13/07/2011

A briga entre os dois Ivans




Capítulo I
Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch

Que bela sobrecasaca húngara tem Ivan Ivanovitch! Uma autêntica maravilha, meus amigos! E toda guarne¬cida de galões! Seria capaz de apostar por tudo em como não se encontra outra igual. Reparai um pouco naqueles galões; sobretudo quando ele conversa com alguém, olhai-os de soslaio: é de lamber os dedos. Tenho de renunciar a descrevê-los: são veludos, ouro, vermelhos de fogo! Oh! Senhor meu Deus, e vós, S. Nicolau dos Milagres, porque não possuo eu também uma sobrecasaca como aquela?! Ivan mandou-a fazer muito antes de Ágata Fedosseievna ter partido para Kiev sabem, a Ágata Fedosseievna, a que arrancou um pedaço de orelha ao nosso escrivão com uma só dentada?
Ivan Ivanovitch é um excelente homem! E que casa encantadora possui um Mirgorod! Rodeada, toda ela, por um alpendre apoiado em colunas de carvalho, e com bancos ao longo de todo o alpendre. Quando o calor o apoquenta, Ivan Ivanovitch despe a sobrecasaca e as calças, e em trajes interiores goza o fresco sob o seu alpendre, donde pode ver o pátio da casa e a rua. Belas macieiras e pereiras crescem mesmo diante das janelas, e quando estas estão abertas as ramagens entram pelos quartos dentro! E tudo apenas na parte da frente da casa! Se es¬preitarmos para o jardim, que veremos? Ameixas, cerejas, ginjas, legumes em barda, girassóis, pepinos, abóboras, e até uma eira e uma forja.
E que homem simpático este Ivan Ivanovitch! Adora os melões! São a sua paixão! Mal acaba de jantar, instala¬-se, em mangas de camisa, debaixo do alpendre e ordena a Gapka que lhe traga dois melões. Não confia a ninguém o trabalho de os talhar. Corta-os cuidadosamente, embrulha as sementes num pedaço de papel, e depois saboreia-os regalada e lentamente. No fim, Gapka traz-lhe, a seu pedido, o tinteiro, e no embrulho das sementes Ivan escreve com o seu próprio punho: “Este melão foi comido a tantos de tal." E se o partilhou com algum conviva, acrescenta: “com o concurso de fulano de tal".
O falecido juiz de Mirgorod não se podia furtar a admirar a casa de Ivan Ivanovitch. E, santo Deus, aquilo é de facto uma bela casa! O que mais encan-ta nela é a variedade de pavilhões e alpendres que a envolvem: de longe, não se distinguem senão telhados que se sobrepõem uns aos outros como uma pilha de bolos folhados num prato, ou um rosário de cogumelos envolvendo um tronco de árvore. Todos estes telhados são cobertos com juncos; um salgueiro, um carvalho e duas pereiras des¬cansam sobre eles as suas ramagens frondosas, de entre as quais espreitam para a rua minúsculas janelas de por¬tadas ornamentadas e caiadas de branco.
Que homem simpático é este Ivan Ivanovitch! Entre os seus conhecimentos conta-se inclusivamente o recebedor geral de Poltava! Sempre que chega de Khorol, Doroche Tarassovitch Poukhivotchka não deixa de visitar Ivan. E o arcebispo de Koliberda costuma dizer aos seus amigos particulares que, em sua opinião, ninguém melhor do que Ivan Ivanovitch sabe viver e cumprir os seus de¬veres de bom cristão.
Ah! Deus meu, como o tempo voa! No tempo de que vos falo já Ivan Ivanovitch era viúvo há mais de dez anos. Ivan não tem filhos, mas os de Gapka enchem-lhe o pátio com as suas brincadeiras movimentadas e Ivan distribui-lhes bolachas de melão e quartos de pêra. Gapka tem à sua guarda as chaves das caves e dos celeiros. No entanto, as chaves duma certa salinha e dum cofre do seu quarto de dormir são guardadas ciosamente por Ivan Ivanovitch, que não gosta que ninguém meta o nariz nesses lugares. Gapka é uma moçoila de faces frescas que usa, como é moda entre nós, uma saia metade azul metade preta, deixando ver as pernas bem torneadas.
E que bom cristão é este Ivan Ivanovitch! Todos os domingos enfia a sua magnífica sobrecasaca e vai à igreja. Logo à entrada, inclina-se para a direita e para a esquerda e vai colocar-se junto do coro que ele acompanha com a sua bela voz de contrabaixo. Uma vez acabado o serviço religioso, Ivan nunca se dispensa de passar revista aos mendigos, ocupação sem dúvida pouco agradável a que ele renunciaria talvez se a sua bondade não fosse uma virtude natural, espontânea.
Ao descobrir a mais esfarrapada e mais débil de todas as mendigas:
- Bom dia, pobre velhinha - diz-lhe Ivan. - Donde és tu?
- Da aldeia, meu bom senhor, da aldeia. Há três dias que não como nem bebo, os meus filhos, os meus próprios filhos, me puseram fora de casa.
- Ah! pobre infeliz. E que vens tu aqui fazer?
- Estender a mão à caridade, meu bom senhor. Na esperança de que uma alma bondosa me dê um pouco de pão...
- Hum, gostarias de comer um bom naco de pão? - pergunta geralmente Ivan Ivanovitch.
- Com certeza, meu senhor! Estou esfomeada como um lobo no inverno!
- Hum! - replica geralmente Ivan Ivanovitch.
- E carne, também te agradaria, por acaso, um pedaço de carne?
- Se a vossa bondade assim o permitir...
- Achas, então, que a carne é melhor que o pão?
- Boca com fome tudo come; não escolho, senhor, aceitarei tudo o que a vossa bondade me quiser dar.
E, com estas palavras, a velha, em geral, estende a mão.
- Pois bem, que o bom Deus te abençoe! - conclui Ivan Ivanovitch. - Porque ficas aí especada a olhar para mim?
Depois de dois ou três interrogatórios deste género, Ivan Ivanovitch regressa a casa todo impertigado, a não ser quando vai beber um copo a casa do senhor juiz ou do senhor presidente da Câmara.
Quem quiser agradar a Ivan Ivanovitch não tem mais do que oferecer-lhe qualquer objecto ou presenteá-lo com qualquer coisa para comer: são atitudes que lhe sensibi¬lizam o coração.
Ivan Nikiforovitch é também um homem muito sim¬pático. A sua propriedade confina com a de Ivan Ivanovitch. Os dois formam um par de amigos como nunca se viu semelhante. Antone Prokofievitch Poupopouz, que ainda hoje ostenta manchas de azul-celeste na sua casaca debotada, e que todos os domingos janta em casa do senhor juiz, este Poupopouz andava sempre a dizer que o próprio diabo em pessoa tinha unido à mesma trela Ivan Ivano¬vitch e Ivan Nikiforovitch: onde um estiver está o outro.
Ivan Nikiforovitch nunca teve mulher. Embora tenham pretendido o con-trário, nada é mais falso do que essa insinuação. Eu, que o conheço muito bem, posso afirmar que ele jamais revelou a menor veleidade matrimonial. Então quem espalha esses boatos maliciosos? Se até houve quem contasse que Ivan Ivanovitch tinha nascido com uma cauda no fundo das costas! O absurdo, a incon¬veniência e a ignomínia desta maledicência dispensam-me de a desmentir; os meus esclarecidos leitores sabem, sem dúvida alguma, que apenas certas bruxas - aliás em número muito restrito - têm as costas orna-mentadas com uma cauda. Além disso as bruxas são, na sua maior parte, do sexo feminino.
O grande afecto que ligava estes dois amigos não significa, de maneira alguma, que não houvesse diferenças entre eles. Algumas comparações permitem avaliar dos seus respectivos caracteres. Ivan Ivanovitch domina em profundidade a arte de bem-dizer. Meu Deus, como ele fala bem! Ao ouvi-lo, tem-se a sensação de que nos arranham suavemente a cabeça ou que nos acariciam a planta dos pés. Abandonamo-nos e deixamo-nos arrastar pela sua eloquência, delicada e deliciosa como o sono depois dum banho. Ivan Nikiforovitch, pelo contrário, prefere normalmente o silêncio. Mas se, por acaso, deixa tombar uma palavra - então, meus amigos, é certo e sabido que essa palavra será mais cortante que uma lâmina! Ivan Ivanovitch é um homem alto e seco; de estatura mais baixa, Ivan Nikiforovitch estende-se em largura. A cabeça de Ivan Ivanovitch recorda um nabo com a raiz em baixo; a de Ivan Nikiforovitch lembra também um nabo, mas com a raiz no ar. Ivan Ivanovitch só dorme a sesta debaixo do alpendre depois do jantar. Ao entardecer, veste a sobrecasaca e vai entregar a sua farinha ao armazém público ou armar ratoeiras às perdizes. Ivan Nikiforovitch fica todo o santo dia deitado sobre o patamar das escadas de entrada, oferecendo o dorso, beatificamente, ao sol, se o calor não é muito forte; nunca, por nunca ser, ele põe o pé na rua. Se, durante a tarde, lhe ocorre o capricho de dar uma vista de olhos pela casa, em breve regressa à posição horizontal. Antigamente, ainda ele dava um salto até casa do vizinho. Ivan Ivanovitch, dada a sua extrema delicadeza, nunca se permite perante pessoas de boa sociedade a menor expressão malsoante, e enfurece-se se alguém deixa escapar um termo menos apropriado. Ivan Nikiforovitch, por distracção, comete às vezes essa falta. Nesses momentos, Ivan Ivanovitch levanta-se e diz-lhe "Basta! Basta! Ivan Nikiforovitch! Ide, ide deitar-vos ao sol, que sempre é melhor do que cometer semelhantes sacrilégios!” Quando encontra uma mosca na sopa, Ivan Ivanovitch irrita-se, perde as estribeiras, atira o prato ao chão e ralha em altos brados. Ivan Nikiforovitch adora os banhos: instala-se comodamente no rio, apenas com a cabeça fora de água, manda colocar a seu lado uma mesa com um samovar e saboreia assim, à fresca, o seu chá. Ivan Ivanovitch barbeia-se duas vezes por semana, Ivan Nikiforovitch apenas uma vez. Ivan Ivanovitch é extremamente curioso: que ninguém pense que lhe pode contar uma história apenas até ao meio! Se há qualquer coisa que lhe desagrada, dá-o a entender imediatamente. Quanto a Ivan Nikiforovitch, é preciso ser-se muito arguto para descobrir quando está zan¬gado ou satisfeito, que ele nunca deixa transparecer as suas emoções e reacções. Ivan Ivanovitch é essencialmente tímido por natureza. Ivan Nikiforovitch usa umas calças tão largas que nelas cabiam bem à vontade a sua casa e o quintal. Ivan Ivanovitch tem olhos grandes e expressivos, da cor do tabaco, e a boca em forma de acento circunflexo; Ivan Nikiforovitch tem uns pequeninos olhos amarelos, escondidos entre sobrancelhas espessas, as faces arredondadas, e o nariz recorda uma ameixa bem madura. Ivan Ivanovitch nunca oferece tabaco sem pri¬meiro passar a língua pela tampa da tabaqueira, perguntando depois, no caso de vos conhecer: "Posso permitir-me oferecer-vos do meu tabaco?", ou, no caso de não vos conhecer: "Embora não tenha a honra de conhecer nem o vosso nome nem a vossa posição social, posso permitir-me, senhor, ofere-cer-vos do meu tabaco?" Ivan Nikiforovitch, pelo contrário, mete-vos o tabaco logo nas mãos, dizendo: “Sirva-se." Tanto Ivan Ivanovitch como Ivan Nikiforovitch detestam igualmente as pulgas.
Nenhum deles deixaria passar à sua porta um bufarinheiro judeu sem lhe comprar elixires diversos contra semelhantes parasitas, mas, evidentemente, só depois de lhe terem exprobrado em termos virulentos a indigni¬dade da religião judaica.
Ao fim e ao cabo, e apesar destas ligeiras diferenças, tanto Ivan Ivanovitch como Ivan Nikiforovitch são dois indivíduos muito simpáticos.


