29/04/2011

Regresso a Casa


A quinta ficava num vale, entre as colinas de Sommersetshire, uma casa de pedra, de estilo antiquado, rodeada de celeiros, capoeiras e alpendres. Por sobre a porta de entrada tinha esculpida, nos caracteres elegantes da época, a data em que fora construída, 1673, e a casa, cinzenta e marcada pela intempérie, parecia fazer parte da paisagem, tal como as árvores que a protegiam. Uma alameda de magníficos ulmeiros, que seriam o orgulho de muitas mansões senhoriais, ligava a estrada ao jardim bem arranjado. As pessoas que aqui viviam eram tão calmas, fortes e modestas como a casa; o seu único orgulho era que, desde que fora construída, toda a família, dos pais aos filhos, numa linha ininterrupta, tinha nascido e morrido ali. Durante trezentos anos, tinham cultivado as terras à sua volta. George Meadows era agora um homem de cinquenta anos, e a mulher era um ou dois anos mais nova. Eram ambos pessoas boas e aprumadas, na força da vida; e os filhos, dois rapazes e três raparigas, eram fortes e bonitos. Não tinham quaisquer recém-adquiridas pretensões senhoris; conheciam bem a sua condição e tinham orgulho nela. Nunca vi família mais unida. Eram alegres, trabalhadores e simpáticos. A sua vida era patriarcal. Era de uma plenitude que lhe conferia uma beleza tão definitiva como a de uma sinfonia de Beethoven ou de um quadro de Ticiano. Eram felizes e mereciam essa felicidade. Mas o chefe da casa não era George Meadows (nem por sombras, como se dizia na aldeia); era a mãe dele. Ela era, muito mais do que o filho, o homem da casa, diziam. Era uma mulher de setenta anos, alta, muito direita, e majestosa, de cabelo grisalho, e embora tivesse a pele do rosto muito enrugada, os olhos eram brilhantes e vivos. A sua palavra fazia lei lá em casa e na quinta; mas tinha sentido de humor, e se a sua direcção era despótica, não deixava de ser também compreensiva. As pessoas riam das suas graças e repetiam-nas. Era uma excelente mulher de negócios, e para lhe levar a melhor num negócio era preciso não ter nascido ontem. Era uma pessoa original. Combinava de maneira rara a benevolência com um agudo sentido do ridículo.
Um dia Mrs.George deteve-me quando eu ia para casa. Estava toda excitada. (A sogra era a única Mrs.Meadows que nós conhecíamos; a mulher do George era apenas conhecida por Mrs.George.)
“Sabe quem é que chega hoje?” perguntou-me ela. “O Tio George Meadows. Sabe? Aquele que estava na China.”
“Como! Eu pensava que ele tinha morrido.”
“Todos nós pensávamos que ele tinha morrido.”
Eu já tinha ouvido a história do Tio George Meadows uma dúzia de vezes, e essa história divertia-me porque tinha o sabor de uma velha balada: era estranhamente tocante vê-la reproduzida na vida real. Porque o Tio George Meadows e Tom, seu irmão mais novo, ambos tinham cortejado Mrs.Meadows, quando ela ainda se chamava Emily Green, há mais de cinquenta anos, e quando ela casou com o Tom, o George partiu para o mar.
Tiveram notícias dele na costa da China. Durante vinte anos foi-lhes mandando de vez em quando alguns presentes; depois deixaram de ter notícias dele; quando Tom Meadows morreu, a viúva escreveu-lhe a dar a notícia, mas não recebeu resposta; e por fim chegaram à conclusão que ele devia ter morrido. Mas há dois ou três dias, para espanto de todos, tinham recebido uma carta da governanta do lar dos marinheiros em Portsmouth. Parece que nos últimos dez anos George Meadows, incapacitado com reumatismo, estivera lá instalado, e agora, ao sentir que já não teria muito mais tempo de vida, queria ver uma vez mais a casa onde nascera. Albert Meadows, seu sobrinho-neto, tinha ido buscá-lo a Portsmouth, no Ford, e devia chegar nessa tarde.
“Imagine só,” disse Mrs.George, “já aqui não vem há mais de cinquenta anos. Nem sequer conhece o meu George, que vai fazer cinquenta e um.”
“E o que é que Mrs.Meadows pensa disto?” perguntei.
“Bem, o senhor sabe como ela é. Fica ali sentada a sorrir. Só diz: ‘Era um rapaz muito bem parecido quando se foi embora, mas não tão estável como o irmão.’ Por isso é que ela preferiu o pai do meu George. ‘Mas agora já deve ter assentado,’ diz ela.”
Mrs.George pediu-me para ir lá a casa vê-lo. Com a simplicidade de uma mulher do campo que nunca viajara para mais longe do que Londres, pensava que, como ambos tínhamos estado na China, devíamos ter qualquer coisa em comum. Claro que aceitei. Quando lá cheguei, encontrei a família toda reunida; estavam todos sentados na grande cozinha velha, com o seu chão de pedra, Mrs.Meadows na sua cadeira habitual junto do borralho, muito direita, e achei graça quando reparei que ela tinha posto o seu melhor vestido de seda, e o filho e a mulher à mesa com os filhos. Do outro lado do borralho, todo curvado, estava sentado um velho. Era muito magro e a pele pendia-lhe dos ossos como um velho fato já grande demais para ele; tinha o rosto engelhado e amarelado e a boca quase completamente desdentada.
Trocámos um aperto de mão.
“Fico contente por saber que chegou bem, Mr.Meadows,” disse eu.
