09/03/2011

O homem que queria ser rei



“Irmão de príncipe e companheiro de pedinte, se disso ele for digno”

A Norma, acima citada, estabelece uma justa conduta para a vida que não é fácil de seguir. Já fui muitas vezes companheiro de mendigos em circunstâncias que não permitiram a qualquer de nós saber se o outro disso era digno. Contudo ainda me falta ser irmão de um príncipe, embora uma vez tenha estado prestes a tornar-me parente de alguém que podia ter sido um verdadeiro rei, e que até me prometeu um reino — exército, tribunais, rendimentos e política, tudo de uma só vez. Mas hoje, receio muito que o meu rei esteja morto, e se eu quiser uma coroa, terei de ir eu próprio tentar conquistá-la.
Tudo começou num comboio que se dirigia de Ajmir para Mhow. Um défice no orçamento obrigou-me a viajar não em segunda classe, onde se paga só metade do que em primeira, mas sim em classe intermédia, que é de facto bastante má. Na classe intermédia não há almofadas e os passageiros ou são intermédios, isto é, euro-asiáticos, ou nativos, o que para um longa viagem nocturna é terrível, ou vadios, que são divertidos, embora sempre bêbados. Os da classe intermédia não compram nada nos bares do comboio. Trazem a comida em embrulhos ou tachos, compram os doces aos vendedores nativos e bebem água dos charcos do caminho. Esta a razão por que no tempo quente há passageiros da classe intermédia que são retirados das carruagens já mortos e também por que com qualquer tempo as pessoas os olham com certo desprezo.
A minha carruagem de classe intermédia por acaso foi sempre vazia até chegarmos a Nasirabat, altura em que entrou um cavalheiro enorme em mangas de camisa, de grandes sobrancelhas escuras e aí passou o resto do tempo, como é costume entre os passageiros da intermédia. Era um viajante sem destino, um vagabundo, como eu próprio, mas com um bom gosto para o whisky. Contou histórias de coisas que tinha visto e feito, dos recantos do Império onde tinha entrado e das aventuras em que arriscou a vida por comida só para alguns dias.
— Se houvesse na Índia muitos homens como o senhor e como eu, que, como os corvos não sabem onde irão arranjar a ração para o dia seguinte, a terra não daria setenta mas setecentos milhões — digo-lhe eu. E ao olhar-lhe para a boca e para o queixo senti-me inclinado a concordar com ele.
Falámos de política, — a política damos ainam, — e fal vadiagem, que vê as coisas do lado de baixo, onde as ripas e a argamassa não são lisos— e falámos dos serviços postais, pois o meu amigo queria mandar um telegrama da estação seguinte para Ajmir, onde a linha de Bombaim entronca na linha de Mhow, quando se vai para o Ocidente. O meu amigo não tinha dinheiro nenhum, para além de oito anás de que precisava para o jantar e eu não tinha absolutamente nenhum, por causa dos problemas do orçamento já mencionados. Além disso, eu dirigia-me para uma zona deserta onde, embora pudesse retomar contacto com a Tesouraria, não havia serviços de telegrafia. Portanto eu não podia ajudá-lo fosse como fosse.
— Podíamos ameaçar um qualquer chefe de estação e obrigá-lo a mandar um telegrama logo ali — disse o meu amigo, — mas isso significaria muitas perguntas a si e a mim e eu presentemente já tenho problemas que cheguem. O senhor não disse que ia regressar por esta mesma linha dentro de dias?
— Dentro de dez dias — respondi.
— Não poderiam ser oito? — perguntou ele. — O assunto é bastante urgente.
— Eu posso mandar o seu telegrama dentro de dez dias, se isso lhe der jeito — disse eu.
— Não tenho a certeza se ele o receberá, agora que penso nisso. É assim: ele parte de Dehli para Bombain no dia 23, o que significa que irá passar por Ajmir durante a noite desse mesmo dia.
— Mas eu vou para o Deserto Indiano — expliquei.
— Então está bem — disse ele. — O senhor fará o transbordo em Marwar Junction para seguir para o território de Jodhpore—tem que fazer isto— e ele chegará a Marwar Junction nas primeiras horas do dia 24 no comboio correio de Bombain. O senhor pode estar em Marwar Junction a essa hora? Isso não lhe trará inconveniente nenhum, pois eu sei que nesses Estados da Índia Central pouca coisa de importante acontece, mesmo que a pessoa se faça passar por correspondente do Backwoodsman.
— Já alguma vez usou esse estratagema? — perguntei.
