29/11/2011

Red



O mestre meteu a mão num dos bolsos das calças e, com alguma dificuldade por os bolsos não serem dos lados mas à frente e ele ser corpulento, tirou de lá um grande relógio de prata. Olhou para o relógio e depois de novo para o sol que declinava. O canaca que estava ao leme olhou-o de relance, mas não disse nada. O mestre ficou a olhar a ilha de que se aproximavam. Uma linha de espuma branca marcava o recife. Ele sabia que havia uma abertura suficientemente larga para o barco passar e estava a contar vê-la quando se aproximassem um pouco mais. Ainda tinham mais uma hora de sol. Na laguna as águas eram profundas e podiam lá ancorar em segurança. O chefe da aldeia que ele já conseguira ver no meio dos coqueiros era amigo do contramestre, e seria agradável ir passar a noite em terra. Nesse preciso momento o contramestre aproximou-se e o mestre voltou-se para ele.
“Levamos uma pinga e arranjam-se umas moças para dançar,” disse ele.
“Não consigo descobrir a passagem,” disse o contramestre.
Era canaca e um tipo bem parecido, moreno, com algo de imperador romano, quase se podia dizer corpulento, mas com feições finas e regulares.
“Tenho a certeza absoluta de que há uma mesmo por aqui,” disse o mestre a olhar pelo binóculo. “Não percebo por que é que não consigo dar com ela. Um dos homens que suba ao mastro e dê uma olhadela.”
O contramestre chamou um dos homens da tripulação e deu-lhe a ordem. O mestre ficou a ver o canaca a trepar e esperou que ele dissesse qualquer coisa. Mas o canaca gritou para baixo a dizer que não conseguia ver nada a não ser a linha contínua de espuma. O mestre sabia falar samoano como um nativo e praguejou com ele com todo o à-vontade.
“Ele fica lá em cima?” perguntou o contramestre.
“Que raio é que ele lá fica a fazer?” respondeu o mestre. “O palerma não vê um palmo à frente do nariz. Podes apostar que se eu estivesse lá em cima descobria logo a passagem.”
Olhou com raiva o esguio mastro. Para um indígena toda a vida habituado a trepar aos coqueiros era tudo muito fácil. Mas ele estava gordo e pesado.
“Desce daí,” gritou. “Um gato morto fazia o mesmo que tu. Temos de ir andando ao longo do recife até encontrarmos a passagem.”
O barco era uma escuna com motor auxiliar e quando não havia vento de proa navegava a quatro ou cinco nós por hora. Era uma coisa com ar enxovalhado; fora pintada de branco havia muitos anos, mas agora estava suja, cheia de lama e de manchas de várias cores. Cheirava muito a petróleo e também a copra, que era a sua carga habitual. Estavam agora a trinta metros do recife e o mestre disse ao homem do leme para ir andando ao longo do recife até encontrarem a passagem. Mas depois de terem andado duas milhas concluiu que já deviam ter passado por ela sem dar por isso. Deu a volta e voltou a passar devagar. A espuma branca do recife continuava sem interrupção e o sol já estava a pôr-se. Praguejando e amaldiçoando a estupidez da tripulação o mestre acabou por se resignar a esperar pela manhã seguinte.
“Vira,” disse ele. “Não podemos ancorar aqui.” Afastaram-se um pouco para o mar aberto e o dia agora já estava bastante escuro. Ancoraram. Depois da vela recolhida, o barco começou a balançar bastante. Em Ápia dizia-se que um dia o barco acabaria por se virar; e o armador, um germano-americano que tinha uma das maiores lojas de lá costumava dizer que não sairia naquele barco por dinheiro nenhum. O cozinheiro, um chinês de calças brancas muito sujas e esfarrapadas e uma fina bata branca veio dizer que o jantar estava pronto, e quando o mestre entrou na cabine já encontrou o maquinista sentado à mesa. Era um homem alto, magro, de pescoço descarnado. Estava de fato-macaco azul e de camisola sem mangas que deixava ver os seus finos braços cobertos de tatuagens do cotovelo ao pulso.
“Raios, temos de passar a noite ao largo,” disse o mestre.
O maquinista não respondeu e começaram a comer em silêncio. Um fosco candeeiro de petróleo iluminava a cabina. Depois de comerem os damascos de conserva com que terminaram a refeição, o chinês trouxe-lhes uma chávena de chá. O mestre acendeu um charuto e saiu para o convés superior. A ilha agora não era mais do que uma massa mais escura contra o fundo escuro da noite. As estrelas brilhavam muito. O vaivém da ressaca era o único som que se ouvia. O mestre afundou-se numa cadeira de convés e fumou ociosamente. Pouco depois três ou quatro membros da tripulação vieram sentar-se por ali. Um deles trazia um banjo e outro uma concertina. Começaram a tocar e um deles cantava. Aquela música indígena parecia estranha tocada naqueles instrumentos. Depois dois dos homens começaram a dançar ao som da música. Era uma dança bárbara, selvagem e primitiva, rápida e de movimentos bruscos das mãos e dos pés e contorções do corpo; era sensual e mesmo erótica, mas erótica sem paixão. Era muito animal, directa, estranha sem mistério, em suma, natural, e poderia até dizer-se infantil. Por fim ficaram cansados. Deitaram-se no convés e adormeceram, e tudo ficou silencioso. O mestre levantou-se pesadamente da cadeira e com esforço desceu a escada do convés. Entrou na sua cabine e despiu-se. Trepou para o beliche e deitou-se. Suspirou um pouco com o calor da noite.
Na manhã seguinte, quando a aurora rastejava lentamente por sobre o mar tranquilo, a abertura no recife, que os iludira na noite anterior podia ver-se agora um pouco para oriente do sítio onde se encontravam. A escuna entrou na laguna. Não havia o mínimo movimento na superfície das águas. Bem fundo, por entre as rochas de coral, viam-se pequenos peixes coloridos a nadar. Depois de ter ancorado o barco, o mestre tomou o pequeno almoço e foi para o convés. O sol brilhava num céu sem nuvens, mas o ar naquelas primeiras horas da manhã estava agradável e fresco. Era domingo e notava-se uma sensação de sossego, um silêncio, como se a natureza estivesse em descanso, o que a ele lhe deixava uma peculiar sensação de bem-estar. Sentou-se a olhar a costa arborizada e sentiu-se indolente e tranquilo. Pouco depois os lábios abriram-se-lhe num sorriso lento e atirou o charuto para a água.
“Acho que vou a terra,” disse ele. “Manda arriar o bote.”
