29/08/2011

O Dr. Sabe-Tudo



Estava disposto a antipatizar com Max Kelada antes mesmo de conhecê-lo. Terminara a guerra e era grande a afluência de passageiros aos navios de carreira. Dificilmente se conseguia acomodação e quem desejasse viajar tinha que se conformar com o que as agências ofereciam.
Ninguém pensava na possibilidade de ocupar sozinho um camarote, e me senti feliz quando me deram um onde havia apenas duas camas. Mas quando me disseram o nome do companheiro, a minha satisfação se desfez. Era como uma sugestão de vigias rigidamente fechadas, ausência de ar no camarote, durante a noite.
Já era desagradável compartilhar de um camarote durante quatorze dias (eu viajava de São Francisco para Yokoama); mas a partilha ter-me-ia parecido menos desalentadora se o passageiro se chamasse Smith ou Brown.
Quando embarquei já estava no camarote a bagagem de Mr. Kelada. Desagradou-me o aspecto; rótulos em excesso nas malas de mão e demasiado grande a mala de camarote.
Mr. Kelada já retirara do estojo os objetos de toucador, e observei que era cliente do maravilhoso Mousieur Coty, pois no lavatório o seu perfume, sua loção e a sua brilhantina. As escovas do Mr. Kelada, em suportes de ébano com o monograma em ouro, eram o que havia de melhor na matéria.
Antipatizei inteiramente com Mr. Kelada. Dirigi-me para a sala de fumar. Pedi um baralho e pus-me a jogar “paciência”. Mal começara, aproximou-se alguém, perguntando-me se o meu nome não era esse mesmo.
- Eu sou Mr. Kelada – acrescentou, com um sorriso em que mostrava uma fila de dentes brilhantes; e sentou-se.
- Ah, sim, creio que estamos no mesmo camarote.
- É o que chamo de sorte. A gente nunca sabe com quem vai no camarote. Fiquei contentíssimo ao saber que você era inglês. Gosto muito que nós, ingleses, fiquemos juntos, a bordo, está entendendo?
Pestanejei.
- É inglês? – perguntei, talvez sem habilidade.
- Totalmente. Acha-me parecido com um americano? Sou inglês até a medula.
Para prová-lo, Mr. Kelada tirou do bolso um passaporte e, ufano, agitou-o junto ao meu nariz.
O Rei Jorge tem muitos súditos estranhos. Mr. Kelada era baixo e de construção vigorosa, moreno e escanhoado; possuía um nariz carnudo e adunco, e uns olhos muito grandes, brilhantes e límpidos.
Os cabelos negros e longos eram reluzentes e encaracolados. Falava com uma fluência nada inglesa e os gestos eram exuberantes. Tinha a íntima convicção de que um exame mais detido naquele passaporte britânico me revelaria que Mr. Kelada nascera sob céu mais azul do que se vê geralmente na Inglaterra.
- Que vai tomar? – perguntou-me.
Olhei-o hesitante. A lei seca estava em vigor e, segundo todas as aparências, o navio estava integralmente seco.
Quando não estou com sede, não sei se o que me desagrada mais é “ginger ale” ou limonada. Mas no rosto de Mr. Kelada um sorriso oriental.
- Uísque com soda, ou Martini seco, é só dizer a palavra.
De cada um dos bolsos posteriores das calças retirou um frasco, colocando-o sobre a mesa, diante de mim. Escolhi o martini. Ele chamou o garçom e pediu gelo e dois copos.
- Um ótimo coquetel – disse eu.
- Pois há em quantidade na fonte de origem, e se você tiver amigos a bordo, diga-lhes que descobriu um indivíduo que dispõe de todo o álcool do mundo.
Mr. Kelada era loquaz. Falou de Nova Iorque e de São Francisco.
Discutiu peças de teatro, filmes, política. Era patriota.
O pavilhão britânico é um impressionante pedaço de pano, mas quando é enfeitado por um homem de Alexandria ou Beirute, não posso evitar a impressão de que perde um quê de sua dignidade.
Mr. Kelada era íntimo. Não gosto de me fazer importante mas julgo sempre inconveniente que uma pessoa totalmente estranha não me conceda o tratamento de senhor. Mr. Kelada certamente para me deixar à vontade, não usava tal formalidade. Não gostei dele. Deixei as cartas de lado quando ele se sentou: mas, achando que para a primeira vez a nossa conversa já se estendera demais, continuei com a paciência.
- O três no quarto – disse Mr. Kelada.
- Nada há demais desesperante quando estamos jogando paciência do que nos dizerem onde devemos por a carta que viramos, antes de termos tempo de olhar por nós mesmos.
- Está andando, está andando – gritou: - O dez no valete.
Com o coração cheio de ódio, terminei o jogo.
Neste momento ele segurou o baralho.
- Gosta de truques com cartas?
- Não; detesto truques com cartas, respondi.
