29/09/2011

O Instinto Criativo



Suponho que só muito poucas pessoas sabem o que levou Mrs. Albert Forrester a escrever A Estátua de Aquiles; e como a obra foi considerada um dos grandes romances do nosso tempo, não posso deixar de pensar que um breve relato das circunstâncias que lhe deram origem deve ter interesse para os estudantes de literatura; e se, realmente, como os críticos dizem, se trata de uma obra que vai sobreviver, a narrativa que se segue, que pretende ser mais do que uma simples maneira de preencher uma hora de ócio, pode ser considerada pelo historiador do futuro como uma curiosa nota de rodapé para os anais literários dos nossos dias.
Claro que toda a gente se lembra do sucesso que foi a publicação de A Estátua de Aquiles. Mês após mês, os tipógrafos afadigaram-se a imprimir e os encadernadores, a encadernar, edição após edição; e as editoras, tanto na Inglaterra como na América, dificilmente conseguiam satisfazer as insistentes encomendas das livrarias. Foi imediatamente traduzido em todas as línguas europeias, e há pouco foi anunciado que brevemente será possível lê-lo em japonês e em urdu. Mas a obra já fora publicada, em forma de folhetim, em revistas de ambos os lados do Atlântico, e dos editores destas recebera já o agente da Senhora Forrester uma soma que só pode ser descrita como astronómica. O romance foi também dramatizado, e a peça esteve em cena durante toda uma época em Nova Iorque, e poucas dúvidas haverá de que, quando for produzida em Londres, irá ter um sucesso semelhante. Os direitos cinematográficos já foram vendidos por um elevado preço. Embora o montante que consta (nos círculos literários) que a Senhora Forrester terá recebido seja exagerado, não pode haver quaisquer dúvidas de que ela terá já ganho, só com este livro, o suficiente para a preservar, para o resto da vida, de qualquer preocupação de carácter financeiro.
Não é muitas vezes que um livro tem simultaneamente os favores do público e dos críticos, e o facto de ela, quem diria, ter (se assim se pode dizer) conseguido a quadratura do círculo deve ter sido para Mrs.Forrester tanto mais gratificante quanto é certo que, embora os críticos não lhe tivessem regateado elogios (que, claro, ela considerou como devidos), o público sempre ficara estranhamente indiferente aos seus méritos. Cada obra que publicava, fino volume lindamente impresso e encadernado em bocaxim branco, era saudado como uma obra prima, sempre a uma coluna, e nas críticas semanais, que só se encontram nas bibliotecas poeirentas de clubes muito antigos, mesmo até a página inteira; e todos os eruditos a liam e elogiavam. Mas aparentemente os eruditos não compram livros, e ela não vendia. Era realmente um escândalo que uma autora tão notável, com uma imaginação tão fina e um estilo tão raro fosse desprezada pelo povo. Na América era quase completamente desconhecida; e embora Mr.Carl van Vechten tivesse escrito um artigo admoestando duramente o público pelo seu embotamento, este continuou indiferente. O seu agente, caloroso admirador do seu génio, chantangeou um editor americano para aceitar duas das suas obras, recusando, caso contrário, ceder-lhe outras (romances baratos, sem dúvida) que ele muito desejava ter, e os dois livros foram publicados. A aceitação que tiveram por parte da imprensa foi lisonjeira e mostrou que na América os melhores espíritos eram sensíveis ao seu talento; mas quando chegou a vez do terceiro livro, o editor americano (com aqueles modos grosseiros que os editores têm) disse ao agente que preferia gastar todo o seu dinheiro disponível em gin sintético.
Depois de A Estátua de Aquiles, as obras anteriores de Mrs. Albert Forrester foram reeditadas (e Mr.Carl van Vechten escreveu outro artigo lembrando triste, mas firmemente que tinha chamado a atenção do mundo literário para os méritos desta excepcional escritora há quinze anos), e têm sido tão largamente publicitados que dificilmente poderão escapar à atenção do leitor culto. Desnecessária se torna, portanto, qualquer referência da minha parte, e que mais não seria do que batatas frias depois daqueles dois subtis artigos de Mr.Carl van Vechten. Mrs.Albert Forrester começou cedo a escrever. A sua primeira obra (um livro de elegias) apareceu quando ela era ainda uma donzela de 18 anos; e desde então, tem publicado de dois ou de três em três anos, porque tinha, da sua arte, uma ideia demasiado elevada para uma produção apressada, um volume ou de poesia ou de prosa. Quando A Estátua de Aquiles foi escrito, ela tinha atingido a respeitável idade de cinquenta e quatro anos, donde se concluirá prontamente que a quantidade das suas obras era já considerável. Dera já ao mundo meia dúzia de volumes de poesia, publicados com títulos em latim, como, Felicitas, Pax Maris e Aes Triplex, todos do género mais sério, porque a sua musa, avessa ao saltitar ligeiro e fantástico, pisava um caminho um tanto mais solene. Continuou fiel à Elegia, e o Soneto tomava muita da sua atenção; mas o que mais a distinguiu foi o facto de revivificar a Ode, uma forma de poesia que os poetas de hoje como que esquecem; e pode afirmar-se com segurança que a sua Ode ao Presidente Fallières irá ter um espaço em todas as antologias de poesia inglesa. É admirável não só pela sonoridade nobre dos seus ritmos, mas também pela sua feliz descrição das agradáveis terras de França. Mrs.Albert Forrester escreveu sobre o vale do Loire com as suas reminiscências de du Bellay, sobre Chartres e as janelas ornamentadas da sua catedral, das cidades soalheiras da Provence, com uma simpatia tanto mais notável quanto é certo que ela, em França, nunca foi além de Bolonha, que visitou, pouco depois de casar, numa excursão de barco de Margate. Mas o sofrimento físico provocado por um forte enjoo e a humilhação intelectual de descobrir que os habitantes daquela popular estância balnear não entendiam o seu francês fluente e idiomático fizeram com que resolvesse não se expor segunda vez a experiências que eram ao mesmo tempo inconvenientes e desagradáveis; e nunca mais se aventurou naquele elemento traiçoeiro que ela, contudo, cantou em versos graves, mas também doces (Pax Maris).
Há também umas belas passagens na Ode a Woodrow Wilson, e eu lamento que, devido a uma mudança nos seus sentimentos em relação àquele homem, sem dúvida, excelente, a autora decidisse não a reimprimir. Mas creio que terá de se admitir que a obra mais notável de Mrs.Albert Forrester foi em prosa.
Ela escreveu vários volumes de ensaios curtos, mas bem construídos, sobre assuntos tais como O Outono no Essex, A Rainha Victória, A Morte, A Primavera em Norfolk, A Arquitectura Georgiana, Monsieur Diaghileff e Dante; também escreveu obras, tão eruditas quanto bizarras sobre a Arquitectura Jesuíta do Século XVII e sobre o Aspecto Literário da Guerra dos Cem Anos. Foi a sua prosa que lhe granjeou aquele corpo de admiradores dedicados, poucos mas bons, como ela, com o seu dom para as expressões, dizia, que a proclamaram como o maior mestre da língua inglesa que este século vira. Ela própria confessava que o seu estilo, sonoro, porém rico, polido, porém eloquente, é que era o seu ponto forte; e só na prosa é que ela teve oportunidade de mostrar o humor delicioso, mas contido que os seus leitores achavam tão irresistível. Não era um humor de ideias, nem mesmo um humor de palavras; era muito mais subtil do que isso, era um humor de pontuação: num golpe de inspiração, ela descobrira as potencialidades cómicas do ponto e vírgula, e usou-o abundante e elegantemente. Ela conseguia colocá-los de tal maneira que se o leitor era uma pessoa de cultura não se ria propriamente às bandeiras despregadas, mas dava risadinhas deliciosas, e quanto maior a cultura mais deliciosas as risadinhas. Os seus amigos diziam que isto tornava todas as outras formas de humor grosseiras e exageradas. Vários escritores tinham tentado imitá-la; mas em vão: por muito que se dissesse sobre Mrs.Albert Forrester, tínhamos que admitir que ela conseguia extrair todo o humor do ponto e vírgula e ninguém se lhe podia comparar.
Mrs.Albert Forrester vivia num apartamento não muito longe de Marble Arch, o que reunia as vantagens de uma boa localização e uma renda moderada. Tinha uma sala de visitas elegante que dava para a rua, e um grande quarto de dormir para Mrs.Albert Forrester, uma sala de jantar um tanto escura nas traseiras, e um quartinho de dormir acanhado, pegado à cozinha, para Mr.Albert Forrester, que pagava a renda. Era na elegante sala de visitas que Mrs.Albert Forrester recebia, todas as terças-feiras à tarde, os seus amigos. Era um compartimento austero e recatado. Nas paredes um papel desenhado pelo próprio William Morris, e sobre este, em molduras lisas pretas, gravuras a mezzotinta coleccionadas antes de as mezzotintas se tornarem caras; a mobília era do período Chippendale, à excepção da escrivaninha, de características vagamente Luís XVI, e na qual Mrs.Albert Forrester escrevia as suas obras. Isto era referido aos visitantes da primeira vez que vinham visitá-la, e poucos a olhavam sem emoção. A carpete era espessa e a iluminação discreta. Mrs.Albert Forrester sentava-se um cadeirão de costas direitas forrado de damasco vermelho. Não havia nisto nada de ostentatório, mas como aquela era a única cadeira confortável da sala como que a colocava à parte e acima dos convidados. O chá era servido por uma mulher de idade indefinida, silenciosa e incolor, que nunca era apresentada a ninguém, mas que considerava um privilégio poupar a Mrs.Albert Forrester aquela fastidiosa tarefa. E Mrs.Albert Forrester ficava assim livre para se devotar inteiramente à conversa, e temos de concordar que a sua conversa era excelente. Não era animada; e uma vez que é difícil marcar a pontuação na linguagem oral, pode ter parecido a alguns sofrer de ligeira falta de humor, mas era de âmbito alargado, sólida, instrutiva e interessante. Mrs.Albert Forrester era versada em ciências sociais, jurisprudência e teologia. Tinha lido muito e a sua memória era fiel. Tinha um razoável dom para as citações, que são um prestável substituto da inteligência, e tendo conhecido mais ou menos intimamente, ao longo de trinta anos, muitíssimas pessoas notáveis, tinha muitas estórias para contar, o que fazia com tacto, não as repetindo mais do que seria perdoável. Mrs.Albert Forrester tinha o dom de atrair as mais variadas pessoas e podia acontecer encontrarmos na sua sala de uma só vez e ao mesmo tempo um ex-Primeiro Ministro, o proprietário de um jornal e o embaixador de uma grande potência. Sempre imaginei que estes notáveis lá iam porque pensavam que ali conviviam com a boémia, mas com uma boémia arrumada e limpa quanto baste para não correrem o risco de ficarem salpicados de sujidade. Mrs.Albert Forrester interessava-se muito pela política, e eu próprio ouvi um ministro dizer-lhe abertamente que ela tinha uma inteligência masculina. Ela já fora contra o direito de voto das mulheres, mas quando finalmente aquele foi reconhecido oficialmente, logo começou a brincar com a ideia de ir para o Parlamento. O seu problema era que não sabia qual dos partidos escolher.