Desceu a escada muito direito e levaram-no no bote até uma pequena enseada. Os coqueiros vinham quase até à água, não em fileiras, mas espaçados numa disposição muito ordenada. Pareciam um grupo de ballet de solteironas, já de idade mas ainda desenvoltas, com ar postiço e de uma elegância afectada de outros tempos. Deambulou por entre elas ao longo de um carreiro de que apenas se via o serpentear e que o levou pouco depois até um largo ribeiro atravessado por uma ponte, mas uma ponte feita de simples troncos de coqueiro, uma dúzia deles, colocados longitudinalmente e assentes sobre um ramo bifurcado enterrado no leito. Caminhava-se sobre uma superfície redonda e macia, estreita e escorregadia, e não havia qualquer apoio para as mãos. Atravessar uma ponte assim requeria pé firme e coração resistente. O mestre hesitou. Mas viu do outro lado, escondida no meio das árvores, a casa de um branco; decidiu-se e com extremo cuidado começou a caminhar. Ia muito atento a onde punha os pés e no sítio onde dois troncos se uniam e havia uma diferença de nível cambaleou um pouco. Foi com um suspiro de alívio que chegou à última árvore e por fim pôs o pé em terra firme no outro lado. Fora sempre tão absorto naquela difícil travessia que nem reparou em alguém a observá-lo e foi com surpresa que ouviu uma pessoa a falar-lhe.
“É preciso alguma coragem para atravessar pontes destas quando não se está habituado.”
Ergueu o olhar e viu um homem de pé à sua frente. Era evidente que tinha saído da casa que ele já tinha avistado.
“Vi-o a hesitar,” continuou o homem com um sorriso nos lábios, “e fiquei a observá-lo a ver se caía na água.”
“Nem morto,” disse o mestre, que já recuperara a confiança.
“Eu já lá caí. Lembro-me de uma noite em que voltava da caça e caí, com arma e tudo. Agora arranjo um rapaz para me levar a arma.”
Era um homem que já não era novo, com uma curta barba já meio grisalha e rosto magro. Estava de camisola interior sem mangas e calças de cotim e sem sapatos nem meias. Falava inglês com um ligeiro sotaque.
“O senhor chama-se Neilson? perguntou o mestre.
“Sim, é esse o meu nome.”
“Já ouvi falar de si. Calculei que devia viver algures por aqui.”
O mestre seguiu o seu anfitrião para dentro do pequeno bangaló e sentou-se pesadamente na cadeira que o outro lhe indicou. Enquanto Neilson se ausentou para ir buscar whisky e copos deu uma vista de olhos à sala. Ficou espantado. Nunca tinha visto tantos livros juntos. As prateleiras iam do chão ao tecto nas quatro paredes e os livros estavam todos bem apertados. Havia também um piano de cauda cheio de músicas e uma grande mesa onde se amontoavam livros e revistas. Aquela sala deixava-o constrangido. Lembrou-se de que Neilson era um tipo esquisito. Pouco se sabia sobre ele, embora já vivesse nas ilhas há tantos anos, e os que o conheciam concordavam que ele era realmente esquisito. Era sueco.
“O senhor tem aqui um enorme monte de livros,” disse ele quando Neilson voltou.
“Não fazem mal a ninguém,” respondeu Neilson com um sorriso.
“Já os leu todos?” perguntou o mestre.
“A maioria.”
“Eu também leio alguma coisa. Recebo regularmente o Saturday Evening Post.”
Neilson serviu ao visitante um bom copo de whisky forte e ofereceu-lhe também um charuto. O mestre explicou-se espontaneamente.
“Cheguei aqui a noite passada mas não consegui descobrir a passagem e tive de ancorar lá fora. Nunca tinha feito esta rota, mas a minha gente tinha algum material que queria trazer para aqui. O Gray, conhece-o?”
“Conheço, tem uma loja um pouco mais adiante.”
“Bem, ele queria grande quantidade de enlatados e tem alguma copra. Pensaram que eu podia bem vir até aqui em vez de ficar em Ápia sem fazer nada. O meu serviço é sobretudo entre Ápia e Pago-Pago mas eles têm lá a varíola e está tudo parado.
Bebeu um gole e acendeu o charuto. Era um homem taciturno, mas Neilson tinha qualquer coisa que o deixava nervoso e o nervoso fazia-o falar. O sueco olhava para ele com os grandes olhos escuros em que havia uma leve expressão de divertimento.
“O senhor arranjou aqui uma bela casinha.”
“Fiz o melhor que pude.”
“As árvores devem ser bem tratadas. Têm bom aspecto. Com o preço a que está a copra. Eu também já tive uma plantação, era em Upolu, mas tive de a vender.”
Olhou de novo à sua volta naquela sala onde todos aqueles livros lhe deixavam uma sensação de qualquer coisa incompreensível e hostil.
“Mas o senhor deve achar isto aqui um pouco solitário,” disse ele.
“Já me habituei. Já aqui vivo há vinte e cinco anos.”
E agora o mestre já não encontrava mais nada para dizer e continuou a fumar em silêncio. E Neilson aparentemente não quis quebrá-lo. Olhava para o seu visitante com ar pensativo. Era um homem alto, mais de metro e oitenta, e muito corpulento. Tinha a cara vermelha e manchada, com uma teia de pequenas veias avermelhadas nas faces e as suas feições mergulhavam na gordura do rosto. Tinha os olhos raiados de sangue. O pescoço estava enterrado em refegos de gordura. Era quase completamente calvo, apenas com uma franja de compridos cabelos encaracolados, quase brancos, na parte de trás da cabeça; e aquela enorme testa a brilhar, que lhe poderia dar um falso ar de inteligência, dava-lhe, pelo contrário, um ar de particular imbecilidade. Trazia uma camisa de flanela azul aberta no pescoço, a deixar ver o peito gordo coberto de um tufo de pêlos ruivos, e umas calças já velhas de sarja azul. Estava sentado na cadeira numa postura indolente e desajeitada, com a enorme barriga atirada para a frente e as pernas gordas descruzadas. Os seus membros tinham perdido toda a elasticidade. Neilson perguntava-se que tipo de homem teria ele sido na juventude. Seria quase impossível imaginar que aquela criatura com todo aquele vasto volume tivesse alguma vez sido um rapaz para grandes correrias. O mestre acabou o seu whisky e Neilson empurrou a garrafa para o pé dele.
“Sirva-se.”
O mestre inclinou-se para a frente e pegou na garrafa com a sua enorme mão.