Capítulo II
O desejo avassalador de Ivan Ivanovitch

Certa manhã de Julho, Ivan Ivanovitch repousava à sombra do alpendre de sua casa. Era um dia de calor intenso e a atmosfera parecia envolta em toalhas de fogo. Ivan Ivanovitch já tinha dado uma volta pelos campos a animar os ceifeiros, a interrogar os aldeões sobre as suas idas e vindas, os seus gestos e atitudes; depois, esgotado de fadiga, sentiu muito naturalmente necessidade de se estender ao comprido e descansar. Nesta cómoda posição, Ivan Ivanovitch percorria com o olhar as suas terras, a cavalariça, os celeiros, as galinhas que depenicavam no pátio, e pensava para consigo mesmo: "Senhor meu Deus, como sei avaliar bem a minha felicidade! Há alguma coisa que eu não possua? Criação, aguardente, licores, ameixas e pêras no pomar; na horta, uma casa, arrecadações, todas as fantasias imagináveis: couves, ervilhas e feijões. O que é que me falta? Sim, o que é que me poderá faltar?"
Esta pergunta tão profunda arrastou-o para o país dos sonhos. Entretanto, o seu olhar, em busca de objectos novos, fixou-se no pátio de Ivan Nikiforovitch, deliciando-se involuntariamente num espectáculo curioso. Uma mulher descarnada andava a pendurar numa corda velhos fatos que trazia com muito cuidado de uma das arrecadações. Um uniforme militar de abas usadas envolvia com as mangas uma blusa de brocado; um uniforme civil com brasão impresso nos botões e a gola carcomida pelas traças; um par de calças brancas crivadas de nódoas, que antigamente se deveriam ter ajustado às pernas de Ivan Nikiforovitch, mas que presentemente apenas se ajustariam aos seus dedos; ao lado destas calças, em breve flutuavam outras em forma de Y; depois, apareceu uma túnica azul de cossaco, que Ivan Nikiforovitch tinha man¬dado fazer há uns vinte anos, numa altura em que falava em cortar o bigode e alista-se na milícia. Como complemento da túnica, surgiu uma espada de ponta afiada como um monumento em flecha. Apareceram, depois, as capas de uma espécie de fato turco de cor de erva, salpicado de botões de cobre do tamanho de uma grande moeda, e entre elas se veio insinuar um colete com galões dourados e ricamente chanfrado. Logo depois, o colete foi coberto por uma saia antiga, herança de qualquer avó muito remota, e em cujos bolsos poderia caber uma melancia. Este conjunto oferecia a Ivan Ivanovitch um espectáculo bastante divertido e que tomava aspectos estranhos devido aos reflexos da luz solar na lâmina da espada, no azul ou verde das mangas, no vermelho dum forro ou num canto dum brocado. Dir-se-ia um desses presépios que os finórios dos nómadas levam pelas aldeias, e diante dos quais ficam especados os papalvos, admirando com inveja o rei Herodes coroado de oiro ou António, o pastor de cabras, enquanto por detrás do pequeno teatro ambulante geme um violino, um Boémio marca com dois dedos o compasso sobre os lábios, o sol vai declinando e o ar frio das noites da Ucrânia desliza traiçoeiramente pelas espáduas vigorosas e os seios ro¬bustos das nossas camponesas.
Logo a seguir, a velha saiu da arrecadação arrastando-se e gemendo sob o peso de uma sela arcaica, sem estribos, com coldres gastos, mas com o chabraque, que tinha sido vermelho-berrante, mostrando ainda um galão de ouro e aplicações de cobre.
"Essa velha tonta", disse para consigo Ivan Ivanovitch, "ainda acaba por pôr a arejar o próprio Ivan Nikiforovitch!"
E não se enganava muito. Cinco minutos depois, a enorme calça de ganga amarela de Ivan Nikiforovitch alastrava pelo pátio, ocupando uma boa metade da sua superfície. A velha trazia também um gorro e uma espingarda.
"Que quererá isto dizer?", interrogou-se Ivan Ivanovitch. "Nunca vi uma espingarda nas mãos de Ivan Nikiforovitch. É muito estranho! Para que quererá ele uma espingarda se nunca se serve dela? E que belo objecto! Há quanto tempo desejo comprar uma espingarda igual! Muito me agradaria possuir aquela arma! Uma espingarda é coisa que ajuda a passar o tempo."
- Olá, ó velhota, velhota! - gritou, acenando com a mão.
A mulherzinha aproximou-se da sebe.
- Que é que trazes aí na mão?
- Como vê, é uma espingarda.
- Que espingarda é essa?
- Juro que não sei. Se ela fosse minha talvez eu soubesse de que era feita, mas como pertence ao meu patrão...
Ivan Ivanovitch levantou-se e quedou-se de tal ma¬neira absorto a exami-nar a espingarda que se esqueceu de repreender a velha pela sua estúpida ideia de arejar uma espada e uma espingarda.
- Tem aspecto de ser de ferro - observou a mos¬trenga.
- Hum, sim, sim, de ferro... Por que diacho será ela de ferro? - interro-gou-se Ivan Ivanovitch... - E há muito tempo que o teu patrão a possui?
- Pode muito bem ser que sim.
- Mas que bela arma - continuava a monologar Ivan Ivanovitch. - Tenho de lha pedir. Não lhe serve para nada... Até seria capaz de lhe oferecer qualquer coisa em troca...
- Diz-me cá, o teu patrão está em casa?
- Sim, sem dúvida.
- Está deitado?
- Sim, sem dúvida.
- Está bem, vou falar com ele.
Ivan Ivanovitch vestiu-se, escolheu um pau nodoso para manter em respeito os cães, mais numerosos do que as pessoas nas ruas de Mirgorod, e pôs-se a caminho.
As propriedades confinavam e a vedação era fácil de escalar, mas apesar disso Ivan Ivanovitch preferiu ir pela rua. Depois de caminhar por esta rua, era preciso meter-se por uma ruela tão estreita que quando acontecia encontrarem-se nela, frente a frente, duas infelizes carroças ficavam imobilizadas e era preciso puxá-las fortemente pelas rodas traseiras para que consentissem em recuar; e os peões saíam dela generosamente enfeitados com os cardos que formavam alas ao longo das vedações. A cocheira de Ivan Ivanovitch dava para um dos lados da rua, e para o outro ficava o celeiro, a cocheira e o pombal de Ivan Nikiforovitch. Chegado à porta, Ivan Ivanovitch abriu o trinco; respondeu-lhe o ladrar dos cães, mas perante este rosto conhecido a matilha colorida afastou-se rapidamente abanando a cauda. Ivan Ivanovitch atravessou o pátio salpicado de galinhas da Índia, aves predilectas de Ivan Nikiforovitch, talhadas de melancia e de melão, uma roda partida, um arco de tonel, um garoto sujo brincando na terra - um quadro dos que apaixonam um pintor. A sombra das roupas estendidas cobria quase todo o pátio e comunicava-lhe uma certa frescura. A velha inclinou-se diante de Ivan Ivanovitch e permaneceu estática. Diante da casa sobressaía pretensiosamente um patamar coberto por um alpendre apoiado em duas colunas de carvalho, resguardo precário contra o sol que na Pequena Rússia, durante esta estação, não é para brincadeiras e obriga o infeliz peão a suar sangue e a desfazer-se em água. Que irresistível ambição não deveria impelir Ivan Ivanovitch para que, desobedecendo ao seu prudente princípio de nunca sair de tarde, se arriscasse à inclemência do sol a tal hora!
Com as janelas de madeira fechadas, o quarto em que Ivan Ivanovitch penetrou estava submerso em penumbra. Por um orifício aberto numa das janelas de madeira um raio de sol filtrava uma luz irisada e desenhava na parede oposta uma paisagem em que se reflectiam, invertidos, os tectos de junco, as árvores e as roupas estendidas no pátio. Todo o quarto estava banhado num bizarro claro-escuro.
- Que Deus seja convosco! - disse Ivan Ivanovitch.
- Ora boa tarde, Ivan Ivanovitch - respondeu uma voz que vinha dum dos cantos da sala. Só nesse momento é que Ivan Ivanovitch reparou em Ivan Nikiforovitch, dei¬tado no chão sobre um tapete. - Desculpe-me de me apresentar tal como Deus me deitou ao mundo.
De facto, Ivan Nikiforovitch nem sequer tinha camisa vestida.
- Não tem importância. Dormiu bem hoje, Ivan Nikiforovitch?
- Muito bem. E o senhor, Ivan Ivanovitch?
- Eu também.
- Então, levantou-se agora?
- Se me levantei agora? Valha-o Deus, Ivan Nikiforovitch! Com certeza que não pensa que sou capaz de dormir a uma hora destas! Cheguei neste momento da minha herdade. As plantações de trigo estão esplêndidas, sim senhor, uma maravilha. E o feno está enorme, tenro e bem verde.
- Garpina! - gritou Ivan Nikiforovitch. - Serve a aguardente e as tortas de creme a Ivan Ivanovitch.
- O dia hoje está lindo.
- Que o diabo leve este lindo dia! Tenho tanto calor que nem sei onde me hei-de meter para não morrer asfixiado.
- Não pode passar sem invocar o diabo! Olhe, Ivan Nikiforovitch, um dia ainda se há-de lembrar das minhas palavras, mas nessa altura já será tarde de mais: ex¬piareis no outro mundo as vossas blasfémias.
- Em que o ofendi, Ivan Ivanovitch? Não buli nem em seu pai nem em sua mãe. Francamente, não sei muito bem em que o poderia ter ofendido.
- Pronto, pronto, Ivan Nikiforovitch.
- Juro por Deus em como o não ofendi.
- É curioso, as perdizes ainda não respondem ao chamariz.
- Pense lá o que quiser mas eu não o ofendi em nada.
- Francamente, não sei porque é que elas não respondem - continuou Ivan Ivanovitch, fingindo não ter ou¬vido Ivan Nikiforovitch. - Será por não estarmos ainda na estação? Mas a mim parece-me que estamos exacta¬mente na boa estação.
- Acha então que os trigos estão bonitos?
- Admiráveis, simplesmente admiráveis.
Seguiu-se um silencio.
- Oiça, Ivan Nikiforovitch - perguntou Ivan Ivanovitch. - Que ideia é aquela de arejar o vestuário?
- Imagine que essa maldita velha quase me deixou apodrecer os meus magníficos fatos! Fatos quase novos. Ordenei-lhe que os arejasse. Tudo aquilo é de fazenda fina, fazenda de primeira qualidade. Se os mandasse voltar ainda poderia usá-los.
- No meio daquilo tudo há um objecto que me agrada muito, Ivan Nikiforovitch.
- O que é, Ivan Ivanovitch?
- Que espingarda é aquela que a velha pôs a arejar juntamente com seus fatos?... Permite que lhe ofereça? - continuou, tirando a tabaqueira do bolso.
- Não, obrigado. Sirva-se, que eu fumo do meu.
E dizendo isto, Ivan Nikiforovitch tacteou à sua volta até encontrar o tabaco.
- Então essa velha estúpida também me foi pendurar a espingarda!... Sabe, o judeu de Sorotchintsy prepara, na verdade, bons tabacos. Não sei lá o que ele lhe mis¬tura, mas deitam um cheirinho! Parece tasna. Tome, mastigue um pouco, e vai ver que lembra tasna. Tome, tome, sirva-se.
- Ainda estou a pensar naquela espingarda, Ivan Nikiforovitch. Que pensa fazer dela? Não precisa dela para nada.
- Não preciso!? E se me dá na veneta disparar um tiro?
- Ora, valha-me Nosso Senhor, Ivan Nikiforovitch! Quando é que vai ter oportunidade de dar tiros? Na hora do juízo final? Nunca ouvi dizer que tivesse morto uma única ave, e além disso não foi para se entregar a seme-lhantes exercícios que veio ao mundo. A sua figura é demasiado imponente para andar pelos campos à caça. Não o posso imaginar calcorreando os terrenos pantanosos. Não, Ivan Nikiforovitch nasceu para o repouso, a inacção, a ociosidade. (Como já disse, quando se tratava de convencer alguém, Ivan Ivanovitch recorria a manhas dum pitoresco perfeito. Ah! Como ele falava bem! Meu Deus! que eloquência!) Sim, Ivan Nikiforovitch é um homem de boas maneiras... Pode crer que o melhor que tinha a fazer era dar-me essa espingarda.
- Dar-lhe a espingarda?! Mas aquilo é uma espingarda muito cara, como hoje já se não encontra. Foi um turco que ma vendeu quando eu andava a pensar em me alistar na milícia. E queria agora que de pé para a mão eu lha oferecesse! Muito obrigado pela ideia, mas a espingarda faz-me muita falta.
- Faz-lhe falta? Para que?
- E ainda pergunta para quê! Suponha que os ladrões se lembram de me assaltar a casa... Graças a Deus estou tranquilo e não receio ninguém. E porquê? Porque sei que tenho uma espingarda no armário.
- E que boa espingarda! Até tem o gatilho emperrado...
- Emperrado? Olha a grande coisa! Facilmente se arranja. Basta deitar-lhe óleo de cânhamo para que a ferrugem nunca mais entre com ela.
- Não há dúvida, Ivan Nikiforovitch, que tem pouca simpatia por mim. Não me dá nem uma única prova de amizade.
- O quê, Ivan Ivanovitch, eu não dou nem uma única prova de amizade? E não tem vergonha de dizer uma coisa dessas?! Então, e os seus bois que pastam nos meus campos sem que eu nunca os tenha espantado? E a minha charrete, que me pede emprestada todas as vezes que vai a Poltava, alguma vez lha recusei? E os patifes desses garotos que saltam do seu pátio para o meu e vêm brincar com os meus cães, alguma vez lhes disse uma só palavra? Não, nunca lhes disse fosse o que fosse; que se divirtam à vontade, desde que não mexam em nada.
- Se não ma quer oferecer, troque-a.
- Trocá-la por quê?
- Pela minha marrã castanha; sabe, o melhor animal da minha pocilga. Olhe que é uma bela marrã! Garanto que daqui a um ano ela já tem criação.
- Está a falar a sério, Ivan Ivanovitch? Que faço eu com a sua marrã? Vá para o diabo com a marrã!
- Pronto, lá está outra vez a invocar o diabo! É um pecado, Ivan Nikiforovitch; garanto-lhe que é um pecado!
- Mas também, Ivan Ivanovitch, que diabo de ideia essa de me oferecer uma marrã em troca da minha es¬pingarda!
- Que diabo de ideia? Porquê, Ivan Nikiforovitch, porquê?
- Pois, com certeza. Ora pense bem: uma espingarda é um objecto ultra-conhecido, enquanto uma marrã só o diabo é capaz de saber o que isso pode ser. Se essa oferta me fosse feita por outra pessoa era capaz de a levar a mal.
- Diga lá o que acha de tão ofensivo na minha oferta de uma marrã.
- Ora essa, por quem me toma? Aceitar uma marrã, eu?!
- Calma, calma! Pronto, não insisto mais. Deixe lá a espingarda enferrujar e apodrecer no armário, que eu é que nunca mais falo nela.
E seguiu-se novo silêncio.
- Parece - recomeçou Ivan Ivanovitch - que três reis declararam guerra ao nosso czar.
- Sim, Piotr Fiodorovitch falou-me disso. Mas que guerra é essa? Porque é que começou?
- Pouco o posso esclarecer, Ivan Nikiforovitch. Na minha opinião, esses três reis querem é que todos nós nos façamos turcos.
- Ora os canalhas! - exclamou Ivan Nikiforovitch, levantando a cabeça.
- E então o nosso czar declarou-lhes guerra. Não! disse-lhes ele, vós é que tendes de vos tornar cristãos.
- E não lhe parece, Ivan Ivanovitch, que nós os derrotamos?
- Claro que derrotamos... E então, sendo assim, Ivan Nikiforovitch, ainda não quer trocar a sua espin¬garda?
- É curioso, Ivan Ivanovitch, que passando por homem instruído raciocine como garoto.
- Calma, calma. Que Deus abençoe a espingarda! Que apodreça à vontade! Nunca mais falo no assunto.
Neste momento a criada trouxe a refeição. Ivan Iva¬novitch engoliu um pequeno copo de vinho e uma torta de creme.
- Bem. Ivan Nikiforovitch, além da marrã ainda dou dois sacos de aveia. De qualquer maneira, como este ano não semeou aveia, sempre tem que a comprar.
- Francamente, Ivan Ivanovitch, antes de começar a conversar consigo, a gente devia encher bem o estômago com uma boa pratada de feijões. (Esta afirmação não vinha nada a propósito, mas Ivan Nikiforovitch tinha por costume deixar escapar muitas outras deste género.) Onde é que já se viu trocar uma espingarda por dois sacos de aveia? E claro que não lhe passou pela cabeça oferecer-me a sua magnífica sobrecasaca!
- Esquece-se, Ivan Nikiforovitch, que lhe dou também uma marrã.
- Uma marrã e dois sacos de aveia pela minha es¬pingarda!
- Acha pouco?
- Pela minha espingarda?
- Sim, pela sua espingarda.
- Dois sacos pela minha espingarda?
- Dois sacos cheios de aveia, se faz favor! E ainda a marrã, não esqueça!
- Com mil raios, fique lá com o seu porco ou com o diabo, se prefere!
- Decididamente, Ivan Nikiforovitch, o senhor tem uma língua muito porca! Expiará no outro mundo todas essas blasfémias: a sua língua será picada com agulhas em fogo. Depois de se falar consigo, sentimos necessidade de lavar a cara e as mãos, e de nos purificarmos da cabeça aos pés.
- Perdão, Ivan Ivanovitch, uma espingarda é um objecto de valor, uma distracção apaixonante e, o que é mais, um belo ornamento numa sala.
- Pronto, Ivan Nikiforovitch - replicou Ivan Ivanovitch, a quem a mostarda já subia ao nariz. - Fique lá com a sua espingarda como um burro carregado de re¬líquias.
- E o senhor, Ivan Ivanovitch, fica para aí a berrar como um pato bravo...
Se Ivan Nikiforovitch não tivesse proferido esta palavra, os dois amigos ter-se-iam separado sem qualquer vestígio de rancor, como era hábito aconte-cer depois das suas discussões. Mas desta vez as coisas encaminharam¬-se doutra forma.
Ivan Ivanovitch ficou vermelho de raiva.
- Ivan Nikiforovitch, repita o que disse! - impôs ele, levantando a voz.
- Eu disse que o senhor parecia um pato bravo, Ivan Ivanovitch.
- E com que direito, meu caro senhor, esquecendo as conveniências e o respeito devidos ao meu nome e à minha categoria, se atreve a insultar-me dessa maneira?
- A insultá-lo, Ivan Ivanovitch?
- Pela última vez, Ivan Nikiforovitch, com que direito, esquecendo o respeito mais elementar, se atreveu a chamar-me pato bravo?
- Deixem-me rir, Ivan Ivanovitch. Já acabou de grasnar?
Ivan Ivanovitch não se conteve mais: os lábios tremiam-lhe: o acento circunflexo da boca havia tomado a forma dum O e tinha os olhos tão abertos que era de meter medo. Nele, eram sintomas raros e que denun¬ciavam uma cólera profunda.
- Depois disto, declaro-lhe que não mais desejo manter relações consigo.
- Olha, a grande infelicidade! Pode estar certo de que não vou chorar.
Mentia. Deus bem sabe que ele mentia! Peço-vos que acreditem que isso o contrariava muito.
- Nunca mais volto a pôr os pés nesta casa.
- Heeee! - gritou Ivan Nikiforovitch, que, ferido pelo despeito, já não sabia o que fazia, e que até con¬seguiu pôr-se de pé. - Heee! ó velha! ó rapaz!
A este chamamento apareceram à porta da sala a velha magrizela e um homenzito embrulhado numa enorme sobrecasaca.
- Agarrem-me Ivan Ivanovitch e deitem-no pela porta fora!
- O quê? A mim?! Um fidalgo! - protestou Ivan Ivanovitch num magnífico impulso de dignidade ofendida. - Ai de quem tentar aproximar-se! Reduzo-os a pó, a vocês dois e ao imbecil do vosso patrão. Nem os corvos encontrarão vestígios de vocês. (Quando estava possesso duma comoção violenta, Ivan Ivano-vitch empregava expressões muito enérgicas.)
O grupo formava um belo quadro de grandes proporções. Ivan Nikiforovitch de pé, ao meio da sala, em toda a sua beleza natural, sem o menor ornamento; a pobre velha de boca aberta, e com uma expressão de es¬tupidez e medo na face; Ivan Ivanovitch com o braço estendido como um tribuno romano. Que invulgar, que admirável cena! Pena foi que o seu único espectador fosse aquele bonifrate metido na sua interminável sobrecasaca, e que numa indiferença profunda continuava placidamente a meter os dedos no nariz.
Por fim Ivan Ivanovitch pegou na gorra para sair.
- Os meus cumprimentos, Ivan Nikiforovitch. Há-de pagar-me tudo isto.
- Saia, vá-se embora, Ivan Ivanovitch, e nunca se atravesse no meu caminho que lhe escangalho os ossos.
- Olhe, Ivan Nikiforovitch, para si - replicou Ivan Ivanovitch fazendo uma figa.
E com estas palavras, bateu a porta, que se fechou gemendo nos gonzos. Desejoso de ser o último a falar, Ivan Nikiforovitch ainda apareceu à porta, mas Ivan Ivanovitch já tinha atravessado o pátio sem se dignar olhar para trás.


