13/08/2011

O Idiota


- Faça entrar esse tal - ordenou o rei da Prússia.
- Ei-lo, senhor.
E o idiota entrou.
Houve um silêncio. Quais mãos ágeis os olhos do rei apalpavam, espoliavam o prisioneiro. Atrás dele, rígidos, atentos, dois ajudantes de campo auscultavam o seu coração e um relógio na parede que, com pequenos golpes, lamentava os seus segundos...
- Ah! disse o rei.
E os seus olhos apanharam o espião pela cabeça: era uma cabeça vil, coberta de cabelos húmidos com as pupilas redondas, que davam aos oficiais o desejo de transpassá-las com um alfinete. Não era bem uma cabeça: antes uma forma de queijo com um sulco por onde gotejava a saliva inútil; aspecto, tristíssimo!
- Vocês afirmam que este... Falem em francês com ele, senhores! Que diz, pois?
- Que não é idiota como desejaria fazê-lo acreditar, e que Vossa Majestade pode perfeitamente interrogá-lo.
- Foi então você - falou o rei - que, na noite de 19, escapou das mãos dos meus granadeiros? Trouxe as instruções ao senhor De Chevert... - E estendeu a mão, pegou um papel e mostrou-lho.
0 homem olhava para o chão.
- Então, - asseverou um ajudante de campo - pretende fazer crer que é surdo-mudo! É um homem habilíssimo!
Pronunciadas estas palavras, empurrou o prisioneiro pelo ombro. Este olhou o prussiano e deu uma risada. Cena tristíssima!
- Desejo precisar os fatos - disse o rei-. Aqui está uma carta que me avisa da sua missão. Está descoberto. Abandone esse disfarce. Fale!
0 homem não se moveu.
Há algum tempo um velho general, que deixara a sua mesa, observava o idiota. Possuía uma grande cabeça coberta de cabelos brancos. Alguém se aproximou do imbecil:
- Senhor marquês, eu o reconheço!
0 infeliz não o percebeu.
Depois falou o rei:
- Você procurava prevenir o senhor De Chevert, acantonado próximo de Aquisgrana, de conduzir um corpo formado por regimentos de Navarra da Alvérnia, composto de quarenta companhias de granadeiros...
0 idiota bateu o pé sobre uma mosca. 0 pavimento estremeceu.
-... e de duas brigadas de cavalaria para marcharem sobre Halberstadt. Não é isto, senhor?
0 relógio respondeu...
Então o general se volta:
- Estou certo, Majestade, de que este é o marquês António de Kervescop de Coadilo um bretão. Seus dois irmãos, como ele, estão no exército de Chevert: valentes todos os três e conhecidos pela técnica das suas façanhas. No dia 19 ele tinha barba: esta manhã não a tem mais; eis uma das transformações! Eu o reconheço. Um gentil-homem tem os dentes bem cuidados! Abra a boca!
0 idiota não compreendeu. Chamaram o granadeiro de serviço na porta, o qual se aproximou do infeliz, agarrou-lhe o pescoço e fê-lo abrir a boca: os dentes eram escuros, fétidos. Esta torpeza fez corar o general:
- Ah, este homem é muito arguto, muito arguto!
Esta cena impressionava os ajudantes de campo, um pouco jovens, que se tornaram pálidos, enquanto um murmurava:
- É realmente enfermo, olhem para ele!
- Não falará - disse alguém.
0 rei teve piedade.
- Não reconheço neste andrajo nenhum sinal da aristocracia. Não seja demasiado insistente, general... É verdade que o espião nos tem prejudicado bastante... Mas se por ventura detivéssemos um inocente...
Os jovens oficiais pareciam propender para o rei. No fundo da sala o intrigante se apoiara na parede para pensar. Com os punhos cerrados, continuava a grunhir:
- É sagaz, muito sagaz...
Após algum tempo, tomou um revólver, apontou-o na retaguarda do idiota e lho descarregou mesmo ao lado dos rins, com tão grande estrondo, que o clarão subiu até o teto. Nada se moveu no enfermo, nem mesmo aquele fio de baba que ligava a sua boca ao pavimento. O rei se pôs a rir.
- Pois bem, está convencido desta vez?
Um furor enorme se apoderou do velho. Seguiu-se um silêncio.