— Muitas vezes, mas os funcionários britânicos às vezes descobrem-nos e depois escoltam-nos logo até à fronteira antes de termos tempo de puxar da faca. Mas voltemos ao meu amigo. Tenho de arranjar maneira de lhe contar o que me aconteceu, senão ele fica sem saber onde há-de ir. Ficava-lhe muito grato se o senhor voltasse da Índia Central a tempo de o apanhar em Marwar Junction e lhe dizer, “Ele foi para o sul passar a semana” e ele compreenderá o que eu quero dizer. É um homem alto de barba ruiva, muito janota mesmo. O senhor vai encontrá-lo a dormir como um cavalheiro com toda a bagagem à sua volta num compartimento da segunda classe. Mas não tenha receio. Meta a cabeça pela janela e diga-lhe, “Ele foi para o sul passar a semana” e ele compreenderá o que eu quero dizer. Só lhe encurto a estadia em dois dias. Peço-lho como um desconhecido... que vai para ocidente — disse ele com ênfase.
— Donde vem o senhor? — perguntei.
— Do oriente — respondeu ele, — e espero que o senhor lhe passe a mensagem; peço-lhe em memória da minha mãe e também da sua.
Geralmente os ingleses não são muito sensíveis aos apelos à memória das mães; mas por certas razões que em breve se verão, pareceu-me conveniente assentir.
— Não é um assunto de somenos — disse ele — e é por isso que eu lhe peço — e agora já sei que posso contar consigo para o fazer. Uma carruagem de segunda classe em Marwar Junction e um homem ruivo lá dentro a dormir. Certamente que se vai lembrar. Eu saio na estação seguinte e terei de aí ficar até que ele chegue ou me mande aquilo que eu quero.
— Se o encontrar transmito-lhe a mensagem — disse eu — e em memória da sua mãe e também da da minha, vou dar-lhe um conselho. Não tente ir para os Estados da Índia Central nesta altura como correspondente do Backwoodsman. Anda por aí um correspondente verdadeiro e isso poderia causar problemas.
— Obrigado — disse ele simplesmente; — e quando é que essa besta se vai embora? Eu não posso morrer de fome por ele andar a estragar-me o negócio. Eu queria contactar com o Rajá de Degumber para lhe falar sobre a viúva do pai e pregar-lhe um grande susto.
— E o que é que ele fez à viúva do pai?
— Encheu-a de pimenta vermelha, pendurou-a de uma viga e espancou-a até à morte. Eu próprio descobri isso e sou o único homem que se atreveria a entrar no Estado para trocar o silêncio por dinheiro. Certamente vão tentar envenenar-me como fizeram em Chortuma quando lá fui tentar arranjar dinheiro. O senhor vai mesmo transmitir a minha mensagem ao homem em Marwar Junction?
Apeou-se numa pequena estação e eu fiquei a pensar. Já tinha ouvido falar mais do que uma vez de homens que se faziam passar por correspondentes de jornais e extorquiam dinheiro nos pequenos estados nativos com ameaças de revelarem certas coisas, mas nunca conhecera ninguém dessa casta. Têm uma vida difícil e geralmente morrem de modo súbito. Os estados nativos têm grande horror aos jornais ingleses que podem revelar os seus peculiares métodos de governo e fazem todos os possíveis por afogar os correspondentes em champanhe ou por fazê-los perder a cabeça com uma carruagem de quatro cavalos. Eles não percebem que ninguém se interessa minimamente pela administração interna dos estados nativos, desde que a opressão e o crime se mantenham dentro de limites decentes e que o governador não esteja drogado, bêbado ou doente do primeiro ao último dia do ano. São os lugares obscuros da terra, cheios de crueldade inimaginável, com um pé nos caminhos de ferro e no telégrafo e o outro nos dias de Harun-al-Raschid.
Depois de me apear do comboio negociei com diversos reis e em oito dias a minha vida sofreu muitas variações. Às vezes vestia-me de cerimónia e convivia com príncipes e políticos, bebia de taças de cristal e comia em serviços de prata. Outras vezes deitava-me no chão e devorava o que conseguia arranjar, de um prato feito de folhas, e bebia água das poças e dormia debaixo da mesma manta que o meu criado. E era esse todo o trabalho do dia.