“Mas afinal como é que o senhor veio parar aqui a estes lados?” perguntou ele.
“Oh, eu vim para aqui para as ilhas por motivo de saúde. Os meus pulmões estavam mal e disseram-me que eu já não tinha um ano de vida. Como vê, enganaram-se.”
“O que eu queria dizer é como é que veio assentar aqui mesmo, neste sítio em particular?”
“Sou um sentimental.”
“Oh!”
Neilson sabia que o mestre não fazia ideia do que ele queria dizer e olhou-o com uma centelha de ironia nos seus olhos escuros. Talvez por o mestre ser uma pessoa tão bronca, deu-lhe para continuar a falar.
“O senhor estava demasiado ocupado a procurar manter o equilíbrio para reparar, quando ia a atravessar a ponte, mas este sítio é geralmente considerado muito bonito.”
“É gira, esta casinha que o senhor arranjou aqui.”
“Ah, mas ela não estava aqui quando eu cá cheguei. Havia aqui uma cabana indígena com o seu telhado de colmo e os seus pilares, à sombra de uma grande árvore com flores vermelhas; e o bucho de crotão com as suas folhas amarelas, vermelhas e douradas fazia uma vedação colorida ao seu redor. E a toda a volta os coqueiros extravagantes como as mulheres e tão vaidosas como elas, que passavam os dias à beira-mar a olhar para a sua imagem na água. Eu era novo nessa altura - meu Deus, isto já foi há um quarto de século - e queria desfrutar de toda a beleza do mundo no pouco tempo que me restava antes de mergulhar nas trevas. Achava que este era o lugar mais belo que já vira. A primeira vez que o vi senti um baque no coração e tive medo de começar a chorar. Não tinha mais do que vinte e cinco anos e embora encarasse os factos da melhor maneira possível não queria morrer. E, de alguma maneira, parecia-me que a própria beleza deste lugar fazia com que aceitasse facilmente o meu destino. Quando aqui cheguei tive a sensação de que toda a minha vida passada tinha desaparecido, Estocolmo, a universidade e depois Bona: tudo isso me parecia a vida de outra pessoa, como se agora eu tivesse finalmente atingido a realidade sobre que os nossos doutores em filosofia - eu sou um deles, sabe - já tanto discutiram. 'Um ano,' exclamei eu para mim mesmo, 'só tenho um ano de vida. Vou passá-lo aqui e assim morrerei satisfeito.' Aos vinte anos nós somos tolos, sentimentais e melodramáticos, mas se assim não fosse, talvez fôssemos menos sensatos aos cinquenta. Agora, beba, meu amigo. Não deixe que os meus disparates interfiram consigo.”
Apontou para a garrafa com a fina mão e o mestre bebeu o que restava no copo.
“O senhor não está a beber nada,” disse ele pegando na garrafa.
“Eu sou uma pessoa de hábitos sóbrios,” respondeu o sueco a sorrir. “Embriago-me de uma maneira que me parece mais subtil. Mas talvez isto seja apenas vaidade. De qualquer maneira, os efeitos são mais duradouros e as consequências menos perniciosas.”
“Dizem que agora nos Estados Unidos há muita gente a consumir cocaína,” disse o mestre.
Neilson soltou uma breve gargalhada abafada.
“Mas são tão poucas as vezes que eu vejo um branco,” continuou ele, “que por uma vez acho que uma gota de whisky não fará mal nenhum.”
Deitou um bocadinho no copo, adicionou-lhe soda e bebeu um gole.
“E passado pouco tempo descobri por que é que este sítio tinha este encanto tão pouco terreno. É que o amor morou aqui por algum tempo, qual ave migradora que poisa num barco no meio do mar e por instantes recolhe as asas exaustas. A fragrância de uma bela paixão pairou aqui como a fragrância de um espinheiro em Maio nos prados do meu país. Parece-me que os lugares onde os homens amaram ou sofreram conservam sempre um leve aroma a qualquer coisa que não morreu completamente. É como se tivessem adquirido um sentido espiritual que afecta misteriosamente aqueles que lá passam. Gostava de me poder fazer entender.” Sorriu um pouco. “Embora imagine que se o conseguisse o senhor não compreenderia.”
Fez uma pausa.
“Acho que este lugar se tornou belo porque, durante certo tempo, o êxtase do amor o encheu de beleza.” E encolheu os ombros. “Mas talvez seja apenas o meu sentido estético que se sente encantado com a feliz conjugação de um amor jovem com um cenário adequado.”
Mesmo a um homem menos bronco do que o mestre se perdoaria se ficasse confuso com as palavras de Neilson. Porque ele quase parecia rir do que estava a dizer. Era como se falasse com uma emoção que a razão achava ridícula. Ele próprio dissera que era um sentimental e quando o sentimentalismo se junta ao cepticismo fica tudo uma confusão.
Calou-se por instantes e olhou o mestre com uns olhos que revelaram uma súbita perplexidade.
“Sabe que não consigo deixar de pensar que já o vi algures,” disse ele.
“Não me lembro de alguma vez o ter visto,” respondeu o mestre.
“Tenho uma curiosa sensação, como se a sua cara me fosse familiar. Isto tem-me estado a intrigar. Mas não consigo situar a recordação nem em lugar nem em tempo nenhum.”
O mestre encolheu maciçamente os pesados ombros.
“Eu vim para as ilhas há trinta anos. Uma pessoa não se pode lembrar de toda a gente que conheceu em tão grande espaço de tempo.”
O sueco abanou a cabeça.
“O senhor sabe como às vezes a pessoa tem a sensação de que um lugar onde nunca esteve lhe é estranhamente familiar. É isso que eu sinto em relação a si.” Teve um sorriso bizarro. “Talvez eu o tenha conhecido numa outra existência passada. Talvez, talvez o senhor fosse o mestre de uma galera na antiga Roma e eu um escravo aos remos. Há trinta anos que vive cá?”
“Trinta anos vividos um a um.”
“Por acaso conheceu um homem chamado Red?”
“Red?”
“É o único nome por que eu sempre o conheci. Mas nunca o conheci pessoalmente. Nem nunca sequer lhe pus a vista em cima. E contudo parece-me vê-lo a ele com mais nitidez do que a muitas pessoas, aos meus irmãos, por exemplo, com quem passei a minha vida do dia a dia durante muitos anos. Ele vive na minha imaginação com a nitidez de um Paolo Malatesta ou de um Romeu. Mas atrevo-me a dizer que o senhor nunca leu Dante nem Shakespeare?”
