06/03/2011

Os últimos passos


Eles somavam, os dois, século e meio. A idade de cada um? Nem um nem outro a sabia mais: havia muito tempo que não faziam essa divisão em suas idades, e tinham adquirido o hábito, tão natural, tão justo, de envelhecer juntos dois anos, em cada São Silvestre.
Fazia tantos dias, tantas estações, tantas épocas, que eles viviam lado a lado na herdade baixa, de telhado extenso como uma asa! Ficariam a princípio pasmados, se lhes dissessem que nem sempre haviam sido casados. Cada um carregava como que uma imprecisa memória, e pareciam-se mais que irmão e irmã. Os habitantes da aldeia ao vê-los passar, tão frescos, e tão fortemente unidos, não podiam deixar de pensar que em breve um deles morreria, sem dúvida, e que o outro não poderia então ficar sozinho.
0 inverno foi mau para os dois anciãos. Maltratou-lhes os velhos brônquios, arqueou-lhes um pouco as costas, cavou suas faces ossudas, seus maxilares devastados. Ele, viu em frente aos olhos, um véu cinzento; ela sentiu a vista turva. Quando chegou maio, sentiram-se menos afagados pela sombra, menos altivos ao sol. A vida tornara-se difícil de viver como no tempo em que eles a ganhavam; era quase um trabalho viver da manhã até a noite.
Um dia em que, em frente à casa, ele estava sentado um pouco mais imóvel que na véspera, ela saiu em busca de relva para o coelho. Chegada ao outro lado da cancela que havia na cerca, parou para tomar fôlego - era a primeira etapa da viagem - depois se afastou pelo estrada. Do banco onde estava sentado como um menino muito ajuizado, o velho de pupilas turvas não enxergava, mas ouvia o ruído de seus passos; fechou os olhos e viu-a assim afastar-se.
Chegada à esquina da rua principal, à altura da casa burguesa das senhoras Guichet, a velha esbugalhou os olhos e caiu por terra. Nem um grito, nem um gesto, nem ao cair, nem depois.
Um transeunte parou, uma meninota aproximou-se saltitante, surgiu uma comadre, duas comadres. Levaram-na para uma loja e aí viram imediatamente que ela estava morta.
As casas ficaram desertas; a loja e suas proximidades ficaram apinhadas de gente. Ela estava estendida sobre três cadeiras e seu rosto amarelo, contraído num ligeiro esgar, parecia um retrato terrível daquela que haviam conhecido.
- É preciso avisar o velho - disse alguém.
- Não! - gritaram vozes - Não ele: primeiro sua nora. Ei-la. Ah, Margarida!
A mulher adiantava-se, feia e assustada, com seus ombros encolhidos sobre os quais flutuava o vestido, o rosto de faces secas e cinzentas como pão de rala, as mãos empoladas por seu ofício de lavadeira, e que ela balançava como se fossem embrulhos.
Ao avistar o corpo da mãe de seu marido, que também morrera havia muito tempo e que ela mal começava a esquecer, Margarida estremeceu dos pés à cabeça. Viram-lhe empalidecer os lábios e rolarem-lhe os grandes olhos na fisionomia inexpressiva. Ela fungou, esfregou o nariz com o avental e sussurrou:
- Pobre velho!
Voltou-se desajeitadamente para os presentes, sem fitar ninguém.
- Não falem com o velho! Eu falarei com ele!
E fazia uma careta, suplicando.
Depois a mancha preta da multidão acumulada se desfez em todos os sentidos, clareou, desapareceu.
Margarida fez com que o cadáver fosse levado para sua própria cama. Depois de haver apressadamente arrumado o quarto, dirigiu-se à casa do velho. Instalado em frente a casa, sob a ponta de asa do telhado, ele estava à espera.
Ao barulho da cancela, estremeceu, levantou a cabeça.
- Sou eu, - disse Margarida.
Ele tornou a parecer uma estátua.
- Vamos, Vitor, é preciso entrar!
Então, ele gemeu de maneira engraçada, levantou-se, tornou a gemer. De pé, estendeu os braços para a frente, cambaleou.
Parecia ter qualquer coisa de luminoso, no rosto.
- Então - perguntou ela.
- Não vejo mais, não vejo mais nada! - disse ele.
- Ah! - disse Margarida.
Sem dúvida, a simplicidade de sua alma preparava-a para todas as grandes tragédias, porque não acrescentou coisa alguma. Limitou-se a segurar pelo braço o homem que ficara cego no próprio instante em que desaparecia sua eterna companheira.
