15/07/2011

A Aposta



Era uma escura noite de Outono. O velho banqueiro passeava de um lado para outro no seu gabinete, recordando a festa que dera quinze anos atrás, também no Outono. Nela se haviam reunido muitas pessoas de espírito, entre as quais figurava grande número de sábios e jornalistas, que haviam travado entre si conversas bastante interessantes. Um dos assuntos discutidos fora a pena de morte, contra a qual a maioria dos convidados se manifestara, considerando-a obsoleta, indigna de povos cristãos e imoral. Segundo alguns, tal castigo devia ser substituído, em todos os países, pela prisão perpétua.
- Meus senhores - declara o banqueiro -, não concordo com a vossa opinião. Nunca sofri nenhuma das duas penas; no entanto, se é licito emitir um juízo a priori, considero a pena de morte mais moral e humana do que a prisão perpétua. A execução acaba com o condenado de uma vez só, ao passo que a cadeia o vai matando lentamente. Qual dos dois carrascos é mais humano: o que dá a morte em segundos, ou aquele que arranca a vida pouco a pouco, gastando anos na sua tarefa?
- Ambas as coisas são igualmente imorais - observou um dos convidados -, por-que uma e outra têm o mesmo objectivo em vista: o aniquilamento da vida. O Estado não é Deus. Não lhe assiste o direito de destruir aquilo que não poderia devolver, se assim o desejasse.
Achava-se entre eles um jovem estudante de direito, de cerca de vinte e cinco anos, o qual, ao ser-lhe pedida a opinião, afirmara:
- A pena de morte e a prisão perpétua são igualmente imorais. Se, porém, me dessem a escolher, optaria, sem dúvida, pela segunda. Mais vale viver seja em que circunstâncias for do que não viver de forma alguma.
Sucedera-se acalorada discussão. O banqueiro, então ainda jovem e nervoso, perdera de súbito a calma, batera com o punho na mesa e, dirigindo-se ao estudante, exclamara:
- É falso! Aposto dois milhões em como o senhor não aguentaria cinco anos encerrado num cárcere.
- Se fala a sério - respondeu o jovem -, aposto que sou capaz de aguentar uma pena de prisão, não de cinco, mas de quinze anos.
- Quinze anos! Pois seja. Meus senhores, aposto dois milhões!
- De acordo. O senhor afasta dois milhões e eu a minha liberdade - replicou o estudante.
E assim se fez a absurda e insensata aposta. O banqueiro, homem habituado a satisfazer todos os caprichos e inconstante, a esse tempo senhor de uma fortuna que ascendia a muitos milhões, mostrara-se deveras entusiasmado. Durante a ceia, dissera ao jovem estudante, em tom de gracejo:
- Pense bem, antes que seja demasiado tarde. Para mim dois milhões constituem uma insignificância, enquanto o senhor se arrisca a perder três ou quatro dos melhores anos da sua vida. Digo três ou quatro, pois sei que não aguentará mais tempo. Não se esqueça também meu pobre amigo, de que a prisão voluntária ¬é mais difícil de suportar que a forçada. A ideia de que pode, em qualquer momento, recuperar a liberdade, envenenar-lhe-á a vida no cárcere. Tenho pena de si.
Agora, o banqueiro, recordando tudo aquilo enquanto passeava de um lado para o outro no seu gabinete, perguntava a si próprio:
«Por que fiz essa aposta? Que utilidade pode advir do facto de este rapaz perder quinze anos da sua existência e eu atirar fora dois milhões? Provará isto que a pena de morte é melhor ou pior que a prisão perpétua? Não e não! É uma tolice, uma insensatez! Pela minha parte, não passou do simples capricho de um homem a nadar na abundância; quanto a esse jovem moveu-o simplesmente a cupidez.»
Em seguida recordou o que acontecera após a referida festa. Ficara então resolvido que o jovem devia conservar-se preso, sob a mais estreita vigilância, num pavilhão existente no jardim do banqueiro. Durante quinze anos, não lhe seria permitido transpor o limiar da porta do seu cárcere, ver quem quer que fosse, ouvir vozes humanas, receber cartas ou jornais. Podia no entanto, se assim o desejasse, dispor de um instrumento musical, ler livros, escrever cartas, beber vinho e fumar. De harmonia com o contrato, estava autorizado a comunicar, embora apenas em silêncio, com o mundo exterior, através de uma janelita aberta com esse fim. De tudo aquilo que necessitasse - livros, música, vinho - podia receber qualquer quantidade, atirando a requisição pela referida janela. No pacto não fora esquecido o mínimo pormenor susceptível de tornar a prisão absoluta¬mente solitária, e o estudante teria de permanecer ali quinze anos completos, a contar do meio-dia de 14 de Novembro de 1870 a igual hora do mesmo dia e mês de 1885. A simples tentativa por parte do preso, para violar as condições impostas no documento, embora fal¬tassem apenas só dois minutos para expirar o prazo, desobrigava o banqueiro do pagamento dos dois milhões.
Durante o primeiro ano passado no cár¬cere, o estudante, a julgar pelas suas bre-ves notas, sofreu horrivelmente com a solidão e o tédio. Dia e noite vinha do pavilhão o som do piano. Recusava o vinho e o tabaco. «O vinho - escrevia - excita o desejo, e o desejo constitui o principal inimigo de um prisioneiro; além disso, não há coisa mais aborrecida do que beber bom vinho quando se está desacompanhado.» O tabaco, dizia, viciava-lhe o ar do quarto.
Durante o primeiro ano, os livros enviados ao jovem encarcerado eram, principalmente, do género ligeiro: romances com complicadas intrigas amorosas, novelas policiais, contos fantásticos, comédias, etc...
No segundo ano, deixou de ouvir-se a música no pavilhão, e nos bilhetes que arremessava pela janela o prisioneiro só pedia obras de autores clássicos. No quinto voltaram a soar as notas do piano, e o jovem requisitou vinho.
Aqueles que o vigiavam pela janela diziam que passou todo esse ano a comer, a beber, estendido na cama. Bocejava com frequência e falava consigo próprio em tom irritado. Não lia. Às vezes, de noite, sentava-se a escrever. Ocupava-se nesta tarefa durante longo tempo, e de manhã rasgava tudo o que escrevera. Ouviram-no chorar em várias ocasiões.
Na segunda metade do sexto ano, o prisioneiro dedicou-se, afincadamente, ao estudo de línguas, filosofia e história. Atirou-se a estas matérias com tal avidez, que o banqueiro mal tinha tempo de lhe adquirir os livros de que necessitava. No espaço de quatro anos foram comprados, a seu pedido, cerca de seiscentos volumes. Foi nesse período de fome de leitura que o banqueiro recebeu dele a seguinte carta:

Meu querido carcereiro:

Escrevo-lhe estas linhas em seis línguas. Dê-as a ler a pessoas entendidas na matéria. Se não encontrar nelas qualquer falta, peço-lhe que mande disparar um tiro no jardim. Pela detonação ficarei a saber que não foram baldados os meus esforços. Os génios de todos os séculos e de todos os países exprimem-se em idiomas diferentes, mas neles arde a mesma chama. Oh! Se soubesse a celestial felicidade que experimento agora que posso compreendê-los!

O desejo do jovem foi satisfeito. O banqueiro mandou disparar dois tiros no jardim.
Mais tarde, ao cabo do décimo ano de cárcere, o prisioneiro permanecia sentado, imóvel, diante da mesa, lendo apenas o Evangelho. O banqueiro achava muito estranho que um homem que durante quatro anos decora seis¬centos volumes eruditos gastasse quase um ano na leitura de um livro pouco volumoso e fácil de compreender. Ao Evangelho seguiram-se a história das religiões e a Teologia.
Durante os dois últimos anos de reclusão, o estudante leu muitíssimo, servin-do-lhe qualquer género, indistintamente. Tão depressa se agarrava às ciências natu-rais, como se vol¬tava para Byron ou Shakespeare. Às vezes enviava um bilhete em que pedia, ao mesmo tempo, um livro de química, outro de medicina, um romance e um tratado filosófico ou bioló¬gico. Reparando nos géneros de leitura a que se entregava, dir-se-ia tratar-se de um náu¬frago que, nadando no mar, entre os restos de um navio, desejoso de salvar a sua vida, se agarrava, freneticamente, às tábuas que se lhe deparavam.