Capítulo III
Consequências da desavença entre Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch

Aí temos, pois, desavindos estes dois respeitáveis indivíduos, honra e glória de Mirgorod. E porquê? pergunto-vos eu. Por uma ninharia, por uma estupidez, por uma palavra. Por causa desta ninharia os nossos dois in-separáveis amigos não querem mais voltar a ver-se; por esta ninharia cortaram todas as relações! Até ontem, não havia dia nenhum que Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch não mandassem saber notícias um do outro; várias vezes por dia, do patamar das suas casas, eles trocavam frases tão amenas que aqueciam a alma a quem as escutava... Todos os domingos Ivan Ivanovitch, de sobrecasaca de lã, e Ivan Nikiforovitch, de japona amarelo-esverdeada, iam à igreja quase de braço dado. Logo que o olhar penetrante e observador de Ivan Ivanovitch descobria qualquer charco ou qualquer imundície no meio da rua - o que é bastante frequente em Mirgorod - prevenia imediatamente Ivan Nikiforovitch: "Cuidado não ponha o pé ali porque é muito desagradável." Por seu lado Ivan Nikiforovitch dava provas a Ivan Ivanovitch de uma amizade enternecedora, e mesmo a grandes distâncias oferecia-lhe a tabaqueira dizendo: "Sirva-se!” E que bem se entendiam os dois amigos... Quando me deram a novidade, foi como se tivesse sido atingido por um raio, embora duvidando do que ouvia. Oh, misericórdia divina! Ivan Ivanovitch desavindo com Ivan Nikiforovitch! Duas pessoas tão sensatas! Depois desta derrocada, nada de sólido restava neste mundo mesquinho.
Ivan Ivanovitch entrou em casa perturbadíssimo. Geralmente, o seu primeiro cuidado era ir à cavalariça ver se a jumenta tinha comido bem o feno. (Ivan Ivanovitch possui uma jumenta cinzenta, um belo animal, podem crer.) Depois era ele próprio que dava de comer aos gansos e à garotada. Só depois de cumprir estas missões é que voltava à casa para se entregar ou a tornear objectos em madeira (trabalho que ele realizava com a perfeição de um artista), ou a percorrer um velho alfarrábio, impresso por Lubbi, Gorii e Popov livro de que ele já não lembra o título, porque Gapka, um belo dia, lhe arrancou um pedaço da capa para distrair um dos ga¬rotos), ou ainda para fazer uma sesta debaixo do alpendre. Mas naquele dia, em vez de se entregar às suas ocupa-ções favoritas, começou por ralhar a Gapka, a primeira pessoa que encontrou, por andar a bocejar pelos cantos, se bem que ela arrastasse nesse momento para a cozinha um saco cheio de farinha; atirou com a bengala a um galo que tinha vindo ao patamar em busca da sua refeição habitual; e quando um garoto, sujo e maltrapilho, correu ao seu encontro, gritando: "Paizinho, paizinho, dê-me um bocado de pão doce", Ivan Ivanovitch repeliu-o com um gesto tão ameaçador e com um bater de pés tão enérgico, que o garoto achou prudente afastar-se sem insistir no pedido.
Com o passar das horas, no entanto, sentiu necessidade de se acalmar e de regressar ao ramerrão quotidiano. Jantou tarde, e quando se estendeu debaixo do alpendre a noite começava já a cair. Uma canja de borrachos e de beterraba, muito bem cozinhada por Gapka, tinha-lhe feito esquecer os aconte-cimentos da tarde. Com um prazer evidente, Ivan Ivanovitch passeou o olhar pela sua propriedade; depois, fixando a do vizinho, pensou: "Olha, hoje ainda não fui visitar Ivan Nikiforovitch; vou lá agora." E pegando na bengala e no gorro, saiu imediatamente de casa. Mas mal pôs os pés na rua recordou-se da discussão com o amigo, cuspiu de desprezo e arrepiou caminho. Com Ivan Nikiforovitch passou-se quase o mesmo. Ivan Ivanovitch descobriu a velha já com um pé na vedação, no intuito de a transpor, quando a voz do patrão a obrigou a estacar: "p'ra trás, p'ra trás! nada disso!" Ivan Ivanovitch sentiu-se em breve invadido pelo tédio, e não há dúvida que estes dignos personagens se teriam reconciliado no dia seguinte se, por infelicidade, um certo acontecimento não se tivesse verificado em casa de Ivan Nikiforovitch, e que veio atiçar a chama, quase já extinta, da inimizade.
Nessa mesma tarde Ágata Fedosseievna foi visitar Ivan Nikiforovitch. Esta senhora não era nem parente nem comadre de Ivan Nikiforovitch, e não se percebia muito bem porque o visitava tão assiduamente, tanto mais que ele não tinha grande prazer nessas visitas. Apesar disso, ela instalava-se em casa dele durante dias e dias, às vezes por uma semana ou mais... Tomava conta das chaves, e reinava na casa como dona absoluta. Se bem que tudo isto desagradasse profundamente a Ivan Nikiforovitch, era surpreendente ver como ele lhe obedecia como uma criança; e mesmo que ele tentasse impor-se, era sempre Ágata Fedosseievna que tinha a última palavra.
Nunca consegui compreender por que artes as mulheres conseguem levar sempre os homens pelo beiço; será porque este não tem qualquer outra utilidade? A verdade é que Ágata Fedosseievna conseguia transformar Ivan Nikiforovitch num cordeirinho dócil. E, de boa ou má vontade, o facto é que ele moderava alguns dos seus hábitos na presença dela: passava a tomar banhos de sol menos demorados, e tomava-os em camisa e calção em vez de o fazer tal e qual como a Natureza-mãe o deitara ao mundo. Mas nestes aspectos, Ágata Fedosseievna mostrava-se muito mais acomodatícia. Se ele tinha febre, esta digna senhora, inimiga das cerimónias, friccionava-o dos pés à cabeça com vinagre e terebentina. Ágata Fedosseievna arvorava uma touca na cabeça, três verrugas no nariz, e no corpo uma capa cujo fundo cor de café era suavizado por flores amareladas. Como se esse mesmo corpo se assemelhava a um barril, ser-vos-ia tão difícil desvendar a sua cintura como ver o vosso próprio nariz sem o auxílio de um espelho. Tinha os pés curtos, em forma de almofadinhas. Era intriguista, comia beterrabas cozidas ao pequeno almoço e praguejava na perfeição; e tudo isto sem que a sua expressão se alterasse, privilégio quase sempre negado às pessoas do seu sexo.
Desde a sua chegada, as coisas envenenaram-se mais.
"E principalmente, Ivan Nikiforovitch", repetia ela, "não faças as pazes com ele: aquele homem só quer a tua perdição; ele é assim mesmo, tu é que não o conheces!"
Tantas coisas disse esta maldita intriguista que ele nunca mais quis ouvir falar de Ivan Ivanovitch.
E tudo se transformou. Mal o cão do vizinho se es¬gueirava para o pátio desancavam-no sem piedade; os ga¬rotos que se atreviam a escalar a vedação batiam em re¬tirada aos berros, com a camisa levantada e as costas cheias dos vergões das chicotadas; e um dia, a criada de Ivan Nikiforovitch deu uma res-posta tão inconveniente a uma pergunta de Ivan Ivanovitch que este, ofendido na sua sensibilidade, até cuspiu de raiva.
"Ah!", murmurou ele, "velha desavergonhada! Ainda é pior que o patrão!"
Para cúmulo das ofensas, o execrável vizinho, como que para acentuar a afronta recente, construiu mesmo em frente da casa de Ivan Ivanovitch, junto à vedação que separava as duas propriedades, uma capoeira para criação de patos. E o recinto odioso cresceu com uma rapidez diabólica; num dia ficou pronto. Este crime desencadeou a raiva de Ivan Ivanovitch, que ardia em desejos de vingança. A princípio dissimulou a sua raiva, apesar do pátio lhe invadir o seu terreno; mas o coração batia-lhe tanto que só com um enorme esforço conseguia manter aquela calma aparente.
Desta maneira se passou o dia. Chegou a noite. Ah! se eu fosse pintor, como eu saberia exprimir o encanto desta noite! Representaria Mirgorod ador-mecida sob o olhar fixo de inumeráveis estrelas; no silêncio, que eu saberia tornar palpável, soava o ladrar dos cães próximos e distantes; com espírito intrépido e heróico, um Romeu apaixonado escalava o muro da casa da sua amada; sob o luar, as casas brancas tornavam-se ainda mais brancas, mais escuras as árvores que as abrigam, mais densa a sombra que essas árvores projectam; as flores, a erva entorpecida, exalavam um perfume mais capitoso, enquanto o coro dos grilos, esses turbulentos cavaleiros da noite, lançava aos ares a sua canção crepitante. Sur¬preenderia numa destas casinhas baixas qualquer beleza da terra, de sobrancelha negra, deitada, com o seio palpitante, numa cama solitária, sonhando com bigodes, es¬poras e hussardos, enquanto um raio de lua brincalhão se demora nas suas faces... Faria aparecer na rua branca a sombra negra de um morcego que acaba de pousar sobre as chami-nés caiadas. Mas era impossível fazer aparecer Ivan Ivanovitch neste quadro, por tal forma o seu rosto exprimia sentimentos e emoções tão diversas no momento em que nessa noite ele saía a passos furtivos, cautelosamente, para se introduzir sorrateiramente no reduto dos patos.
Ignorantes ainda da zanga, os cães de Ivan Nikiforovitch permitiram que este velho amigo da casa se aproximasse da capoeira, que se apoiava com-pletamente em quatro pés de carvalho. Ivan Ivanovitch entrega-se imediatamente à tarefa de cortar o pé mais próximo. O ruído da serra obriga-o a olhar em volta a cada instante, mas a sede de vingança dá-lhe coragem para prosseguir. Uma vez cortado o primeiro pé, lança-se sobre o segundo. Tem os olhos injectados e o medo cega-o. Inesperadamente, solta um grito e fica estarrecido, julgando ter visto um fantasma. Mas não, era apenas um pato que simpaticamente esticava para ele o pescoço. Enraivecido, Ivan Ivanovitch cospe, recobra coragem e recomeça a tarefa. O segundo pé começa a ceder, e a capoeira a vacilar.
Quando Ivan Ivanovitch acabou o terceiro pé, o coração batia-lhe no peito com tal violência que teve de interromper o trabalho várias vezes. Mal chegara a meio da tarefa, o frágil casebre cambaleou e ruiu com es¬trondo, quase não lhe dando tempo para dar um salto para trás. Completamente apavorado, sal-tou por cima da serra, correu para casa, trancou a porta e deitou-se sobre a cama, incapaz de espreitar pela janela o que se passava. Parecia-lhe que toda a gente da casa de Ivan Nikiforovitch lhe vinha no encalço: a bruxa da velha, o seu patrão, o bonifrate com a sobrecasaca interminável - todos armados de mocas e comandados por Ágata Fe¬dosseievna, prontos a demolir-lhe a casa.
Ivan Ivanovitch passou todo o dia seguinte roído pela febre. Sonhou que o seu execrável vizinho, por vingança, deitava fogo à casa; e por isso, ordenou a Gapka que não deixasse que ninguém se aproximasse da palha seca. Por fim, desconfiando das intenções de Ivan Nikiforovitch, resolveu antecipar-se e apresentar contra ele no tribunal da primeira instância de Mirgorod uma queixa, cujo conteúdo se encontra no capítulo seguinte.


