12/06/2011

Ossos


Começou por se sentir magro. Os ossos lhe roçavam a pele. Sem que ele desse sentido o esqueleto lhe crescia por dentro. Crescia sem o que o restante corpo acompanhasse. Os ossos inchavam, como casca sobre casca. No princípio, as ósseas increscências lhe faziam cócegas. E ele ria, ria, ria. Para espanto dos outros que não encontravam a aparência de um motivo. Depois, a coisa lhe trouxe incomodação. Seria o quê, ele se perguntava. Róimatismo? A ossadura provocava comichão, o crescimento das apófises lhe raspava a carne. O raspar cedo se tornou em rasgar.
As pessoas lhe viam o despontar dos ossos, cotovelos se acotovelando por todo corpo. E lhe estranhavam tanta magreza. Ele que sempre fora estrelante seguia, agora, de rota abatida. Espaventado, escaleno e anguloso.
- “Você não estará com a doença?”
Mas o mistério era o seguinte: quanto mais magro mais ele pesava. A balança ponteirava sem piedade: o peso flechava cada vez mais.
- “Já me pesa a caveira”.
Lhe cresceu tanto o esqueleto que os ossos lhe começaram a recobrir a carne. Ele perdia as cores, placas brancas e duras lhe revestiam por inteiro. Em pouco tempo, se entartarugou. Seu aspecto era tanto que as pessoas fugiam. Passou a andar devagar e arrastoso. Mãos e pés no chão. Ele que sempre fora bom generoso como fonte, perdia agora companhias. Os amigos lhe fugiam como diabo em diante da cruz.
Até que Marlisa, uma dada a tonta, a ele se chegou e disse:
- “Sou muito chamada de atrasadinha”.
Sem custo, ela se aceitava lentinha da ideia, arrastada na fala. Mas não se zangava com isso. Quem sabe ela também era atrasada sentimental? Quem sabe a raiva disso que lhe chamavam ainda estava por vir? Marlisa encolhia os ombros, sacudindo o peso das perguntas. Se ajoelhou junto ao caveiroso e pediu:
- “Posso acompanhá-lo de viver?”
Ele não respondeu mais que um riso triste. Lhe escapou uma lágrima. Desceu cansada pelo rosto, gota em pedra, orvalho em muro branco. A mulher lhe acariciou sua pele mineral. E ele se arrepiou por dentro. Ela sorriu, confirmado que estava seu poder de estremecer o dentro de carapaça. E ela insistiu, bailarinhando os dedos sobre a cascadura dele. Se aplicava em lhe renascer doçuras.
- “Não vale a pena, Marlisa.
- “Ternura mole em corpo duro tanto dá até que...
O resto do provérbio ela trocou de esquecer. Com a ponta de um canivete ela inscrevia o seu nome na carapaça do namorado enquanto ia soletrando:
- “M-a-r-l-i...”
Até que, certa vez, ela o levou a passear num parque. Sentaram num banco e ficaram a olhar, ela para o céu, ele para o chão. Passado muito silêncio ele suspirou:
- “Agora estou muito propenso a morrer”.
Marlisa não entendia nem tentava. Ele, então, ordenou:
- “Me deixe aqui.
- “Aqui, como?
- “Vá para casa e me deixe aqui.
- “Aqui, sozinho? Ainda alguém lhe vai pisar!
- “Agora estou todo eu dentro de mim: como me podem magoar?
Ela regressou sozinha, saltitando e entoando ladainhas. No dia seguinte, de manhã cedo, ela voltou ao parque e atirou uma migalhas pelos canteiros. Sentou-se no banco e ficou olhando o céu até sentir que por debaixo dos pés a terra parecia se mover. Deitou-se no chão, se embrulhando no curto vestido. Falava, dizem que sozinha. Recolheram a moça, já ela adormecida em plena terra.
Todas as manhãs, ainda hoje se vê Marlisa tonteando pelo parque enquanto empasta a língua numa musiquinha. Depois, se senta olhando o chão. E com demais carinhos e demasiadas ternuras vai afagando a pedra que subjaz nos seus joelhos. As pontas dos dedos, lentas, vão percorrendo reentrâncias no dorso dessa pedra. E soletra:
- “M-a-r...”
Ossos