— Afinal — dizia ela com um brincalhão encolher dos ombros um tanto maciços — eu não posso formar um partido de uma só pessoa.
Tal como muitos patriotas sérios, face à sua incapacidade de saber ao certo para que lado penderia a balança, manteve as suas opiniões políticas em suspenso; mas ultimamente estava definitivamente inclinada para o Partido Trabalhista, como a melhor esperança para o país, e se lhe oferecessem um lugar seguro é quase certo que ela não hesitaria em vir para campo aberto como campeã do proletariado oprimido.
A sua sala de visitas estava sempre aberta aos estrangeiros, checoslovacos, italianos e franceses, se eram pessoas notáveis, e americanos mesmo que pessoas obscuras. Mas não eram snobe, e raramente lá se encontrava um duque, a não ser que se tratasse de pessoa de carácter especialmente sério, e uma par do reino apenas se, além da sua categoria social, tivesse o salvo-conduto de qualquer pequena infracção social, como ter sido divorciada, ter escrito um romance, ou falsificado um cheque, que lhe pudesse dar direito à simpatia católica de Mrs.Albert Forrester. Não gostava muito dos pintores, que eram tímidos e calados; e os músicos não lhe interessavam: mesmo que se dispusessem a tocar, e se eram dos consagrados eram quase sempre muito relutantes, a música era um obstáculo para a conversa: se as pessoas queriam música podiam ir a um concerto; pela sua parte, preferia a música mais subtil da alma. Mas a sua hospitalidade para com os escritores, especialmente se eram promissores e pouco conhecidos, era calorosa e constante. Tinha dedo para os talentos a desabrochar e dos escritores famosos que de vez em quando bebiam uma chávena de chá com ela muito poucos haveria cujos primeiros esforços ela não tivesse encorajado e cujos primeiros passos ela não tivesse guiado. A sua própria posição estava já suficientemente assegurada para sentir inveja, e ouvira já muitas vezes a palavra génio ligada ao seu nome para sentir o mínimo traço de ciúme por o talento dos outros lhes trazer o sucesso material que lhe era negado a ela.
Mrs.Albert Forrester, confiante no julgamento da posteridade, podia dar-se ao luxo da indiferença. Com todos estes elementos, não admira que ela tenha conseguido criar qualquer coisa muito próxima de um salão francês do século XVIII, coisa que a nossa bárbara nação nunca conseguiu. Ser convidado para "comer um bolo e tomar uma chávena de chá na terça-feira" era um privilégio que poucos deixavam de reconhecer; e quando nos sentávamos na nossa cadeira Chippendale naquela sala discretamente iluminada, mas austera, não podíamos deixar de sentir que estávamos a viver história literária. O embaixador americano disse uma vez a Mrs.Albert Forrester:
— Uma chávena de chá consigo, Mrs.Forrester, é um dos maiores prazeres intelectuais que alguma vez me calharam em sorte.
Às vezes aquilo era, de facto, um pouco opressivo. O gosto de Mrs.Albert Forrester era tão perfeito, ela admirava tão inevitavelmente a coisa certa e fazia sobre ela a observação tão justa, que por vezes uma pessoa quase sufocava. Pela minha parte, achava prudente fortificar-me com um ou dois cocktails antes de me expor à atmosfera rarefeita da sua companhia. De facto, eu estive quase a ser afastado para sempre da sua companhia, porque uma tarde, apresentando-me à porta, em vez de perguntar à criada que a abriu, "Mrs.Forrester está?", perguntei, "Hoje há serviço religioso?"
Claro que isto foi dito inadvertidamente, mas por pouca sorte a criada deu um risinho abafado e uma das admiradoras mais devotadas de Mrs.Albert Forrester, Ellen Hannaway, estava, por acaso, no hall, nesse momento, a descalçar as galochas. Contou à minha anfitriã o que eu tinha dito antes de entrar na sala, e quando entrei Mrs.Albert Forrester fixou-me com um olhar de lince.
— Por que é que o senhor perguntou se hoje havia serviço religioso ? — perguntou ela.
Expliquei que estava distraído, mas Mrs.Albert Forrester fixou-me com um olhar que só posso descrever como constrangedor.
— O senhor pretende insinuar que as minhas reuniões são… — procurou a palavra — sacramentais?
Eu não sabia o que é que ela queria dizer, mas não mostrei a minha ignorância diante de tantas pessoas inteligentes e decidi que a única coisa a fazer era pegar na faca e na manteiga.
— As suas reuniões são exactamente como a Senhora, cara Mrs.Forrester, perfeitamente belas e perfeitamente divinas.
Um ligeiro estremecimento percorreu o corpo robusto de Mrs.Albert Forrester. Ficou como uma pessoa que entra subitamente numa sala cheia de jacintos; o perfume é tão forte que quase fica a gaguejar. Mas recompôs-se.
— Se o senhor estava a tentar gracejar — disse ela — preferia que o fizesse com os meus convidados e não com as minhas criadas… Miss Warren vai servi-lhe o chá.
Mrs.Albert Forrester despediu-me com um gesto da mão mas não esqueceu o assunto, porque nos dois ou três anos seguintes sempre que me apresentava a alguém nunca deixava de acrescentar:
— Deve aproveitá-lo o mais que puder, que ele só aqui vem em penitência. Quando chega à porta pergunta sempre: Hoje há serviço religioso? Tão engraçado, não é?
Mas Mrs.Albert Forrester não se limitava aos chás semanais: todos os sábados dava um almoço a oito pessoas; isto de acordo com a sua opinião de que este é o número ideal de pessoas para uma conversa generalizada e também porque a sua sala de jantar não comportava mais. Se de alguma coisa Mrs.Albert Forrester se gabava não era de que o seu conhecimento da prosódia inglesa era único, mas de que os seus almoços eram famosos. Ela escolhia os seus convidados com cuidado, e um seu convite para um deles era mais do que um cumprimento, era uma consagração. À mesa do almoço era possível manter a conversa a um nível mais elevado do que no grupo heterogéneo de um chá e poucos serão os que terão saído da sua sala de jantar sem levarem com eles uma crença ainda maior nas capacidades de Mrs.Albert Forrester e uma fé mais viva na natureza humana. Ela só convidava homens uma vez que, grande entusiasta do seu sexo como ela era, e satisfeita com os encontros com mulheres noutras ocasiões, não podia deixar de saber que elas à mesa se inclinavam para falar exclusivamente dos seus vizinhos e assim impedirem aquela troca generalizada de ideias que tornavam as suas reuniões um divertimento não só para o corpo, como também para a alma. Porque tem que ser dito que Mrs.Albert Forrester nos dava comida invulgarmente boa, excelentes vinhos e charutos de primeira classe. Ora para qualquer pessoa que já tenha experimentado a hospitalidade literária isto deve parecer extremamente notável, dado que as pessoas do meio literário, na sua maior parte, pensam com elevação e vivem com vulgaridade; a sua mente anda ocupada com as coisas do espírito e não reparam que o cabrito assado está mal passado e as batatas, frias: a cerveja está muito bem, mas o vinho tem um efeito moderador, e não é muito sensato tocar no café. Mrs.Albert Forrester ficava bastante contente em receber elogios pela comida que fornecia.
— Se as pessoas me dão a honra de partilhar as minhas refeições — dizia ela — é muito justo que lhes dê comida tão boa como a que comem em casa.
Mas se o elogio era excessivo, ela desvalorizava-o.
— Os senhores estão a deixar-me constrangida ao dar-me um galardão que não me é devido. Devem é felicitar Mrs.Bulfinch.
— Quem é Mrs.Bulfinch?
— A minha cozinheira.
— Então ela é um achado, mas a senhora não quer certamente que acreditemos que é ela a responsável pelo vinho.
— É bom? Eu não entendo nada dessas coisas; entrego-me por inteiro nas mãos do meu fornecedor de vinhos.
Mas se alguém se referisse aos charutos, Mrs.Albert Forrester ficava radiante.
— Ah, sobre isso devem felicitar o Albert. O Albert é que escolhe os charutos e pelo que me dizem ninguém entende mais de charutos do que o Albert.
Olhava para o marido, sentado no outro extremo da mesa, com os olhos a brilhar de orgulho, como uma galinha de raça pura (uma Buff Orpington, de preferência) a olhar para o seu único pintainho. Havia então um ligeiro alvoroço na conversa, com os convidados, ansiosos por serem corteses para com o seu anfitrião e aliviados por finalmente terem ocasião para isso, a exprimirem a sua estima pelo seu particular mérito.
— São muito amáveis — dizia ele — ainda bem que gostam.
Depois ele fazia uma curta dissertação sobre os charutos, explicando a excelência que procurava e lamentando a deterioração de qualidade que se seguira à comercialização da indústria. Mrs.Albert Forrester ouvia-o com um sorriso complacente, e era evidente que apreciava o pequeno triunfo do marido. Claro que não se pode falar indefinidamente sobre charutos, e logo que ela percebia que os convidados começavam a ficar impacientes introduzia um tópico de interesse mais geral, e talvez de maior significado. Albert remetia-se ao silêncio. Mas tivera o seu momento de triunfo.
