11/07/2011

O irreparável

- Meu querido amigo, - disse ceticamente Quatresols ao doutor Sriber, - escreverei com prazer um artigo sobre o romance que me está recomendando, porque todos os pregos são bons para neles prendermos os tecidos bordados e cambiantes do estilo, e prego por prego, certamente escolherei aquele que o interessa; mas não exija que eu leia o livro! Falarei sobre ele muito melhor se não o tiver lido e pelo menos não passarei pelo enfado de encontrar a adolescente poética e o engenheiro dotado de todos os talentos! Finalmente, que poderia haver nesse romance, ou noutro qualquer, uma vez que todos os dramas, sem exceção, podem chamar-se: As desgraças da virtude e todas as comédias: Por falta de compreensão, e uma vez que, aliás, nada acontece de extraordinário na vida?
- Pelo contrário, - disse o médico, - nela só acontecem coisas incríveis! Apenas, vocês, os escritores, ainda não encontraram o meio de renovar o romance e de nele fazer penetrar o extraordinário, porque sempre esquecem que os acontecimentos obedecem a uma lógica inexorável que não tem nada a ver com o jogo de nossa vontade, nem com a lógica social. Olhe, você não me viu conversar, nesse baile mesmo da embaixada onde estávamos há pouco, com um jovem diplomata coberto de condecorações, cujos olhos escuros e fisionomia pálida e alva como o linho causavam nas mulheres um pequeno calafrio de pavor?
- 0 senhor de Fallem? - perguntou Quatresols.
- Ele mesmo, - disse o médico -. Pois bem! posso lhe dizer de onde lhe vem essa palidez estranha, porque os atores do drama estão mortos, com exceção dele, que pouco falta, e você verá certamente que não se trata nesse caso da senhorita de alças cor-de-rosa que corre atrás das borboletas, nem de Edgard que desposa Adélia, e que a poética do senhor Sriber nada tem a ver na ocorrência!
"Faz três anos, em Améli-les-Bains, tratei de uma jovem de dezessete anos, senhorita Teresa Demaria, que logo me interessou por sua coragem e sua energia toda viril. Enferma de uma tuberculose que não me dava esperanças, essa criança, de grandes olhos soberbos e de lábios que pareciam rosas pálidas, lutava com um incrível ardor vital.
"Apesar de toda a minha eloqüência gasta em pura perda, não pude enganá-la quanto à gravidade de seu estado; ela porém, suplicou-me que a ajudasse a iludir sua mãe, que a amava apaixonadamente, e eu obedeci à risca a esse desejo de uma agonizante. Sua mãe, senhora Estela Demaria, era viúva, de trinta e cinco anos de idade quando muito, maravilhosamente bela, e atraía todos os olhares com sua opulenta cabeleira fulva e cor de ouro.
Teria podido reinar, agradar, chamar a si todas as homenagens, ser amada, escolhendo a seu talante, porque era extremamente rica. Mas renunciara a tudo e vivia apenas para a sua adorável Teresa.
- Mas, - disse Quatresols, - onde está o amante? Ainda não vi o amante, em tudo isso.
- Alguns meses depois, - prosseguia o doutor Sriber a senhorita Demaria morreu aqui em Paris no pequeno palacete que sua mãe habitava, na rua de Madame. Quase assisti a seus últimos instantes, nos quais se mostrou divina pela fé, pela esperança e pela bondade; e sua mãe pode julgar que havia sido o único pensamento e o único afeto daquela filha encantadora. A partir de então recolheu-se, viveu com suas recordações, com o retrato de Teresa, reunindo, cobrindo de beijos os objetos que lhe haviam pertencido e sempre esquadrinhando, remexendo, esvaziando os móveis e as gavetas para neles encontrar algum novo motivo de enternecimento e de lágrimas. Um dia, com grande surpresa sua, já um ano depois da cruel separação, ela descobriu nos aposentos de Teresa, num cantinho esquecido, um cofrezinho persa, que ela nem mesmo conhecia, no qual estava pintada, com as cores mais vistosas, uma caçada de tigres. E, ao abri-lo, deparou com uma correspondência volumosa. Eram as cartas de Pedro de Fallem. A senhora Demaria leu-as com curiosidade devoradora e soube, então, tudo o que ignorara por tanto tempo.