“Mentia se lhe dissesse que sim,” disse o mestre.
Neilson, a fumar um charuto, recostou-se na cadeira e olhou vagamente para o anel de fumo que flutuou no ar parado. Um sorriso brincava-lhe nos lábios, mas o olhar era sério. Depois olhou para o mestre. Havia naquela grosseira obesidade qualquer coisa de extraordinariamente repelente. Tinha a auto-satisfação estuante própria dos muito gordos. Era um insulto. Deixava os nervos de Neilson em franja. Mas agradava-lhe o contraste entre o homem que tinha à sua frente e aquele que tinha na ideia.
“Parece que Red era a coisa mais donairosa jamais vista. Já falei com inúmeras pessoas que o conheceram nesses tempos, brancos, e todas concordam que a primeira vez que uma pessoa o via a sua beleza era de cortar a respiração. Chamavam-lhe Red por causa do seu cabelo flamejante. Era naturalmente ondulado e ele usava-o comprido. Devia ser daquela maravilhosa cor de que os Pré-Rafaelitas falavam com tanto entusiasmo. Não me parece que ele sentisse qualquer vaidade nisso; era ingénuo demais para tal, mas ninguém o poderia censurar se ele de facto a sentisse. Era alto, um metro e oitenta e tal - na cabana indígena que aqui estava havia uma marca da sua altura feita à navalha no tronco central que suportava o telhado - e a sua constituição era a de um deus grego, largo de ombros e fino de cintura; era como Apolo, justamente com aquelas formas suavemente arredondadas que Praxíteles lhe deu e aquela graça suave e feminina que contém algo de perturbador e misterioso. A pele era de uma brancura deslumbrante, leitosa, como cetim; era como a de uma mulher.”
“Eu próprio também tinha uma pele branquinha quando era rapaz,” disse o mestre, com um brilho nos olhos raiados de sangue.
Mas Neilson não lhe prestou atenção. Estava a contar a sua história e as interrupções deixavam-no impaciente.
“E o rosto dele era também belo como o corpo. Tinha olhos azuis, grandes, muito escuros, tão escuros que diziam alguns que eram negros, e ao contrário da maioria dos ruivos tinha sobrancelhas escuras e compridas pestanas também escuras. As feições eram perfeitamente regulares e a boca era como uma ferida escarlate. Tinha vinte anos.”
Neste ponto, o sueco fez uma pausa com um certo sentido do dramático. Bebeu um gole de whisky.
“Ele era único. Nunca houve ninguém mais belo do que ele. Tal como para um qualquer botão maravilhoso, era natural que florescesse numa planta silvestre. Foi um feliz acidente da natureza. Um dia aportou àquela mesma enseada onde o senhor ancorou hoje de manhã. Pertencia à Marinha de Guerra Americana e desertara de um navio em Ápia. Tinha convencido um qualquer nativo bem disposto a transportá-lo numa baleeira que por acaso seguia de Ápia para Sapoto e largaram-no aqui numa canoa. Não sei a razão por que desertou. Talvez a vida num vaso de guerra com todas as suas restrições o aborrecesse, talvez se tivesse metido em sarilhos, e talvez fossem os Mares do Sul e estas românticas ilhas que lhe penetraram na alma. De vez em quando apanham estranhamente um homem, que fica como uma mosca numa teia de aranha. É possível que houvesse nele um ponto fraco e que estas colinas verdes com o seu ar suave, este mar azul, lhe tivessem retirado a força nórdica como Dalila a tirou ao nazarita. Seja como for, ele queria esconder-se e pensou que ficaria bem seguro neste recanto solitário até o seu navio zarpar de Samoa. Na enseada havia uma cabana indígena e quando ele lá estava perto a pensar no próximo passo a dar, uma moça veio à porta e convidou-o a entrar. Ele não sabia mais do que duas palavras da língua indígena e ela outro tanto de inglês. Mas ele percebeu muito bem o que os sorrisos dela queriam dizer, bem como os seus belos gestos, e seguiu-a lá para dentro. Sentou-se numa esteira e ela ofereceu-lhe fatias de ananás para comer. De Red só posso falar do que ouvi dizer, mas a ela, vi-a três anos depois daquele primeiro encontro dos dois, e nessa altura ela não tinha mais do que dezanove anos. O senhor não imagina como ela era rara. Tinha a graça apaixonada do hibisco e a riqueza da sua cor. Era bastante alta, esbelta, com as delicadas feições da sua raça e olhos grandes como lagos de águas mansas sob as palmeiras; o cabelo negro encaracolado caía-lhe pelas costas abaixo, e usava uma grinalda de flores perfumadas. Tinha umas mãos encantadoras: eram tão pequenas, de formas tão raras que nos provocavam um baque no coração. E nesses tempos ela ria facilmente. Tinha um sorriso tão delicioso que nos punha as pernas a tremer. A pele era como um campo de trigo maduro num dia de verão. Meu Deus, como é que eu a posso descrever? Era demasiado bela para ser real. E aquelas duas jovens criaturas, ela tinha dezasseis anos e ele vinte, apaixonaram-se à primeira vista. Um amor real, não aquele amor que resulta da simpatia, de interesses comuns, de uma comunidade intelectual, mas amor puro e simples. Aquele amor que Adão sentiu por Eva quando acordou e a viu no jardim a olhá-lo de olhos orvalhados. Aquele amor que atrai os animais uns aos outros, e também os deuses. Aquele amor que faz do mundo um milagre. Aquele amor que dá à vida o seu sentido pleno. O senhor nunca ouviu falar daquele duque francês muito sensato e muito cínico que dizia que em dois amantes há sempre um que ama e outro que se deixa amar; é uma verdade amarga a que a maioria de nós tem de resignar-se. Mas de vez em quando, há dois que amam e se deixam amar. Nessa altura pode-se imaginar que o Sol pára, como aconteceu quando Josué orou ao Deus de Israel. E ainda hoje, passados todos estes anos, quando penso nestes dois, tão jovens, tão belos, tão simples, e no seu amor, sinto um baque. Sinto o coração despedaçado como em certas noites quando vejo a lua cheia num céu sem nuvens a brilhar sobre a laguna. Há sempre dor na contemplação da beleza. Eram duas crianças. Ela era boa, doce, gentil. Dele nada sei e gosto de pensar que nessa altura ele seria ingénuo e honesto. Gosto de pensar que a sua alma seria tão bela como o seu corpo. Mas atrevo-me a dizer que ele não teria mais alma do que as criaturas dos bosques e florestas que faziam cachimbos de cana e se banhavam nos ribeiros das montanhas quando o mundo era jovem e se podiam vislumbrar pequenas corças a galopar nas sendas da floresta sobre o dorso de barbudos centauros. A alma é um bem problemático e quando o homem a desenvolveu perdeu o Jardim do Paraíso. Bem, quando Red chegou à ilha tinha havido aqui pouco tempo antes uma daquelas epidemias que os brancos trouxeram para os Mares do Sul e um terço dos habitantes tinha morrido. Parece que a moça tinha perdido todos os seus parentes mais próximos e agora vivia em casa de uns primos afastados, onde havia um casal de velhos encarquilhados e curvados, duas mulheres mais novas e um homem e um rapaz. Ficou lá alguns dias. Mas talvez se sentisse demasiado perto da costa com a possibilidade de se cruzar com brancos que viessem a revelar o seu esconderijo, ou talvez os amantes não conseguissem suportar o facto de a companhia de outras pessoas lhes roubar um instante da delícia de estarem juntos. Um dia de manhã partiram os dois com os poucos haveres da moça e foram caminhando ao longo de um carreiro sob os coqueiros e coberto de ervas até chegarem a este ribeiro que o senhor vê. Tiveram de atravessar a ponte que o senhor atravessou e a moça ria alegremente porque ele estava com medo. Levou-o pela mão até chegarem à primeira árvore e nessa altura ele perdeu a coragem e teve de voltar para trás. Viu-se obrigado a despir a roupa toda antes de se arriscar, e ela levou-lha à cabeça. Instalaram-se na cabana vazia e aí ficaram. Se ela tinha alguns direitos sobre a cabana (a propriedade da terra nas ilhas é um assunto complicado) ou se o dono tinha morrido durante e epidemia, não sei, mas também ninguém lhes levantou a questão e eles tomaram posse dela. A mobília consistia em duas esteiras de palha onde eles dormiam, um fragmento de espelho e uma ou duas tigelas. Nestas deliciosas terras isto é o suficiente para iniciar uma vida doméstica. Costuma dizer-se que as pessoas felizes não têm história e um amor feliz certamente que a não tinha. Eles não faziam nada durante todo o dia, mas os dias pareciam demasiado pequenos. A moça tinha um nome indígena mas Red chamava-lhe Sally. Ele aprendeu o fácil dialecto rapidamente e deixava-se ficar deitado na esteira durante horas seguidas enquanto ela tagarelava com ele alegremente. Ele era um tipo calado e talvez o seu espírito fosse um tanto letárgico. Fumava incessantemente os cigarros que ela lhe fazia com folhas de tabaco e de pandano indígenas e ficava a observá-la enquanto com as destras mãos ela fazia esteiras de palha. Muitas vezes iam lá indígenas contar longas histórias dos velhos tempos quando a ilha era perturbada por guerras tribais. Às vezes ele ia pescar no recife de coral e trazia um cesto cheio de peixes coloridos. Outras vezes saía à noite com uma lanterna para apanhar lagostas. À volta da cabana havia bananas e Sally grelhava-as para a sua frugal refeição. Ela sabia fazer um delicioso sumo de coco e a fruteira-pão dava-lhes os seus frutos. Em dias festivos matavam um porquito e assavam-no sobre pedras quentes. Iam nadar os dois no ribeiro e à tardinha desciam até à laguna e iam remar numa canoa de grandes forquilhas. O mar era azul escuro, cor de vinho ao pôr do sol, como o mar da Grécia de Homero; mas na laguna a cor tinha uma variedade infinita de tonalidades, verde-azulado, ametista e esmeralda; e o sol poente tornava-a por instantes ouro líquido. Depois havia a cor do coral, castanho, branco, rosa, vermelho, púrpura; e as formas que ele tomava eram maravilhosas. Era como um jardim mágico e os peixes a nadar apressados eram como borboletas. Estranhamente, tudo aquilo carecia de realidade. Por entre os corais havia pequenas lagoas com chão de areia branca e aqui, onde a água era de uma limpidez deslumbrante, era muito bom tomar banho. Depois, refrescados e felizes, ao anoitecer voltavam para o ribeiro a vaguear sobre o macio carreiro de ervas, de mão dada, e agora os pássaros tropicais enchiam os coqueiros com o seu clamor. E depois a noite com aquele imenso céu a brilhar de ouro e que parecia alongar-se ainda mais do que os céus da Europa, e suaves brisas que sopravam levemente através da cabana aberta, a longa noite que outra vez se tornava curta demais. Ela tinha dezasseis anos e ele vinte. O amanhecer insinuava-se por entre os pilares de madeira da cabana e olhava aquelas crianças encantadoras a dormir nos braços uma da outra. O sol escondia-se por detrás das grandes folhas pintalgadas das bananeiras para não os incomodar e depois com brincalhona malícia disparava um raio dourado, como a pata estendida de um gato persa, sobre os seus rostos. Eles abriam os olhos sonolentos e sorriam a dar as boas-vindas a mais um dia. As semanas passaram a meses e um ano passou. Eles pareciam amar-se - hesito em dizer apaixonadamente, pois a paixão tem sempre em si mesma uma sombra de tristeza, um toque de amargura ou de angústia, mas de maneira tão sincera, tão simples, tão natural como naquele primeiro dia em que, olhando-se, descobriram que havia neles um deus. Se lhes tivessem perguntado, não tenho dúvida de que teriam considerado impossível imaginar que o seu amor alguma vez acabaria. Não sabemos nós muito bem que o elemento essencial do amor é a crença na sua própria eternidade? E contudo, talvez que em Red já houvesse uma pequeníssima semente, ainda desconhecida para ele próprio e insuspeitada pela moça, daquilo que com o tempo cresceria e se transformaria em enfado. Pois, um dia, um dos indígenas da enseada disse-lhes que na costa um pouco mais abaixo estava ancorado um navio baleeiro inglês. 'Eia!' disse ele, 'Talvez eu possa trocar cocos e bananas por meio quilo ou um quilo de tabaco.' Aqueles cigarros de pandano que Sally lhe fazia com mãos incansáveis eram bastante fortes e agradáveis mas deixavam-no insatisfeito e ele subitamente sentiu uma enorme ânsia por tabaco real, duro, forte, acre. Já não fumava uma cachimbada há muitos meses. A ideia fez-lhe crescer água na boca. Poderia pensar-se que um qualquer mau presságio teria levado Sally a tentar dissuadi-lo, mas ela estava de tal maneira possuída de amor que nunca lhe ocorreu que qualquer poder da terra pudesse tirar-lho. Embrenharam-se os dois nas colinas e colheram uma enorme cesta de laranjas silvestres, verdes, mas doces e sumarentas; e apanharam bananas que havia à volta da cabana e cocos dos coqueiros e fruta-pão e mangas; transportaram tudo para a enseada. Carregaram a instável canoa e Red e o indígena que lhes tinha trazido a notícia do barco remaram para fora do recife. Foi a última vez que ela o viu. No dia seguinte o rapaz voltou sozinho. Vinha lavado em lágrimas. Eis a história que ele contou: quando depois de muito remarem chegaram junto do navio e Red chamou, um branco espreitou por sobre a amurada e disse-lhes para subirem para bordo. Levaram a fruta que tinham trazido e Red empilhou-a no convés. Ele e o branco começaram a falar e pareceu que chegaram a um qualquer acordo. Um deles desceu e trouxe o tabaco. Red pegou logo num bocado e acendeu o cachimbo. O rapaz imitou o entusiasmo com que ele deitou pela boca uma grande nuvem de fumo. Depois disseram-lhe qualquer coisa e ele entrou na cabine. Pela porta aberta o rapaz, a observar tudo aquilo com grande curiosidade, viu aparecer uma garrafa e copos. Red bebia e fumava. Parecia que lhe estavam a perguntar qualquer coisa porque ele abanava a cabeça e ria muito. O homem, o primeiro que tinha falado com eles, também se ria muito e encheu o copo de Red mais uma vez. Continuaram a conversar e a beber e pouco depois já farto de estar a ver qualquer coisa que não lhe dizia nada o rapaz aninhou-se no convés e adormeceu. Acordaram-no com um pontapé. Levantando-se de um salto, viu que o navio ia já a sair lentamente da laguna. Viu Red sentado à mesa, com a cabeça pesadamente pousada sobre os braços a dormir profundamente. Fez um gesto na sua direcção com a intenção de o acordar, mas uma mão dura segurou-lhe o braço e um homem com ar encolerizado e palavras que ele não percebeu apontou-lhe a amurada. Ele gritou para Red, mas logo foi agarrado e atirado borda fora. Desesperado, nadou até à canoa que andava à deriva um pouco mais adiante e empurrou-a para o recife. Subiu para ela e sempre a soluçar remou para a praia. O que aconteceu era bastante óbvio. O baleeiro estava com falta de pessoal por simples deserção ou por doença e o mestre quando Red subiu a bordo quis contratá-lo; perante a sua recusa, embebedou-o e raptou-o. Sally ficou fora de si com o desgosto. Durante três dias não fazia senão chorar e gritar. Os indígenas faziam o que podiam para a confortar, mas ela não se resignava. Não comia. E depois, exausta, mergulhou numa triste apatia. Passava longos dias na enseada a olhar a laguna na esperança vã de que Red arranjaria uma maneira de escapar. Ficava sentada na areia branca horas a fio com as lágrimas a correrem-lhe pela cara abaixo e à noite arrastava-se penosamente a atravessar o ribeiro de volta à cabana onde tinha sido feliz. As pessoas com quem ela vivia antes de Red ter vindo para a ilha queriam que ela voltasse para eles, mas ela não quis; estava convencida de que Red havia de voltar e queria que ele a viesse a encontrar no mesmo sítio onde a deixara. Quatro meses depois, deu á luz um nado-morto e a velha indígena que viera ajudá-la no parto ficou com ela na cabana. Toda a sua alegria desaparecera. Se com o tempo a sua angústia se tornou menos intolerável, por outro lado, foi substituída por uma permanente melancolia. Nunca pensei que entre aquela gente, cujas emoções, embora muito violentas, são também muito passageiras, uma mulher fosse capaz de paixão tão duradoura. Ela nunca perdeu a convicção profunda de que mais cedo ou mais tarde Red voltaria. Estava sempre alerta e de cada vez que alguém atravessava aquela estreita pontezinha feita de coqueiros ela olhava. Podia ser ele finalmente.”
Neilson calou-se e deu um leve suspiro.
“O que é que lhe aconteceu por fim?” perguntou o mestre.
Neilson sorriu amargamente.
“Oh, três anos depois acabou por ir viver com outro branco.”
O mestre soltou uma gargalhada alarve e cínica.
“É isso que geralmente lhes acontece,” disse ele.
O sueco lançou-lhe um olhar de ódio. Não sabia a razão por que aquele homem gordo e bronco lhe provocava uma tão grande repulsa. Mas o seu pensamento começou a vaguear e o espírito encheu-se-lhe de recordações do passado. Recuou vinte e cinco anos. A altura em que ele veio para aquela ilha pela primeira vez, farto de Ápia das bebidas fortes, do jogo, e da grosseira sensualidade, um homem doente a tentar resignar-se com a perda de uma carreira que lhe incendiara a imaginação com ideias ambiciosas. Abandonou resoluto todas as suas esperanças de fazer um grande nome e procurou contentar-se com os pobres meses de uma vida cheia de cuidados, que era tudo aquilo com que ele podia contar. Estava hospedado em casa de um comerciante mestiço que tinha uma loja na costa duas milhas mais abaixo, junto a uma aldeia indígena; e um dia, quando andava a vaguear pelos caminhos relvados das matas de coqueiros foi ter à cabana onde Sally vivia. A beleza do lugar arrebatou-o de tal maneira que quase se tornou dolorosa, e depois viu Sally. Era a mais encantadora criatura que jamais vira e a tristeza naqueles magníficos olhos escuros afectou-o de maneira estranha. Os canacas eram uma raça formosa e a beleza não era rara entre eles, mas era uma beleza de animal bem talhado. Vazia. Mas aqueles olhos trágicos eram escuros de mistério e sentia-se neles a amarga complexidade da inquieta alma humana. O comerciante contou-lhe a história dela, que o comoveu.
“Acha que ele alguma vez vai voltar?” perguntou Neilson.
“Nem pensar. Repare, o barco só ficará pago daqui a dois anos e antes disso já ele a deve ter esquecido. Aposto que ele deve ter ficado furioso quando acordou e viu que tinha sido raptado e não me admiraria muito que quisesse mesmo bater em alguém. Mas teve de aguentar de cara alegre e acho que passado um mês já devia estar a pensar que ter deixado a ilha fora a melhor coisa que jamais lhe acontecera.”