Começou por se sentir magro. Os ossos lhe roçavam a pele. Sem que ele desse sentido o esqueleto lhe crescia por dentro. Crescia sem o que o restante corpo acompanhasse. Os ossos inchavam, como casca sobre casca. No princípio, as ósseas increscências lhe faziam cócegas. E ele ria, ria, ria. Para espanto dos outros que não encontravam a aparência de um motivo. Depois, a coisa lhe trouxe incomodação. Seria o quê, ele se perguntava. Róimatismo? A ossadura provocava comichão, o crescimento das apófises lhe raspava a carne. O raspar cedo se tornou em rasgar.
As pessoas lhe viam o despontar dos ossos, cotovelos se acotovelando por todo corpo. E lhe estranhavam tanta magreza. Ele que sempre fora estrelante seguia, agora, de rota abatida. Espaventado, escaleno e anguloso.
- “Você não estará com a doença?”
Mas o mistério era o seguinte: quanto mais magro mais ele pesava. A balança ponteirava sem piedade: o peso flechava cada vez mais.
- “Já me pesa a caveira”.
Lhe cresceu tanto o esqueleto que os ossos lhe começaram a recobrir a carne. Ele perdia as cores, placas brancas e duras lhe revestiam por inteiro. Em pouco tempo, se entartarugou. Seu aspecto era tanto que as pessoas fugiam. Passou a andar devagar e arrastoso. Mãos e pés no chão. Ele que sempre fora bom generoso como fonte, perdia agora companhias. Os amigos lhe fugiam como diabo em diante da cruz.
Até que Marlisa, uma dada a tonta, a ele se chegou e disse:
- “Sou muito chamada de atrasadinha”.
Sem custo, ela se aceitava lentinha da ideia, arrastada na fala. Mas não se zangava com isso. Quem sabe ela também era atrasada sentimental? Quem sabe a raiva disso que lhe chamavam ainda estava por vir? Marlisa encolhia os ombros, sacudindo o peso das perguntas. Se ajoelhou junto ao caveiroso e pediu:
- “Posso acompanhá-lo de viver?”
Ele não respondeu mais que um riso triste. Lhe escapou uma lágrima. Desceu cansada pelo rosto, gota em pedra, orvalho em muro branco. A mulher lhe acariciou sua pele mineral. E ele se arrepiou por dentro. Ela sorriu, confirmado que estava seu poder de estremecer o dentro de carapaça. E ela insistiu, bailarinhando os dedos sobre a cascadura dele. Se aplicava em lhe renascer doçuras.
- “Não vale a pena, Marlisa.
- “Ternura mole em corpo duro tanto dá até que...
O resto do provérbio ela trocou de esquecer. Com a ponta de um canivete ela inscrevia o seu nome na carapaça do namorado enquanto ia soletrando:
- “M-a-r-l-i...”
Até que, certa vez, ela o levou a passear num parque. Sentaram num banco e ficaram a olhar, ela para o céu, ele para o chão. Passado muito silêncio ele suspirou:
- “Agora estou muito propenso a morrer”.
Marlisa não entendia nem tentava. Ele, então, ordenou:
- “Me deixe aqui.
- “Aqui, como?
- “Vá para casa e me deixe aqui.
- “Aqui, sozinho? Ainda alguém lhe vai pisar!
- “Agora estou todo eu dentro de mim: como me podem magoar?
Ela regressou sozinha, saltitando e entoando ladainhas. No dia seguinte, de manhã cedo, ela voltou ao parque e atirou uma migalhas pelos canteiros. Sentou-se no banco e ficou olhando o céu até sentir que por debaixo dos pés a terra parecia se mover. Deitou-se no chão, se embrulhando no curto vestido. Falava, dizem que sozinha. Recolheram a moça, já ela adormecida em plena terra.
Todas as manhãs, ainda hoje se vê Marlisa tonteando pelo parque enquanto empasta a língua numa musiquinha. Depois, se senta olhando o chão. E com demais carinhos e demasiadas ternuras vai afagando a pedra que subjaz nos seus joelhos. As pontas dos dedos, lentas, vão percorrendo reentrâncias no dorso dessa pedra. E soletra:
- “M-a-r...”


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra