas vermelhas e de casacas bordadas.
O dia estava encoberto e pesado, o céu de chumbo prometia temporal. De repente, ouviu-se ao longe troar o canhão; houve um remoinho entre os altos funcionários, e todos ocuparam os seus lugares hierárquicos; breves ordens de comando e ruídos de armas correram ao longo das fileiras da tropa; passaram a galope alguns oficiais de sabre nu, e quase logo a seguir, com um ruído de trovão, apareceram a trote largo, aprumados na sela, de pistolas em punho, os cavaleiros da escolta. Atrás deles cavalgava sozinho um mameluco, de turbante e alfanje na mão, depois os batedores com a libré imperial, e por fim a berlinda do imperador, tirada a três parelhas montadas por sotas de casaca verde. A carruagem parou bem por debaixo do arco, entre gritos de “viva o imperador!”, rufar de tambores, palmas e fanfarras. Um estribeiro correu para a portinhola, desdobrou o estribo e Napoleão surgiu, de cara franzida sob o pequeno chapéu lendário, trazendo por cima do uniforme um capote verde com rebuço de pele.
Sabendo de antemão que ninguém repararia nele, o humilde amanuense esticava o pescoço para não perder o espetáculo. Estava a dois passos do imperador, e pôde vê-lo descer penosamente da carruagem e pôr pé em terra, a resmungar. Colleret quase poderia jurar que ouvira sair da boca imperial uma formidável praga, engrolada a meia voz. E ali ficou, pasmado de ver tão de perto o grande homem, quando de repente se sentiu bruscamente agarrado pelo braço, e quase cambaleou. Custou um tanto a retomar o aprumo, e quando voltou a si da surpresa, viu que era o imperador em pessoa quem lhe dava a honra insigne de utilizar a sua insignificante pessoa como ponto de apoio.
Primeiro, julgou que ia desmaiar, tão grande foi a sua emoção ao sentir no braço a mão do conquistador; tinha a cabeça em fogo e os ouvidos zumbiam; o coração galopava no peito, e mal conseguiu ouvir as últimas palavras do discurso que o prefeito, agora mais próximo, pronunciava em voz soluçante de emoção.
O imperador, esse, não ouviu nem uma frase. Conservava-se imóvel, sempre encostado ao braço do amanuense, e olhando obstinadamente para a biqueira das botas. Com expressão furiosa, de cabeça baixa, não prestou atenção às arengas que, à queima-roupa, lhe dispararam sucessivamente um dos prelados e o presidente do tribunal.
Por fim os discursos acabaram e formou-se o cortejo. Um chanceler, com profunda reverência, deu a entender a Sua Majestade que chegara o momento de fazer a entrada solene na cidade e se dirigir para o quartel. E viu-se então este espetáculo extraordinário: o imperador, sem largar o braço do seu trêmulo companheiro, pôs-se a caminho, cada vez mais apreensivo; sem ouvir nenhuma das obsequiosas explicações que o prefeito prodigamente lhe dava, caminhava falando sem cessar com o Sr. Colleret, que inclinava a sua alta estatura para melhor recolher as palavras saídas da boca do semi-deus.
Pouco a pouco, a discrição, o respeito e o espanto impuseram silêncio e reserva a toda a gente. O cortejo retardou o passo, para não perturbar a conversação do imperador com o jovem escriturário; este, por seu lado, ia recuperando progressivamente o sangue-frio, e respondia em frases breves às confidências de Sua Majestade. E foi assim que se passou toda a cerimônia. Chegado ao novo quartel, Napoleão, sempre pelo braço de Colleret, subiu as escadas, percorreu salas, palmilhou corredores, desceu às caves, atravessou paradas, sem deixar de conversar com o seu acólito, sem lançar o mínimo olhar às instalações que assim inaugurava de tão estranha forma, e seguido a distância respeitosa pelo rebanho dos altos funcionários, mudos de surpresa e palpitantes de curiosidade.
Por fim, a visita acabou. O imperador voltou para a berlinda e despediu-se do modesto empregado, sem mais rodeios do que usara para o abordar. Instalou-se na carruagem, acenou com a mão às autoridades quase prosternadas e, enquanto novamente os tambores rufavam e o canhão troava, afastou-se, ao galope dos seus seis cavalos, pela estrada de Compiègne.
Na praça, assim que a carruagem imperial desapareceu, formou-se em volta de Colleret um grupo compacto. Faziam-lhe perguntas, empurravam-se para o ver melhor, procuravam descobrir o motivo do favor especial que ele acabava de merecer. Colleret permanecia impenetrável, com ar pensativo, sem dúvida mal refeito da estupefação. O prefeito, num tom cheio de unção e doçura, sussurrou-lhe ao ouvido um convite para o banquete dessa noite. O general comandante da divisão apertou-lhe calorosamente as mãos. O presidente do tribunal pediu-lhe que fosse na semana seguinte caçar nas suas terras. Colleret não sabia para que lado se havia de voltar. Cumprimentava, sorria, apertava as mãos que lhe estendiam.
Mas, a esta pergunta cem vezes repetida — “que lhe disse o Imperador?” — obstinava-se em responder, com ar de modesta discrição:
— Oh! Coisas muito pessoais...
Nessa noite, na prefeitura, trataram-no nas palmas das mãos. A mulher do prefeito abriu o baile pelo seu braço. Era bonita, parisiense e coquette, e julgou que venceria facilmente a reserva do pequeno amanuense, mas nada conseguiu saber. No dia seguinte, ao chegar à repartição, o Sr. Colleret foi chamado ao gabinete do chefe, funcionário habitualmente muito rebarbativo, e que nesse dia foi encantador, esforçando-se por arrancar ao funcionário, com mil gentilezas e palavrinhas doces, o segredo da misteriosa conversa da véspera. O subordinado foi impenetrável, o que não o impediu — antes, pelo contrário — de se tornar em poucos dias o ídolo do mundo oficial. Os convites choveram: bailes, caçadas, jantares. Não o dispensavam em nenhuma festa. As senhoras mais inacessíveis davam-lhe atenção.
Pela abundância dos convites, acabou relaxando as funções no emprego, e por isso foi promovido: em dois anos, passou de simples amanuense a inspetor. Todos porfiavam em lhe adivinhar os mínimos desejos. Não precisava requerer, nada tinha a solicitar, bastava viver... Foi proposto para ser condecorado, e o prefeito deslocou-se de propósito a Paris, para lhe apressar a promoção. Em 1814, Colleret era sub-diretor.
Mas, ai! Com a queda do Império as coisas mudaram de figura. O diretor de Colleret, que de repente passara da extrema afabilidade à extrema rispidez, desembaraçou-se dele, mandando-o para um posto afastado e difícil. Tendo reclamado contra esta decisão, colocaram-no em disponibilidade. Conseguiu no entanto ser readmitido na administração pública, mas numa categoria inferior à que antes ocupava.
Durante trinta e seis anos não recebeu um centavo de aumento. Desempenhou as funções mais desagradáveis, nas terras mais detestadas. Mandaram-no como fiscal de impostos para Orchies; dali, sem promoção, para Saint-Jean-pied-de-Port; depois, ainda como fiscal, desterraram-no para Binic, donde foi despachado para Embrun, ainda e sempre como fiscal. Impassível, o Sr. Colleret não esboçava a menor queixa. Com intervalos de dois ou três anos ia a Paris, fazia no ministério as diligências indispensáveis, e voltava com um sorriso irônico nos lábios, mas sem jamais obter qualquer melhoria de situação.
Esperava-o, entretanto, a mais retumbante desforra.
Veio a Revolução de 1848, logo seguida da eleição do príncipe Luís Napoleão para a presidência. Colleret era nessa altura fiscal em Port-de-Bouc. Por telegrama, foi nomeado inspetor em Versalhes, e de repente a sua carreira oficial, interrompida desde 1814, recomeça brilhante, inesperada, extravagante: em 1852 é diretor em Nantes; dois anos depois, nomeado conselheiro de Estado, recebe a roseta das mãos de Napoleão III; e morreu aos oitenta e oito anos, como membro do Conselho Privado, senador e grã-cruz da Legião de Honra.
Alguns meses antes da sua morte, um dos sobrinhos do Sr. Colleret foi encontrá-lo um dia na sua poltrona, pensativo como de costume, e tendo ao canto dos lábios esse sorriso irônico que nunca perdia. Tinha o ar de satisfação de um homem que foi espectador da sua própria vida e assistiu à mais desopilante das comédias. Nesse dia estava em maré de confidência, e como evocasse o início da sua carreira e o incidente estranho que lhe alterara a sorte, perguntou ao sobrinho:
— Queres saber o que me disse o imperador?
O rapaz era todo ouvidos, como se pode calcular. O Sr. Colleret continuou:
— Só há uma coisa indispensável para viver bem neste mundo: conhecer os homens. E se hoje te revelo o meu segredo, é na esperança de que esta revelação possa vir a ser-te útil. As coisas passaram-se assim. Logo que me agarrou no braço, Napoleão resmungou, falando menos para mim do que para desabafar: “Ah! maldito calo! Não consigo percorrer essas casernas, se não for agarrado a ti!”
Tinha dado o braço a mim, estás percebendo, como poderia tê-lo dado a outro qualquer. Coincidiu que fosse eu, porque a insignificância da minha pessoa me valera o último lugar na fila dos funcionários, por isso mesmo ao lado da porta da carruagem quando o imperador desceu. Ele tinha uma dor horrível no pé, mas não queria coxear. Pendurava-se literalmente em mim, e nunca ouvi pragas como as que soltava cada vez que punha o pé dolorido no chão. Fixei palavra por palavra algumas das frases que me disse, e transmito-as a ti religiosamente:
— Ah! — rosnava entre dentes — fizeram-me as botas apertadas! E duras, também!... Já não há cabedal capaz, nessa terra. Vocês aqui têm boas peles? Nunca teve calos? Quando eu era alferes, tive umas botas estupendas. Era vitela muito maleável, fornecida pelo correeiro da Escola Militar. Com aquelas, nem uma calosidade, nem nada! Fui de Valence a Port-Saint-Esprit com essas botas, sem uma única bolha! Aquilo é que era vitela excelente... Excelente!
Tudo isto, como deves calcular, entremeado de pragas, de queixas, de recriminações contra Daquin, o seu sapateiro — até guardei o nome. — Explosões de cólera contra os funcionários que não tiravam os olhos de nós, contra os discursos e os cumprimentos, e sobretudo contra o novo quartel, que ele mandava a todos os diabos... Posso garantir que não me disse outra coisa; separou-se de mim sem um agradecimento, nunca chegou a saber o meu nome, e nunca mais o tornei a ver.
O resto foi muito simples: não tive mais nada a fazer, senão calar-me. Nessa mesma noite, o meu futuro ficou assegurado. Todos imaginavam fazer a corte ao imperador, só por cobrirem de atenções e favores “o protegido de Napoleão”. As notas de louvor acumularam-se no meu processo... Mas o governo da Restauração foi desencantá-las, e exagerou-as em sentido inverso. Todos os anos se acrescentavam à minha folha de serviços novos comentários deste gênero: “Bonapartista incorrigível; era íntimo do usurpador; recebeu as confidências do Ogre da Córsega”, etc. De modo que, quando o Império voltou, após trinta e seis anos de interregno, eu estava naturalmente designado para figurar entre os mais favorecidos, é claro, pois um homem que teve a sua carreira cortada, só por dedicação à causa imperial...
E o velho acrescentava, sorrindo mais uma vez:
— Sabes? Quem já é muito velho volta a menino... E agora, que já tive tempo de refletir maduramente no que me aconteceu, tenho a certeza — ouça bem! — a certeza absoluta de que foi o Menino Jesus que arranjou tudo. Lembro-me perfeitamente... Na véspera desse dia de Natal que havia de decidir tão inesperadamente da minha sorte, depois de ter limpo os sapatos, tive a idéia de os pôr na chaminé, como fazia em pequeno. Foi um resto de fé, de superstição infantil. Devo dizer que o fiz sem confiança, em parte para troçar de mim próprio, para escarnecer tolamente da minha miséria e da minha solidão; e no dia seguinte, ao acordar, julguei que os sapatos estavam vazios, que o Menino Jesus não tinha vindo trazer-me nenhum presente. Enganava-me. Tinha-me posto tudo aquilo ali, mas eu é que não via...
E o Sr. Colleret, enquanto dizia isso, apontava para o grande cordão vermelho e para a casaca bordada de senador, que um criado preparava para a recepção dessa noite no Paço. Por instantes pareceu comovido, mas depressa retomou a costumada expressão irônica:
— E tudo por ter, durante uma hora, servido de bengala a Napoleão. Como já não tenho o que temer, agora posso dizer sem perigo: fui sempre um realista ferrenho...


G. Lenôtre,
“Lendas de Natal”
Verbo, Lisboa, 1966