- Bem, vou mostrar-lhe só este.
Mostrou-me três. Depois, disse que ia descer para o salão de refeições e escolher um lugar.
- Oh, não se incomode – disse ele. Já reservei um lugar para você. Achei que, como estávamos no mesmo camarote, bem podíamos sentar-nos à mesma mesa.
Sim, eu não gostava de Mr. Kelada.
Não somente eu compartilhava o camarote com ele e fazia três refeições por dia na mesma mesa, como também não podia passear pelo convés sem que se juntasse a mim. Era inútil fingir que não o via. Nunca lhe ocorria que não era desejado. Tinha a convicção de que os outros ficavam tão contentes de vê-lo como ele de os ver. Se estivéssemos em casa, poderíamos empurrá-lo escada abaixo, batendo com a porta, sem que surgisse no seu cérebro a suspeita de que não era uma visita desejada.
Era muito sociável e, em três dias, já se dava com todo o mundo a bordo.
Dominava tudo. Arranjava apostas, dirigia leilões, organizava subscrições para os prêmios nas competições esportivas, inventava partidas de chinquilho, promoveu o concerto e o baile à fantasia.
Estava sempre em toda a parte. Sem dúvida, era o homem mais odiado do navio. Chamavamos-lhe o Dr. Sabe-Tudo, mesmo diante dele.
Mr. Kelada considerava-se elogiado. Mas, nas horas das refeições era que se tornava ainda mais intolerável. Então, durante a melhor parte de uma hora, tinha-nos à sua mercê. Era jovial, veemente, loquaz e questionador. Sabia tudo melhor do que qualquer pessoa; e afrontava a sua vaidade presunçosa quem discordasse dele. Não abandonava um assunto, por menos importante que tivesse, a não ser quando conseguisse reduzir o interlocutor ao seu ponto de vista.
Nunca lhe ocorria a possibilidade de que pudesse estar equivocado.
Era o homem que sabia. Sentávamo-nos à mesa do médico.
Mr. Kelada sem dúvida manteria pacificamente a hegemonia, pois o médico era preguiçoso e eu, frigidamente indiferente; mas havia também um homem chamado Ramsay como companheiro de mesa. Era tão dogmático como Mr. Kelada e irritava-se amargamente com a inabalável firmeza do levantino. As discussões que travaram eram ardentes e intermináveis.
Ramsay estava no serviço consular dos EUA em Kobe. Era um americano do meio oeste, grande e pesado. A gordura esticava-lhe a epiderme, e por sua vez esticara-lhe seus ternos de confecção.
Viajava de volta para o seu posto, depois de uma rápida visita a Nova Iorque onde fora buscar a esposa, que estivera passando um ano em sua terra. Mrs. Ramsay era uma mulher miúda e linda, de maneiras agradáveis e portadora de senso de humor. O serviço consular é mal pago e ela vestia com simplicidade, mas sabia tirar partido de seus vestidos. O efeito que causava era de serena distinção. Não teria lhe prestado atenção particular se ela não tivesse uma qualidade que poderá ser bastante comum nas mulheres, mas que hoje não é comum no comportamento delas. Não era possível olhar Mrs. Ramsay sem notar desde logo a sua modéstia. Fulgia na sua pessoa como uma flor na lapela.
Uma noite, durante o jantar, a conversa casualmente recaiu sobre o tema pérolas. Os jornais vinham noticiando a cultura de pérolas pelos hábeis processos dos japoneses e o médico observou que as pérolas cultivadas diminuiriam o valor das verdadeiras. Aquelas já eram ótimas; em breve seriam perfeitas. Mr. Kelada, como era de seu hábito, embrenhou-se no novo tema. Disse-nos tudo o que havia sobre pérolas. Creio que Ramsay soubesse pouco sobre elas, mas não pôde resistir à oportunidade de zombar do levantino e, em cinco minutos, estávamos numa discussão exaltada.
Eu já assistira a outros gestos de impetuosidade e volubilidade de Mr. Kelada, nunca, porém, o vira tão impetuoso e volúvel como agora.
Finalmente, estimulou-o qualquer coisa que Ramsay disse, porque ele deu um soco na mesa e gritou:
- Bem, acho que entendo do que estou falando. Vou ao Japão exatamente para tratar desse negócio de pérolas. Estou no ramo e não há qualquer homem no ramo que não lhe afirme que o digo sobre pérolas é lei. Conheço as melhores pérolas do mundo e o que não conheço não vale a pena conhecer.
Eram novas para nós, porque Mr. Kelada, apesar de toda sua loquacidade, não dissera a ninguém qual a sua ocupação.
Sabíamos apenas vagamente que ia ao Japão a negócios. Olhou a volta da mesa, triunfalmente.
- Os japoneses jamais conseguirão uma pérola cultivada que um perito, como eu, não conheça, olhando-a com o canto do olho. – Apontou para o colar que Mrs. Ramsay usava: - Pode confiar na minha palavra, Mrs. Ramsay: “este colar que a senhora está usando nunca valerá um cent menos do que vale agora.”