Era Albert que tornava os almoços de Forrester um pouco menos atractivos do que os seus chás, porque Albert era um maçador; mas, embora plenamente consciente do facto, sem dúvida, ela fazia questão que ele fosse aos almoços e tinha até escolhido os sábados (porque nos outros dias da semana ele estava ocupado) para que ele pudesse estar presente. Mrs.Albert Forrester sentia que a presença do seu marido nestas ocasiões festivas era uma dívida inevitável que ela pagava ao seu próprio respeito por si mesma. Ela nunca, por um descuido, admitiria ao mundo que casara com um homem que, espiritualmente, não era um seu par, e talvez se interrogasse, durante as suas vigílias silenciosas, se de facto se poderia encontrar um tal homem. Os amigos de Mrs.Albert Forrester não se preocupavam com tais dúvidas e diziam que era horrível que uma mulher como ela tivesse de suportar o fardo de um tal homem. Perguntavam-se entre eles como é que ela podia ter casado com ele e (sendo a maioria celibatários) respondiam desesperados que nunca ninguém sabia por que é que uma qualquer pessoa tinha casado com qualquer uma outra.
Não é que Albert fosse um maçador palavroso e agressivo; não era o género de nos agarrar pelo casaco para nos contar histórias intermináveis ou para nos importunar com piadas sem sentido; nem para nos crucificar com frases acacianas ou nos cansar com lugares comuns; ele era simplesmente tapado. Um zero. Clifford Boyleston, para quem os românticos franceses não tinham quaisquer segredos e que era, ele próprio, escritor de mérito, já dissera que quando se olhava para uma sala onde Albert tinha acabado de entrar não se via lá ninguém. Os amigos de Mrs.Albert Forrester consideraram isto muito inteligente, e Rose Waterford, a conhecida romancista e a mais corajosa das mulheres, aventurara-se a repeti-lo a Mrs.Albert Forrester. Embora pretendendo ter ficado aborrecida, não conseguira evitar que um sorriso lhe assomasse aos lábios. O seu comportamento para com Albert não podia deixar de aumentar ainda mais a consideração em que os seus amigos a tinham. Ela insistia que fosse o que fosse que pensassem dele, deviam tratá-lo com o decoro que era devido ao seu marido. O seu próprio procedimento era admirável. Se por acaso ele fazia qualquer observação, ela escutava-o com uma expressão agradável, e quando ele lhe ia buscar um livro que ela queria ou lhe emprestava o lápis para ela registar uma ideia que lhe ocorrera, agradecia-lhe sempre. E também não permitia que os amigos o esquecessem ostensivamente e, embora, pessoa com muito tacto como era, ela visse que seria pedir muito às pessoas ela andar sempre com ele, e saísse muito sozinha, os seus amigos sabiam, contudo, que ela esperava que eles o convidassem para jantar pelo menos uma vez por ano. Ele acompanhava-a sempre aos banquetes públicos quando ela ia discursar, e se ela dava uma palestra, tratava sempre de fazer com que ele tivesse lugar no estrado.
Albert era, parece-me, de estatura mediana, mas talvez por nunca se pensar nele senão em ligação com a mulher (de estatura avantajada) só se pensava nele como um homem pequenino. Ele era magro e frágil e parecia mais velho do que era de facto. Tinha a mesma idade da mulher. O cabelo, que ele trazia sempre muito curto, era branco e pouco abundante, e usava bigode, que era branco e muito espetado; tinha um rosto fino, estriado, sem qualquer característica particular; e os olhos azuis, que outrora deviam ter sido atraentes, eram agora pálidos e cansados. Andava sempre muito bem vestido, com calças mescladas, que ele escolhia sempre do mesmo padrão, casaco preto, e gravata cinzenta com um pequeno alfinete com uma pérola. Era extremamente discreto, e quando se encontrava na sala de visitas de Mrs.Albert Forrester para receber as pessoas que ela convidara para o almoço, reparava-se tanto nele como na elegante e sóbria mobília. Era um homem de boas maneiras, e era com um sorriso agradável e cortês que os cumprimentava com um aperto de mão.
— Come está? Tenho muito prazer em vê-lo — dizia ele se se tratava de amigos de certa posição. — Continua bem, espero?
Mas se eram desconhecidos notáveis que iam lá a casa pela primeira vez, ele ia até à porta, quando eles iam a entrar na sala, e dizia:
— Eu sou o marido de Mrs.Albert Forrester. Vou apresentá-lo a minha mulher. Conduzia então o visitante até onde Mrs.Albert Forrester se encontrava de costas para a luz, e ela, com um gesto de satisfação e ansiedade, avançava para dar as boas vindas ao desconhecido. Era agradável de ver o recatado orgulho que ele tinha na reputação literária da mulher e a discrição com que ele defendia os seus interesses. Estava sempre presente quando era desejado e nunca quando o não era. O seu tacto, se não deliberado, era instintivo. Mrs.Albert Forrester era a primeira a reconhecer os seus méritos.
— Não sei realmente o que faria sem ele — disse ela. — É inestimável para mim. Leio-lhe tudo o que escrevo e as suas críticas são-me por vezes muito úteis.
— Molière e o cozinheiro — disse Miss Waterford.
— Isso é para ter graça, querida Rose? — perguntou Mrs.Forrester um pouco ácida.
Quando Mrs.Albert Forrester não gostava de uma observação, falava de uma maneira que confundia muitas pessoas, perguntando-lhes se era uma graça densa demais para se perceber. Mas era impossível embaraçar Miss Waterford. Era uma senhora que no decurso de uma longa vida tinha tido muitas relações, mas uma só paixão, a tinta de impressão. Mrs.Albert Forrester, menos do que aceitá-la, tolerava-a.
— Ora, ora, minha querida — respondeu ela — sabe muito bem que ele não existiria sem si. Não nos conheceria. Deve ser extraordinário para ele poder contactar com todos as melhores cabeças e com todas as pessoas mais notáveis do nosso tempo.
— Talvez a abelha não vivesse sem o cortiço que a abriga, contudo a abelha tem a sua própria importância.
E como, embora versados em arte e literatura, pouco sabiam sobre história natural, os amigos de Mrs.Albert Forrester não tiveram resposta para esta observação. E ela continuou.
— Ele não se intromete na minha vida. Ele sabe inconscientemente quando não quero ser incomodada e, na verdade, quando eu estou a seguir um raciocínio acho a sua presença na sala reconfortante e não um entrave.
— Como um gato persa — disse Miss Waterford.
— Mas um gato persa muito bem educado, fino e bem treinado — respondeu Mrs.Forrester severamente, pondo assim Miss Waterford no seu lugar.
Mas Mrs.Albert Forrester ainda não tinha terminado.
— Nós, os intelectuais, — disse ela — estamos aptos a viver num mundo exclusivamente nosso. Nós estamos interessados no abstracto e não no concreto, e às vezes penso que observamos minuciosamente o mundo agitado dos problemas humanos de uma distância demasiado grande e de uma altura demasiado tranquila. Não acham que corremos o risco de nos tornarmos um tanto desumanos? Ficarei eternamente grata ao Albert porque ele me mantém em contacto com o homem da rua.
Foi por causa desta observação, a que nenhum dos seus amigos podia negar o raro discernimento e subtileza que caracterizavam tantas das suas afirmações, que durante um tempo Albert foi conhecido, naquele seu círculo mais restrito, como O Homem da Rua. Mas foi só por pouco tempo, e foi logo esquecido. Passou depois a ser conhecido por O Filatelista. Foi Clifford Boyleston, com o seu espírito malicioso, que inventou o nome. Um dia, cansada a sua pobre cabeça do esforço de manter uma conversa com Albert, perguntara-lhe em desespero:
— O senhor colecciona selos?
— Não, — respondeu-lhe Albert humildemente. — Não colecciono.
Mas mal acabara de fazer a pergunta, Clifford Boyleston viu as possibilidades que aquilo continha. Ele escrevera um livro sobre a tia de Baudelaire por afinidade, que atraíra a atenção de todos os que se interessavam pela literatura francesa, e era bem conhecido pelo facto de nos seus estudos exaustivos do espírito francês ter absorvido uma bela porção da vivacidade e do brilho galeses. Não ligou à negativa de Albert, e na primeira oportunidade informou os amigos de Mrs.Albert Forrester de que tinha finalmente descoberto o segredo de Albert. Ele coleccionava selos. E depois nunca o encontrava que não lhe perguntasse:
— Então, Mr. Forrester, como é que vai a colecção de selos? — Ou — Já comprou alguns desde a última vez que o vi?
Pouco importava que Albert continuasse a negar que coleccionava selos, a invenção era boa demais para ser desperdiçada; os amigos de Mrs.Albert Forrester continuavam a dizer que sim, que ele coleccionava selos, e raramente falavam com ele que lhe não perguntassem como iam as coisas. Mesmo Mrs.Albert Forrester, quando estava particularmente bem disposta, se referia às vezes ao marido como O Filatelista. O nome parecia de facto assentar-lhe como uma luva. Por vezes falavam assim dele mesmo à sua frente, e não podiam deixar de apreciar a bonomia como que ele aceitava aquilo; sorria sem ressentimento e acabou por nem sequer lhes retorquir que estavam enganados.
Claro que Mrs.Albert Forrester tinha um sentido social suficientemente apurado para prejudicar o sucesso dos seus almoços permitindo que os seus mais distintos convidados se sentassem ao lado de Albert. Ela tinha o cuidado de providenciar para que esses lugares fossem ocupados apenas pelos seus amigos mais antigos e mais íntimos e quando as vítimas designadas chegavam ela dizia-lhes:
— Já sabia que não se importam de ficar ao lado do Albert, não é verdade?
Eles só podiam dizer que ficariam encantados, mas se as suas expressões denunciassem claramente a sua consternação ela afagava-lhes a mão a brincar e acrescentava:
— Para a próxima ficam ao meu lado. O Albert é tão tímido com pessoas estranhas e os senhores sabem tão bem como lidar com ele.