Capítulo IV
Na sala de audiências do tribunal de Mirgorod

Que bela cidade que é Mirgorod! Creio que não há edifício que lhe falte. Possui-os de todos os tipos e formas, cobertos com telhados de todos os géneros: de palha, de junco, de madeira. Uma rua à direita, outra à esquerda, e de todos os lados bonitas vedações por onde trepa o lúpulo, donde pendem bilhas e por detrás das quais se distinguem as flores radiantes do girassol, as cores sumptuosas das papoilas, as formas arredondadas das melancias. Que maravilhoso espectáculo! Objectos variados, camisas, saias e roupas interiores estendidas ao sol mais realçam este espectáculo, porque os habitantes de Mirgorod, ignorando ladrões e ratoneiros, expõem nos quintais tudo quanto lhes dá na gana. Quando se entra na cidade pelo lado da praça, é-se forcado a parar por um bom bocado para que o olhar se deleite: há na praça um charco, um charco único no seu género, um charco como nunca ninguém viu outro semelhante! Um charco que inunda quase toda a praça! Ah, que belo charco! Os edifícios que o rodeiam, casas e casinhas que de longe se confundem com medas de feno, estão presos pela beleza desse charco.
Posso afirmar sem receio de contradição que o tribunal da primeira instância leva a palma a todos esses edifícios. Pouco me importa que seja de carvalho ou de bétula, porque a verdade é que possui uma fachada com oito janelas, oito janelas, meus bons amigos, que dão para a praça, para aquela toalha de água de que acabo de falar, e a que o presidente da Câmara gosta de chamar um lago! De todos os edifícios de Mirgorod, este foi o único contemplado com um revestimento exterior que faz lembrar o granito; os restantes tiveram de se contentar com uma barrela de cal. A escadaria deste nobre edifí-cio avança pela praça dentro, e nos degraus é vulgar verem-se galinhas pro-curando afanosamente grãos de trigo ou de milho, ali deixados, não proposita-damente mas por esquecimento de litigantes imprudentes. O edi¬fício com-preende o tribunal e a prisão. O tribunal ocupa duas salas asseadas e caiadas: primeiro uma sala de es¬pera para os queixosos, depois uma sala de audiências mobilada com uma mesa com um friso de dobrões de tinta, e sobre a qual se encontra o "espelho da justiça", quatro cadeiras em carvalho, de costas altas, e ao longo das paredes armários revestidos de ferro forjado, tú-mulos da chicana de todo o distrito. Sobre um destes ar¬mários distinguia-se naquele dia uma bota bem engra¬xada.
A audiência já durava desde a manhã. O juiz, um homem avantajado embora mais magro que Ivan Nikiforo¬vitch, de cara bonacheirona e roupão sebento, com o ca¬chimbo numa das mãos e uma chávena de chá na outra, conversava com o seu assessor. O juiz tinha o nariz tão próximo da boca que o lábio superior lhe servia de taba¬queira onde ele espalhava o tabaco destinado a ser absor¬vido pelas fossas nasais. Assim, pois, conversava o juiz com o seu assessor. A pequena distância uma criada descalça segurava uma bandeja empilhada de chávenas. No topo da mesa um escrivão lia uma sentença num tom de voz tão dolente, tão monótono, que o próprio réu se deixou adormecer. E não restam dúvidas de que o juiz teria sido o primeiro a render-se ao sono se um assunto interessante o não mantivesse acordado.
"Daria tudo", perorava o juiz, deliciando-se com o chá já frio, "daria tudo para saber o que se há-de fazer para que eles cantem. Há dois anos tive um melro que a princípio cantava maravilhosamente, e que de repente deixou de cantar. Começou a gaguejar, a voz foi-se alte¬rando cada vez mais, perdeu toda a limpidez, e não houve outro remédio senão pô-lo em liberdade. Ora bem, a cura é tudo quanto há de mais simples: faz-se uma pequena in¬cisão na guela, mais pequena que uma ervilha - mas este tratamento deve ser feito com uma agulha. Consegui saber este segredo por intermédio de Zakhar Prokofievitch, e se lhe interessa, vou-lhe contar como é que a coisa se passou. Cheguei à casa dele..."
- Quer que leia outra, Demiane Demianovitch? - interrompeu o escrivão, que já tinha terminado a leitura uns minutos antes.
- Já acabou? Mas tão depressa? E eu que não ouvi nada! Onde estão os papéis? Dê-mos para eu assinar. O que é que vem a seguir?
- O processo do cossaco Lokitko, sobre o roubo duma vaca.
- Óptimo. Pode começar a ler... "Então cheguei a casa dele. Se quiser posso contar como ele me recebeu. Para ajudar a escorregar a vodka serviram um esturjão fumado, que era de lamber os beiços! Não tem comparação" (e nesta altura o juiz sorriu e deu um estalo com a língua, o que lhe permitiu ins-pirar as partículas de tabaco depositadas na sua tabaqueira natural) “... com a bodega que nos fornece o nosso digno merceeiro. Nem provei o arenque por-que, como sabe, me faz sempre ardor no estômago, mas fiz as honras ao caviar, que tem de se reconhecer que estava simplesmente delicioso... Depois saboreei um licor perfumado com centaureia. Havia também licor de açafrão, mas eu nunca lhe toco; não há dúvida que é um licor excelente mas, como toda a gente sabe, se bem que a princípio abra o apetite, acaba depois por tirar a vontade de comer..."
- Ah! Mas que sorte inesperada! - exclamou subitamente o juiz ao ver entrar Ivan Ivanovitch.
- Que Deus esteja convosco! Muito bons dias! - disse Ivan Ivanovitch, com a sua cortesia habitual. Meu Deus, como ele sabia ganhar as simpatias de toda a gente! Nunca vi uma pessoa tão delicada. E a verdade é que sabia o que valia, e aceitava a consideração geral como uma homenagem que era devida ao seu mérito.
O próprio juiz ofereceu uma cadeira a Ivan Ivanovitch, sorvendo ao mesmo tempo, pelo nariz, todo o tabaco de reserva no lábio, o que nele era um sinal infalível de profunda satisfação.
- Que lhe posso oferecer, Ivan Ivanovitch? - perguntou. - Aceita uma chá-vena de chá?
- Não, muitíssimo obrigado - respondeu Ivan Ivanovitch, que se levantou, inclinou a cabeça em sinal de agradecimento, e voltou a sentar-se
- Só uma chaveninha - insistiu o juiz.
- Não, não se incomode Demiane Demianovitch.
Ao pronunciar estas palavras, Ivan Ivanovitch levantou-se, inclinou-se e tornou a sentar-se.
- Mas é só uma chaveninha.
- Nesse caso, seja. Só uma chávena.
E Ivan Ivanovitch estendeu a mão para pegar na chávena.
Deus Nosso Senhor, que profunda cordialidade a deste homem! É impossível descrever o efeito que as suas boas maneiras tinham sobre toda a gente.
- Só mais uma chávena?
- Muitíssimo obrigado - respondeu Ivan Ivanovitch que se inclinou e pousou sobre a bandeja a chávena virada para baixo.
- Faça-me esse favor, Ivan Ivanovitch.
- Peço-lhe muita desculpa, mas é impossível.
E ao pronunciar estas palavras, Ivan Ivanovitch levantou-se, inclinou-se e tornou a sentar-se.
- Ivan Ivanovitch, beba mais uma chávena só para me dar prazer.
- Não, muito obrigado; mas estou muito sensibilizado pela sua insistência.
E, ainda ao pronunciar estas palavras, Ivan Ivanovitch levantou-se, incli-nou-se e tornou a sentar-se.
- Vamos lá, só mais uma chávena.
Ivan Ivanovitch estendeu o braço e tirou uma chávena da bandeja.
Caramba! Como este homem sabia manter a sua dignidade.
- Demiane Demianovitch - disse Ivan Ivanovitch, após ter engolido o último golo de chá -, traz-me aqui um assunto urgente; venho apresentar uma queixa - Ivan Ivanovitch pousou a chávena e tirou da algibeira uma folha de papel timbrado escrito dos dois lados -, uma queixa contra o meu inimigo, con-tra o meu inimigo figadal.
- E quem é ele?
- Ivan Nikiforovitch Dovgotchkoun.
Ao ouvir isto, o juiz quase caiu da cadeira.
- O que é que o senhor disse? - exclamou ele, levantando os braços. - Ivan Ivanovitch, é de facto o senhor que está aqui na minha frente?
- Como vê, sou eu mesmo.
- Que todos os santos do céu o protejam! Mas como é que, de repente, se tornou inimigo de Ivan Nikiforovitch? Mas é mesmo o senhor que está a falar? Por favor, repita o que disse. Não está ninguém atrás de si a falar no seu lugar?
- Mas o que tem isto de extraordinário? Odeio-o e não o posso ver. Fez-me uma afronta mortal, fez um ultraje à minha honra.
- Valha-me a Santíssima Trindade! Como é que a minha pobre mãe poderá acreditar numa coisa dessas? Todos os dias, quando a minha irmã e eu discutimos e nos zangamos, a minha velhota diz-nos logo: "Meus filhos, vocês estão sempre como o cão e o gato. Reparem no exemplo de Ivan Ivanovitch e de Ivan Nikiforovitch. Aquilo é que são uns amigos!" Olha os grandes amigos! Bem, conte-me lá o que aconteceu.
- O assunto é muito delicado, Demiane Demianovitch, e difícil de explicar. É melhor ler a minha queixa, aqui está, segure por este lado, que é melhor.
- Faça o favor de ler em voz alta, Tarass Tikhonovitch - ordenou o juiz, voltando-se para o es¬crivão.
Tarass Tikhonovitch pegou no papel e, depois de se ter assoado como se assoam todos os escrivães de todos os tribunais de primeira instância, isto é, com o auxílio de dois dedos, começou a ler.
"Eu, abaixo assinado, Ivan, filho de Ivan Pererepenko, fidalgo, proprietário em Mirgorod, apresento a seguinte queixa:
"Primeiro: A sete de Julho de este ano de mil oitocentos e dez, um indiví-duo cujo comportamento crimi¬noso e ímpio ultrapassa todas as medidas e provoca a revolta geral, refiro-me ao fidalgo Ivan, filho de Nikifor Dovgotchkoun, fez-me uma afronta mortal, que não só atinge a minha honra de indivíduo, como é um insulto ao meu nome e à minha categoria social. Por outro lado, o mencionado fidalgo, cujo temperamento violento está de acordo com o seu abjecto exterior, não é mais que um receptáculo de palavrões e de frases infamantes."
O escrivão, que se queria assoar, fez uma ligeira pausa, enquanto o juiz, com as mãos juntas numa atitude de deferência, murmurava para consigo: "Safa! isto é que é saber escrever!"
A pedido de Ivan Ivanovitch, Tarass Tikhonovitch recomeçou a ler.
"Quando eu acabava de lhe fazer uma proposta amigável, o mencionado fidalgo Ivan, filho de Nikifor Dovgotchkoun, aplicou-me publicamente uma denominação tão ultrajante como ignomiosa, nomeadamente a palavra pato bravo.
"Contudo, ninguém ignora no distrito de Mirgorod que nunca usei nem tenho a menor intenção de usar no futuro o nome deste animal imundo. O registo de baptismo da paróquia dos Três Prelados, em que se indica o dia do meu nascimento e o meu nome de baptismo, fornece uma prova irrefutável da nobreza das minhas origens. Por outro lado, um pato bravo, como o poderá testemu¬nhar toda e qualquer pessoa por muito pouco versada em ciências que seja, um pato bravo nunca poderia estar ins¬crito num registo de baptismo, visto o dito pato bravo ser uma ave e não um homem, verdade esta duma tal evidên-cia que para ser aceite não é necessário ter-se passado por um seminário. Não obstante isto, e apesar de ele estar perfeitamente ao corrente destes factos, o abominável fidalgo acima mencionado mimoseou-me com este vocábulo infa-me no intuito exclusivo de me insultar mortalmente na minha qualidade de homem e na minha posição social.
"Segundo: O indecoroso, descortês e grosseiro fidalgo, acima mencionado, cometeu um grave atentado contra o bem de família que recebi em legítima herança de meu defunto pai Ivan, filho de Onissi Pererepenko, eclesiástico durante a sua vida e actualmente de santa e gloriosa memória. Com efeito, desprezando todas as leis, deslocou mesmo para diante da minha porta a ca-poeira de patos, na intenção evidente de acentuar o ultraje anterior, visto que a antiga capoeira, ainda bastante sólida, ocupava um local muito bem escolhido. Ao fazer isto, o mesmo triste indivíduo propunha-se unicamente forçar-me a presenciar actos repugnantes, pois ninguém ignora que se não frequentam recintos deste género, principalmente quando ocupados por patos. No decurso desta ope¬ração ilegal, os dois apoios dianteiros da capoeira inva¬diram uma parte do terreno que me transmitiu em legítima herança o meu defunto pai de gloriosa memória, Ivan, filho de Onissi Pererepenko, propriamente num local a seguir à minha arrecadação e daí em linha recta até o lugar onde as criadas costumam lavar as vasilhas.
"Terceiro: O mencionado fidalgo, cujo nome, por si só, inspira uma repul-sa insuperável, alimenta o tenebroso desígnio de lançar fogo a minha casa, o que é superabun¬dantemente comprovado pelos factos que se seguem. Pri-meiro: ultimamente este pérfido indivíduo aventura-se frequentemente a sair à rua, o que em circunstâncias normais lhe é vedado pela sua preguiça inata e obesidade ignóbil; segundo: a habitação desse indivíduo, que confina com a vedação da propriedade que me legou em legítima herança o meu defunto pai de gloriosa memória, Ivan, filho de Onissi Pererepenko, a dita habitação está agora iluminada todos os dias e durante longas horas, prova duma manifesta evidência, visto que anteriormente a sua sórdida avareza o impedia de acender até um simples coto de vela.
"Por tudo isto, e estando para todos os efeitos devidamente comprovado que o dito fidalgo, Ivan, filho de Ni¬kifor Dovgotchkoun, é réu de numerosos crimes, como, por exemplo, tentativa de incêndio, insultos graves ao meu nome e estirpe, roubo de terrenos, e, o que é ainda pior, junção repreensível e prejudicial do epíteto 'pato bravo' ao meu nome de família, venho requerer a Vossas Excelências que contra o dito perturbador da ordem pública seja passada ordem de captura, que seja encarcerado na prisão municipal, algemado de pés e mãos, e condenado a uma pesada multa com o pagamento de custas, danos e prejuízos. Apela-se para o Tribunal para que seja dado seguimento imediato a este requerimento, que foi redigido, escrito e assinado por mim, fidalgo e proprietário de Mirgorod.

