25/05/2011

O Pequeno Heidelberg


Tantos anos dançaram juntos o capitão e a menina Eloísa que alcançaram a perfeição. Cada um podia intuir o movimento seguinte do outro, adivinhar o momento exato da própria volta, interpretar a mais subtil pressão da mão ou o desvio de um pé. Não haviam perdido o passo nem uma única vez em quarenta anos, moviam-se com a precisão de um par acostumado a fazer amor e a dormir em estreito abraço, por isso era tão difícil imaginar que nunca tinham chegado a trocar uma única palavra.
O Pequeno Heidelberg é um salão de baile a certa distância da capital, construído num cerro rodeado de plantações de bananeiras, onde além de boa música e de um ar menos quente oferecem um insólito guisado afrodisíaco aromatizado com toda a variedade de especiarias, demasiado contundente para o clima ardente daquela região, mas em perfeito acordo com as tradições que inspiraram o proprietário, Dom Rupert. Antes da crise do petróleo, quando se vivia ainda a ilusão da abundância e se importavam frutos de outras latitudes, a especialidade da casa era o struddel de maçã, mas depois que do petróleo ficou apenas um monte de lixo indestrutível e a recordação de tempos melhores, fazem o struddel com goiabas ou mangas. As mesas, dispostas em amplo círculo que deixa no centro um espaço livre para o baile, estão cobertas com toalhas de quadrados verdes e brancos e nas paredes brilham cenas bucólicas da vida campestre dos Alpes: pastoras de tranças amarelas, robustos mocetões e vacas magníficas. Os músicos -vestidos com calções curtos, meias de lã, suspensórios tiroleses e chapéus de feltro, que com o suor perderam a excelência e de longe parecem perucas esverdeadas - ficam sobre uma plataforma coroada por uma águia embalsamada, à qual, segundo diz Dom Rupert, de vez em quando nascem penas novas. Um toca o acordeão, o outro um saxe e o terceiro com pés e mãos consegue tocar simultaneamente a bateria e os pratos. O do acordeão é um mestre no seu instrumento e também canta com voz quente de tenor e um vago aceno da Andaluzia.
Apesar do seu disparatado aparato de taberneiro suíço é o favorito das senhoras assíduas do salão, de tal modo que muitas delas acalentam a secreta fantasia de se enrolarem com ele nalguma aventura mortal, por exemplo, uma derrocada ou um bombardeamento, onde dariam contentes o último suspiro envoltas por aqueles braços poderosos, capazes de arrancar tão desgostantes lamentos ao acordeão.
O facto de a idade média dessas senhoras andar pelos setenta anos, não inibe a sensibilidade evocada pelo cantor, pelo contrário, junta-se-lhe o doce sopro da morte. A orquestra começa a sua atuação depois do pôr-do-sol e termina à meia-noite, exceto aos sábados e domingos, quando o local se enche de turistas e continuam até que o último cliente se retire, de madrugada. Só interpretam polcas, mazurcas, valsas e danças regionais da Europa, como se em vez de estar encravado no Caribe, o Pequeno Heidelberg estivesse nas margens do Reno.
Na cozinha reina Dona Burgel, a esposa de Dom Rupert, uma matrona formidável que poucos conhecem, porque a sua existência desliza entre folhas e molhos de verduras, concentrada em preparar pratos estrangeiros com ingredientes crioulos. Ela inventou o struddel de frutas tropicais e o tal guisado afrodisíaco capaz de devolver o vigor ao mais depauperado. As mesas são atendidas pelas filhas dos donos, um par de sólidas mulheres, perfumadas com canela, cravo de cheiro, baunilha e limão, e por algumas moças da localidade, todas de faces rubicundas. A clientela habitual compõe-se de emigrantes europeus chegados ao país escapando de alguma guerra ou da pobreza, comerciantes, agricultores, artesãos, pessoas amáveis ou simples, que talvez não o tenham sido sempre, mas a quem a passagem da vida tenha nivelado nessa benévola cortesia dos velhos sadios.
Os homens põem laços e coletes, mas à medida que as sacudidelas do baile e a abundância de cerveja lhes aquece a alma, vão-se despojando do supérfluo até ficarem em camisa. As mulheres vestem-se de cores alegres e estilo antiquado, como se os seus trajes tivessem sido tirados do baú de noiva que trouxeram ao emigrar.
De vez em quando aparece um grupo de adolescentes agressivos, cuja presença é precedida pelo estardalhaço atordoador das suas motos e a chocalhada de botas, chaves e correntes, e que chegam com o único propósito de gozar os velhos, mas o incidente não passa de uma escaramuça, porque o músico da bateria e o saxofonista estão sempre dispostos a arregaçar as mangas e impor a ordem.
Aos sábados, lá pelas nove da noite, quando já toda a gente saboreou a sua dose do guisado afrodisíaco e se abandonou ao prazer do baile, aparece a Mexicana que se senta sozinha. É uma cinquentona provocante, mulher de corpo galeão - quilha alta, barriguda, ampla de popa, rosto de carranca de proa - que mostra um decote maduro, mas ainda túmido, e uma flor na orelha. Não é a única vestida de bailarina flamenca, certamente, mas nela fica mais natural que nas outras senhoras de cabelo branco e cintura triste que nem sequer falam um espanhol decente. A Mexicana bailando a polca é um navio à deriva em ondas abruptas, mas ao ritmo da valsa parece deslizar em águas doces. Assim a via por vezes em sonhos o capitão e despertava com a inquietação quase esquecida da sua adolescência.
Dizem que o capitão provinha de uma frota nórdica cujo nome ninguém conseguiu decifrar.
Era um especialista em barcos antigos e rotas marítimas, mas todos esses conhecimentos jaziam sepultados no fundo da sua mente, sem a menor possibilidade de serem úteis na paisagem quente daquela região, onde o mar é um plácido aquário de águas verdes e cristalinas, impróprio para a navegação dos intrépidos barcos do mar do Norte. Era um homem alto e seco, uma árvore sem folhas, as costas direitas e os músculos do pescoço ainda firmes, vestido só com o seu casaco de botões dourados e envolto naquela aura trágica dos marinheiros reformados. Nunca ninguém lhe ouviu uma palavra em espanhol ou em algum outro idioma conhecido. Trinta anos atrás, Dom Rupert disse que o capitão era certamente finlandês, pela cor de gelo das suas pupilas e a justiça irrenunciável do seu olhar, e como ninguém o pôde contradizer, acabaram por aceitá-lo. Além disso, no Pequeno Heidelberg o idioma não tem importância, porque ninguém vai lá para conversar. Algumas regras de comportamento têm sido' modificadas, para comodidade e conveniência de todos. Qualquer um pode ir para a pista sozinho ou convidar alguém de outra mesa, e as mulheres também tomam a iniciativa de aproximar-se dos homens, se assim o desejam. É uma solução para as viúvas sem companhia, ninguém leva a Mexicana para dançar, porque se parte do princípio que ela acharia isso ofensivo e os cavalheiros devem aguardar, tremendo pela antecipação, que ela o faça. A mulher poisa o cigarro no cinzeiro, descruza as ferozes colunas das suas pernas, ajeita o espartilho, avança até ao escolhido e fica na sua frente sem um olhar. Muda de par em cada dança, mas antes reservava pelo menos quatro peças para o capitão. Ele agarrava-a pela cintura com a sua firme mão de timoneiro e guiava-a pela pista sem permitir que os seus muitos anos lhe cortassem a inspiração.
A mais antiga paroquiana do salão, que em meio século não faltou nem um sábado no Pequeno Heidelberg, era a menina Eloísa, uma dama minúscula, branda e suave, com pele de papel de arroz e uma coroa de cabelos transparentes. Por tanto tempo ganhou a vida a fabricar bombons na cozinha, que o aroma do chocolate a impregnou completamente, deixando-a a cheirar a festa de aniversário.
Apesar da idade, ainda mantinha alguns gestos da primeira juventude e era capaz de passar toda a noite às voltas na pista de baile sem despentear os caracóis do carrapito nem perder o ritmo do coração. Tinha chegado ao país nos princípios do século, proveniente de uma aldeia do Sul da Rússia, com a mãe, que nessa altura era de uma beleza deslumbrante. Viveram juntas a fabricar chocolates, completamente alheias aos rigores do clima, do século e da solidão, sem maridos, sem família, sem grandes sobressaltos e sem outra diversão que o Pequeno Heidelberg, todos os fins-de-semana.
Desde que morrera a mãe, a menina Eloísa aparecia sozinha. Dom Rupert recebia-a à porta com grande deferência e acompanhava-a até à mesa, enquanto a orquestra lhe dava as boas-vindas com os primeiros acordes da sua valsa favorita. Em algumas mesas levantavam-se canecas de cerveja para a saudar, porque era a pessoa mais velha e sem dúvida a mais querida.
Era tímida, nunca se atreveu a convidar um homem para dançar, mas durante todos aqueles anos não teve necessidade de o fazer, porque para qualquer um representava um privilégio pegar na sua mão, enlaçá-la pela cintura com delicadeza para não lhe desconjuntar qualquer ossinho de cristal e levá-la até à pista. Era uma bailarina graciosa e tinha aquela fragrância doce, capaz de dar a quem a cheirasse as melhores recordações da infância.
O capitão sentava-se sozinho, sempre na mesma mesa, bebia com moderação e não demonstrou nunca nenhum entusiasmo pelo guisado afrodisíaco de Dona Burgel. Seguia o ritmo da música com um pé e quando a menina Eloísa estava livre convidava-a, perfilando-se-lhe à frente com um discreto bater de tacões e uma leve inclinação. Nunca falavam, olhavam-se apenas e sorriam entre os galopes fugas e diagonais de uma dança antiga.