Ele entrou, empurrado, arrastando os pés, na cozinha, tocou o espaldar de uma cadeira e sentou-se. Mas sua respiração tornou-se arquejante; suspirou, resmungou e - quando ela lhe ia falar, dizer-lhe... - ele gemeu.
- Estou mal! meus olhos... principalmente este, este!
De repente, gritou.
Durante muitas horas não fez outra coisa que sofrer.
Num momento de trégua, chamou pela mulher.
- Onde está a velha? Que estará fazendo, arre!
Outra vez, entre dois acessos, viram que ele recuperara o entendimento e que a estava esperando. Depois proferiu queixumes, novamente acometido pela crise, todo entregue a sentir-se mal e a sentir medo.
Chegaram algumas pessoas. Umas entraram, outras olharam pelas vidraças. Ninguém se atreveu a dizer-lhe coisa alguma.
Depois que o dia passou sem ele saber a verdade, ninguém ousou mais aparecer.
Margarida, de vez em quando, deixava-o, fechando-o a chave. Ela se apressava, com o rosto manchado pelas lágrimas que secavam. Ia ver novamente a morta que mergulhava a pouco e pouco na noite, apesar das duas candeias. Depois, corria a tomar providências, as medidas necessárias. Cuidava de tudo, sempre cansada, sempre correndo, maquinal e heróica, devastada e indesgastável. Bem sabia o que era preciso fazer, ela a enlutada perpétua, que tão habituada estava a sobreviver!
Estava novamente ao lado dele quando, entre o entardecer e a noite, houve uma trégua em seus sofrimentos, a qual embora frágil, durava, durava.
A mulher acendeu um lampiãozinho de querosene e colocou na alta lareira, pensando ser chegado o momento de comunicar ao ancião que aquela que sempre existira, não mais existia.
Postou-se em frente a ele, tão descarnada e tiritante quanto um espantalho batido pelo vento. Sua cabeça baixou-se; envergonhada e reunindo todas as forças, como para gritar, balbuciou:
- Ela não mais voltar... Não pode... Partiu.
Ele não disse nada. Ela o olhou então e viu que ele estava sorrindo - adormecido.
Ela se afastou e começou a arrumar coisas, com muito cuidado. De repente ele se agitou, chamou-a. Ela aproximou-se até ele poder roçar-lhe o braço com seus dedos cegos.
- Ouve, minha filha. - disse. Chega-te, ouve... A velha voltou. Está, aqui. Vi-a há pouco, aí, aí onde estás. Estava dormindo e de repente senti que ela estava aí. Ela arrumou as coisas, depois partiu. Não me mexi, não disse nada, de propósito. Ouve, não quero que ela saiba que não mais enxergo. Não quero, isso lhe causaria muita tristeza. Não quero. Faze com que ela esteja fora algum tempo, até eu ficar curado. Dá um jeito, minha filha.
Sacudia-se em sua velha cadeira que, gemendo, parecia falar.
- Leva-a... que ela se vá... um dia mais, se for preciso. Leva-a.
- Está bem, Vitor, darei um jeito. Compreendo. Ela não saberá, juro-o pelo bom Deus.
Esse juramento impressionou o ancião, que disse: "És uma boa nora", e calou-se religiosamente.
No dia seguinte, ela contou-lhe uma história absurda de parentes que teriam levado a velha para a casa deles. Ele ouvia, interessado, encantado, como um garotinho.
Quando ela acabou, ele disse:
- E depois, sei que ela tornou a voltar, esta noite, enquanto eu dormia; eu a ouvi.
- Sim, ela voltou, - disse docemente Margarida.
Dois dias se passaram assim. No dia seguinte ao enterro da velha, o médico foi examinar o enfermo.
- Muito bem! - disse ele contrariando qualquer expectativa. Quase não tem mais febre.
A inflamação vai cessar. Amanhã, ele verá...
- Sim. Amanhã... amanhã...
Ela refugiara-se, estonteada, num canto, toda encolhida.
Baixinho, em sua alma humilde, repetia: amanhã! Amanhã é que ele abriria os olhos - e que, realmente cego, não mais a veria - amanhã é que a humilde parenta seria punida se houvesse falado. Amanhã! Sempre acontece assim na vida: sempre há um dia seguinte em que tudo acaba mal, e o dia de paz ou de esperança que às vezes se tem nunca passa da véspera do outro dia.


Henri Barbusse