"Compreendeu que sua filha, sabendo que lhe restava tão pouco tempo de vida, não quisera furtar-lhe um minuto sequer de sua curta existência e que, possuída, todavia, por um imenso amor, nobremente partilhado, sacrificara-o, em silêncio, à afeição filial. Mas o que lhe infundiu uma admiração ilimitada, foi a grandeza d'alma, o culto fervoroso, a adoração ardente que cada uma das palavras das cartas de Pedro denotava. Assim ela o teria querido, o teria escolhido para sua Teresa bem amada, e agora lhe ficava apenas um desejo: vê-lo e ouvir de sua boca todo aquele poema de paixão e de renúncia que ela adivinhara, reconstituíra ao ler suas cartas. 0 senhor de Fallem era então secretário de embaixada em Constantinopla. A senhora Demaria escreveu-lhe uma boa missiva, simpática, molhada de lágrimas, em que lhe confessava seu segredo surpreendido e lhe dizia a necessidade que tinha de vê-lo, de conversar com ele sobre Teresa. Pedro solicitou, obteve uma licença de alguns meses, e veio apressadamente.
"A carta da senhora Demaria fora para ele o que é para o náufrago a ilha verde avistada entre as ondas! Havia sabido da morte de Teresa pelos jornais e não por uma participação de luto, porque não conhecia a senhora Demaria. 0 encontro dos dois jovens havia sido, outrora, inteiramente fortuito. Haviam-se visto em Sèvres, onde Teresa fora veranear alguns dias em casa de uma de suas tias, enquanto sua mãe fazia uma viagem de negócios indispensável; e lá, como acontece com os corações nobres, com os seres absolutamente puros, o amor ferira-os ao mesmo tempo, como um raio. Incapaz de dissimulação, Teresa entregou toda sua alma e deixou perceber que a entregava, mas ao mesmo tempo disse a Pedro de Fallem, desesperado, que nunca lhe pertenceria e que ela daria a sua mãe, sem nada lhe roubar, as horas parcimoniosamente contadas de sua vida aí tão triste, mas doravante iluminada por uma esperança deliciosa, porque ela já entrevia a luz que surge do outro lado da vida.
"Quis mesmo que Pedro jamais conhecesse a senhora Demaria, receando que o carinho de sua mãe tudo adivinhasse e a forçasse a ser feliz. Mas ao mesmo tempo, cheia de confiança na lealdade absoluta de seu amigo, quis corresponder-se sempre com ele.
"Agradou-lhe saber, dia a dia e momento a momento, os pensamentos do homem que ela escolhera entre todos, para lhe revelar os tesouros de sua alma virginal. Essa correspondência que não durou menos de dois anos, foi mantida da maneira mais simples deste mundo, por intermédio de uma criada de quarto, dedicada a Teresa, como todos que se aproximavam dela. Foi assim que esse romance tão puro e todo ideal pode desenrolar-se e prosseguir por tanto tempo, sem que a senhora Demaria dele soubesse, antes de descobrir o cofrezinho onde estavam guardadas as cartas de Pedro, e de lhe escrever chamando-o para encontrar nele em seu olhar, em suas palavras, o vestígio das idéias trocadas com Teresa, cujo perfume ainda deveria impregná-lo, como o de uma rosa delicada permanece nos dedos que a tocaram.