Depois, na data exacta, como tinha prometido, dirigi-me para o Grande Deserto Indiano e o Correio da noite deixou-me em Marwar Junction, donde uma pequena linha férrea, engraçada, divertida e despreocupada, gerida pelos nativos, sai para Jodhpore. O Correio de Bombaim vindo de Delhi faz uma pequena paragem em Marwar. Chegou justamente quando eu também cheguei e só tive tempo de correr para a plataforma direito às carruagens. Só havia uma carruagem de segunda classe naquele comboio. Baixei a janela e dei com uma barba ruiva meio coberta com uma manta de viagem. Era o homem, a dormir como uma pedra, e eu toquei-lhe delicadamente nas costelas. Ele acordou com um grunhido e vi-lhe a cara à luz dos candeeiros. Era uma cara grande e radiosa.
— Os bilhetes outra vez? — disse ele.
— Não — disse eu. — Vim aqui para lhe dizer que ele foi para o sul passar a semana. Foi para o sul passar a semana.
O comboio já se tinha posto em movimento. O ruivo esfregou os olhos. — Ele foi para o sul passar a semana — repetiu ele. Ora, isso é mesmo dele. Ele disse-lhe que eu lhe devia dar alguma coisa? É que eu não dou.
— Não, não disse — disse eu e afastei-me, deixando-me ficar a ver as luzes vermelhas a desvanecerem-se na escuridão. Estava um frio terrível porque o vento até levantava as areias. Subi para o meu comboio — não para uma carruagem intermédia desta vez — e adormeci.
Se o homem da barba me tivesse dado uma rupia eu tê-la-ia guardado como recordação de um assunto bastante curioso. Mas a consciência de que tinha cumprido o meu dever foi a minha única recompensa.
Mais tarde pensei que dois cavalheiros como os meus amigos não podiam fazer nada de bom se se juntassem e se fizessem passar por correspondentes de jornais. E se chantageassem uma daquelas pequenas ratoeiras, que são os Estados Centrais da Índia ou da Rajputana do sul, podiam meter-se em sérios trabalhos. Portanto tive grande cuidado em descrevê-los tão fielmente quanto me conseguia lembrar àquelas pessoas que certamente estariam interessadas em os deportar; e consegui fazer, como me informaram mais tarde, com que os mandassem regressar das fronteiras de Degumber.
Depois tornei-me uma pessoa respeitável e voltei para um escritório onde não havia reis nem incidentes para além dos que são próprios da composição diária de um jornal. A redacção de um jornal parece atrair todo o género de pessoas que se possa imaginar, com prejuízo para a disciplina. Vêm senhoras da missão Zenana pedir ao editor que largue imediatamente as suas obrigações para descrever uma cristã distribuição de prémios num qualquer bairro de lata de uma aldeia inacessível; coronéis que foram ultrapassados nas promoções sentam-se e esboçam as ideias para uma série de dez, doze ou vinte e quatro artigos sobre antiguidade por um lado e selecção por outro; missionários que querem saber a razão porque não lhes permitiram desviar-se dos seus meios habituais e insultar um irmão missionário sob a especial protecção da secção editorial «Nós»; companhias teatrais com dificuldades financeiras que se aglomeram para explicar que não podem pagar os seus anúncios, mas que no seu regresso da Nova Zelândia ou do Tahiti pagarão com juros; aparecem inventores de máquinas patenteadas de fazer mover os punkahs[1], de engates de carruagens e de espadas inquebráveis, com as suas memórias descritivas nos bolsos e horas à sua disposição; entram os agentes das companhias de chá que escrevem a sua propaganda com as canetas da redacção; secretárias de comissões de bailes clamam por descrições mais completas das glórias do seu último baile; entram estranhas senhoras que dizem “Eu queria que me imprimissem imediatamente cem cartões de visita, por favor,” como se isso fizesse parte das atribuições de um editor; e todos os rufias que alguma vez vaguearam pela Grande Avenida Principal resolvem pedir emprego como revisores. E a campainha do telefone sempre a tocar desalmadamente, e no Continente assassinam-se reis e os impérios a dizerem, “Mais um,” e o senhor Gladstone[2] a fazer duras críticas aos domínios britânicos, e os pequenos paquetes negros a lamuriar, “kaa pi cha-ha yeh” (artigos, precisam-se), como abelhas cansadas, e a maior parte do jornal está tão vazio como o escudo de Modred[3].