“Comandante,” corrigiu ele.
“Veio a pé até aqui,” contou-me Albert, o sobrinho-neto. “Quando chegámos ao portão, mandou-me parar e disse-me que queria ir a pé.”
“E repare bem, há dois anos que eu não me levantava da cama. Trouxeram-me para baixo e puseram-me no carro. Pensei que nunca mais ia andar, mas quando vejo aqueles ulmeiros, lembro-me da importância que o meu pai dava àqueles ulmeiros, senti que ia conseguir andar. Foi por aquele caminho que, há cinquenta e dois anos, me fui embora, a pé, e agora regressei por ele, também a pé.”
“A isso chamo eu uma patetice,” disse Mrs.Meadows.
“Fez-me bem. Sinto-me agora melhor, mais forte do que me senti durante estes dez anos. Tu ainda hás-de ir à minha frente, Emily.”
“Não tenhas tanta certeza disso,” respondeu ela.
Creio que já ninguém tratava Mrs.Meadows por tu talvez há uma geração. Isso chocou-me um pouco, era como se aquele velho estivesse a tomar demasiadas liberdades com ela. Ela olhava-o com um sorriso muito vivo, e ele, ao falar com ela, abria a boca num sorriso largo que mostrava as suas gengivas desdentadas. Era muito estranho vê-los ali, aqueles dois velhos que não se viam há meio século e pensar que há todo esse tempo ele a amara e ela amara outro. Eu gostava de saber se eles ainda se lembravam do que então sentiam e do que tinham dito um ao outro. E gostava também de saber se, a ele, agora lhe parecia estranho ter deixado a casa dos pais, sua herança legítima, e ter vivido uma vida de exílio, tudo por aquela mulher.
“Chegou a casar, alguma vez, Comandante Meadows?” perguntei.
“Eu, nunca,” disse ele na sua voz trémula, com um sorriso irónico. “Conheço muito bem as mulheres para cair numa dessas.”
“Isso é o que tu dizes,” retorquiu Mrs.Meadows. “Se se pudesse saber a verdade, não ficaria nada admirada se me dissessem que tinhas vivido com uma dúzia de negras.”
“Elas, na China, não são negras, Emily, tinhas obrigação de saber isso, são amarelas.”
“Se calhar é por isso que tu próprio estás tão amarelo. Quando te vi, disse para mim própria, oh, ele está com icterícia.”
“Eu disse que nunca casaria com ninguém, a não ser contigo, Emily, e nunca casei.”
Não disse isto com dramatismo ou ressentimento, mas apenas como a simples expressão de um facto, como quem dissesse, “Eu disse que faria vinte milhas a pé e fiz mesmo.” Havia um vestígio de satisfação naquela afirmação.
“Bem, podias ter-te arrependido se o tivesses feito,” respondeu ela.
Conversei durante algum tempo com o velho sobre a China.
“Não há um só porto na China que eu não conheça melhor do que o senhor conhece as suas mãos. Não há lugar nenhum onde um navio possa aportar que eu não conheça. Podíamos ficar aqui o dia inteiro, durante seis meses, que eu, mesmo assim, não teria tempo de vos contar metade das coisas que vi na minha vida.”
“Bem, mas pelo que já vi, há uma coisa que tu não fizeste, George,” disse Mrs.Meadows ainda com um olhar trocista, mas não malévolo, “foi fortuna.”
“Eu não sou pessoa para poupar dinheiro. Ganhar e gastar; é esse o meu lema. Mas uma coisa posso afirmar: se eu tivesse a oportunidade de voltar a viver a minha vida, não a deixaria escapar. E não deve haver muita gente que possa dizer o mesmo.”
“De facto, não,” disse eu.
Olhei-o com admiração e respeito. Estava velho, coxo, desdentado e sem vintém, mas tinha feito da vida um sucesso, porque a tinha desfrutado. Quando o deixei, ele pediu-me para o ir ver outra vez no dia seguinte. Se eu estava interessado na China, ele contar-me-ia tudo aquilo que eu quisesse ouvir.
Na manhã seguinte, pensei ir lá perguntar se o velho queria que eu fosse estar com ele. Fui pela bela alameda dos ulmeiros abaixo e quando cheguei ao jardim vi Mrs.Meadows a apanhar flores. Dei-lhe os bons-dias e ela ergueu-se. Sobraçava um enorme ramo de flores brancas. Olhei para a casa e reparei que os estores estavam corridos: fiquei surpreendido, porque Mrs.Meadows gostava de sol.
“Bem basta a escuridão quando nos enterrarem,” costumava ela dizer.
“Como é que está o comandante Meadows?” perguntei-lhe.
“Ele foi sempre um cabeça-no-ar,” respondeu ela. “Quando a Lizzie lhe levou uma chávena de chá, de manhã, encontrou-o já morto.”
“Morto?”
“Sim, morreu durante o sono. Eu andava precisamente a apanhar estas flores para lhas pôr no quarto. Mas, ainda bem que ele morreu naquela velha casa. Isso é sempre muito importante para todos os Meadows.”
Tinha sido muito difícil convencê-lo a ir para a cama. Contou-lhes tudo o que lhe tinha acontecido na sua longa vida. Sentia-se feliz por estar de novo na sua velha casa. Sentia-se orgulhoso por ter feito a alameda a pé, sem ajuda, e gabou-se de que iria ainda viver mais vinte anos. Mas o destino fora bom para ele: a morte tinha posto o ponto final no lugar certo.
Mrs.Meadows cheirou as flores brancas que tinha nos braços.
“Ainda bem que ele voltou,” disse ela. “Depois de me casar com o Tom Meadows, e de o George se ter ido embora, a verdade é que eu nunca tive bem a certeza sobre se tinha casado com o irmão certo.”


Somerset Maugham
Home in Collected Short Stories