12/06/2011

O grilheta

É esta uma história comovente, que Ives me contou uma tarde em que saiu com a sua canhoneira para conduzir ao ancoradouro uma leva de condenados ao grande transporte, de partida para a Nova Caledónia.
Havia entre estes um velho galé, contando pelo menos setenta anos de idade, que levava consigo, com grande ternura, um passarinho dentro de uma gaiola.
Para passar o tempo Ives se pusera a conversar com o velho, que não tinha aspecto sinistro e estava emparelhado por meio da corrente com um jovem de fisionomia vil e escarnecedora, o nariz curvo e pálido, encavalado por óculos...
Vagabundo e ladrão inveterado, finalmente foi preso depois da quinta ou sexta, reincidência.
- Como se faz para não roubar - exclamou - quando se principia uma vez? Quando não se faz coisa alguma? E a gente não quer mais saber de você, de nenhum modo? É preciso também comer, não é verdade? Recebi a última condenação por um saco de batatas que tinha apanhado num campo junto com o chicote do carreteiro e uma abóbora indiana. Não teriam podido me deixar morrer aqui na França, pergunto-lhe eu em lugar de mandar-me para longe, velho como estou?
Depois, inteiramente feliz por ter encontrado alguém que lhe prestasse piedosa atenção, mostrara a Ives o que possuía de mais precioso no mundo: a gaiola e o passarinho.
Oh! aquele passarinho domesticado que conhecia o som da voz, que vivera com ele um ano na prisão, pousado no seu ombro!.., Não foi fácil obter permissão para levá-lo consigo até a Caledónia; depois deveria pensar em fazer a gaiola conveniente para a viagem, conseguir as varetas de madeira, o fio de ferro velho, um pouco de tinta verde para pintar o conjunto e que conseguisse por benefício.
Ficaram-me gravadas estas palavras textuais de Ives:
- Pobre passarinho! Não tinha para comer na sua gaiola senão um pedaço de pão escuro, daquele que se dá aos prisioneiros, e parecia contente da mesma forma, saltitava como se fosse a mais afortunada das aves.
Algumas horas depois, chegado o momento em que os forçados deviam embarcar no transporte para a grande viagem, Ives, que tinha já quase esquecido o velho, o vê por casualidade reaparecer perto dele... - Aceite, aceite - dizia-lhe o velho com acento mudado, oferecendo-lhe a gaiola: - dou-lhe, talvez poderá servir-lhe... dar-lhe prazer!...
- Não o dê - agradeceu Ives - deve levá-lo consigo, será o seu companheiro, lá em baixo, distante.
- Oh! - gemeu o velho - não está mais ai dentro: pois não o sabias? Não está mais aí... Não está mais ai!....
E duas lágrimas de indizível miséria se colavam ao longo da sua face.
Um forte solavanco durante a travessia tinha aberto a portinhola, a ave presa de medo fugira, e logo caíra no mar, por causa de uma asa cortada.
Oh! quanta dor naquele momento! Vê-la debater-se e morrer envolta pela rápida corrente não podê-la salvar!... 0 primeiro impulso lhe dizia para gritar, chamar socorro... Mas logo a amarga reflexão, a consciência da sua degradação pessoal refreou-lhe o ímpeto. Quem teria compaixão dele, velho miserável, e do seu passarinho... Quem teria consentido ao menos em escutar os seus rogos?... Podia ele só por um instante conceber a ideia que se fizesse diminuir a velocidade do navio para apanhar o passarinho que se afoga, a pobre avezinha dum forçado?... Que absurdo!
Agora se tinha acomodado silencioso no seu posto, vendo distanciar-se na espuma do mar aquele corpinho cinzento que continuava a se debater... e se sentiu só, terrivelmente solitário, só para sempre... e grossas lágrimas, lágrimas de um desespero isolado e supremo, anuviavam-lhe a vista, enquanto aquele jovem dos óculos, seu companheiro de grilheta, ria-se de ver um velho chorando daquela maneira.
Agora que a ave não mais existia, não queria mais ter a gaiola, que com tanto amor construíra para o pequeno morto; e continuava a oferecê-la ao bravo marinheiro que escutara a sua história, querendo deixar-lhe aquela recordação antes de partir para a longa e última viagem.
Ives, melancolicamente, aceitara o presente, a gaiola vazia, para não aumentar a dor do velho abandonado, com recusar este objecto que lhe custara tanto trabalho.
Temo não ter sabido descrever minuciosamente tudo o que encontrei de estrangulante neste breve conto. Era noite escura, estava pronto para me recolher. Eu, que na vida assistira, sem me perturbar excessivamente, a dores, dramas pungentes, a mortandades e carnificinas, notei que aquelas lágrimas feriam meu coração: pouco faltou... para me roubarem o sono.
- Se houvesse meio de lhe mandar outro... disse.
- Sim, - respondeu Ives - nisso tenho pensado também eu: comprar-lhe uma bela ave dum criador e trazê-la amanhã na sua gaiola, se ainda houvesse tempo antes da partida. Mas é um pouco difícil... Poderias somente conseguir ir ao cais pela manhã, subir a bordo do transporte para procurar um velho, cujo nome ignoro... Considerarão o caso bem estranho!
- Claro, o acharão deveras estranho: não é preciso iludir-se a respeito...
E por um momento, interiormente me compadecia desta ideia, e ria aquele bom riso interno que não transpira à superfície.
Não dei cumprimento ao meu projecto: quando acordei no dia seguinte o achei pueril e ridículo. A dor daquele homem não era daquelas que se consolam com um passatempo. Àquele mísero forçado, isolado no mundo, a mais esplêndida ave do paraíso não teria substituído o humilde passarinho cinzento, de asa mutilada, criado com o pão dos encarcerados, que soubera acordar naquele coração empedernido, já quase morto, ternuras e lágrimas dulcíssimas.


Pierre Loti