Mas esta é a altura divertida do ano. Há outros seis meses em que não há ninguém que apareça e em que o mercúrio sobe no termómetro centímetro a centímetro até ao topo do tubo, e a redacção escurece ao ponto de mal se poder ler e as máquinas impressoras escaldam ao mais leve toque e ninguém escreve nada a não ser descrições de festas nas estâncias da montanha ou notícias da necrologia. Nessa altura o telefone torna-se um aparelho terrível, porque nos fala de mortes súbitas de homens e mulheres que nós conhecíamos intimamente, e o formigueiro do calor cobre-nos como uma peça de vestuário e nós sentamo-nos e escrevemos:
“Chega-nos a informação de que há um ligeiro aumento da doença no distrito de Khuda Janta Khan. A erupção é de natureza puramente esporádica e, graças aos enérgicos esforços das autoridades do distrito, está quase no fim. Lamentamos, contudo, profundamente, a morte,” etc..
Depois a doença na verdade declara-se, e quanto menos registos e relatos melhor, para bem dos assinantes. Mas os impérios e os reis continuam a divertir-se egoisticamente como de costume, e o chefe acredita mesmo que um jornal deve sair uma vez cada vinte e quatro horas e toda a gente nas estâncias da montanha diz, no meio da festa, “Meu Deus, por que é que o jornal não há-de ser uma coisa mais alegre? Há tanta coisa a passar-se por aí.”
Esta é a metade oculta da lua, e, como diz o anúncio, “é preciso experimentá-lo para o apreciar.”
Foi durante esta estação, uma estação particularmente má, que o jornal começou a tirar a última edição da semana na noite de sábado, o que quer dizer domingo de manhã, conforme o costume dos jornais de Londres. Isto era muito conveniente, porque logo depois de encerrada a edição, o amanhecer fazia descer os termómetros dos trinta e cinco para quase vinte e nove graus durante meia hora e naquele frio — não se faz ideia do frio de vinte e nove graus sobre a relva enquanto não se implora por ele — um homem muito cansado pode deixar-se dormir antes de o calor o voltar a acordar.
Num sábado à noite tive o agradável dever de encerrar a edição sozinho. Um rei ou um cortesão ou uma cortesã ou uma comunidade iriam morrer ou ter uma nova constituição, ou outra coisa importante se iria passar no outro lado do mundo, e o jornal teria de se manter aberto até ao último minuto para apanhar o telegrama.
Estava uma noite escura como breu, sufocante como pode ser uma noite de Junho, e o loo, o vento ardente do oeste, rugia entre as árvores secas como se a chuva lhe viesse no encalço. De vez em quando, caía sobre a poeira uma gota de água quase fervente com o ruído de uma rã, mas todo o nosso exausto mundo sabia que aquilo era apenas um arremedo. Na sala de impressão estava um pouco mais fresco do que na da redacção, por isso sentei-me aí enquanto a impressora tiquetaqueava e dava estalidos, e os noitibós piavam nas janelas e os tipógrafos, quase nus, limpavam o suor da testa e pediam água. Aquilo que ali nos prendia, fosse ele o que fosse, não havia meio de chegar, embora o loo amainasse e o último tipo já estivesse no sítio e toda a terra se quedasse imóvel com o dedo nos lábios à espera do acontecimento. Eu dormitava e perguntava-me se o telégrafo seria mesmo uma bênção e se um homem que agonizava ou as pessoas que lutavam teriam consciência do inconveniente que o atraso estava a causar. Para além do calor e das preocupação, não havia motivo para tensão, mas quando os ponteiros do relógio se aproximavam lentamente das três horas e os volantes das máquinas giraram duas ou três vezes para ver se estava tudo em ordem antes de eu pronunciar a palavra que as poria em funcionamento, apetecia-me, apesar de tudo, começar a gritar.
Depois o rugir e o matraquear das rodas estilhaçou o silêncio. Levantei-me para me ir embora, mas à minha frente estavam dois homens vestidos de branco. O primeiro deles disse:
— É ele!
O segundo disse:
— É ele, sim! — E ambos desataram a rir quase tão alto como o rugido da maquinaria, e esfregaram a testa.
— Vimos que havia uma luz acesa do outro lado da rua, e estávamos a dormir naquela valeta ali por ser mais fresco e eu disse aqui para o meu amigo, “O escritório está aberto. Vamos ali falar com aquele tipo que nos tirou do Estado de Degumber” — disse o mais baixo dos dois. Era o homem que eu encontrara no comboio de Mhow, e o companheiro era o homem de barba ruiva de Marwar Junction. As sobrancelhas de um e a barba do outro não deixavam dúvidas.
Não fiquei muito satisfeito, pois queria era ir dormir em vez de ficar a discutir com vagabundos.
— O que é que desejam? — perguntei.
— Meia hora de conversa consigo, comodamente no escritório, que está mais fresco — disse o homem da barba ruiva. — Gostaríamos de beber qualquer coisa... o contrato ainda não está em vigor, Peachey, portanto não precisas de olhar para mim dessa maneira... mas do que nós precisamos mesmo é de um conselho. Não queremos dinheiro. Pedimos-lhe como um favor, pois descobrimos que foi o senhor que nos tramou naquela questão de Degumber.
Levei-os da tipografia para o escritório abafado, com mapas na parede, e o ruivo esfregou as mãos.
— Isto, sim — disse ele. — É o lugar certo. Agora, meu senhor, deixe-me apresentar-lhe o Irmão Peachey Carnehan, este aqui, e o Irmão Daniel Dravot, eu mesmo, e quanto menos se disser sobre as nossas profissões melhor, pois já fomos muitas coisas nesta vida—soldados, marinheiros, tipógrafos, revisores, pregadores e até correspondentes do Backwoodsman quando achámos que o jornal precisava de colaboradores. Carnehan está sóbrio, e eu também. Veja com os seus próprios olhos. Isso poupa-lhe o trabalho de nos interromper. Vamos tirar-lhe um charuto cada um e o senhor verá como nós os acendemos. Isso será o teste.
Observei o teste. Os homens estavam absolutamente sóbrios, por isso dei-lhes um whisky morno com soda.
— Perfeito — disse Carnehan, limpando a espuma do bigode. — Agora, deixa-me falar a mim. Já viajámos por quase toda a Índia, quase sempre a pé. Já fomos capatazes mesquinhos e caldeireiros e tudo isso, e acabámos de chegar à conclusão de que a Índia não é suficientemente grande para nós.
Para o escritório é que eles eram certamente grandes demais. A barba de Dravot parecia encher metade da sala e os ombros de Carnehan, a outra metade, quando se sentaram à mesa. Carnehan continuou:
—O país não está aproveitado nem em metade porque aqueles que o governam não deixam que lhe toquemos. Passam o seu abençoado tempo a governá-lo e uma pessoa não pode sequer levantar uma pá, nem uma lasca de rocha, nem procurar petróleo, nem nada sem que todo o governo não venha dizer, “Deixem isso em paz, deixem-nos governar.” Portanto, tal como isto está, nós vamos deixá-los em paz e vamos embora para qualquer outro sítio onde haja espaço e onde uma pessoa possa fazer qualquer coisa por si próprio. Nós não somos idiotas e não há nada de que tenhamos medo, excepto dos copos, e já assinámos um contrato sobre isso. Portanto, vamo-nos embora daqui para sermos reis.
— Reis por direito próprio — murmurou Dravot.
— Sim, claro — disse eu. — Vocês têm andado muito ao sol e a noite está muito quente; não seria melhor irem dormir sobre o assunto? Voltem amanhã.
— Nós não estamos com os copos nem com insolação — disse Dravot. — Já dormimos sobre o assunto durante meio ano e precisamos de consultar livros e atlas e já decidimos que só há um lugar no mundo onde dois homens fortes podem reinar como o Rajá Sarawhack. Chamam-lhe Kafiristão. A meu ver, fica no canto superior direito do Afeganistão, a não mais de quinhentos quilómetros de Peshawar. Eles têm lá trinta e dois ídolos pagãos e nós vamos ser os trigésimo terceiro e trigésimo quarto. É uma região montanhosa e as mulheres da região são muito belas.
— Mas isso está proibido no contrato — disse Carnehan. — Nem mulheres nem copos, Daniel.
— E isto é tudo quanto sabemos, excepto que ninguém lá foi e que há lá guerras e que em qualquer lugar em que há guerra um homem que saiba treinar outros homens pode sempre ser rei. Nós vamos para esses sítios e vamos dizer a qualquer rei que encontremos, “Queres derrotar os teus inimigos?” e vamos-lhes mostrar como treinar os homens; pois disso percebemos nós mais do que de qualquer outra coisa. Depois apeamos esse rei, apoderamo-nos do trono e fundamos uma dinastia.
— Antes de percorrerem cem quilómetros para lá da fronteira cortam-vos aos bocados — disse eu. — Vocês têm de atravessar o Afeganistão para chegarem a essa terra. É uma região de cadeias montanhosas, picos e glaciares, e nunca nenhum inglês a atravessou. As pessoas são verdadeiros animais selvagens, e mesmo que as encontrem, não conseguem fazer nada delas.