Realmente sabiam: ignoravam-no simplesmente. Para eles, era como se a cadeira em que ele se sentava estivesse vazia. E ele não mostrava qualquer sinal de que o aborrecia o facto de não ter a atenção daquelas pessoas que afinal comiam aquilo que ele pagava, uma vez que os proventos de Mrs.Forrester não chegariam para oferecer salmão e aspargos aos seus convidados. Ficava quieto e calado e, se abria a boca era apenas para dar uma ordem a uma das criadas. Se um dos convidados era novo para ele, ficava a olhar para ele de uma maneira que seria embaraçosa senão fosse tão infantil. Parecia interrogar-se sobre o que seria aquela estranha criatura; mas que resposta aquele plácido escrutinar lhe dava nunca ele revelava. Quando a conversa ficava animada, olhava de uns para os outros dos falantes, mas também nada se poderia saber pelo seu rosto magro e estriado o que ele pensava das fantásticas ideias que eram lançadas de um lado para o outro da mesa.
Clifford Boyleston dizia que todo o espírito e sabedoria que ele ouvia lhe passava sobre a cabeça como água pelas costas de um pato. Desistira de tentar compreender e agora apenas aparentemente escutava. Mas Harry Oakland, o versátil crítico, dizia que Albert absorvia tudo; achava tudo maravilhoso, e com a sua pobre cabeça confusa tentava entender as coisas maravilhosas que ouvia. Claro que na City ele devia gabar-se das pessoas notáveis que conhecia, talvez ele aí fosse um farol dos saber e das letras, uma autoridade sobre o ideal; seria divino poder saber o que ele fazia de tudo aquilo. Harry Oakland era um dos mais fiéis admiradores de Mrs.Albert Forrester, e já escrevera um ensaio brilhante e subtil sobre o seu estilo. Com as suas feições belas e refinadas parecia um S. Sebastião que tivera um acidente com o seu restaurador de cabelo; porque ele era invulgarmente cabeludo. Era ainda muito jovem, tinha menos de trinta, mas fora já sucessivamente crítico teatral e crítico literário, crítico musical e crítico de pintura. Mas estava a ficar cansado da arte e ameaçava, no futuro, devotar os seus talentos à crítica desportiva.
Devo explicar que Albert trabalhava na City, e era uma pouca sorte que os amigos de Mrs.Forrester achassem que ela sustentava com meritória firmeza que ele nem rico era. Seria uma coisa muito romântica se ele fosse um príncipe mercador que tivesse nas mãos o destino de nações ou mandasse navios carregados de especiarias raras para aqueles portos do Levante cujos nomes deram a tantos poetas um ritmo tão rico e tão raro. Mas Albert era apenas um simples comerciante de groselha de que não se exigia mais do que proporcionar a Mrs.Albert Forrester uma vida com distinção e até com liberalidade. Como a sua actividade o prendia no escritório até às seis da tarde, nunca conseguia estar nas Terças-feiras de Mrs.Albert Forrester antes de os convidados mais importantes se terem ido embora. À hora a que ele chegava raramente havia na sala mais do que três ou quatro dos seus amigos mais íntimos a falar livremente e a gracejar sobre os convidados que tinham já saído, e quando ouviam Albert meter a chave na fechadura concluíam unanimemente que já era muito tarde. Ele abria logo a porta com os seus modos hesitantes e olhava calmamente para dentro. Mrs.Albert Forrester saudava-o com um sorriso brilhante.
— Entra, Albert, entra. Acho que já conheces toda a gente aqui.
Albert entrava e cumprimentava todos os amigos da mulher com um aperto de mão.
— Vens da City? — perguntava ela ansiosa, sabendo embora que ele não podia ter vindo de mais parte nenhuma. — Queres um chá?
— Não, obrigado, querida. Já tomei chá no escritório.
Mrs.Albert Forrester sorria-lhe ainda com mais brilho nos olhos, e o resto da companhia achava que ela era perfeitamente maravilhosa para com ele.
— Ah, mas eu sei que tu gostas de uma segunda chávena. Vou eu mesmo servir-to.
Dirigia-se para a mesinha do chá e, esquecendo-se de que o chá tinha sido feito há uma hora e meia e estava já completamente frio, enchia-lhe uma chávena e juntava o leite e o açúcar. Albert pegava na chávena com uma palavra de agradecimento e mexia-o docilmente, mas quando Mrs.Forrester retomava a conversa que a sua chegada interrompera, pousava calmamente a chávena sem o provar. A sua chegada era o sinal para pôr fim à reunião, e, um a um, os restantes convidados iam saindo. Certa vez, porém, a conversa era tão absorvente e o ponto em discussão tão importante que Mrs.Albert Forrester nem queria ouvir falar de se irem embora.
— Isto tem de ser resolvido de uma vez por todas — observou ela de uma maneira quase maliciosa — é um assunto em que o Albert deve ter uma palavra a dizer. Ouçamos a sua opinião.
Isto passou-se na altura em que as mulheres começaram a usar o cabelo curto e o assunto em discussão era se Mrs.Albert Forrester deveria ou não cortar o cabelo. Mrs.Albert Forrester era uma mulher cuja presença se impunha. Ela era larga de ossos, que estavam bem guarnecidos; se não fosse tão alta e forte poderia dar a impressão de corpulência. Mas ela transportava o seu peso com elegância. As suas feições eram um pouco maiores do que o natural, e era isto que, sem dúvida, lhe dava ao rosto aquele ar de intelectualidade viril que certamente tinha. A pele era escura e poder-se-ia pensar que ela tinha alguns vestígios de sangue levantino nas veias: ela confessava que não podia deixar de pensar que devia haver nela uma ascendência cigana e que isso, sentia ela, justificava aquela paixão selvagem e sem lei que caracterizava a sua poesia. Os olhos eram grandes, pretos e brilhantes, o nariz como o do grande Duque de Wellington, mas mais carnudo, e o queixo, quadrado e determinado. Tinha uma boca grande, com lábios vermelhos cheios que não deviam nada aos cosméticos, pois Mrs.Albert Forrester nunca condescendera a usar tal coisa; e o cabelo, espesso, forte e grisalho, era puxado para o cimo da cabeça de tal maneira que aumentava a sua já dominante estatura. Era uma mulher com um ar imponente, para não dizer alarmante.
Andava sempre vestida adequadamente, com tecidos ricos de tonalidade escura e tinha todo o aspecto de uma mulher de letras; mas à sua discreta maneira (afinal era humana e sensível à vaidade) seguia as modas e os seus vestidos estavam à moda. Parece-me que, durante um tempo, ela andou ansiosa por cortar o cabelo, mas achava que ficaria melhor fazê-lo a solicitação dos amigos do que de sua própria iniciativa.
— Oh, corte, corte — dizia Harry Oakland, com os seus modos ansiosos e infantis. — Ficava-lhe bem mas bem.
Clifford Boyleston, que andava agora a escrever um livro sobre Madame de Maintenon, tinha dúvidas. Achava que era uma experiência perigosa.
— Eu acho — disse ele limpando os óculos com um lenço de cambraia — eu acho que quando uma pessoa cria uma certa imagem deve conservá-la. Como é que Luís XIV ficaria sem a sua cabeleira?
— Eu estou muito hesitante — disse Mrs.Forrester. — Afinal, nós devemos acompanhar os tempos. Eu sou do meu tempo e não quero ficar para trás. A América, como disse Wilhelm Meister, é aqui e agora. — Voltou-se vivamente para Albert. — O que é que o meu mestre e senhor tem a dizer a isto? Qual é a tua opinião, Albert? Cortar ou não cortar, eis a questão.
— Eu acho que a minha opinião não é muito importante, querida — respondeu ele mansamente.
— Para mim é da maior importância — respondeu Mrs.Albert Forrester, lisonjeira.
Ela não podia deixar de ver a maneira maravilhosa como os seus amigos achavam que ela tratava O Filatelista.
— Insisto, — continuou ela, — insisto. Ninguém me conhece melhor do que tu, Albert. Vai-me ficar bem?
— Talvez, — continuou ele. — Só receio que com o teu aspecto de estátua o cabelo curto possa fazer lembrar… bem, digamos, a ilha grega onde a ardente Safo amou e cantou.
Houve uma breve pausa de embaraço. Rose Waterford abafou um risinho, mas os outros mantiveram um silêncio de pedra. O sorriso de Mrs.Forrester gelou-se-lhe nos lábios. Albert deixara cair uma bomba.
— Sempre achei Byron um poeta medíocre. — disse Mrs.Albert Forrester por fim.
A reunião acabou. Mrs.Albert Forrester não cortou o cabelo e nunca mais se tocou no assunto.


Foi já quase no fim de mais uma das terças-feiras de Mrs.Albert Forrester que se deu o acontecimento que tão grande importância teve na sua carreira literária.
Fora um dos seus chás mais bem sucedidos. Tinha lá estado o leader do Partido Trabalhista e Mrs.Albert Forrester tinha ido tão longe quanto podia, sem se comprometer definitivamente com uma confidência, de que estava decidida a tentar a sua sorte com o Partido. A altura era propícia e se ela queria lançar-se numa carreira política tinha de chegar a uma decisão. Clifford Boyleston trouxera com ele um membro da Academia Francesa e, embora ela soubesse que ele não tinha qualquer domínio do inglês, ficara muito grata ao receber dele um amável elogio pelo seu estilo floreado, mas cristalino.
Tinham lá estado o Embaixador Americano e um jovem príncipe russo que pareceria um gigolô, não fora o seu sangue genuinamente Romanoff. Uma duquesa, que se tinha divorciado recentemente do seu duque e casado com um jockey, tinha sido muito amável; e as suas folhas de morangueiro, embora secas e amarelas, emprestaram um certo tom à reunião. Houvera uma perfeita galáxia de luzes literárias. Mas agora já todos tinham ido embora à excepção de Clifford Boyleston, Harry Oakland, Rose Waterford, Oscar Charles e Simmons.