- Ah! - disse depois, fatigado, o rei -. Estas experiências nada decidem... Uma alma morta está diante de nós. Nenhum sinal de vida além daquele leve tremor dos braços, das pernas, e aquela pouca baba: uma existência enferma... De resto...
E olhou para fora, através dos vidros da janela. Os ajudantes de campo o imitaram. Porém o urso teimoso não se dava por vencido:
- Senhor, o seu todo ilude! Não se afaste! Eu duvido ainda! Mas a dúvida, como dizem os seus poetas, é mais que a convicção: é a verdade ultrapassada! Amaldiçôo: este homem é um impostor, um abominável impostor! Finja! Finja! Admirável está o senhor! - prosseguiu o velho voltando-se para o enfermo. E olhou-o tão de perto que as suas pupilas o fotografaram... Porém, nada se modificou.
- Todavia, - acentuou o rei - tudo ali prova... este homem maltratado, desgraçado, sujo ao ponto de estar cheio de vermes...
0 velho rasgou o colarinho do miserável...
- Uma ideia: quero ver. Talvez pudesse tomar todas as precauções? É um da corte... e nem mesmo terá tido o tempo...
Mas a pele do idiota, abaixo dos trapos, exalava um pronunciado fedor de sujeira: o velho raspou-a. A imundice era tal que apanhou um canivete e, limpando a unha, disse:
- Majestade, peço-lhe que conserve aqui este homem, no lugar em que está: e neste ínterim peço-lhe alguns segundos de atenção em particular.
- Siga-me - ordenou o rei.
E saíram.
A voz do velho murmurou:
- Senhor, juro que não me engano.
- É uma obstinação!
- Não, não! ao contrário, suplico à Vossa Majestade que me atenda. Existem ainda outros meios, um sobretudo, seguro!
- Qual?
- Pois bem, senhor: temos diante de nós um francês... Vossa Majestade conhece esta raça heróica, mas tão fútil, tão espontânea...
Viraram para um corredor: as vozes sumiram. Não se percebia senão um sussurro, e, depois de um minuto, o ruído de uma viatura, apressada. 0 carro conduzia alguém; e o rei e o urso entraram novamente na sala onde o idiota estava, babando...
Com excepção do monarca, carrancudo, sentado, no seu trono, todos observavam o infeliz e pouco a pouco a incredulidade do rei se transmitia aos oficiais, aos secretários, aos granadeiros da porta. Durante a ausência do rei o miserável rira, chorara, chamara "bokrr..." Uma pena de ganso enfiada num tinteiro lhe tinha feito medo... Mas, à força, o conservaram no meio da sala... e ali, esquecido de tudo, ele recomeçara a bambolear a cabeça: um espectáculo que despedaçava o coração...
- Majestade, - disse o general - vamos confundir este homem. Ele é afamado em Versalhes como um galanteador das senhoras. Assim dizem. Ora, em Halberstadt, existe uma mulher que foi dama da rainha Leesvnka e que conhece de cor todos os olhares da corte francesa. Convidei-a a vir aqui, e se Vossa Majestade permitir, trá-la-emos à presença do marquês...
- Ordeno que entre esta senhora.
Dois servos abriram a porta e a dama, suave e distinta, silenciosa, entrou num passo felino.
- Senhora, conhece este francês? - inquiriu o rei.
A alemã olhou atentamente, muito tempo, o imbecil em seguida declarou:
- Não, Majestade.
- Vai bem, - disse o urso, - chamá-la-emos daqui a pouco. Tenha a bondade de sair pela outra porta!
Para ir até a outra porta, ela precisava atravessar a sala e passar ao lado do prisioneiro. 0 relógio badalava as três horas. Uma mosca que voava foi pousar no ambiente e não mais foi notada: também ela escutava... A senhora encarou o enfermo, deu um salto, gritou e caiu... Foi a mais forte das cenas. 0 idiota mudou de aspecto:
- Aceite este braço, mad...
E estacou, todo asseado.
Num momento todo o ambiente se transformou em tumulto. 0 rei se ergueu, pálido. A dama escapuliu.
- Franceses ligeiros... - disse alguém.
Rumores, lutas na corte, um grito e a voz de De Kervescop de Coadilo que, claramente, gritou:
- Viva o rei da França!
Depois uma descarga: vinte disparos de fuzil contra um coração.
- Todos foram apanhados por aquele meio - grunhiu o velho.


Georges D' Esparbès