Mas Neilson não conseguia tirar aquela história da cabeça. Talvez por estar fraco e doente a saúde radiante de Red excitava-lhe a imaginação. Como homem feio que ele próprio era, de aparência insignificante, prezava muito o donaire nas outras pessoas. Nunca estivera apaixonado por ninguém e certamente que nunca ninguém o amara apaixonadamente. A mútua atracção daqueles dois jovens dava-lhe um prazer muito singular. Tinha a inefável beleza do Absoluto. Voltou outra vez à cabana junto do ribeiro. Ele tinha um dom especial para as línguas e um espírito enérgico habituado ao trabalho e já tinha dedicado muito tempo ao estudo da língua local. Os velhos hábitos eram muito fortes nele e andava a recolher material para um jornal em língua samoana. A velha que partilhava a cabana com Sally convidou-o a entrar e sentar-se. Deu-lhe kava para beber e cigarros para fumar. Estava contente por ter alguém com quem conversar e enquanto ela falava ele olhava para Sally. Fazia-lhe lembrar a Psique do museu de Nápoles. As feições tinham a mesma pureza nítida de linhas e embora já tivesse dado à luz mantinha ainda um ar virginal.
Só depois de a ter visto duas ou três vezes é que conseguiu que ela falasse. E só para lhe perguntar se ele tinha visto em Ápia um homem chamado Red. Já tinham passado três anos desde o seu desaparecimento, mas era muito claro que ela continuava a pensar nele incessantemente.
Neilson não levou muito tempo a descobrir que estava apaixonado por ela. Só graças a um esforço da vontade é que conseguia evitar ir todos os dias até ao ribeiro, e mesmo quando não estava com ela, era o seu pensamento que lá estava. A princípio, vendo-se como uma pessoa moribunda, apenas pedia para olhar para ela e ocasionalmente ouvi-la falar, e o seu amor dava-lhe uma maravilhosa felicidade. Exultava com a pureza desse amor. Não queria nada dela a não ser a oportunidade de tecer à volta da sua encantadora pessoa uma teia de belas fantasias. Mas o ar puro, a temperatura amena, o descanso, a alimentação simples, começaram a ter um inesperado efeito na sua saúde. À noite a febre não atingia aqueles valores alarmantes, ele tossia menos e começou a aumentar de peso; esteve seis meses sem hemorragias e subitamente viu a possibilidade de que talvez conseguisse viver. Tinha estudado a doença cuidadosamente e crescia nele a esperança de que com muito cuidado talvez conseguisse deter o seu desenvolvimento. Animava-o a ideia de poder de novo ansiar pelo futuro. Fazia planos. Era evidente que qualquer tipo de vida activa estava fora de questão, mas podia viver nas ilhas e o pequeno rendimento que tinha, insuficiente em qualquer outro sítio, seria o bastante para se manter. Podia dedicar-se ao cultivo de coqueiros; isso dar-lhe-ia uma ocupação; mandaria buscar os seus livros e o piano; mas o seu espírito perspicaz percebeu que estava apenas a tentar esconder de si próprio aquele desejo que o obcecava. Queria Sally. Amava não só a sua beleza mas também aquela alma indistinta que ele adivinhava por detrás daqueles olhos sofredores. Intoxicá-la-ia com a sua paixão. No fim havia de conseguir fazê-la esquecer. E num êxtase de rendição imaginou-se a dar-lhe também a felicidade que ele pensara nunca voltar a conhecer mas que agora conseguira de maneira tão milagrosa. Pediu-lhe que vivesse com ele. Ela recusou. Já o esperava e não se deixou abater por isso, pois tinha a certeza de que mais cedo ou mais tarde ela acabaria por ceder. O seu amor era irresistível. Deu a conhecer à velha indígena os seus desejos e descobriu para surpresa sua que ela e os vizinhos, há muito sabedores, andavam a fazer tudo para a convencer a aceitar a sua proposta. Afinal, todas as indígenas gostavam de viver com um homem branco e Neilson, segundo os padrões da ilha, era um homem rico. O comerciante onde ele estava hospedado foi ter com ela e aconselhou-a a que não fosse tola; uma oportunidade daquelas não aparecia segunda vez e passado tanto tempo ela não podia já acreditar que Red alguma vez voltasse. A resistência da moça apenas fazia aumentar o desejo de Neilson e aquilo que fora um amor muito puro tornara-se já uma paixão angustiante. Estava determinado a remover qualquer obstáculo. Não deixou Sally em paz. Por fim, cansada da sua persistência e da persuasão ora suplicante ora zangada de toda a gente que a rodeava, ela cedeu. Mas no dia seguinte quando exultante ele foi falar com ela descobriu que durante a noite ela tinha deitado fogo à cabana onde Red e ela tinham vivido. A velha indígena correu para ele iradíssima com aquela ofensa de Sally. Mas ele afastou-a; aquilo não tinha importância nenhuma; construíam um bangaló no sítio onde era a cabana. Uma casa europeia seria realmente mais conveniente uma vez que ele queria mandar vir o piano e um grande número de livros.
E assim se construiu aquela pequena casa de madeira onde ele já vivia há muitos anos e Sally tornou-se a sua mulher. Mas após as primeiras semanas de arrebatamento durante as quais ela o satisfez com o que lhe deu, ele pouca felicidade conheceu. Ela rendera-se-lhe por enfado, mas só cedera naquilo a que não dava grande importância. A alma que indistintamente vislumbrara escapou-lhe. Sabia que ela não o amava. Continuava a amar Red e continuava sempre à espera do seu regresso. A um sinal seu, Neilson sabia que, a despeito do seu amor, da sua ternura, da sua simpatia, da sua generosidade, ela deixá-lo-ia sem hesitar um segundo. E nunca daria um segunda de atenção à sua tristeza. A angústia apoderou-se dele e martelava-lhe aquele impenetrável ego que lhe resistia soturnamente. O seu amor tornou-se amargo. Tentou enternecer-lhe o coração pela gentileza, mas ele continuava duro como antes; fingiu indiferença, mas ela nem deu por isso. Às vezes perdia a cabeça e insultava-a e depois ela chorava em silêncio. Chegava a pensar por vezes que ela não passava de uma fraude e aquela alma pura invenção sua e que ele não conseguia penetrar no santuário do seu coração simplesmente porque lá não havia santuário nenhum. O seu amor tornou-se uma prisão donde ele ansiava fugir, mas não tinha força suficiente para sequer abrir a porta - era só isso que era preciso - e ir para o ar livre. Aquilo era tortura e por fim, ele ficou entorpecido e desesperado. No fim o fogo extinguiu-se por si e quando ele lhe via por instantes os olhos postos naquela estreita ponte, não era já a raiva que lhe enchia o coração, mas a impaciência. Já há muitos anos que eles viviam juntos ligados apenas pelo hábito e pelas conveniências e era com um sorriso que ele agora recordava a sua velha paixão. Ela já era velha, pois as mulheres das ilhas envelhecem rapidamente e se ele já não lhe tinha amor nenhum, tinha ainda alguma tolerância. Ela deixava-o em paz. O piano e os livros bastavam-lhe.