Oscar Charles era uma criatura pequenina, como um gnomo, jovem ainda, mas com a cara engelhada de um macaco astuto, de óculos dourados, e que ganhava a vida num departamento governamental mas passava o seu tempo livre em busca de literatura. Escrevia pequenos artigos para os semanários baratos e nutria um intrépido desprezo pelo mundo em geral. Mrs.Albert Forrester gostava dele, considerando que tinha talento, mas, embora ele sempre exprimisse a maior admiração pelo seu estilo (fora ele, aliás, que lhe dera o nome de mestra do ponto e vírgula), o seu azedume era tão generalizado que ela também como que o temia. Simmons era o seu agente; um homem de rosto redondo que usava lentes tão fortes que os olhos por detrás delas pareciam estranhos e deformados. Faziam lembrar os olhos de um qualquer crustáceo bizarro que tivéssemos visto num aquário. Ele vinha regularmente aos chás de Mrs.Albert Forrester, em parte porque tinha a maior admiração pelo seu génio, e em parte, também, porque, para ele, era de toda a vantagem conhecer ali possíveis clientes.
Mrs.Albert Forrester, para quem ele já trabalhava há longo tempo a troco de uma recompensa insignificante, não se arrependia de lhe proporcionar um pequeno ganho honesto, e tinha o cuidado de o apresentar, com calorosas expressões de gratidão, a quem quer que fosse que pudesse ter matéria literária para vender. Era com orgulho que ela recordava que as reputadas e muito lucrativas memórias de Lady St.Swithin tinham sido pela primeira vez discutidos na sua sala de visitas.
Estavam todos sentados formando um círculo de que Mrs.Albert Forrester era o centro e discutiam brilhantemente e, deve confessar-se, algo maliciosamente, sobre as várias pessoas que lá tinham estado naquele dia. Miss Warren, a pálida mulher que durante duas horas servira o chá, andava silenciosamente à volta da sala a recolher as chávenas deixadas aqui e ali. Ela tinha um emprego indefinido, mas estava sempre pronta a presidir aos chás de Mrs.Albert, e à noite dactilografava-lhe os manuscritos. Mrs.Albert Forrester não lhe pagava este serviço, considerando, e muito bem, que ela é que fazia muito por aquela pobre criatura; mas dava-lhe os bilhetes para o cinema que lhe eram oferecidos e presenteava-a muitas vezes com peças de vestuário que ela própria já não usava.
Mrs.Albert Forrester estava a falar fluentemente, na sua voz cheia e bastante profunda, e os restantes escutavam-na com atenção. Estava em boa forma e as palavras que lhe saíam da boca em torrentes podiam ser passadas a escrito sem alteração. De repente, ouviu-se um grande barulho no corredor como se uma coisa muito pesada tivesse caído, e depois o som de uma discussão.
Mrs.Albert Forrester calou-se e um ligeiro franzir do sobrolho ensombrou-lhe a fronte verdadeiramente nobre.
— Acho que já era tempo de saberem que eu não quero estas algazarras devastadoras cá em casa. Importa-se de tocar a campainha, Miss Warren, e perguntar a razão deste tumulto?
Miss Warren tocou a campainha e imediatamente apareceu a criada. Miss Warren, para não interromper Mrs.Albert Forrester, falou com ela, à porta, em voz baixa. Mas Mrs.Albert Forrester, algo irritada, interrompeu-se ela mesmo.
— Então, Carter, o que foi que aconteceu? A casa está a cair ou finalmente rebentou a revolução vermelha?
— Desculpe, minha Senhora, foi a mala da nova cozinheira. — respondeu a criada. — O carregador deixou-a cair quando vinha a trazê-la para dentro e a cozinheira ficou toda abespinhada.
— O que é que queres dizer com "a nova cozinheira"?
— Mrs.Bulfinch foi-se embora hoje à tarde, minha Senhora, — disse a criada.
Mrs.Albert Forrester ficou a olhar para ela.
— É a primeira vez que ouço falar disso. Mrs.Bulfinch despediu-se? Logo que Mr.Forrester chegue diz-lhe que queria falar com ele.
— Sim, minha Senhora.
A criada saiu e Miss Warren voltou para a mesa do chá. Mecanicamente, embora já ninguém o quisesse, serviu várias chávenas de chá.
— Isso é uma catástrofe! — exclamou Miss Waterford.
— A senhora tem de fazer com que ela volte, — disse Clifford Boyleston. — É um tesouro, essa mulher, uma cozinheira notável, e cada dia que passa fica ainda melhor.
Mas nesse momento, a criada entrou de novo com uma carta numa pequena salva e entregou-a à patroa.
— O que é isto? — perguntou Mrs.Albert Forrester.
— Mr.Forrester mandou-me entregar-lhe esta carta quando a Senhora perguntasse por ele, — disse a criada.
— Então onde é que está Mr.Forrester?
— Mr.Forrester saiu, minha Senhora, — respondeu a criada como se a pergunta a surpreendesse.
— Saiu? Está bem. Pode ir.
A criada saiu da sala e Mrs.Albert Forrester, com uma expressão de perplexidade no rosto largo, abriu a carta. Rose Waterford disse-me que o seu primeiro pensamento foi que Albert, com receio do descontentamento da mulher em relação à saída de Mrs.Bulfinch, se tivesse atirado ao Tamisa. Mrs.Albert Forrester leu a carta e um ar de consternação passou-lhe pelo rosto.
— Oh, isto é incrível! Incrível! Incrível!
— O que foi, Mrs.Forrester?
Mrs.Albert Forrester arranhava a carpete com o pé, como um cavalo impaciente e bem disposto a escavar o chão, e, cruzando os braços com um gesto que é indescritível (mas que às vezes se vê numa peixeira prestes a fazer uma cena) baixou o olhar para os seus amigos curiosos e extremamente alarmados.
— O Albert fugiu com a cozinheira.
Houve um suspiro de consternação. E então aconteceu qualquer coisa de terrível. Miss Warren, que estava junto da mesa de chá, de repente sufocou. Miss Warren, que nunca abria a boca e a quem ninguém dirigia a palavra, Miss Warren, que nenhum deles, embora vendo-a todas as semanas há três anos, teria reconhecido na rua, Miss Warren de repente desatou descontroladamente à gargalhada. Num gesto unânime, toda a gente, aterrada, se voltou e ficou a olhar para ela. Sentiam-se como Balaam se deve ter sentido quando o seu burro começou a falar. Ela, positivamente, guinchava a rir. Havia um inominável horror naquela cena, como se, subitamente, num fenómeno natural qualquer coisa tivesse falhado, e as pessoas estavam tão espantadas como se as cadeiras e as mesas, sem avisar, começassem a saltitar pela sala numa dança grotesca. Miss Warren tentou conter-se, mas quanto mais tentava mais impiedosamente o riso a sacudia, e, pegando num lenço, enfiou-o na boca e correu para fora da sala. A porta bateu atrás dela.
— Histeria, — disse Clifford Boyleston.
— Pura histeria, claro, — disse Harry Oakland.
Mas Mrs.Albert Forrester não disse nada.
A carta estava caída aos seus pés e Simmons, o agente, apanhou-a e entregou-lha. Ela não queria pegar-lhe.
— Leia-a, — disse ela. — Leia-a alto.
Mr.Simmons empurrou os óculos para a testa e segurando a carta muito perto dos olhos leu o que se segue:

Querida,
Mrs.Bulfinch sente necessidade de mudar e decidiu ir-se embora, e, como eu não me sinto inclinado a continuar aqui sem ela, também vou. Já tomei toda a literatura que consigo aguentar, e estou farto da arte.
Mrs.Bulfinch não se preocupa muito com o casamento, mas se tu quiseres divorciar-te ela está disposta a casar comigo. Espero que aches a nova cozinheira satisfatória. Tem excelentes referências. Para te poupar possíveis problemas, informo-te de que Mrs.Bulfinch e eu estamos a viver em Kensington Road, nº 411 S.E
Albert


Ninguém falou. Mr.Simmons deixou escorregar os óculo de novo para o nariz. O facto era que nenhum deles, brilhantes como eram e habituados como estavam a encontrar tópicos de conversa adequados a cada situação, conseguia pensar numa observação apropriada. Mrs.Albert Forrester não era o tipo de pessoa a quem se dessem condolências e cada um receava demasiado o ridículo do outro para se aventurar ao óbvio. Por fim, Clifford Boyleston corajosamente veio em socorro.
— Uma pessoa fica sem saber o que há-de dizer — observou ele.
Seguiu-se outro momento de silêncio e depois falou Rose Waterford.
— Que aspecto tem Mrs.Bulfinch? — perguntou.
— Como é que eu hei-de saber? — respondeu Mrs.Albert Forrester um tanto aborrecida. — Nunca olhei para ela. O Albert é que contratava sempre os empregados. Ela só aqui entrou por uns momentos para eu ver se a sua aura era satisfatória.
— Mas com certeza que a via todas as manhãs quando tratava dos assuntos domésticos.
— O Albert é que tratava dos assuntos domésticos. Ele queria assim, para que eu ficasse livre para me devotar ao meu trabalho. Nesta vida, a pessoa tem de estabelecer limites.
— O Albert é que destinava os almoços? — Perguntou Clifford Boyleston.
— Claro. Era a sua área.
Clifford Boyleston ergueu ligeiramente as sobrancelhas. Que idiota tinha sido em nunca ter adivinhado. Albert é que era o responsável pela maravilhosa comida de Mrs.Albert Forrester! E claro que era a ele que se devia o facto de o excelente Chablis estar sempre suficientemente arrefecido, passar tão fresco na boca, mas nunca frio ao ponto de perder aquele seu aroma e paladar.
— É evidente que ele sabia o que era a boa comida e o bom vinho.
— Eu sempre vos disse que ele tinha os seus pontos fortes — respondeu Mrs.Albert Forrester, como se Clifford estivesse a criticá-la. — Todos vocês se riam dele. Ninguém queria acreditar quando eu dizia que lhe devia muito.
Não houve uma resposta para isto, e uma vez mais fez-se um silêncio pesado e ominoso. De repente Mr.Simmons lançou uma bomba.
— Tem de o fazer voltar.
A surpresa foi tal que se não estivesse encostada à lareira Mrs.Albert Forrester teria sem dúvida cambaleado dois passos atrás.
— Que diabo quer o senhor dizer com isso? — exclamou ela. — Nunca mais o quero ver, enquanto for viva. Recebê-lo de novo? Nunca. Nem que ele viesse pedir-me de joelhos.
— Eu não disse recebê-lo de novo; o que eu disse foi, fazê-lo voltar.