Num sábado de Dezembro, menos húmido que os outros, chegou ao Pequeno Heidelberg um par de turistas. Desta vez não eram os disciplinados japoneses dos últimos tempos, mas uns escandinavos altos, de pele queimada e cabelos claros, que se instalaram numa mesa a observar os bailarinos, fascinados. Eram alegres e ruidosos, batiam as canecas de cerveja, riam-se com gosto e falavam aos gritos. As palavras dos estrangeiros chegaram ao capitão, à sua mesa, e desde muito longe, desde outro tempo e outra paisagem, chegou-lhe o som da sua própria língua, inteira e fresca, como que recém-inventada, palavras que há décadas não ouvia, mas que permaneciam intactas na sua memória.
Uma expressão suavizou-lhe o rosto de velho navegante, fazendo-o vacilar por alguns minutos entre a reserva absoluta onde se sentia cómodo e o deleite quase esquecido de se abandonar a uma conversa. Por fim, pôs-se de pé e aproximou-se dos desconhecidos. Atrás do bar, Dom Rupert observou o capitão, que estava a dizer qualquer coisa aos recém-chegados, ligeiramente inclinado, com as mãos nas costas. Logo os outros clientes, as moças e os músicos deram conta que aquele homem falava pela primeira vez desde que o conheciam e também ficaram quietos para o ouvir melhor. Tinha uma voz de bisavô, apagada e lenta, mas punha uma grande determinação em cada frase. Quando acabou de tirar todo o conteúdo do seu peito, fez-se tal silêncio no salão que Dona Burgel saiu da cozinha para saber se alguém tinha morrido. Por fim, depois de uma longa pausa, um dos turistas tomou coragem e chamou Dom Rupert para dizer em inglês primitivo, que o ajudassem a traduzir o discurso do capitão. Os nórdicos seguiram o velho marinheiro até à mesa onde a menina Eloísa aguardava e Dom Rupert aproximou-se também, tirando o avental pelo caminho, com a intuição de um acontecimento solene. O capitão disse algumas palavras no seu idioma, um dos estrangeiros interpelou-o em inglês e Dom Rupert, com as orelhas vermelhas e o bigode a tremelicar, repetiu tudo no seu espanhol torcido.
- Menina Eloísa, o capitão pergunta se quer casar com ele.
A frágil anciã ficou sentada com os olhos redondos de surpresa e a boca oculta pelo seu lenço de baptista, e todos esperaram suspensos num suspiro, até que ela conseguiu falar.
- Não lhe parece que isto é um pouco precipitado? - cochichou ela. As suas palavras passaram pelo taberneiro e pelos turistas e a resposta fez o mesmo percurso ao contrário.
- O capitão diz que esperou quarenta anos para dizer isto e que não poderia esperar até que volte a aparecer alguém que fale o seu idioma. Pede que lhe responda agora, por favor.
- Está bem - sussurrou Eloísa, e não foi necessário traduzir a resposta, porque todos a compreenderam.
Dom Rupert, eufórico, levantou os braços e anunciou o compromisso, o capitão beijou as faces da noiva, os turistas apertaram as mãos de toda a gente, os músicos tocaram os instrumentos numa chinfrineira de marcha triunfal e os assistentes fizeram uma roda à volta do par. As mulheres limpavam as lágrimas, os homens brindavam emocionados, Dom Rupert sentou-se à frente do bar e escondeu a cabeça entre os braços sacudido pela emoção, enquanto Dona Burgel e as duas filhas abriam garrafas do melhor rum. Em seguida, os músicos tocaram a valsa do Danúbio Azul e todos saíram da pista.
O capitão pegou na mão da suave mulher que tinha amado sem palavras por tanto tempo e levou-a até ao centro do salão, onde dançaram com a leveza de duas garças na sua dança nupcial. O capitão segurava-a com o mesmo cuidado amoroso com que na sua juventude apanhava o vento nas velas de alguma nave etérea, levando-a pela pista como se navegasse nas macias ondas de uma baía, enquanto lhe dizia no seu idioma de nevões e bosques tudo o que o seu coração tinha calado até àquele momento. Dançando, dançando sempre o capitão sentia que se lhes ia recuando a idade e a cada passo estavam mais alegres e leves. Uma volta, depois outra, os acordes da música mais vibrantes, os pés mais rápidos, a cintura dela mais delgada, o peso da sua mãozinha na sua mais ligeiro, a sua presença mais incorpórea. Então, ele viu que a menina Eloísa se ia tornando renda, espuma, névoa, até se tornar impercetível e, por último, desaparecer de todo e ele viu-se a girar, a girar com os braços vazios, sem outra companhia que um ténue aroma de chocolate.
O tenor indicou-o aos músicos que se dispuseram a continuar tocando a mesma valsa para sempre, porque compreenderam que com a última nota o capitão acordaria do sonho e que a recordação da menina Eloísa se esfumaria definitivamente. Comovidos, os velhos paroquianos do Pequeno Heidelberg permaneceram imóveis nas cadeiras, até que por fim a Mexicana, com a sua arrogância transformada em caridosa ternura, se levantou, avançando discretamente até às mãos trementes do capitão, para dançar com ele.


Isabel Allende, Contos de Eva Luna