II

Ao recordar tudo aquilo, o velho banqueiro pensava:
«Amanhã, ao meio-dia, é posto em liberdade. De acordo com o contrato, terei de pagar-lhe dois milhões. Se assim fizer, tudo estará perdido para mim. Ficarei completamente arruinado...»
Quinze anos antes o banqueiro possuía um número incontável de milhões, enquanto agora receava perguntar a si próprio o que seria mais elevado: se o montante da sua fortuna, se o das dívidas. O jogo na Bolsa, as especulações arriscadas e uma veemência de carácter, que não conseguira nunca dominar, nem mesmo na velhice, haviam, pouco a pouco, levado os seus negócios à decadência; o homem rico e orgulhoso, sem apreensões, seguro da sua pessoa, tornara-se um banqueiro de segunda ordem, que temia cada subida ou baixa registada no mercado.
«Maldita aposta! - murmurava o velho, levando as mãos à cabeça num gesto de desespero. - Porque não morreu esse homem? Tem quarenta anos apenas. Vai levar-me tudo o que me resta, casará, gozará a vida, jogará na Bolsa... enquanto eu terei de o contemplar com inveja como um mendigo, e ouvir-lhe todos os dias as mesmas palavras: «É ao senhor que devo a minha felicidade, permita-me que o ajude». Não, é demasiado. A única coisa capaz de me salvar da falência e da vergonha seria a morte desse homem.»
O relógio acabava de bater as três. O banqueiro pôs-se à escuta. Naquela casa todos dormiam; apenas se ouvia do outro lado da janela o rumor das árvores cobertas de gelo, agitadas pelo vento. Procurando não fazer o mínimo ruído, o velho tirou do cofre-forte a chave da porta que não fora aberta nos últimos quinze anos, vestiu o sobretudo e saiu. O jardim estava escuro e gelado. Chovia. Um vento húmido e cortante gemia, não deixando às árvores um instante de repouso. Por mais que se esforças-se, o banqueiro não conseguia distinguir o solo, nem as brancas estátuas, nem o pavilhão, nem as árvores. Ao aproximar-se do local onde se erguia o cárcere do estudante, chamou duas vezes pelo guarda, não tendo obtido resposta. O homem, evidentemente, abrigara-se do mau tempo, e naquele instante estava a dormitar em qualquer canto da cozinha ou da estufa.
«Se eu tiver coragem de executar o meu intento - pensou o ancião -, as suspeitas recairão, em primeiro lugar, sobre o guarda.»
Tacteando, encontrou os degraus e a porta; entrou no vestíbulo do pavilhão. Em seguida, enfiou por um estreito corredor e acendeu um fósforo. Não havia ali vivalma. Apenas se lhe deparou uma cama por fazer e, ao canto, a sombra de um fogão de ferro fundido. Os selos da porta dos aposentos do prisioneiro achavam-se intactos.
Quando o fósforo se extinguiu, o banqueiro, a tremer de impaciência, espreitou pela janelita
No quarto brilhava a débil luz de uma vela. O prisioneiro, de que só se viam as costas, o cabelo e as mãos, estava sentado ao pé da mesa. Sobre esta, as duas cadeiras e o tapete havia livros abertos.
Decorreram cinco minutos sem que o ocupante daquele quarto esboçasse um movimento. Em quinze anos de prisão aprendera a conservar-se sentado em perfeita imobilidade. O banqueiro bateu com os dedos na janela, mas nem assim o prisioneiro se mexeu. Arrancou, então, os selos da porta e meteu a chave na fechadura. Esta, coberta de ferrugem, deixou ouvir um gemido rouco, e a porta rangeu. O ancião esperava escutar imediatamente um grito de espanto e o som de passos, mas três minutos se passaram e lá dentro tudo continuou tão calmo como antes. O banqueiro resolveu entrar.
Diante da mesa achava-se sentado um homem diferente dos vulgares seres humanos. Era um esqueleto recoberto de pêlo, com longo cabelo encaracolado, semelhante ao de uma mulher, e de barba desgrenhada. O rosto ostentava uma tonalidade amarela, com certo matiz terroso; tinha as faces encovadas, as costas compridas e estreitas; e a mão, sobre a qual descansava a cabeça, estava coberta de cabelo. Era tão magra e diáfana, que contemplá-la até causava pena. A sua comprida cabeleira começara já a encanecer, e ninguém acreditaria que aquele rosto senil, emaciado, pertencesse a um homem de quarenta e cinco anos apenas. Em cima da mesa, diante da sua cabeça inclinada, via-se uma folha de papel, na qual havia algo escrito em letra miudinha.
«Pobre homem! - pensou o banqueiro. - Está a dormir e, provavelmente, a sonhar com milhões! Bastar-me-á pegar neste ser semimorto, atirá-lo para cima da cama, apertá-lo um pouco com o travesseiro... e nem o mais minucioso exame descobrirá qualquer sinal de morte violenta. Antes, porém, leiamos o que ele escreveu.»
O ancião pegou na folha de papel que estava sobre a mesa e leu:

Amanhã, ao meio-dia em ponto, recuperarei a minha liberdade e o direito de conviver com as outras pessoas. Antes de deixar este quarto e rever o Sol, julgo, contudo, necessário dirigir-vos algumas palavras. Com a minha consciência limpa e perante Deus que me vê, afirmo o meu desprezo pela liberdade, a vida, a saúde e tudo quanto nos vossos livros se chama bens do mundo.
Durante quinze anos estudei atentamente a vida terrena. Verdade é que eu não via nem a terra nem os homens, mas, através dos vos¬sos livros, bebia aromático vinho, entoava cân¬ticos, perseguia, nas florestas, veados e javalis, amava mulheres... E bel-dades vaporosas como nuvens, criadas pela magia do génio dos vossos poetas, visi-tavam-me de noite e murmuravam-me contos maravilhosos que me embriagavam os sentidos. Nos vossos livros eu escalava os cumes do Elbruz e do Monte Branco, donde avistava, de manhã, o sol a nascer e, à tarde, a inundar o céu, o oceano e as cristas das montanhas com o seu ouro carmesim. Via dali, por cima de mim, brilharem os relâmpagos, rasgando as nuvens; contemplava florestas verdes, campos, rios, lagos, cidades; ouvia o cântico das sereias e o toque das flautas pastoris; e sentia as asas de belos demónios que voavam na minha direcção para me falarem de Deus... Graças aos vossos livros despenhava-me em abismos sem fundo, obrava milagres, incendiava cidades, pregava novas religiões, conquistava reinos inteiros...
Os vossos livros deram-me a sabedoria. Tudo quanto o infatigável pensamento humano criou durante séculos acha-se comprimido numa pequena bola dentro do meu cérebro. Sou mais inteligente que todos vós, bem o sei.
E desprezo os vossos livros, desprezo todos os bens e a sabedoria deste mundo. Tudo é fútil, efémero, quimérico e enganoso, como uma miragem. Embora sejais orgulhosos, sábios e belos, a morte há-de apagar-vos da face da terra como os ratos dos campos, e a vossa descendência, a vossa história, a imortalidade dos vossos génios desaparecerão, gelados ou consumidos pelo fogo, juntamente com o globo terrestre.
Sois insensatos e seguis caminho errado. Tomais a mentira pela verdade e a fealdade pela beleza. Espantar-vos-íeis se vísseis, de súbito, as macieiras e as laranjeiras produzir rãs e lagartos, em lugar de frutos, e se as rosas começassem a exalar cheiro a suor de cavalo. Pois igual espanto eu sinto ao verificar que trocais o céu pela terra. Não quero compreender-vos.
Para vos demonstrar o meu desprezo por tudo aquilo que constitui a razão da vossa vida, recuso os dois milhões com os quais sonhei em tempos como se fossem o paraíso, mas de que agora desdenho. Para me privar do direito à sua posse sairei daqui cinco horas antes do prazo estipulado, violando assim o contrato.

Terminada a leitura, o banqueiro repôs a folha em cima da mesa, beijou a cabeça daquele estranho homem, desatou a chorar e saiu do pavilhão. Nunca, em qualquer outra ocasião, nem mesmo após as suas maiores perdas na Bolsa, ele experimentara tamanho desprezo por si próprio como agora. De volta a casa atirou-se para cima da cama, mas durante largo tempo a excitação e as lágrimas não lhe permitiram adormecer...
Na manhã seguinte, os guardas acorreram muito pálidos e comunicaram ao banqueiro que tinham visto o homem do pavilhão saltar da janela para o jardim, dirigir-se para o portão e depois desaparecer. O velho, acompanhado pelos criados, encaminhou-se logo para o que fora o cárcere do estudante e verificou a sua fuga. A fim de evitar comentários inúteis, pegou na folha do papel que continha a renúncia do prisioneiro e, quando chegou a casa, fechou-a no cofre-forte.