Mas Mrs.Albert Forrester não deu qualquer atenção àquele interrupção deslocada.
— Fiz tudo por ele. Que seria dele sem mim, pergunto-vos eu? Ofereci-lhe uma posição a que nem em sonhos ele poderia alguma vez aspirar.
Ninguém podia negar que havia qualquer coisa de majestoso na indignação de Mrs.Albert Forrester, mas isto não pareceu ter qualquer efeito sobre Mr.Simmons.
— De que é que a senhora vai viver?
Mrs.Albert Forrester atirou-lhe um olhar totalmente despido de amabilidade.
— Deus há-de ajudar-me — respondeu ela friamente.
— Não acho muito provável — retorquiu ele.
Mrs.Albert Forrester encolheu os ombros. Estava com uma expressão ofendida. Mas Mr.Simmons acomodou-se o melhor que pôde na cadeira e acendeu um cigarro.
— A senhora sabe que não há admirador da sua arte mais caloroso do que eu — disse ele.
— Do que eu — corrigiu Clifford Boyleston*.
— Ou do que o senhor — continuou Mr.Simmons maliciosamente. — Todos concordamos que não há ninguém agora a escrever cuja comparação a senhora possa temer. Tanto em prosa como em verso a senhora é absolutamente de primeira classe. E o seu estilo… bem, toda a gente conhece o seu estilo.
— A opulência de Sir Thomas Browne com a limpidez de Cardinal Newman — disse Clifford Boyleston. — A vivacidade de John Dryden com a precisão de Jonathan Swift.
O único sinal de que Mrs.Albert Forrester ouvira foi o sorriso que hesitou por momentos nos cantos da sua boca trágica.
— E tem graça.
— Há alguém no mundo — exclamou Miss Waterford — que consiga pôr tal riqueza de espírito e de sátira e de observação cómica num ponto e vírgula?
— Mas o facto é que a senhora não vende — insistiu Mr.Simmons imperturbável. — Há vinte anos que eu lido com a sua obra e digo-lhe francamente que não teria enriquecido com a minha comissão, mas tratei dela porque de vez em quando gosto de fazer o que posso pelas boas obras. Sempre acreditei em si e sempre tive a esperança de que mais cedo ou mais tarde conseguiríamos que o público a reconhecesse. Mas se pensa que pode viver escrevendo o tipo de material que escreve, devo dizer-lhe que não tem hipótese.
— Eu vim ao mundo tarde demais — disse Mrs.Albert Forrester. — Eu devia ter vivido no século dezoito, quando o patrono rico recompensava uma dedicação com cem guinéus.
— Quanto é que pensa que o negócio da groselha dá?
Mrs.Albert Forrester deu um suspiro.
— Uma ninharia. O Albert sempre me disse que fazia cerca de mil e duzentos por ano.
— Deve ser um bom gerente. Mas não pode estar à espera que, com esse rendimento, ele lhe venha a dar muito de pensão. Acredite-me, só tem uma coisa a fazer e que é convencê-lo a voltar para si.
— Preferia viver numas águas-furtadas. O senhor acha que eu me vou submeter à afronta que ele me fez? Quer que eu me bata pelo seu afecto com a minha cozinheira? Não se esqueça de que há uma coisa que, para uma mulher como eu, é mais valiosa do que a sua tranquilidade e que é a sua dignidade.
— Eu já lá ia — disse Mr.Simmons friamente.
Olhou para os outros, e aqueles seus estranhos olhos tortos mais do que nunca pareciam monstruosos e de peixe.
— Não tenho qualquer dúvida — continuou ele — de que a senhora desfruta de uma posição notável, quase única, no mundo das letras. A senhora representa qualquer coisa de completamente diferente. Nunca prostituiu o seu génio ao lucro sujo e ergueu bem alto a bandeira da arte pura. Está a pensar ir para o Parlamento. Eu, por mim, não tenho a política em muito apreço, mas não se pode negar que isso seria uma boa publicidade, e se entrar atrevo-me a dizer que podemos arranjar-lhe uma tournée de conferências na América com base nisso. A senhora tem ideais, e o que eu posso assegurar-lhe é que mesmo as pessoas que nunca leram uma linha sua a respeitam. Mas há uma coisa que, na sua posição, a senhora não pode mesmo permitir-se e que é ser uma anedota.
Mrs.Albert Forrester estremeceu.
— Que diabo quer o senhor dizer com isso?
— Eu não sei nada sobre Mrs.Bulfinch e pelo que sei ela é uma mulher muito respeitável, mas o que é facto é que um homem não foge com a sua cozinheira sem pôr a sua mulher a ridículo. Se se tratasse de uma dançarina ou de uma senhora da nobreza com certeza que o caso não a afectaria em nada, mas uma cozinheira seria o seu fim. Numa semana Londres inteira se riria de si, e se há coisa que destrua um autor ou um político é o ridículo. A senhora tem de fazer com que o seu marido volte para si muito rapidamente.
Um rubor escuro fixou-se na cara de Mrs.Albert Forrester, mas ela não respondeu logo. Nos ouvidos soou-lhe, de repente, o riso ultrajante e inexplicável que obrigara Miss Warren sair da sala a correr.
— Nós aqui somos todos amigos, e a senhora pode contar com a nossa discrição.
Mrs.Forrester olhou para os amigos e pareceu-lhe já ver nos olhos de Miss Waterford um brilho malicioso. No rosto mirrado de Oscar Charles havia uma expressão bizarra. Estava arrependida de, num momento de à-vontade, ter traído o seu segredo. Mr.Simmons, contudo, conhecia o mundo literário e podia dirigir-se ao resto da companhia.
— Aliás, a senhora é o centro e a cabeça do mundo deles. O seu marido fugiu, não só de si, mas deles todos, também. Isto também não é nada bom para eles. O facto é que Albert Forrester fez de todos vós parvos.
— De todos — disse Clifford Boyleston. — Estamos todos no mesmo barco. Ele tem toda a razão, Mrs.Forrester, O Filatelista tem de voltar.
— Et tu, Brute.
Mr.Simmons não sabia latim e se soubesse provavelmente não se deixaria levar pela exclamação de Mrs.Albert Forrester. Pigarreou.
— A minha sugestão é que Mrs.Albert Forrester devia ir falar com ele amanhã, felizmente temos o endereço, e pedir-lhe que reconsidere a sua decisão. Eu não sei que tipo de coisas é que uma mulher diz nestas circunstâncias, mas Mrs.Forrester tem tacto e imaginação e tem de dizê-las. Se Mr.Forrester puser algumas condições, deve aceitá-las. Tem de tentar todos os meios.
— Se jogar bem todas as suas cartas não vejo razão para que não consiga trazê-lo de volta consigo amanhã à noite — disse Miss Rose Waterford agilmente.
— É capaz de fazer isso, Mrs.Forrester?
Durante pelo menos dois minutos, voltada de costas para eles, ela olhou fixamente a lareira vazia; depois, empertigando-se, encarou-os.
— Pela minha arte, não por mim. Não permitirei que o riso obsceno dos Filisteus conspurque tudo aquilo que eu tenho por bom, verdadeiro e belo.
— Óptimo — disse Mr.Simmons, erguendo-se. Amanhã, quando for para casa, passo por aqui e espero encontrar-vos, a si e a Mr.Forrester a arrulharem lado a lado como um par de pombinhos.
Despediu-se, e os outros, na ânsia de não ficarem sós com Mrs.Albert Forrester e a sua perturbação, seguiram-lhe o exemplo.



No dia seguinte, já à tardinha, Mrs.Albert Forrester, majestosa num vestido de seda preto, e de chapéu de veludo, saiu do seu apartamento para apanhar um autocarro em Marble Arch que a levaria até à Estação de Vitória. Mr.Simmons tinha-lhe explicado pelo telefone como ir para Kensington Road rápida e economicamente. Ela não se sentia, nem estava com ar de Dalila. Em Vitória tomou o eléctrico que desce a Vauxhall Bridge Road. Quando atravessou o rio encontrou-se numa parte de Londres mais barulhenta, mais sórdida e mais movimentada do que aquilo a que estava habituada, mas estava demasiado ocupada com os seus pensamentos para reparar na variedade da paisagem. Ficou aliviada ao verificar que o eléctrico seguia ao longo de Kensington Road e pediu ao revisor que a deixasse alguns números antes da casa que procurava. Quando o eléctrico parou e depois, aos solavancos, se afastou ruidosamente, deixando-a só naquela rua movimentada, sentiu-se estranhamente perdida, como um viajante de um conto oriental abandonado por um jin numa cidade desconhecida. Caminhou vagarosamente, olhando à esquerda e à direita, e, apesar dos sentimentos de indignação e constrangimento que lutavam pela posse do seu peito algo opulento, não pôde deixar de reflectir que estava ali matéria para um belo pedaço de prosa. As pequenas casas mantinham em seu redor o ar de uma época já passada, quando aqui ainda era quase campo, e Mrs.Albert Forrester registou na sua infalível memória uma anotação no sentido de que tinha de se debruçar sobre as associações literárias de Kensington Road. O número quatrocentos e onze era uma de um renque de casas degradadas que ficavam um pouco recuadas em relação à rua; em frente havia uma estreita tira de relva maltratada e um caminho pavimentado que levava até um alpendre gradeado a precisar muito de pintura. Isto e a trepadeira rara e enfezada que crescia sobre a fachada da casa dava-lhe um ar falsamente rural que era estranho e até sinistro naquela rua por onde passava, atroando, um trânsito tumultuoso. Havia na casa qualquer coisa de duvidoso e que dava a ideia de que ali vivessem mulheres a quem uma vida de prazer atribuíra uma recompensa inadequada. A porta foi aberta por uma rapariga esquelética, de quinze anos, de longas pernas e cabeça desgrenhada.
— Sabe-me dizer se Mrs.Bulfinch vive aqui?
— A senhora bateu na porta errada. Segundo andar. A rapariga apontou as escadas e ao mesmo tempo gritou estridente: — Mrs.Bulfinch, uma pessoa para falar consigo, Mrs.Bulfinch. Mrs.Albert Forrester subiu as escadas sombrias. Estavam cobertas de uma passadeira já muito rota. Subiu devagar porque não queria ficar ofegante. Uma porta abriu-se quando ela chegou ao segundo andar e ela reconheceu a cozinheira.