"Imagine que conforto, que alegria amarga, que libertação inesperada deve ter sido para Fallem a carta da senhora Demaria! Lacerado por uma dor indescritível, torturado até os mais íntimos refolhos de seu ser, ele havia podido julgar que teria de sofrer para sempre, em segredo, o seu incomensurável desespero, porque julgava macular a alvura casta da bem-amada caso se confiasse a qualquer pessoa que fosse. E agora havia um ser em cuja presença poderia chorar as lágrimas que o sufocavam e para quem poderia bradar em soluços o nome divinamente querido de Teresa! Quanto à senhora Demaria, desde o dia em que Pedro de Fallem lhe escreveu que estava de partida, teve apenas uma ocupação: aguardá-lo, lendo e relendo mil vezes suas cartas, onde, cada vez mais, ela distinguia a bondade, a lealdade e as carícias mais castas de um afeto terno e másculo. Queria imaginá-lo, e pelas suas cartas imaginava-o como realmente ele era, esbelto, delgado, intrépido, queimado pelo sol, com olhos negríssimos, barba rala e espessos cabelos negros cortados muito rente, porque Fallem ainda não tinha essa palidez com que você mesmo se surpreendeu...
- E que, - disse Quatresols - foi sem dúvida produzida por algum acontecimento singular; porque, se não me engano, estamos chegando à catástrofe.
- Ela ocorreu, - disse o doutor Sriber - e com uma subtaneidade que desmente todos os sistemas do romance. Trêmula, exaltada, presa de uma febre que não mais a deixava, sentindo calafrios percorrerem-lhe a pele úmida e quente, a senhora Demaria tornara-se de uma impressionabilidade excessiva. 0 menor rumor causava-lhe sofrimentos insuportáveis. Foi no ano passado, em pleno mês de junho, numa tarde sufocadora de tempestade, em que o céu, cheio de espessas nuvens cinzentas que se abriam sobre fornalhas de cobre em brasa, era atravessado de relâmpagos fugidios. A noite descia. A senhora Demaria estava sentada numa espreguiçadeira, junto a uma alta janela que dava para as sombras negras do arvoredo do jardim. Absorta, ela não ouvira anunciar o senhor de Fallem, mas sentira-o chegar; sem se darem conta de coisa alguma, encontraram-se um nos braços do outro, e um profundo, um pavoroso soluço irrompeu simultaneamente de seus peitos. De que maneira esse soluço foi sufocado num beijo ardente, louco, que reunira involuntariamente seus lábios queimados? De que maneira a exaltação que a ambos devorava, privava-os da percepção das coisas reais e perturbava seus espíritos exasperados pela angústia prolongada da espera, de que maneira lhes fez esquecer tudo, prostrando aqueles dois seres puros e castos num amplexo de uma voluptuosidade horrível e delirante?
- Diabo! - disse Quatresols.
- Eles haviam, - disse o doutor Sriber, - involuntariamente e debaixo de não sei que absurdas chicotadas do destino, despertado o impossível, criado o IRREPARÁVEL. Fulminando, Fallem partiu sem pronunciar uma palavra e nunca mais tornou a ver a senhora Demaria que, após alguns meses de tormento, morria vítima do pesar de ter ofendido a querida memória adorada. Ele também não lhe escreveu...
- Com efeito, - disse Quatresols -; que teria podido dizer-lhe? Inutilmente o senhor Sarcey procuraria aqui um modelo para alguma cena. É mesmo um dos mais belos exemplos da cena que não deve ser imitada. Compreendo agora perfeitamente por que o senhor de Fallem é tão pálido. Mas, querido doutor, como soube o senhor dessa estranha história e, principalmente, por que ma confiou?
- Meu querido amigo, - disse Sriber, - os médicos sabem de todas as histórias e pode-se contar tudo aos literatos. Eles são mais reservados que os confessores e jamais cometem qualquer indiscrição, porque preferem muito mais guardar consigo aquilo que o senhor Émile Zola chama de "documentos humanos", para mais tarde utilizá-los.


Théodor de Banville