"Ivan filho de Ivan Pererepenko."

Terminada a leitura o juiz aproximou-se de Ivan Iva¬novitch, pegou-lhe na aba da sobrecasaca e falou-lhe mais ou menos nestes termos:
- Que é que o senhor pretende com isso, Ivan Ivanovitch? Não chame sobre si a cólera divina. Mande esse requerimento ao diabo que o leve, vá procurar Ivan Nikiforovitch, e dê-lhe um abraço. Depois mande comprar uma boa garrafa de vinho de Santorin ou de Nikopol, ou faça simplesmente um bom ponche e mande-me chamar. Bebemos todos juntos, e vai ver que os fumos do álcool vos farão esquecer todo esse assunto.
- Não, Demiane Demianovitch - replicou Ivan Ivanovitch naquele tom gra-ve que lhe ficava tão bem. - Um assunto destes não se pode resolver amiga-velmente. Desejo-lhe muito boa tarde. Meus caros senhores, muito boa tarde acrescentou no mesmo tom grave, dirigindo-se às pessoas que se encontravam na sala. - Espero que seja dado ao meu requerimento a atenção que lhe é devida.
E retirou-se, deixando todos os presentes profundamente surpreendidos.
O escrivão tomou uma pitada de rapé; o juiz ficou especado, passeando um dedo distraído numa poça de tinta que estava sobre a mesa, porque os empregados tinham derramado o caco de garrafa que servia de tinteiro. Por fim quebrou o silêncio.
- Que é que o senhor diz a isto, Dorofei Trophi¬mitch? - perguntou ao seu assessor.
- Absolutamente nada - respondeu o assessor.
- Sempre acontece cada coisa neste mundo! - concluiu o juiz.
Mal tinha acabado de falar, a porta abriu-se bruscamente e projectou na sala de audiências a metade dianteira de Ivan Nikiforovitch, cuja metade tra-seira tinha ficado prisioneira na sala de espera. O aparecimento de Ivan Nikifo-rovitch, e principalmente num lugar daqueles, provocou o espanto geral. O juiz deu um grito de surpresa, o escrivão interrompeu a leitura, um dos funcionários, enfiado numa espécie de fraque de lã da Frísia, pegou na caneta com os dentes, e outro apanhou uma mosca. O velhote meio inválido que desempe-nhava simultaneamente funções de oficial de diligências e de moço de cartório, que estivera até então de sentinela à porta de entrada, vestido com uma blusa suja enfeitada nas costas com um remendo, e que tinha passado o tempo a coçar-se - até este velhote ficou de boca aberta e deu uma pisadela não sei a quem.
- Então é o senhor, Ivan Nikiforovitch! Que bons ventos o trazem? Como vai essa saúde?
Mas Ivan Nikiforovitch estava mais morto que vivo. Entalado entre os dois batentes da porta, não podia deslocar-se nem para a frente nem para trás. O juiz lembrou-se de pedir às pessoas que porventura estivessem na sala de espera, que viessem em seu socorro. A única pessoa que se encontrava naquela sala, uma velha de braços descarnados, esforçou-se em vão por prestar auxílio. Nesse momento, um dos funcionários do tribunal, um latagão de lábios grossos, de costas largas, nariz achatado e olhar turvo de ébrio, com o casaco roto nos cotovelos, aproximou-se de Ivan Nikiforovitch e cruzou-lhe os braços como se faz a uma criança; depois piscou o olho ao velhote, que colocou um joelho no ventre do pa¬ciente; e apesar dos seus gemidos, os esforços conjugados dos dois homens conseguiram projectá-lo na sala de espera. Abriram imediatamente o outro batente da porta. É verdade que tanto o funcionário como o velhote exer¬ceram nesta altura uma actividade altamente meritória, mas o hálito que exalavam tinha um cheiro tão forte que, durante algum tempo, parecia que a sala de audiências se tinha transformado numa taberna.
- Não se magoou, Ivan Nikiforovitch? Hei-de dizer à minha mãezinha que lhe mande um bocado de unguento matadores que ela usa; esfregue só as costas e os rins, e verá que amanhã já não sente nada.
A única resposta de Ivan Nikiforovitch, que estava enterrado numa cadeira, eram uns "ahs" e "ohs" prolon¬gados. Finalmente, com uma voz que mal se ouvia, pro¬feriu:
- Quer?
Depois, tirando do bolso a tabaqueira, acrescentou:
- Sirva-se, se faz favor.
- Acredite que estou muito contente de o ver - replicou o juiz. - Mas fran-camente não consigo descobrir a que devemos o prazer da sua visita.
- Um requerimento - balbuciou Ivan Nikiforovitch.
- Um requerimento? Mas que espécie de requeri¬mento?
- Uma queixa... (uma crise de asma obrigou-o a fazer uma longa pausa)... uma queixa contra um patife... contra Ivan Ivanovitch Pererepenko.
- Meu Deus! Também o senhor! Uma amizade como era raro encontrar! ... Uma queixa contra um homem tão honesto!...
- Ele... o diabo em pessoa... - conseguiu arti¬cular Ivan Nikiforovitch.
O juiz benzeu-se.
- Queira ler o meu requerimento.
- Vamos lá, leia, Tarass Tikhonovitch - ordenou contrariado ao escrivão. Num movimento instintivo, o nariz do juiz aproximou-se do lábio, o que nele denun¬ciava geralmente um contentamento profundo. Este acto de independência fez aumentar a indignação do magis¬trado, que, para punir o impudente, limpou com o lenço, num gesto rápido, todo o tabaco que repousava sobre o lábio.
Após a preparação prévia habitual, efectuada sem o auxílio de lenço, o escrivão começou, no seu tom monótono, a leitura do que se segue:
"Eu, abaixo assinado, Ivan filho de Nikifor Dovgotchkoun, fidalgo de Mirgorod, apresento a seguinte queixa:
"Primeiro: Em virtude do seu carácter malévolo e duma manifesta aversão contra mim, o pretenso fidalgo Ivan, filho de Ivan Pererepenko, não cessa de me causar os mais terríveis e monstruosos prejuízos. Ontem à noite, armado de machados, escopros, serras e outros utensílios de serralheiro, como qualquer gatuno vulgar, introduziu-se na capoeira situada no meu pátio, que é minha propriedade inalienável, e, com as suas próprias mãos, serrou-a da forma mais ignóbil, sem que eu tenha jamais dado o menor pretexto a um tal acto de banditismo.
"Segundo: O mencionado fidalgo Pererepenko nutre o pérfido desígnio de atentar contra a minha existência. A sete do mês passado, abrigando no seu seio esse pérfido desígnio, pretendeu adquirir uma espingarda que se encontra no meu quarto, oferecendo-me em troca, com o espírito mesquinho e avarento que o caracteriza, vários objectos desprovidos de qualquer valor, a saber, uma marrã castanha e duas medidas de aveia. Tendo-me apercebido, a partir desse momento, das suas intenções criminosas, fiz tudo quanto estava ao meu alcance para o dissuadir desse propósito. Mas o mencionado patife Ivan, filho de Ivan Pererepenko, ofendeu-me da maneira mais grosseira possível, e passou a votar-me desde então um ódio sem tréguas. Acresce que o mencionado fidalgo de trazer por casa, Ivan, filho de Ivan, Pererepenko, é na realidade um indivíduo de baixa condição. A irmã, pessoa de um mau comportamento notório, há uns cinco anos pôs-se a andar com o regimento de caçadores que nessa altura pertencia à guarnição de Mirgorod, enquanto mandava inscrever o legítimo esposo no registo dos cam¬poneses. O pai e a mãe eram indivíduos de tão maus cos¬tumes, que se embebedavam ao desafio. Contudo, o pro¬cedimento ordinário e imoral do mencionado fidalgo de trazer por casa ultrapassa de longe a conduta abominável da sua família. A verdade é que ele, sob a máscara da devoção religiosa, comete as acções mais escandalosas: por exemplo, não respeita nem os dias de jejum nem a quaresma; e tanto assim, que na véspera do advento, este renegado comprou um carneiro e mandou-o matar no dia seguinte pela sua concubina Gapka, sob o pretexto insidioso de ter necessidade imediata de sebo para a sua reserva de velas e lamparinas.
"Por tudo isto, e estando para todos os efeitos devidamente comprovado que o dito fidalgo de trazer por casa é réu dos crimes de roubo, sacrilégio e banditismo, venho requerer a Vossas Excelências que contra ele seja passado mandato de captura, e que seja encarcerado ou na prisão municipal ou numa prisão do Estado. Venho além disto requerer que lhe sejam retirados os títulos de nobreza que usa actualmente, que lhe seja ministrada uma severa correcção com um bom par de chicotadas, e que seja deportado para a Sibéria ou para qualquer outra colónia penal conveniente; além disso, que seja condena-do ao pagamento de custas, danos e prejuízos. Apela-se para o Tribunal para que seja dado seguimento imediato a este requerimento, que foi assinado por mim, fidalgo de Mir¬gorod.

"Ivan, filho de Nikifor, Dovgotchkoun."

Logo que o escrivão terminou a leitura, Ivan Nikifo¬rovitch pegou no gorro, cumprimentou os circunstantes e preparou-se para efectuar a sua retirada. O juiz ainda tentou detê-lo.
- Está assim com tanta pressa, Ivan Nikiforovitch? Espere um bocadinho e tome uma chávena de chá comigo. Ò Orychka, pedaço d'asno, que é que estás aí a fazer, especada que nem um espantalho? Já acabaste de fazer olhinhos bonitos aos meus funcionários? Despacha-te, trás lá o chá!
Mas o assombro de ter conseguido realizar uma viagem tão longa e de ter logrado sobreviver a tantas pro¬vações, deu coragem a Ivan Nikiforovitch para transpor sem hesitação a porta fatal, limitando-se a murmurar:
- Não, por favor, não se incomode...
E, fechando a porta atrás de si, deixou o tribunal estupefacto.
Não restavam dúvidas. Impunha-se fazer seguir o processo. Os dois requerimentos seguiriam os trâmites legais, e a partir desse momento o assunto tornaria um aspecto mais sério. E precisamente neste momento, uma circunstância imprevista veio avolumar ainda mais o interesse que nele se fixara. Quando o juiz abandonava a sala de audiências na companhia do assessor e do escrivão, e os funcionários amontoavam num saco as luvas, com que réus e queixosos os brindavam, sob a forma de galinhas, ovos, pães, enchidos, bolos e outras ninharias, precisamente nesse momento irrompeu na sala uma marrã castanha e, perante o espanto profundo da assistência, distin-giu com a sua escolha, não um enchido ou um pedaço de pão, mas nem mais nem menos que o re¬querimento de Ivan Nikiforovitch, cujas folhas pendiam dum canto da mesa. Com este adorno no focinho, a realçar o seu fato de seda castanha, a marrã safou-se a toda a pressa, escapando à perseguição dos homens de justiça, apesar da chuva de réguas e tinteiros que sobre ela lançaram.
Esta aventura inaudita mergulhou-os numa extrema e profunda conster-nação, pois ainda não tinham tirado cópia do requerimento. O juiz, ou melhor, o seu escrivão, conferenciou demoradamente com o assessor acerca deste caso sem precedente. Decidiu-se por fim enviar um relatório a Sua Excelência o Presidente da Câmara, uma vez que a instrução do processo recaía sob a alçada da polícia municipal. Este relatório, enviado nesse mesmo dia com o número 389, provocou uma conversa bastante curiosa, como se poderá ver no capítulo seguinte.


Capítulo V
Conferência entre duas notáveis individualidades de Mirgorod

Depois de se ter ocupado de alguns problemas do¬mésticos, Ivan Ivano-vitch preparava-se para gozar o seu repouso quotidiano debaixo do alpendre, quando com grande espanto seu viu resplandecer certos pontos vermelhos junto à porta de entrada do seu domínio. Era o vestuário de sua excelência o presidente da Câmara, bri¬lhando como um couro castanho avermelhado que tivesse sido envernizado. "Que boa ideia a de Piotr Fiodorovitch de vir dar dois dedos de conversa", disse para consigo Ivan Ivanovitch. A sua surpresa não foi menor, ao ver o presidente caminhar a passos largos e agitando os braços, o que raras vezes lhe acontecia. O uniforme do senhor presidente tinha oito botões; faltava-lhe o nono que se tinha perdido havia dois anos durante a pro-cissão da festa anual da igreja. A despeito das admoestações diárias feitas aos oficiais de serviço à hora do acontecimento, até hoje o desaparecido tem escapado às investigações policiais. Estes oito botões tinham sido colocados no uniforme do presidente um à direita, outro à esquerda, um à direita, outro à esquerda e assim por diante. Durante a sua última campanha uma bala tinha-lhe atravessado a perna esquerda; e quando andava, atirava com tanta força a perna inválida, que quase impedia que a perna direita lhe prestasse os seus bons serviços. Desta maneira, antes que ele chegasse ao alpendre, Ivan Ivano¬vitch teve muito tempo para se perder em conjecturas sobre as possíveis intenções do seu visitante. E o seu in¬teresse redobrou, quando viu que o senhor presidente da Câmara trazia a espada nova à cinta. Não restavam dúvidas de que o assunto devia ser da maior importância...
- Muito bom dia, Piotr Fiodorovitch - exclamou Ivan Ivanovitch.
Sendo muito curioso por natureza, como se disse anteriormente, mal podia conter a impaciência ao ver o presidente tomar o patamar de assalto, sem ao menos levantar os olhos para ele. A verdade é que o esforço de subir as escadas não lhe permitia desviar os olhos dessa operação delicada, porque sempre que subia um degrau a perna inválida batia na perna sã, obrigando-o a uma grande concentração nos seus movimentos.
- Tenho o prazer de cumprimentar o meu caro amigo e benfeitor Ivan Iva-novitch - respondeu o senhor presidente.
- Sente-se, Piotr Fiodorovitch, o senhor tem um ar cansado; com certeza que a sua perna o incomoda muito.
- A minha perna! - exclamou com ar indignado o presidente, mimoseando Ivan Ivanovitch com um daqueles olhares terríveis com que um gigante fulmina um pigmeu, ou com que um doutor esmaga um reles pro¬fessor de dança. E ao pronunciar aquelas palavras, levantou a perna e bateu no chão com força. Esta bravata saiu-lhe cara porque com o impulso todo o seu corpo os¬cilou, e acabou por bater com o nariz no corrimão. Mas o nosso respeitável defensor da ordem retomou rapidamente o equilíbrio e, para disfarçar a atrapalhação, fez menção de tirar a tabaqueira do bolso.
- Pode crer, meu caro amigo e benfeitor Ivan Iva¬novitch, que no curso da minha existência fiz campanhas muito mais sérias que esta última. Olhe, por exemplo a de 1807. Ainda lhe hei-de contar de uma vez em que tive de saltar um muro para ir ter com uma alemãzinha de se lhe tirar o chapéu...
O presidente piscou o olho e sorriu com um ar diabólicamente brejeiro.
- Então onde é o passeio hoje? - perguntou Ivan Ivanovitch, desejoso de desviar a conversa e de que o presidente declinasse o mais depressa possível os motivos da sua visita. Ele bem queria ir logo direito ao assunto sem mais rodeios, mas o seu conhecimento das normas da etiqueta fazia-lhe reconhecer os inconvenientes de um tal procedimento. Apesar de o coração lhe bater mais depressa, tinha de se dominar e esperar pacientemente a revelação da chave do enigma.
- Ora bem, já que o senhor insiste - replicou o presidente - vou-lhe expli-car o motivo da minha vi¬sita... Mas antes de tudo, deixe-me dizer-lhe que o tempo hoje está magnífico...
Nesta altura, Ivan Ivanovitch quase teve um ataque.
- Um assunto muito grave me traz hoje à sua presença... - continuou o presidente.
O rosto do senhor presidente assumiu a mesma expressão inquieta que tinha quando, havia pouco, tomara o patamar de assalto.
Ivan Ivanovitch voltou a si e, como de costume, passou ele a fazer as perguntas.
- Mas de que se trata? É de facto um assunto grave?
- Ora bem, trata-se do seguinte... Mas primeiro permita-me que lhe diga, meu caro amigo e benfeitor Ivan Ivanovitch, que eu, pessoalmente, não tenho nada com isto... Contudo, em nome do governo, tenho que lhe dizer com toda a franqueza: o senhor transgrediu os regulamentos da polícia...
- Que é que o senhor está para aí a dizer, Piotr Fiodorovitch? Não perce-bo nada.
- O quê, o senhor não sabe a que me refiro?! Então um dos seus animais rouba um documento oficial muito importante, e o senhor vem-me dizer que não sabe do que se trata?
- Mas que animal?
- A sua marrã castanha, com sua licença.
- E de que é que me acusam? Que culpa tenho eu se o contínuo deixa a porta do tribunal aberta?
- Mas a verdade é que se o animal é seu a culpa também é sua.
- Então o senhor acha que um porco e eu é uma e a mesma coisa! Muito obrigado pelo elogio.
- Mas eu não disse nada disso, Ivan Ivanovitch! Deus é testemunha que eu não disse nada disso. Por amor de Deus, encare o caso como deve ser. O senhor sabe sem dúvida alguma que, segundo ordens expressas do governo, é proibida a circulação nas ruas da nossa cidade a animais pouco asseados, e muito particularmente nas ruas prin¬cipais. Concorde que isto é proibido.
- O senhor diz o que quiser. Mas olha a grande coisa se à porca lhe apetece dar uma volta pela cidade!
- Perdão, Ivan Ivanovitch, deixe-me que lhe repita que isso é proibido. Que é que se há-de fazer!... As autoridades é que mandam, e nós temos de lhes obedecer. Também é verdade que de vez em quando aparecem aí pelas ruas umas galinhas e uns patos. Mas note bem que eu disse: galinhas e patos; quanto aos bodes e aos porcos fiz no ano passado um edital proibindo-lhes o acesso a recintos públicos, edital esse que foi lido em voz alta perante todos os habitantes, que foram convocados para esse efeito.
- Fale à vontade, Piotr Fiodorovitch, fale à vontade!... O que eu sei é que o senhor não perde a oportunidade para me arranjar complicações.
- Eu, arranjar-lhe complicações! Mas o que está o senhor a dizer, meu querido amigo! Ponha lá a mão na consciência. Quando, no ano passado o senhor acrescentou um sótão à sua casa, que ficou mais alta do que é permi-tido, eu disse-lhe alguma coisa? Não. Fechei os olhos muito bem fechados. E acredite-me, meu caro amigo, mesmo neste assunto, a verdade é que eu... enfim... mas o senhor compreende, os deveres das minhas funções exigem que eu vele pela higiene pública. E vamos lá, meu amigo, estará certo que, de repente, na rua principal...
- Não há dúvida que a sua rua principal é uma ma¬ravilha! Qualquer vagabundo não hesita em deixar lá os seus detritos.
- Se me dá licença, Ivan Ivanovitch, o senhor agora está a ofender-me... É verdade que isso pode acontecer de vez em quando, mas é principalmente ao longo dos muros, dos tapumes, e noutros lugares mais ou menos afastados. Mas o senhor deve concordar que se uma marrã castanha se lembra de ir passear para a rua prin¬cipal ou para o largo, o caso já...
- Olhem a grande desgraça. Ao fim e ao cabo, as marrãs são criaturas de Deus, Piotr Fiodorovitch.
- Tem toda a razão. Toda a gente sabe que o senhor é um homem muito instruído, versado nas ciências e em muitas outras coisas; ao passo que eu confesso que não recebi nenhuma instrução, e só aprendi a ler aos trinta anos; como o senhor sabe, eu sou tarimbeiro...
- Hum! - resmungou Ivan Ivanovitch.
- É verdade - continuou o presidente -, em 1801 era eu tenente da 4.ª companhia de Caçadores 42, que, para sua informação, era comandada pelo capitão Iere¬meiev...
Neste momento o digno magistrado, mergulhando os dedos na tabaqueira de Ivan Ivanovitch, retirou um pedaço de tabaco que começou a amoldar com os dedos para lhe dar a forma mais conveniente...
- Hum! - resmungou Ivan Ivanovitch.
- Mas - recomeçou o presidente - o meu dever é obedecer às ordens do governo. E o senhor não ignora que, seja quem for que desvie documentos oficiais, deve ser enviado a tribunal.
- Sei isso tão bem que, para seu governo, vou-lhe explicar exactamente como se deve interpretar essa lei. O artigo em questão não se aplica senão aos seres hu¬manos, por exemplo ao senhor, admitindo que tivesse desviado qualquer documento. Mas não se esqueça do que lhe disse, uma marrã é um ani-mal, uma criatura do Senhor.
- Não digo que não, mas a lei diz expressamente: "Seja quem for que desvie...". Oiça bem: "seja quem for”. Não faz excepções nem de espécie nem de sexo nem de condição. Por consequência, um animal também está incluído e pode muito bem ser acusado. E o dito animal, como perturbador da ordem pública, deve ser entregue à Polícia até que a sentença seja pronunciada.
- Não, Piotr Fiodorovitch - retorquiu friamente Ivan Ivanovitch. - Nada dis-so vai acontecer.
- Como o senhor quiser; mas pelo meu lado eu tinha que proceder de acordo com as ordens dos meus chefes.
- O senhor quer meter-me medo? Quer o senhor dizer que tencionava mandar prender a minha marrã por aquele maneta que é lá funcionário do tri-bunal? A minha criada punha-o pela porta fora aos pontapés, e ainda acabava por lhe partir o outro braço.
- Não vale a pena zangarmo-nos. Já que não está disposto a entregá-la à Polícia, faça com ela o que entender: mate-a pelo Natal, se quiser fazer presunto, ou então coma a carne fresca. Mas se fizer enchidos agradecia-lhe que me mandasse alguns, para provar. A sua Gapka prepara-os que é uma mara-vilha, e a minha Agra¬fena Trophimovna é doida pelos chouriços que ela faz.
- Quanto aos enchidos, está bem, mando-lhe uns quantos.
- E pode estar certo de que não está a tratar com um ingrato, meu querido amigo e benfeitor... E agora tenho de lhe falar sobre outro assunto. Fui encar-regado pelo nosso juiz, e por todos os amigos das nossas re¬lações, de ver se o consigo reconciliar com Ivan Nikiforovitch.
- De me reconciliar! Com esse malandro, com aquele grosseirão! Nunca! Está a ouvir? Nunca!!!
Nesse dia Ivan Ivanovitch estava disposto a tomar resoluções enérgicas.
- O senhor é que sabe, Ivan Ivanovitch - respondeu o presidente, atafu-lhando as narinas de tabaco. - Eu não sou ninguém para lhe dar conselhos. Mas deixe-me que lhe diga que se o senhor se reconciliasse com ele...
Mas neste momento Ivan Ivanovitch entrou em considerações sobre a caça às codornizes, que era o seu processo infalível de desviar uma conversa quando lhe convinha. E o presidente acabou por regressar a casa sem ter conseguido levar a bom fim nenhum dos assuntos de que fora incumbido.


Capítulo VI
Gorada a singular tentativa de reconciliação

Se bem que o tribunal não tencionasse dar publicidade ao facto, o caso é que no dia seguinte não havia ninguém em Mirgorod que não soubesse que uma marrã de Ivan Ivanovitch tinha roubado o requerimento de Ivan Nikiforo-vitch. O próprio presidente da Câmara foi o primeiro a falar no assunto, por dis-tracção. Quando a coisa chegou aos ouvidos de Ivan Nikiforovitch, este limi-tou-se a per¬guntar:
- Não foi uma marrã castanha?
Mas Ágata Fedosseievna, que por acaso estava ao pé dele, não perdeu a oportunidade de o repreender:
- O quê, Ivan Nikiforovitch? Tu vais deixar que te metam a ridículo? Queres que toda a gente te aponte com o dedo? Depois disso, vê lá se tens cora-gem de te dizeres fidalgo.
E a megera levou a sua avante. Desencantou não sei onde um homenzinho de meia idade, trigueiro e bexigoso, enfiado numa sobrecasaca muito ridícula e remendada nos cotovelos; engraxava as botas com alcatrão, conseguia meter três canetas duma vez atrás da orelha, e tinha um frasquinho de vidro pendurado num dos botões do fato à laia de tinteiro; era capaz de engolir nove chouriços de enfiada, e guardava sempre o décimo na algibeira; conseguia acumular, numa simples folha de papel, tanta matéria-prima, que nenhum escrivão conseguia ler tudo sem se engasgar frequentemente e ter violentos ataques de tosse. Esta amostra de gente, este lindo exemplar tra¬balhou com todo o afã, esmerou-se o mais que pôde, e fi¬nalmente deu à luz o seguinte documento:

"Ao tribunal de primeira instância de Mirgorod, o fidalgo Ivan, Filho de Nikifor, Dovgotchkoun.
"Em aditamento ao requerimento apresentado por mim, Ivan, filho de Nikifor, Dovgotchkoun, perante o tri¬bunal de primeira instância de Mirgorod, venho pelo presente documento afirmar que a atitude do dito tribunal revela a existência de um entendimento privado com o fidalgo Ivan, filho de Ivan, Pere-repenko. A prova evidente deste facto é que o tribunal pretendeu esconder do público o desacato cometido pela marrã castanha, que só me chegou aos ouvidos por informação de pessoas estranhas ao assunto. Ora esta cumplici-dade criminosa deve ser apresentada em juízo sem demora visto que uma marrã, sendo um animal desprovido de razão, não pode ser, por si só, respon-sável pelo roubo de documentos. Donde na¬turalmente se deduz que a men-cionada marrã obedeceu às instigações da parte contrária, o pretenso fidalgo Ivan, filho de Ivan, Pererepenko, cujos crimes de banditismo, sacrilégio e tentativa de assassínio já foram devidamente provados. Não obstante, o dito tribunal de Mirgorod, com a parcialidade que o caracteriza, prestou-se a colaborar na defesa dos interesses do meu adversário, visto que sem essa colaboração a mencionada marrã não teria podido, de modo algum, subtrair o dito documento, devido ao facto de o tribunal de Mirgorod estar habitualmente guardado por vários porteiros e outros funcionários, entre os quais basta mencionar um soldado que está sempre presente na sala de audiências, o qual, se bem que privado de um olho e mutilado dum braço, tem certamente a força necessária para expulsar uma marrã à paulada. Consequentemente, não resta dúvida de que o mencionado tribunal participa em intrigas e se vende com sumptuosos presentes, ilicitamente distribuídos entre os seus membros. Quero ainda fazer notar que o mencionado fidalgo Ivan, filho de Ivan, Pererepenko, já foi preso por desacato.
"Pelo que foi dito, eu, abaixo assinado, Ivan, filho de Nikifor, Dovgotch-koun, venho requerer ao mencionado tribunal de Mirgorod que o requerimento acima mencionado seja retirado à dita marrã castanha ou ao seu cúm¬plice, o fidalgo Pererepenko, e que uma vez levado o caso a tribunal seja pronunciada sentença a meu favor, con¬forme é de justiça. Caso contrário, eu, abaixo assi-nado, Ivan, filho de Nikifor, Dovgotchkoun, reservo-me o di¬reito de apelar para o Supremo Tribunal, denunciando as atitudes ilegais e sub-reptícias assumidas pelo dito tribunal de primeira instância, entregando a solução do caso ao mencionado Supremo Tribunal.
"Assinado por mim, fidalgo de Mirgorod, Ivan, filho de Nikifor, Dovgotch-koun."
Este requerimento produziu o seu devido efeito. Como todas as pessoas de bem, o simplório do juiz era ligeiramente covarde por natureza. Entregou o assunto ao escrivão. Com a sua magnífica voz cheia de tonalidade, o escrivão deixou filtrar um "hum" por entre os lábios, e assumiu a expressão diabólica-mente indiferente que caracteriza Satanás quando vê que uma das suas vítimas está prestes a cair no laço. Não havia senão uma solução: reconciliar os dois amigos. Mas que mais se podia fazer? Tinham falhado todas as tentativas. Contudo, tentou-se mais uma vez: Ivan Ivanovitch declarou peremptoriamente que não queria ouvir falar mais no assunto, e chegou mesmo a zangar-se; Ivan Nikiforovitch limitou-se a voltar as costas. Portanto o processo seguiu o seu curso com aquele ritmo vivo que é a glória dos nossos tribunais. Nesse mesmo dia o requerimento foi rubricado, nume¬rado, registado e homologado, e foi depositado num ar¬mário onde ficou a dormir, a dormir, a dormir durante um, dois, três anos. Muita rapariga nova se casou; fez-se uma nova rua; não se sabe muito bem porquê, os ga¬rotos que brincavam no pátio de Ivan Ivanovitch aumen¬taram de número; em sinal de desprezo pelo vizinho, Ivan Nikiforovitch construiu um novo pátio para a criação um pouco mais afastado que o anterior, e ocultou tão perfeitamente a sua casa que estes dois respeitáveis personagens deixaram praticamente de se ver - e durante todo este tempo, nas profundezas de um armário todo enfeitado de nódoas de tinta, o processo continuava a dormir o sono dos justos.
Entretanto, deu-se um acontecimento de extraordinária importância: o presidente da Câmara deu uma recepção! Onde poderia eu conseguir os pin-céis, as cores para pintar a grandeza desta reunião e a magnificência do fes-tim? Abram o vosso relógio e reparem no meca¬nismo: que terrível quebra-cabeças, não é verdade? Pois bem, imaginem que no largo da Câmara Municipal havia quase tantas rodas como no mecanismo dum relógio. Es-tavam representadas todas as espécies de carruagens. Uma tinha o fundo largo e a almofada estreita; outra, o fundo estreito e a almofada larga. Uma era ao mesmo tempo britchka e caleche; outra, não era nem britchka nem caleche. Havia uma que parecia uma enorme meda de feno, uma solteirona gorda; outra dir-se-ia um judeu mal vestido ou então um esqueleto com uns farrapos de carne pendurados. Outra, ainda, vista de perfil, dava a impressão dum enorme cachimbo; enquanto uma outra, que estava ao pé desta última, não se parecia a nenhuma e constituía uma massa estranha, informe e absolutamente fantástica. No meio deste caos de rodas destacava-se uma espécie de carroça, fechada, cujas janelas eram seguras por pesadas trancas. De gibão ou de sobrecasaca cinzenta, de gorro de astracã ou com os chapéus mais exóticos, os cocheiros passeavam, com o cachimbo entre os dentes, os cavalos desengatados. Ah! que festa magnífica! Permitam-me que vos diga quem eram os convi¬dados: Tarass Tarassovitch, Evpl Akinfovitch, Evtikhi Evtikhievitch, Ivan Ivanovitch - mas não o nosso herói, um outro -, Savva Govrilovitch, o nosso Ivan Ivanovitch, Eleuthere Eleutherievitch, Makar Nazarievitch, Foma Grigorievitch... É impossível continuar, a minha mão recusa-se a fazê-lo! E as damas, meus amigos! Havia-as grandes, pequenas, de tez de jasmim e de tez de bronze, e se algumas eram anafadas como Ivan Nikiforovitch, outras cabiam facilmente na bainha da espada do anfitrião. Que variedade de chapéus e de vestidos - vermelhos, amarelos, verdes, azuis, novos, virados, transformados.
Que abundância de golas, fitas, saquinhos! Adeus, adeus, meus pobres olhos, semelhante espectáculo será o vosso fim! E que imensa mesa posta com todo o requinte! Quando toda a gente desatou a dar à língua, podem crer que faziam um burburinho, uma zoada, uma bulha tal que abafaria o ruído dum moinho com as suas mós, rodas, engrenagens e taramelas. Seria incapaz de vos reproduzir com precisão os temas das conversas: mas com certeza juntava-se o útil ao agradável, falando da chuva e do bom tempo, dos cães e das sementeiras, dos vestuários e dos cavalos de raça. A certa altura, Ivan Ivanovitch - não o nosso herói, o outro, o zarolho - começou a dizer:
- É curioso, o meu olho direito (Ivan Ivanovitch, o zarolho, referia-se sem-pre ao seu defeito num tom de ironia), o meu olho direito não distingue nesta sala Ivan Nikiforovitch, Dovgotchkoun.
- Recusou-se a vir - respondeu-lhe o presidente da Câmara.
- E porquê?
- Imagine que já lá vão dois anos que eles se zan¬garam - Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch -, e desde então, onde um vai não vai o outro.
- Que me diz? - exclamou Ivan Ivanovitch, o za¬rolho, levantando os olhos ao céu e de mãos postas. - Ora diga-me: se as pessoas que têm dois olhos se zangam, que faria eu que tenho um só!
Toda a gente desatou a rir. Ivan Ivanovitch, o za¬rolho, era pródigo em gracejos deste género, que lhe va¬liam a estima geral. Um cavalheiro enorme, seco, de casaca de baeta e com um emplastro sobre o nariz, e que até então tinha ficado muito quietinho no seu canto, com o rosto impassível, mesmo quando as moscas lhe pou¬savam no nariz - este cavalheiro veio juntar-se ao nu¬meroso grupo que rodeava o Ivan Ivanovitch zarolho.
- Oiçam - disse este, quando descobriu que se tor¬nara o ponto central da reunião. - Escutem, em vez de ficarem a contemplar o olho que me falta, será melhor que me ajudem a reconciliar os nossos dois amigos. Descortino além Ivan Ivanovitch em animada conversa com o belo sexo. Sem que ele desconfie de nada, mandemos buscar Ivan Nikiforovitch e lancemo-los nos braços um do outro.
A proposta de Ivan Ivanovitch, o zarolho, foi aceite com entusiasmo, e decidiu-se enviar imediatamente um estafeta a casa de Ivan Nikiforovitch, convocando-o, da parte do presidente, para jantar. Mas levantava-se séria dúvida: a quem confiar esta importante e delicada missão? Este espinhoso problema lançou a perplexidade nos espíritos. Depois de bem pesados os talentos diplomáticos de cada um, a escolha caiu unanimemente em Anton Prokofie-vitch Golopuz.
Apresentemos ao leitor este notável personagem. Anton Prokofievitch era a virtude em pessoa. Se algum notável de Mirgorod lhe oferecia um lenço de seda ou uns calções, ele agradecia; mas se lhe davam um piparote, ele agradecia da mesma maneira. Se lhe perguntavam: "Anton Prokofievitch, porque usa mangas azul-celeste na sua casaca castanha?", ele geralmente respondia: "Se o senhor tem uma igual, espere que as mangas estejam usadas e verá que já não nota a diferença." E de facto, o sol tinha comido tão regularmente o azul do tecido, que as mangas se harmonizavam com o resto da casaca. Mas o mais curioso é que Anton Prokofievitch se vestia de lã no verão e de algodão no inverno. Anton Prokofievitch não tem casa. Outrora possuiu uma mesmo à saída da cidade, mas vendeu-a para comprar uma pequena britchka puxada por três cavalos baios, de que se servia para visitar os fidalgos dos arredores. Porém, como os cavalos exigiam cuidados e a aveia era cara, Anton Prokofievitch trocou-os por uma serva, um violão e uma nota de cinquenta rublos. Mais tarde, Anton Prokofievitch vendeu o violão e trocou a rapariga por uma bolsa de tabaco em marroquim dourado. Se é certo que ele possui hoje a mais bela bolsa de tabaco do mundo, em contrapartida já não pode dar-se com os proprietários dos arredores, e vê-se forçado a passar as noites aqui e ali, principalmente em casa das pessoas de categoria que se divertem à sua custa. Além de acumular tantas virtudes, joga muito razoavelmente a bisca e outros jogos igualmente complicados.
Habituado a obedecer, Anton Prokofievitch pegou na bengala e no cha-péu e pôs-se a caminho sem levantar objecções. Durante o trajecto foi reflectindo nos meios a utilizar para convencer Ivan Nikiforovitch. O humor um tanto brusco deste cavalheiro, aliás bastante respeitável, tornava o empreendimento assaz temerário. Como convencê-lo a aceitar o convite, se para ele representava tanto esforço pôr-se na posição vertical? Admitindo que ele se punha de pé, como conduzi-lo a um local onde ele sabia, sem sombra de dúvida, que iria encontrar o seu implacável inimigo? Quanto mais Anton Prokofievitch reflectia sobre o problema, mais obstáculos descobria. O dia estava quente; o sol ardente fazia-o suar em bica. O nosso homem deixava-se engrolar com facili-dade, e nem sempre se saía bem dos seus empreendimentos; contudo, conhe-cia vários ardis, sabia fazer de parvo no momento oportuno, e saía-se com honra de aventuras em que homens de espírito teriam fracassado.
No momento em que o seu espírito inventivo tinha já descoberto a arma-dilha em que devia cair Ivan Nikiforo¬vitch, e estava já preparado para enfrentar heroicamente o pior, uma circunstância imprevista por pouco lhe não fez perder a serenidade. A propósito, devo prevenir os meus leitores que um dos pares de calças de Anton Prokofievitch tinha a estranha mas infalível virtude de atrair os dentes dos cães para a barriga das pernas do nosso homem. Exactamente nesse dia, ele trazia essas calças. Mal se tinha entregue à corrente das suas reflexões, foi despertado pelo ladrar apavorante dos cães. Anton Prokofievitch soltou um grito agudo (não havia ninguém que gritasse melhor do que ele). Atraídos por este grito, acorreram não somente a nossa velha conhecida, a mostrenga, e o locatário da incomensurável sobrecasaca, mas até a garotada de Ivan Ivanovitch. Os cães, aliás, mal tiveram tempo de lhe morder uma canela. Este episódio, no entanto, fez-lhe perder um pouco da sua confiança, e foi com certa timidez que começou a subir as escadas de entrada.


Capítulo VII
O triste epílogo da desavença entre Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch

- Ah! é o senhor! Bom dia. Já acabou de sarrazinar os cães? - disse Ivan Nikiforovitch, mal distinguiu Anton Prokofievitch, a quem toda a gente se dirigia em ar de troça.
- Sarraziná-los, eu?! Nem isso me passa pela cabeça - replicou Anton Prokofievitch. - Que a peste os leve!
- O senhor está a brincar.
- Dou-lhe a minha palavra de honra que não!... A propósito, Piotr Fiodoro-vitch convida-o para jantar.
- Hum!
- Palavra de honra! Solicita-o com uma insistência que eu sou incapaz de reproduzir. "Por que diabo - disse-me ele - é que Ivan Nikiforovitch me evita como se eu fosse seu inimigo?! Porque teria deixado de vir a minha casa para dar dois dedos de conversa ou simplesmente para dormir a sesta? Se Ivan Nikiforovitch se recusa hoje a vir a minha casa, não sei francamente o que pensar: sem dúvida alimenta contra mim qualquer desígnio malévolo. Supli-co-lhe, Anton Prokofievitch, con¬vença-o a vir!" Vamos, decida-se, Ivan Nikiforovitch; vai encontrar lá a nossa melhor sociedade.
Ivan Nikiforovitch deteve-se a observar um galo que, empoleirado no cor-rimão, soltava um vibrante cocorocó.
- Se soubesse - recomeçou o zeloso mensageiro - que magnífico peixe e que delicioso caviar oferece¬ram a Piotr Fiodorovitch!...
Ivan Nikiforovitch virou-se, e começou imediatamente a prestar mais atenção às palavras do emissário. Este ganhou coragem.
- Apressemo-nos, apressemo-nos. Até vai lá en¬contrar Foma Grigorie-vitch!... Então - acrescentou, vendo que Ivan Nikiforovitch não se mexia - o senhor vem ou não vem?
- Não, não vou.
Este "não vou" deixou Anton Prokofievitch perfeita¬mente estupefacto. No momento em que ele já dava a causa como ganha, apresentavam-lhe uma recusa cate¬górica!
- Mas porquê? - perguntou ele, deixando transparecer uma certa impa-ciência, o que quase nunca acon¬tecia, nem mesmo quando lhe enfiavam na cabeça um canudo de papel a arder, passatempo muito do gosto tanto do senhor juiz como do senhor presidente da Câmara.
Ivan Nikiforovitch tomou uma pitada.
- Agradecia-lhe que me explicasse as razões da sua recusa, Ivan Nikiforovitch, porque eu não consigo descobrir um único motivo que o impeça de aceitar o convite.
- E que é que eu lá ia fazer? - disse finalmente Ivan Nikiforovitch. - Aquele bandido também lá está, com certeza.
Era assim que ele se referia agora a Ivan Ivanovitch. Misericórdia divina! E pensar que ainda há tão pouco tempo...
- Dou-lhe a minha palavra de honra que ele não está lá. É tão verdade como Deus existir. Eu seja ceguinho se estou a mentir - respondeu Anton Prokofievitch, que estava sempre pronto a jurar dez vezes por hora. - Vamos, vamos embora, Ivan Nikiforovitch!
- Não me queira enganar, Anton Prokofievitch. Tenho a certeza que ele está lá.
- Se eu lhe dei a minha palavra que não está! Que eu não saia vivo desta casa se não falo verdade! Porque é que o senhor pensa que eu o quero enga-nar? Que eu fique aleijado!... Ainda não me acredita? Que eu caia morto neste instante se estou a mentir! Que nem eu, nem o meu pai nem a minha mãe entremos jamais no paraíso! Ainda não me acredita?
Dissipadas as suas dúvidas com estas afirmações veementes, Ivan Niki-forovitch ordenou ao criado de quarto, o homenzinho da interminável sobreca-saca, que lhe trouxesse as calças e a japona de algodão amarelo-esverdeado. Parece-me inútil descrever a forma como enfiou as calças, como deu o nó na gravata e como vestiu a japona, que estalou do lado direito. Basta anotar que durante todas estas operações manteve uma calma profun¬damente digna e que respondeu sem azedume a uma proposta de Anton Prokofievitch para tro-car a sua tabaqueira turca.
Entrementes, as pessoas reunidas na festa esperavam impacientemente a chegada de Ivan Nikiforovitch, e o minuto decisivo da reconciliação. No entanto, poucas pessoas acreditavam nessa possibilidade, e o próprio presi-dente da Câmara se propôs fazer uma aposta com Ivan Ivanovitch, o zarolho, em como Ivan Nikiforovitch não se daria ao incómodo de aparecer; o presidente, porém, teve de retirar a proposta perante a pretensão de Ivan Ivanovitch de apostar o seu olho ausente contra a perna coxa do presidente, o que enfureceu este e fez rir toda a assistência à socapa. Embora fosse mais de uma hora, e em Mirgorod nunca se sirvam refeições a horas tardias, ainda ninguém se tinha sentado à mesa.
Mal entrou na sala, Anton Prokofievitch foi assaltado por perguntas de todos os lados, a que respondeu com um enérgico: "não vem! " Um instante mais e este seu fra¬casso ia-lhe valer uma saraivada de recriminações, de injú-rias e até de encontrões, quando de repente a porta se abriu dando passagem a Ivan Nikiforovitch. A aparição de um fantasma, ou mesmo do próprio diabo em pessoa, não teria produzido tanto espanto. Encantado com a sua mistifica-ção, Anton Prokofievitch estalou em gargalhadas.
Entretanto ninguém conseguia compreender como em tão pouco tempo Ivan Nikiforovitch tinha conseguido dar-se ares decentes de homem de sociedade. No momento da sua entrada, Ivan Ivanovitch tinha-se ausentado da sala por alguns instantes. Acalmado o espanto geral, toda a gente deu provas de grande interesse pela saúde de Ivan Nikiforovitch, felicitando-o por ter aumentado de volume. Ivan Nikiforovitch a todos estendia a mão, repetindo: "Muito prazer, muito prazer!"
O cheiro da sopa de beterraba veio entretanto aguçar o olfacto dos convidados, que, espicaçados pela fome, se precipitaram para a sala de jantar. Um enxame de damas - palradoras e silenciosas, gordas e franzinas - tomaram a dianteira, e em pouco tempo a mesa enorme matizou-se de mil cores. Não vou descrever-vos as iguarias; não falarei das tortas de creme, do prato de miude-zas que acompanhou a sopa, do peru com ameixas e passas, e daquele prato que fazia lembrar sola com molho de kvass, ou ainda um outro, verdadeiro canto de cisne de cozinheiro antigo, que foi servido envolto em chamas, com grande pavor ridículo das senhoras. Nada direi destes acepipes porque prefiro de longe saboreá-los a servir-me deles como tema para grandes discursos.
Um peixe com molho de rabanetes ofereceu a Ivan Ivanovitch uma agra-dável ocasião para exercer as suas faculdades nutritivas. Entretinha-se ele a enfeitar o bordo do prato com as espinhas, quando maquinalmente o seu olhar se fixou no lado oposto da mesa... Senhor, Deus meu, seria possível? Tinha diante de si Ivan Nikiforovitch!
No mesmo instante Ivan Nikiforovitch levantou os olhos do prato. Não; necessito doutra pena. Para descrever semelhante quadro a minha é demasiado hesitante, demasiado frágil! ... Estavam petrificados de espanto. Cada um deles tinha diante de si um rosto bem conhecido, rosto dum amigo que se espera há muito tempo e a quem a todo o momento se vai oferecer a taba-queira, dizendo: “Sirva-se...", ou então: "Queria-lhe pedir um favor...”. E contu-do, este rosto metia medo como se fosse um sinal de mau agoiro! Os dois homens suavam em bica.
Com os olhos fixos nos velhos amigos, todos os circunstantes perderam durante um tempo o uso da fala. Até as senhoras interromperam um colóquio apaixonante sobre a arte de capar galos. Fez-se um silêncio total. Quadro bem digno de inspirar o pincel de um mestre.
Ivan Ivanovitch acabou por recorrer ao lenço, enquanto Ivan Nikiforovitch, passeando o olhar à volta da sala, fixou-o na grande porta principal, que estava aberta. O presidente, que surpreendeu esse olhar, apressou-se a mandá-la fechar hermeticamente. Depois disto cada um deles se enterrou novamente na cadeira, e não levantou mais os olhos do prato.
Mal terminou o jantar, ambos pegaram resolutamente nos respectivos gorros, na ânsia de se retirarem imediatamente. Então, a um sinal do presi-dente, Ivan Ivanovitch - não o nosso herói, o outro, o zarolho - colocou-se por detrás de Ivan Nikiforovitch enquanto o presidente cortava a retirada a Ivan Ivanovitch; começaram a em¬purrá-los um para o outro, na firme intenção de os obrigar a apertar a mão. A verdade é que Ivan Ivanovitch, o zarolho, empurrou Ivan Nikiforovitch um bocado de es¬guelha, mas mais ou menos na direcção de Ivan Ivano¬vitch. Mas o presidente, impotente para impor a sua vontade à perna coxa, que, precisamente nesse dia, estava muito indisciplinada e tomava as iniciativas mais sur¬preendentes (consequência provável de libações frequentes e variadas), o presidente empurrou Ivan Ivanovitch tão desajeitadamente que este se despenhou sobre uma senhora vestida de vermelho, a quem a curiosidade tinha atraído para o meio da sala. Este incidente não agoirava nada de bom. Para reparar a falta do presidente, o juiz tomou o seu lugar e, sorvendo com uma inspiração forte todo o tabaco em depósito sobre o lábio, empurrou Ivan Ivanovitch do lado oposto. Esta forma de reconciliação, característica de Mirgorod, tem muitas semelhanças com o jogo da bola. Quando o juiz pôs Ivan Ivanovitch em po¬sição, Ivan Ivanovitch - o outro, o zarolho - empurrou na sua direcção Ivan Nikiforovitch, que suava em bica. Apesar duma resistência encarniçada, e graças ao apoio prestado às forças propulsoras por alguns dos convidados, os nossos dois amigos encontraram-se finalmente face a face. À volta deles formou-se um círculo apertado, disposto a não se abrir até eles apertarem as mãos.
- Ora vamos lá ver, Ivan Ivanovitch e Ivan Nikifo¬rovitch, qual é no fundo o motivo da vossa desavença? Nada, uma ninharia, com certeza. Não têm ver-gonha, perante Deus e perante os homens, de tomarem uma ati¬tude dessas?
- Eu não sei bem - balbuciou Ivan Nikiforovitch arquejante, com todo o ar de quem estava pronto a ceder -, eu não sei bem que mal posso eu ter feito a Ivan Ivanovitch. Porque é que ele destruiu a minha capoeira e ainda por cima quis atentar contra a minha existência?
- Eu não sou culpado de qualquer má intenção - retorquiu Ivan Ivanovitch sem levantar os olhos para Ivan Nikiforovitch. - Juro, perante Deus e perante os responsáveis cavalheiros aqui presentes, que nunca fiz mal nenhum ao meu inimigo. Porque é que ele há-de difamar e insultar o meu nome e a minha posição?
- Em que é que eu o insultei, Ivan Ivanovitch?
Mais um minuto, e extinguir-se-ia para sempre aquela longa inimizade. Ivan Nikiforovitch já tinha a mão no bolso para tirar a tabaqueira, e pronunciar o sacramental: “Sirva-se!”
- Então o senhor - recomeçou Ivan Ivanovitch - não considera que é um insulto o ter sujado o meu nome e o da minha família com um termo que o respeito a este lugar me impede de repetir?
- Ora vamos lá ver aqui, entre amigos - ripostou Ivan Nikiforovitch, que deu uma prova evidente da sua boa vontade tocando com um dedo num dos botões da sobrecasaca de Ivan Ivanovitch - Por que diabo lhe subiu a mostarda ao nariz? Porque eu lhe chamei pato bravo...
Mal acabou de soltar esta palavra, Ivan Nikiforovitch lamentou - mas já era tarde! - a sua imprudência. Era o fim de tudo! Se quando tinha sido pronunciada sem testemunhas Ivan Ivanovitch se tinha enfurecido de tal modo que perdera completamente a noção das realidades, podeis imaginar, caros leitores, o terrível efeito que lhe causou a menção da palavra fatal perante uma reunião onde estavam presentes tantos indivíduos dum sexo que ele respeitava tão profundamente! Se ao menos Ivan Nikiforovitch tivesse dito "ave" em vez de "pato bravo", as coisas ainda se teriam podido compor. Mas "pato bravo"! Não, estava tudo acabado.
Ivan Ivanovitch lançou um olhar ao adversário - e que olhar! Um olhar que, se fosse dotado de poder execu¬tivo, teria reduzido Ivan Nikiforovitch a pó. Os convi¬dados, que interpretaram o significado daquele olhar, apressaram-se a separá-los. E este bom homem, que nunca deixa passar um mendigo à sua porta sem se in¬formar da sua saúde e das suas dificuldades, este modelo de virtude pôs-se em fuga, presa dum ataque de cólera. São assim as tempesta-des que a paixão desencadeia!
Durante um longo mês ninguém ouviu falar de Ivan Ivanovitch. Não saía de casa. O cofre secreto foi aberto, e desse cofre saíram - imaginem o quê! - nada menos que os ducados, os antigos ducados dos seus antepas¬sados. E estes ducados passaram para as mãos sujas dos homens de leis. O caso foi entregue ao Supremo Tribunal. E só quando Ivan Ivanovitch recebeu a grata notícia de que a sentença seria dada no dia seguinte, só então ele se resolveu a sair de casa. Já lá vão dez anos, e desde essa data todos os dias o Tribunal o informa que a sentença será dada no dia seguinte!
Certo dia, há cinco anos, atravessava eu Mirgorod numa época bem má. A estação ia avançada: um outono triste oferecia generosamente a sua humi-dade, os seus la¬maçais e os seus nevoeiros. Uma vegetação definhada e quase artificial, engendrada por uma chuva lúgubre e incessante, revestia os campos e os prados, e ficava-lhes tão mal como uma brejeirice na boca dum velho ou uma rosa no peito duma mulher de idade. Nessa época, o estado do tempo influenciava muito o meu estado de alma: quando ele estava triste, também eu entristecia. E contudo, quando me aproximei de Mirgorod o meu coração batia mais depressa. Meu Deus! Quantas recordações! Havia doze anos que eu não via esta bela cidade! Nessa época havia dois amigos que dedicavam um ao outro uma comovedora amizade. E desde essa época, quantos homens célebres não tinham desaparecido! O juiz Demianovitch morrera, assim como Ivan Ivanovitch, o zarolho. Quando a minha carruagem entrou na rua principal, surgiam de todos os lados postes coroados com um feixe de palha: tinham começado os trabalhos. Entretanto dei¬taram-se abaixo alguns casebres, e os destroços amontoavam-se tristemente aqui e além.
Era dia de festa. Parei a carruagem diante da igreja, e entrei tão silenciosamente que ninguém deu por mim. De resto, quem é que se havia de voltar? Até os paroquianos mais devotos tinham ficado em casa para fugir à chuva e à lama. Na igreja vazia filtrava-se uma luz débil, doentia, e a claridade fraca dos círios acentuava a sensação de mal-estar. A tristeza subia das capelas escuras, e a chuva chorava nos vidros redondos das ja¬nelas altas.
Quando entrava numa das capelas, avistei um velho de aspecto respeitável, com a cabeça branca.
- Desculpe-me a pergunta: Ivan Nikiforovitch ainda é vivo?
Neste momento a lamparina que ardia diante duma imagem sagrada lançou uma luz mais viva que inundou o rosto do meu vizinho. Com grande surpresa, reconheci Ivan Nikiforovitch em pessoa - mas que mudado!
- Como tem passado, Ivan Nikiforovitch? O senhor mudou muito!
- Sim, envelheci - respondeu-me ele. - Acabo de chegar de Poltava.
- De Poltava! Com um tempo destes?
- É preciso! Tratar do meu processo...
Ao ouvir-me suspirar, Ivan Nikiforovitch acrescentou:
- Não se apoquente: tenho informação de fonte segura que a decisão será dada na próxima semana, e que será a meu favor.
Encolhi os ombros e parti em busca de Ivan Ivanovitch.
- Olhe, lá está ele - disse-me alguém. - Ali ao pé da igreja.
Olhei e vi um homem magro, com os cabelos completamente brancos e a testa sulcada de rugas profundas. Seria de facto Ivan Ivanovitch? Sim, era de facto Ivan Ivanovitch, enfiado na sua eterna sobrecasaca. Após os primeiros cumprimentos, perguntou-me com aquele sorriso que tão bem se coadunava com a forma oval do seu rosto:
- Quer saber uma novidade agradável?
- O que é?
- Amanhã é o dia do meu triunfo: o tribunal dá amanhã a sentença a meu favor, segundo uma informação segura que acabo de receber.
Escapou-se-me do peito um suspiro ainda mais fundo. Apressei-me a despedir-me, alegando que tinha algo de urgente a tratar, e subi para a minha britchka.
As pobres pilecas, que em Mirgorod são baptizadas com o nome de cavalos de posta, puseram-se em marcha penosamente; o ruído das patas na lama parda feria-me os tímpanos. A chuva que caía torrencialmente enchar-cava o judeu pendurado no cimo do assento, abrigado apenas por uma velha esteira de junco. A humidade penetrava-me de alto a baixo. Deslizaram-me lentamente perante os olhos as portas sombrias da cidade, onde, metido na guarita, um aleijado remendava a roupa esfarrapada. Depois, repetiram-se as mesmas campinas pardacentas, as mesmas pradarias lustrosas, a mesma chuva monótona, o mesmo céu a rebentar de lágrimas e desespero. Ah, meus amigos, como é triste o mundo em que somos forçados a viver!



Nicolai Gogol