Mrs. Ramsay, à sua maneira modesta, corou um pouco e empurrou o colar para dentro do vestido. Ramsay inclinou-se para a frente. Olhou para nós todos. Um sorriso brincava nos seus olhos.
- É um belo colar, esse da minha esposa, não acha?
- Notei-o logo – respondeu Mr. Kelada – Hanhan, disse cá comigo; essas pérolas são verdadeiras.
- Não fui eu quem as comprou, naturalmente. Gostaria de saber quanto calcula que custaram.
- Oh, no comércio em grosso devem ter andado em quinze mil dólares. Mas se forem compradas na Quinta Avenida, não me surpreenderia se dissessem que o preço andou pelos trinta mil.
Ramsay sorriu com crueldade.
- Pois vai surpreender-se ao saber que minha esposa comprou esse colar no balcão da bijuteria de um magazine na véspera de nossa saída de Nova Iorque por dezoito dólares.
Mr. Kelada ruborizou-se.
- Tolice! O colar é legítimo; é, pelo tamanho, um dos mais belos que eu já vi.
- Quer fazer uma aposta? Aposto cem dólares como é imitação.
- Aceito.
- Ora Elmer, você não pode apostar numa certeza – disse Mrs. Ramsay.
Trazia um leve sorriso nos lábios e o tom de sua voz era levemente súplice.
- Acha? Se tenho uma oportunidade como esta de ganhar dinheiro facilmente, seria um tolo se não aproveitasse.
- Mas como vamos provar? – continuou ela. – é apenas a minha palavra contra a de Mr. Kelada.
- Permita-me examinar o colar; se for imitação, hei de lhe dizer logo. Posso perder cem dólares. – Disse Mr. Kelada.
- Tire-o querida. Deixe Mr. Kelada examiná-lo à vontade.
Mrs. Ramsay vacilou um momento. Levou as mãos ao fecho.
- Não posso abrir – disse - Mr. Kelada terá de contentar-se com a minha palavra.
Invadiu-me a súbita suspeita de que estava para acontecer qualquer coisa infeliz, e não me ocorreu nada para dizer.
Ramsay levantou-se bruscamente.
- Eu abro.
Entregou o colar a Mr. Kelada. O levantino retirou do bolso uma lupa e examinou-o atentamente. Um sorriso de triunfo espalhou-se pelo rosto liso e trigueiro. Devolveu o colar. Ia falar quando subitamente reparou no rosto de Mrs. Ramsay. Estava tão pálido que parecia que ela ia desmaiar. Encarava-o de olhos muito abertos, aterrorizados. Transmitia um desesperado apelo; tão claro que estranhei que o marido não o notasse.
Mr. Kelada ficou silencioso, a boca entreaberta. Enrubesceu violentamente. Quase podia ver-se o esforço que fazia sobre si mesmo.
- Enganei-me – disse – É uma excelente imitação, mas naturalmente, quando examinei o colar com a lupa, vi que não era legítimo. Creio que vale dezoito dólares, no máximo.
- Talvez isso o ensine a não ser tão auto-suficiente de outra vez, meu jovem amigo – disse Ramsay tomando a nota.
Notei que as mãos de Mr. Kelada tremiam.
A história espalhou-se pelo navio, como sucede sempre com as histórias e, naquela noite, ele teve de enfrentar a zombaria de muitos. Era um grande motivo para hilaridade o ter sido apanhado em erro o Dr. Sabe-Tudo. Mas Mrs. Ramsay se retirou para o camarote com uma dor de cabeça.
Na manhã seguinte, levantei-me e pus-me a fazer a barba. Mr. Kelada permanecia deitado, fumando. Subitamente, ouvi um pequeno roçar, e vi uma carta deslizando por baixo da porta. Abri a porta e olhei para fora. Não havia ninguém. Tomei da carta e vi que estava endereçada para Mr. Kelada. O nome estava escrito em letras de imprensa. Entreguei-lhe.
- De quem é? – Abriu-a. – Oh!
Tirou do envelope não uma carta, mas uma nota de cem dólares.
Olhou para mim e tornou a enrubescer. Rasgou o envelope em pedacinhos e os pôs na minha mão.
- Quer fazer o favor de atirar pela vigia?
Fiz o que me pedia e depois olhei-o com um sorriso.
- Ninguém gosta de passar por um perfeito idiota – disse ele.
- As pérolas eram legítimas?
- Se eu tivesse uma linda mulher, não a deixaria passar um ano em Nova Iorque, enquanto eu estivesse em Kobe... – disse-me.
Nesse momento, não antipatizei de todo com Mr. Kelada. Ele estendeu a mão, tirou a carteira, e nela colocou cuidadosamente a nota de cem dólares.


Somerset Maugham
(Tradução brasileira)