— Boa tarde, Bulfinch — disse Mrs.Albert Forrester com dignidade. Eu queria falar com o seu patrão.
Mrs.Bulfinch hesitou por uma fracção de segundo e depois abriu-lhe completamente a porta.
— Faça favor de entrar, minha Senhora. Voltou-se para dentro. — Albert, está aqui Mrs.Forrester para falar contigo.
Mrs.Forrester entrou rapidamente e lá estava Albert sentado junto da lareira, num sofá de couro, já esfarrapado, de chinelos, e em mangas de camisa. Estava a ler o jornal da tarde e a fumar um charuto. Levantou-se quando Mrs.Albert Forrester entrou. Mrs.Bulfinch acompanhou a sua visita à sala e fechou a porta.
— Como estás, querida? — disse Albert alegremente. — Espero que continues bem.
— Era melhor vestires o casaco, Albert — disse Mrs.Bulfinch. — O que é que Mrs.Forrester irá pensar encontrando-te nesse preparo? Parece impossível.
Pegou no casaco, que estava pendurado num cabide, e ajudou-o a vesti-lo; e como mulher familiarizada com as particularidades do vestuário masculino puxou-lhe o colete para baixo, para que ele não ficasse sobre o colarinho.
— Recebi a tua carta, Albert — disse Forrester.
— Já calculava, porque se assim não fosse, não saberias o meu endereço, não é?
— Não se quer sentar, minha Senhora? — disse Mrs.Bulfinch, limpando com destreza o pó de uma cadeira, parte de um conjunto coberto de veludo cor de ameixa, e empurrando-a para a frente.
Mrs.Albert Forrester, com uma ligeira vénia, sentou-se.
— Eu preferia falar contigo a sós, Albert — disse ela.
Os olhos dele cintilaram.
— Como seja o que for que tenhas a dizer diz respeito tanto a Mrs.Bulfinch como a mim, acho melhor que ela esteja presente.
— Como queiras.
Mrs.Bulfinch puxou uma cadeira e sentou-se. Mrs.Albert Forrester nunca a tinha visto senão com um grande avental por cima de um vestido estampado. Agora trazia uma blusa de seda branca rendada, saia preta e sapatos de couro de salto alto, com fivelas prateadas. Era uma mulher de cerca de quarenta e cinco anos, de cabelo arruivado e rosto avermelhado, não muito bonita, mas com um ar bondoso e alegre. Fazia-lhe lembrar uma criada de lavoura, já um pouco madura, num alegre quadro de um velho mestre holandês.
— Bem, minha querida, o que é que tens para me dizer? — perguntou Albert.
Mrs.Albert Forrester olhou-o com o mais brilhante e o mais amável dos seus sorrisos. Os seus olhos negros brilharam com um bom humor tolerante.
— Claro que tu sabes que isto é perfeitamente absurdo, Albert. Acho que não deves estar no teu juízo perfeito.
— Achas que sim, querida? Imaginem!
— Eu não estou zangada contigo, apenas acho graça, mas uma graça é só uma graça e não deve ser levada longe demais. Vim para te levar de volta para casa.
— A minha carta não era bastante clara?
— Perfeitamente. Não vou fazer perguntas e não te vou fazer acusações. Vamos olhar isto como uma aberração passageira e não se fala mais nisso.
— Nada me levará jamais a viver contigo outra vez, querida — disse Albert, mas de maneira perfeitamente amigável.
— Não estás a falar a sério?
— Completamente.
— Tu amas esta mulher?
Mrs.Albert Forrester ainda sorria com um brilho de ansiedade e algo metálico. Estava decidida a levar a questão serenamente. Com o seu pessoal sentido de valores, compreendeu que a cena era cómica. Albert olhou para Mrs.Bulfinch e um sorriso assomou-lhe ao rosto engelhado.
— Damo-nos muito bem, não é verdade, minha velha?
— Nada mal — disse Mrs.Bulfinch.
Mrs.Albert Forrester ergueu o sobrolho; o marido nunca, em toda a sua vida de casados, lhe tinha chamado "minha velha": nem ela, aliás, o teria desejado.
— Se Bulfinch tem alguma consideração ou respeito por ti, deve saber que a coisa é impossível. Depois da vida que levaste e da sociedade em que te movias, dificilmente poderá esperar fazer-te permanentemente feliz numa miserável casa mobilada.
— Não é uma casa mobilada, minha Senhora — disse Mrs.Bulfinch. — A mobília é toda minha. Veja a senhora, eu sou muito independente e sempre gostei der ter uma casa mesmo minha. Portanto, vou conservando isto quer esteja empregada quer não esteja, e assim tenho sempre um lugar para onde voltar.
— E um lugarzinho muito acolhedor, é verdade — disse Albert.
Mrs.Albert Forrester olhou à sua volta. Na lareira havia um fogão sobre o qual estava uma chaleira a ferver, e na prateleira um relógio de mármore preto, ladeado por candelabros também de mármore preto. Havia ainda uma mesa coberta com um tecido vermelho, um guarda-louça e uma máquina de costura. Nas paredes viam-se fotografias e quadros emoldurados tirados de suplementos do Natal. Atrás, uma porta, coberta com um portière de pelúcia vermelho, que dava para aquilo que, considerando o tamanho da casa, Mrs.Albert Forrester (que nas horas vagas fizera um estudo intensivo de arquitectura) não podia senão concluir que era o único quarto. Mrs.Bulfinch e Albert viviam numa proximidade que não deixava dúvidas quanto à sua relação.
— Não foste feliz comigo? — perguntou Mrs.Forrester num tom mais grave.
— Estivemos casados trinta e cinco anos, querida. É muito tempo. É tempo demais. À tua maneira, és uma excelente mulher, mas não serves para mim. Tu és das letras, e eu não. Tu és das artes, e eu não.
— Sempre tive a preocupação de partilhar contigo os meus interesses. Esforcei-me para que o meu sucesso não te ofuscasse. Não podes queixar-te de que te deixei de fora.
— Tu és uma óptima escritora, não o nego nem por um momento, mas a verdade é que eu não gosto dos livros que escreves.
— Isso, se me permites, apenas revela o teu mau gosto. Todos os críticos concordam que eles têm força e encanto.
— E não gosto dos teus amigos. Deixa que te revele um segredo. Muitas vezes, nos teus chás, apetecia-me irresistivelmente tirar a roupa toda para ver o que aconteceria.
— Não aconteceria nada — disse Mrs.Albert Forrester com um leve franzir de sobrancelhas. — Eu apenas trataria de mandar chamar o médico. Além disso, tu não tens corpo para tal.
Mr.Simmons tinha-lhe sugerido que, se preciso fosse, ela não devia hesitar em fazer uso das seduções do seu sexo para trazer o seu marido errante de volta ao tecto conjugal, mas ela não sabia minimamente como fazer isso. Não podia deixar de pensar que teria sido mais fácil se estivesse de vestido de noite.
— Será que uma fidelidade de trinta e cinco anos não conta para nada? Nunca olhei para outro homem, Albert. Estou habituada a ti. Sem ti vou sentir-me perdida.
— Deixei todos os meus menus à nova cozinheira, minha Senhora. A senhora só terá de dizer-lhe quantas pessoas tem para o almoço e ela trata do resto — disse Mrs.Bulfinch. — Ela é de inteira confiança, e tem um dedo para bolos como nunca vi.
Mrs.Albert Forrester começou a ficar desanimada. Aquela observação de Mrs.Bulfinch, sem dúvida, bem intencionada, tornava muito difícil a condução da conversa para um plano em que a emoção pudesse ser natural.
— Parece-me que estás a perder o teu tempo, querida — disse Albert. — A minha decisão é irrevogável. Já não sou muito novo e queria alguém que tratasse de mim. Claro que te vou estabelecer uma pensão tão generosa quanto as minhas possibilidades. A Corinne quer que me reforme.
— Quem é a Corinne? — perguntou Mrs.Forrester muito surpreendida.
— É esse o meu nome — disse Mrs.Bulfinch. — A minha mãe era meio francesa.
— Isso explica muita coisa — respondeu Mrs.Forrester, apertando os lábios, porque, embora fosse uma admiradora da literatura dos nossos vizinhos, ela também sabia que a sua moral deixava muito a desejar.
— O que eu digo é que o Albert já trabalhou o suficiente, e é altura de começar a gozar a vida. Eu tenho uma pequena propriedade em Clacton-on-Sea. É uma região muito saudável, e o ar é óptimo. Podemos viver lá muito confortavelmente. E então com a praia e o pontão há sempre alguma coisa para fazer. A gente de lá é muito boa. Se uma pessoa não se meter com ninguém, ninguém se mete connosco.
— Falei hoje com os meus sócios sobre o assunto e eles estão dispostos a comprar a minha parte. Isto representa um certo sacrifício. Quando tudo estiver resolvido, fico com um rendimento de novecentas libras por ano. Como nós somos três, isto dá precisamente trezentas para cada um.
— Como é que eu vou viver com isso? — exclamou Mrs.Albert Forrester. — Eu tenho uma posição a manter.
— Tu tens uma pena fluente, fértil e reconhecida, querida.
Mrs.Albert Forrester encolheu os ombros impacientemente.
— Sabes muito bem que os meus livros não me dão nada a não ser reputação. Os editores dizem sempre que perdem dinheiro com eles, e, de facto, só os publicam porque eles lhes dão certo prestígio.
Foi então que Mrs.Bulfinch teve uma ideia que havia de vir a ter consequências de uma enorme magnitude.
— Por que é que a senhora não escreve um bom, um excitante romance policial? — perguntou ela.
— Eu? — exclamou Mrs.Albert Forrester, esquecendo pela primeira vez na vida a gramática*.
— Não é má ideia — disse Albert. — Não é nada má ideia.
— Caíam-me os críticos todos em cima.
— Não tenho tanta certeza disso. Se dermos aos altivos a oportunidade de serem humildes sem se rebaixarem, eles ficarão tão agradecidos que nem saberão o que fazer.
