07/08/2011

História do Guerreiro e da Cativa




Paulo, o Diácono, narra o destino e cita o epitáfio de Droctulft; estes me comoveram singularmente, depois compreendi por quê. Droctulft foi um guerreiro lombardo que, no assédio de Ravena, abandonou os seus e morreu defendendo a cidade que antes havia atacado. Os ravenenses sepultaram-no num templo e compuseram um epitáfio em que manifestavam sua gratidão (“contempsit caros, dum nos amat ille, parentes”) e o peculiar contraste observado entre a aparência cruel daquele bárbaro e sua simplicidade e bondade:

Terribilis visu facies, sed mente benignus,
Longaque robusto pectore barba fuit!1

Tal é a história do destino de Droctulft, bárbaro que morreu defendendo Roma, ou tal é o fragmento de sua história que Paulo, o Diácono, pôde resgatar. Nem sequer sei em que tempo ocorreu: se em meados do século VI, quando os longobardos desolaram as planícies da Itália; se no VIII, antes da rendição de Ravena. Imaginemos (este não é um trabalho histórico) o primeiro.

Imaginemos Droctulft, sub specie aeternitatis, não como o indivíduo Droctulft, que sem dúvida foi único e insondável (todos os indivíduos o são), mas como tipo genérico que dele e de muitos outros como ele tem feito a tradição, que é obra do esquecimento e da memória. Através de uma obscura geografia de selvas e lodaçais, as guerras o trouxeram à Itália, desde as margens do Danúbio e do Elba, e talvez não soubesse que ia para o Sul e talvez não soubesse que guerreava contra o nome romano. É possível que professasse o arianismo, que sustenta ser a glória do Filho reflexo da glória do Pai, porém mais congruente é imaginá-lo devoto da terra, de Hertha, cujo ídolo coberto ia de cabana em cabana num carro puxado por vacas, ou dos deuses da guerra e do trovão, que eram toscas
figuras de madeira, envoltas em roupa tecida e recobertas de moedas e argolas. Vinha das selvas inextricáveis do javali e do auroque; era branco, corajoso, inocente, cruel, leal a seu capitão e a sua tribo, não ao universo. As guerras o trazem a Ravena e aí vê algo que jamais viu, ou que não viu com plenitude. Vê o dia e os ciprestes e o mármore. Vê um conjunto que é múltiplo sem desordem; vê uma cidade, um organismo feito de estátuas, de templos, de jardins, de habitações, de grades, de jarrões, de capitéis, de espaços regulares e abertos. Nenhuma dessas obras (eu sei) o impressiona por ser bela; tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo fim ignorássemos mas em cujo desenho fosse adivinhada uma inteligência imortal. Talvez lhe baste ver um único arco, com uma incompreensível inscrição em eternas letras romanas. Bruscamente, cega-o e renova-o essa revelação – a Cidade. Sabe que nela será um cão, ou uma criança, e que não começará sequer a entendê-la, mas sabe também que ela vale mais que seus deuses e que a fé jurada e que todos os lodaçais da Alemanha. Droctulft abandona os seus e peleja por Ravena. Morre, e, na sepultura, gravam palavras que ele não teria entendido:

Contempsit caros, dum nos amat ille, parentes,
Hanc patriam reputans esse, Ravenna, suam.2

Não foi um traidor (os traidores não costumam inspirar epitáfios piedosos); foi um iluminado, um convertido. No fim de umas quantas gerações, os longobardos que culparam o trânsfuga procederam como ele; fizeram-se italianos, lombardos e talvez alguém de seu sangue – Aldiger – pôde gerar aqueles que geraram Alighieri… Muitas conjeturas podem ser aplicadas ao ato de Droctulft; a minha é a mais econômica; se não é verdadeira como fato, será como símbolo.