Os seus pensamentos levaram-no a um desejo de palavras.”Quando agora olho para trás e penso naquele amor apaixonado de Red e Sally, acho que talvez eles devessem dar graças por o destino cruel os ter separado quando o seu amor parecia estar ainda no seu auge. Sofreram, mas sofreram em beleza. Foram poupados à verdadeira tragédia do amor.”
“Acho que não entendi,” disse o mestre.
“A tragédia do amor não é a morte ou a separação. Quanto tempo é que o senhor acha que seria preciso para que um deles deixasse de amar? Oh, é extremamente amargo olhar para uma mulher que se amou de alma e coração, que se amou tanto que sentíamos que não suportaríamos a sua ausência e perceber que agora não nos importaríamos de nunca mais a ver. A tragédia do amor é a indiferença.”
Mas enquanto estava a falar aconteceu uma coisa extraordinária. Embora dirigindo-se ao mestre, não estivera a falar com ele, estivera a pôr os seus pensamentos em palavras para si próprio e mesmo com os olhos postos no homem que tinha à sua frente, não o vira. Mas agora apresentou-se-lhes uma imagem, uma imagem não do homem que estava à sua frente, mas de outro homem. Era como se estivesse a olhar para um daqueles espelhos que distorcem as imagens, que nos tornam extraordinariamente atarracados ou escandalosamente alongados, mas neste caso era exactamente o contrário que acontecia e naquele velho feio e obeso ele vislumbrou um jovem. Lançou-lhe um rápido olhar escrutinador. Como é que um passeio meramente casual o trouxera precisamente àquele lugar? Um súbito tremor no coração quase o deixou sem fôlego. Uma suspeita absurda apoderou-se dele. O que lhe tinha ocorrido era impossível e contudo podia ser real.
“Como é que o senhor se chama?” perguntou abruptamente.
A cara do mestre franziu-se e ele deu uma gargalhada matreira. Depois ficou com um ar malicioso e extremamente ordinário.
“Já não o ouvia há tanto tempo que até já o tinha esquecido. Mas há trinta anos que aqui nas ilhas me chamam Red.”
O seu enorme corpo abanou quando ele deu uma gargalhada baixinho, quase silenciosa. Aquilo era obsceno. Neilson sentiu um arrepio. Red estava extremamente divertido e dos olhos raiados de sangue escorriam-lhe lágrimas pela cara abaixo.
Neilson suspirou, porque nessa altura entrou uma mulher. Era indígena, uma mulher com uma presença que como que se impunha, forte sem ser corpulenta, escura, pois as mulheres indígenas escurecem com a idade, de cabelos muito grisalhos. Trazia vestido um Mother Hubbard preto e tão fino que lhe deixava perceber os pesados seios. Chegara o momento.
Fez a Neilson uma qualquer observação sobre assuntos domésticos e ele respondeu, enquanto se perguntava sobre se a sua voz lhe soara a ela tão pouco natural como lhe soou a ele próprio. Ela lançou ao homem que estava sentado na cadeira junto da janela um olhar indiferente e saiu da sala. O momento chegara e partira.
Por instantes Neilson não conseguiu dizer palavra. Ficou estranhamente abalado. Depois disse:
“Dar-me-ia muito prazer se ficasse para jantar comigo. Daquilo que houver.”
“Não, obrigado,” disse Red. “Tenho de ir procurar o tal Gray. Entrego-lhe o material e depois vou-me embora. Quero estar de volta a Ápia amanhã.”
“Vou mandar um rapaz indicar-lhe o caminho.”
“Agradeço.”
Com esforço, Red levantou-se da cadeira enquanto o sueco chamava um dos rapazes que trabalhavam na plantação. Disse-lhe onde o mestre queria ir e o rapaz começou a atravessar a ponte. Red preparava-se para o seguir.
“Veja lá não caia à água,” disse Neilson.
“Não, nem morto.”
Neilson ficou a vê-lo atravessar e depois de ele desaparecer por entre os coqueiros continuou a olhar. Depois deixou-se cair na cadeira. Era então aquele o homem que não o deixara ser feliz? Era então aquele o homem que Sally amara todos aqueles anos e por quem tinha esperado tão desesperadamente? Tudo aquilo era grotesco. Uma súbita fúria apoderou-se dele e apeteceu-lhe saltar da cadeira e dar cabo de tudo o que estava à sua volta. Tinha sido enganado. Eles tinham-se finalmente encontrado e nem tinham dado por isso. Começou a rir desconsoladamente e o riso cresceu até se tornar histérico. Os deuses tinham-lhe pregado uma cruel partida. E agora já estava velho.
Por fim Sally entrou para lhe dizer que o jantar estava pronto. Ele sentou-se em frente dela e tentou comer. Perguntava-se sobre o que é que ela diria se ele agora lhe dissesse que aquele velho gordo que estivera sentado naquela cadeira era o amante que ela ainda lembrava com o deslumbramento da juventude. Há anos, quando ele a odiava por ela o fazer tão infeliz teria ficado radiante em lho dizer. Nessa altura queria magoá-la como ela o magoava a ele, pois aquele seu ódio era apenas amor. Mas agora já não lhe interessava. Encolheu os ombros com indiferença.
“O que é que esse homem queria?” perguntou ela pouco depois.
Ele não respondeu logo. Ela era já muito velha, uma indígena velha e gorda. Ele interrogava-se como é que pudera amá-la tão loucamente. Tinha posto a seus pés todos os tesouros da sua alma e ela ficara completamente indiferente. Um desperdício, e que desperdício! E agora quando olhava para ela só sentia desprezo. A sua paciência esgotara-se finalmente. Respondeu então à pergunta.
“É o mestre de uma escuna. Veio de Ápia.”
“E então?”
“Trouxe-me notícias de casa. O meu irmão mais velho está muito mal e eu tenho de regressar.”
“E ficas lá muito tempo?”
Ele encolheu os ombros.


Somerset Maugham
Red
in Collected Short Stories