— Muito obrigado por esse alívio — murmurou Mrs.Albert Forrester pensativa.
— Minha querida, os críticos vão devorá-lo. E escrito no teu belo inglês não recearão chamar-lhe uma obra prima.
— A ideia é absurda. É absolutamente estranha ao meu génio. Nunca poderia esperar agradar às massas.
— Por que não? As massas querem ler bom material, mas detestam aborrecer-se. Todos conhecem o teu nome, mas não te lêem porque tu os aborreces. A questão, minha querida, é que tu és uma maçadora.
— Não compreendo como podes dizer uma coisa dessas, Albert — respondeu Mrs.Albert Forrester com tão pouco ressentimento como aquele que o Equador provavelmente sentiria se lhe dissessem que era fresco. — Toda a gente sabe e reconhece que eu tenho um raro sentido de humor e que não há ninguém que consiga extrair tanta graça de um ponto e vírgula como eu.
— Se conseguires dar às massas uma história interessante e excitante e que ao mesmo tempo lhes permita pensar que estão a desenvolver o espírito, podes fazer uma fortuna.
— Eu nunca li um romance policial na minha vida — disse Mrs.Albert Forrester. — Uma vez ouvi falar de um tal Mr.Barnes de Nova Iorque e disseram-me que ele tinha escrito um livro chamado O Mistério do Cabriolé. Mas nunca o li.
— Claro que é preciso ter o dom — disse Mrs.Bulfinch. — A primeira coisa a ter em mente é que as pessoas não querem questões de amor, isso está deslocado num romance policial, o que as pessoas querem é assassínios e detectives, e não serem capazes de descobrir quem foi, antes da última página.
— Mas tens de ser honesta com o leitor, minha querida — disse Albert. — Fico sempre muito irritado quando as suspeitas recaem sobre a secretária ou sobre a dama da nobreza e ao fim acaba por ser o criado, que nunca fez mais do que dizer "A carruagem está à porta." Intriga o teu leitor quanto puderes, mas não faças dele parvo.
— Eu adoro um bom romance policial — disse Mrs.Bulfinch. — Dêem-me uma dama de vestido de noite, coberta de diamantes, estendida no chão da biblioteca com um punhal no coração e já sei que me vou regalar.
— Gostos não se discutem — disse Albert. — Por mim, prefiro um respeitável advogado de família, com patilhas, corrente de relógio de ouro e ar bondoso, jazendo morto no Hyde Park.
— Com a garganta cortada? — perguntou Mrs.Bulfinch ansiosa?
— Não, apunhalado nas costas. Há qualquer coisa de especialmente atraente para o leitor no assassínio de um cavalheiro de meia idade de reputação imaculada. É agradável pensar que aqueles de nós aparentemente mais inocentes têm um mistério na vida.
— Percebo o que queres dizer, Albert — Disse Mrs.Bulfinch. — Ele era o depositário de um segredo fatal.
— Podemos dar-te todas as dicas, minha querida — disse Albert a sorrir calmamente. — Eu já li centenas de histórias policiais.
— Tu!
— Foi isso que nos uniu, à Corinne e a mim. Eu passava-lhos depois de os ler.
— Muitas vezes o ouvi apagar a luz quando a aurora começava já a entrar pela janela, e não podia deixar de sorrir, dizendo para mim mesma: "Acabou, finalmente, agora já pode dormir um bom sono."
Mrs.Albert Forrester levantou-se. Empertigou-se.
— Agora vejo o abismo que nos separa — disse ela, e a sua bela voz de contralto tremeu um pouco. — Durante trinta anos viveste rodeado do que de melhor havia na literatura inglesa e leste centenas de livros policiais.
— Centenas e centenas — interrompeu Albert com um sorriso de satisfação.
— Eu vim aqui disposta a fazer qualquer concessão razoável para que voltasses para casa, mas agora isso já não me interessa. Tu mostraste-me que nós não temos, nem nunca tivemos, nada em comum. Há um abismo entre nós.
— Muito bem, querida — disse Albert devagar — aceito a tua decisão. Mas pensa bem na questão do romance policial.
— Agora vou-me embora — murmurou ela — e vou para Innisfree.
— Acompanho-a até lá baixo — disse Mrs.Bulfinch. Tem de se ter cuidado com a passadeira quando não se sabe exactamente onde estão os buracos.
Dignamente, mas não sem alguma circunspecção, Mrs.Albert Forrester desceu as escadas, e quando Mrs.Bulfinch lhe abriu a porta e perguntou se ela queria que chamasse um taxi, ela abanou a cabeça.
— Vou apanhar o eléctrico.
— Não tem que recear pelo bem estar de Mr.Forrester, minha Senhora — disse Mrs.Bulfinch amavelmente. — Ele vai ter todo o conforto. Tratei de Mr.Bulfinch durante os três anos da sua última doença e pouca coisa haverá sobre inválidos que eu não saiba. Isto não quer dizer que Mr.Forrester não seja muito forte e activo para a idade que tem. E claro que ele vai arranjar um hobby. Sempre pensei que um homem deve ter um hobby. Ele vai começar a coleccionar selos de correio.
Mrs.Albert Forrester estremeceu de surpresa. Mas justamente nessa altura apareceu um eléctrico à vista, e, como qualquer mulher (mesmo as maiores delas) correu, com risco da própria vida, para o meio da rua a acenar freneticamente. O eléctrico parou e ela subiu. Não sabia como é que iria enfrentar Mr.Simmons. Ele estaria à sua espera quando ela chegasse a casa. Clifford Boyleston também lá devia estar. Deviam lá estar todos e ela teria de lhes contar como tinha falhado miseravelmente. Naquele momento não experimentava qualquer sentimento de amizade pelo seu pequeno grupo de dedicados admiradores. Interrogando-se sobre que horas seriam, levantou os olhos para o homem sentado à sua frente para ver se ele seria o tipo de pessoa a quem ela pudesse perguntar modestamente, e subitamente estremeceu; porque ali estava um homem de meia idade, de aspecto muito respeitável, com patilhas, ar bondoso, e corrente de relógio de ouro. Era exactamente o homem que Albert descrevera jazendo morto em Hyde Park e ela teve de concluir que ele era um advogado de família. A coincidência era extraordinária, e, de facto, parecia que a mão do destino lhe estava a acenar. Ele trazia um chapéu de seda, casaco preto e calças mescla, era algo corpulento, de constituição sólida, e a seu lado estava uma pasta. Quando o eléctrico ia a meio de Vauxhall Bridge Road ele pediu ao revisor para parar e ela viu-o a descer uma ruela. Porquê? Porquê? Quando o eléctrico chegou a Victoria, de tão profundamente mergulhada nos seus pensamentos, só quando o revisor lhe disse um tanto bruscamente onde estava é que ela se levantou. Edgar Allan Poe escreveu contos policiais. Apanhou um autocarro. Sentou-se e mergulhou em reflexão, mas quando chegou a Hyde Park Corner, decidiu subitamente apear-se. Já não aguentava mais estar sentada. Sentia que precisava de caminhar. Passou os portões a caminhar devagar e olhar à sua volta com um ar que era ao mesmo tempo intencional e abstracto. Sim, havia o Edgar Allan Poe; ninguém o podia negar. Aliás, foi ele que inventou o género, e toda a gente sabia a influência que ele tivera nos Parnasianos. Ou seria nos Simbolistas? Não interessa. Baudelaire e tudo isso. Ao passar pela Estátua de Aquiles parou por momentos e olhou de sobrolho erguido.
Por fim chegou a casa, e ao abrir a porta viu vários chapéus no hall. Entrou na sala.
— Aqui está ela, finalmente — exclamou Miss Waterford.
Mrs.Albert Forrester avançou, sorrindo animada, e apertou as mãos que se estendiam. Lá estavam Mr.Simmons e Clifford Boyleston, Harry Oakland e Oscar Charles.
— Oh, meus pobres amigos, não tomaram chá? — exclamou ela com vivacidade. — Não faço ideia de que horas serão, mas sei que estou muitíssimo atrasada.
— Então? — disseram eles. — Então?
— Meus queridos, tenho uma coisa maravilhosa para vos contar. Tive uma inspiração. Por que é que o diabo há-de ter a melhor parte?
— O que é que quer dizer?
Ela fez uma pausa para dar mais efeito à surpresa que lhes ia provocar. Atirou-lhes a notícia sem mais preâmbulos.
— VOU ESCREVER UM ROMANCE POLICIAL.
— Ficaram a olhar para ela de boca aberta. Ela levantou a mão para evitar que a interrompessem, mas, de facto, ninguém tinha a menor intenção de o fazer.
— Vou dar ao romance policial a dignidade da Arte. A ideia surgiu-me subitamente no Hyde Park. É uma história de assassínio e eu só apresento a solução mesmo na última página. Vou escrevê-la num inglês impecável, e uma vez que me ocorreu que ultimamente eu talvez tenha esgotado as possibilidades do ponto e vírgula, vou-me dedicar à vírgula. Ninguém ainda explorou as suas potencialidades. Humor e mistério são o meu objectivo. Vou chamar-lhe A Estátua de Aquiles.
— Que título! Exclamou Mr.Simmons, recompondo-se antes de qualquer dos outros. — Eu posso vender os direitos do título e o seu nome.
— Mas, então e o Albert? — perguntou Clifford Boyleston.
— O Albert? — repetiu Mrs.Forrester. — O Albert?
Ela olhou para ele como se não fizesse a mínima ideia daquilo que ele estava a falar. Depois deu um gritinho como se de repente se tivesse lembrado.
— O Albert! Eu sabia que tinha saído para fazer qualquer coisa e varreu-se-me completamente da memória. Eu ia a passar no Hyde Park e tive aquela inspiração. Que parva vocês não devem pensar que eu sou!
— Então não falou com o Albert?
— Esqueci-o completamente, meu caro — Deu uma gargalhada divertida. — O Albert que fique com a sua cozinheira. Agora não me posso preocupar com o Albert. O Albert pertence ao período do ponto e vírgula. Agora vou escrever um romance policial.
— A senhora é realmente extraordinária, minha querida — disse Harry Oakland.


Somerset Maugham
The Creative Impulse
in Collected Short Stories