Quando li no livro de Croce a história do guerreiro, ela me comoveu de maneira insólita e tive a impressão de recuperar, sob forma diversa, algo que havia sido meu. Fugazmente pensei nos cavaleiros mongóis que queriam fazer da China um infinito campo de pastoreio e depois envelheceram nas cidades que tinham desejado destruir; não era essa a lembrança que eu buscava. Encontrei-a, por fim; era um relato que ouvi uma vez de minha avó inglesa, já morta.

Em 1872, meu avô Borges era chefe das fronteiras Norte e Oeste de Buenos Aires e Sul de Santa Fé. O comando estava em Junín; mais além, a quatro ou cinco léguas um do outro, a cadeia dos fortins; mais além, o que então se denominava La Pampa e também Tierra Adentro. Uma vez, entre maravilhada e brincalhona, minha avó comentou seu destino de inglesa desterrada nesse fim de mundo; disseram-lhe que não era a única e lhe mostraram, meses depois, uma rapariga índia que atravessava lentamente a praça. Vestia duas mantas vermelhas e ia descalça; suas tranças eram loiras. Um soldado disse-lhe que outra inglesa queria falar com ela. A mulher assentiu; entrou no comando sem temor, mas não sem receio. Na face acobreada, borrada de cores ferozes, os olhos eram desse azul entediado que os ingleses chamam cinzento. O corpo era ligeiro, como de corça; as mãos, fortes e ossudas. Vinha do deserto, de Tierra Adentro, e tudo parecia ficar-lhe pequeno: as portas, as paredes, os móveis.

Talvez as duas mulheres, por um instante, se sentissem irmãs; estavam longe de sua ilha querida e num inacreditável país. Minha avó enunciou qualquer pergunta; a outra respondeu com dificuldade, procurando as palavras e repetindo-as, como que assombrada por algum antigo sabor. Faria quinze anos que não falava o idioma natal e não era fácil recuperá-lo. Disse que era de Yorkshire, que seus pais emigraram para Buenos Aires, que os perdera num ataque, que os índios a levaram e que agora era mulher de um capitãozinho a quem já tinha dado dois filhos e que era muito valente. Foi dizendo isso num inglês rústico, intercalado de araucano ou pampa, e por trás do relato se vislumbrava uma vida cruel: os toldos de couro de cavalo, as fogueiras de esterco, os festins de carne chamuscada ou de vísceras cruas, as sigilosas marchas ao amanhecer; o assalto aos currais, o alarido e o saque, a guerra, a caudalosa boiada tangida por cavaleiros desnudos, a poligamia, a hediondez e a magia. A tal barbárie se rebaixara uma inglesa. Movida pela lástima e pelo escândalo, minha avó exortou-a a não voltar. Jurou ampará-la, jurou resgatar seus filhos. A outra lhe respondeu que era feliz e voltou, nessa noite, para o deserto. Francisco Borges morreria pouco depois, na revolução de 74; minha avó, então, pôde talvez perceber na outra mulher, também arrebatada e transformada por este continente implacável, um espelho monstruoso de seu destino…

Todos os anos, a índia loira costumava chegar às tabernas de Junín, ou do Forte Lavalle, à procura de miudezas e vidos; não apareceu desde a conversa com minha avó. Entretanto, viram-se outra vez. Minha avó tinha saído para caçar; num rancho, perto dos banhados, um homem degolava uma ovelha. Como num sonho, a índia passou a cavalo. Atirou-se ao solo e bebeu o sangue quente. Não sei se o fez porque já não podia agir de outro modo ou como um desafio e um sinal.

Mil e trezentos anos e o mar punham-se entre o destino da cativa e o destino de Droctulft. Os dois, agora, são igualmente irrecuperáveis. A figura do bárbaro que abraça a causa de Ravena, a figura da mulher européia que opta pelo deserto podem parecer antagônicas. No entanto, um ímpeto secreto arrebatou os dois, um ímpeto mais fundo que a razão, e os dois acataram esse ímpeto que não souberam justificar. Talvez as histórias que contei sejam uma única história. Para Deus, o anverso e o reverso desta moeda são iguais.

Para Ulrike von Kühlmann.


Jorge Luis Borges