— Isso assim já é melhor — disse Carnehan. — Se o senhor pudesse julgar-nos um pouco mais loucos, é que ficaríamos satisfeitos. Nós viemos ter consigo para saber coisas sobre este país, para ler um livro sobre ele e para nos mostrar mapas. Queremos que nos diga que somos uns imbecis e que nos mostre os seus livros — . Voltou-se para as estantes.
— Vocês estão mesmo a falar a sério? — perguntei eu.
— Um pouco — disse Dravot amavelmente. — O maior mapa que tenha, mesmo que esteja todo em branco no sítio onde é o Kafiristão, e quaisquer livros que tenha. Nós sabemos ler, embora não sejamos muito instruídos.
Desencaixotei o grande mapa da Índia numa escala de um centímetro para cinquenta quilómetros e dois pequenos mapas da zona de fronteira, tirei o volume INF-KAN da Enciclopédia Britânica e os homens começaram a consultá-lo.
— Olhe aqui — disse Dravot, com o polegar sobre o mapa. — Até Jagdallak, eu e o Pechey já conhecemos o caminho. Estivemos lá com o exército de Robert. Teremos de voltar à direita em Jagdallak e atravessar o território Laghmann. Depois vamos pelo meio das montanhas… quatro mil, cinco mil metros... tempo muito frio aí, mas no mapa não parece muito longe.
Passei-lhe As Fontes de Oxo, de Wood. Carnehan estava embrenhado na Enciclopédia.
— São um grupo muito variado — disse Dravot pensativo; — e saber os nomes das tribos não nos servirá de muito. Quanto mais tribos, mais guerras, e melhor para nós. De Jagdallak até Ashang. Hum!
— Mas toda a informação sobre o país não podia ser mais vaga e inexacta — protestei eu. — Na realidade, ninguém sabe nada sobre ele. Aqui tem o verbete do United Services Institute. Leiam o que Bellew diz.
— O Bewllew que vá para o inferno! — disse Carnehan. — Dan, eles são um bando de selvagens malcheirosos, mas este livro aqui diz que eles pensam que são aparentados connosco, os ingleses.
Eu fumava enquanto eles se debruçavam sobre Raverty, Wood, os mapas e a Enciclopédia.
— É inútil ficar à espera — disse Dravot educadamente. — Já são quase quatro horas. Nós saímos antes das seis, se o senhor quiser ir dormir, e não lhe vamos roubar nenhum dos papeis. Não se preocupe. Nós somos dois lunáticos inofensivos e se amanhã à noite o senhor vier ao Serai nós despedimo-nos de si.
— Vocês são completamente doidos — respondi eu. — Na fronteira vão obrigá-los a voltar ou então cortam-vos aos pedacinhos quando puserem os pés no Afeganistão. Querem dinheiro ou uma qualquer carta de recomendação para o sul? Eu posso ajudar-vos a arranjar trabalho na próxima semana.
— Na próxima semana já estaremos a trabalhar no duro, obrigado — disse Dravot. — Ser rei não é tão fácil como pode parecer. Quando pusermos o nosso reino em ordem mandamos-lhe dizer e o senhor pode ir ajudar-nos a governá-lo.
— Acha que dois lunáticos fariam um contrato como este? — disse Carnehan com um orgulho moderado e mostrando-me meia folha cheia de nódoas de um bloco de notas em que estava escrito o que se segue. Copiei-o ali mesmo por curiosidade.
Este contrato entre mim e ti, com Deus por testemunha... etc..

(Um) Que eu e tu resolveremos os dois este assunto, isto é, sermos reis do Kafiristão.

(Dois) Que eu e tu, enquanto este assunto não estiver resolvido, não beberemos uma gota de álcool, nem olharemos para nenhuma mulher negra, branca ou mestiça, de modo a não nos prejudicarmos com um ou com a outra.

(Três) Que nos comportaremos com dignidade e discrição, e se um de nós se meter em sarilhos o outro manifestar-lhe-á o seu apoio.

Assinado por ti e por mim neste dia.
Peachey Taliaferro Carnehan
Daniel Dravot
Ambos cavalheiros sem residência fixa.

— O último artigo não era preciso — disse Carnehan corando modestamente; — mas assim parece mais sério. Agora o senhor já sabe o tipo de homens que são os vadios... nós somos vadios, Dan, enquanto não sairmos da Índia... e o senhor acha que nós assinávamos um contrato como este se não fosse a sério? Nós afastámo-nos das duas coisas que tornam a vida digna de ser vivida.
— Vocês não vão gozar a vida por mais tempo se tentarem essa aventura idiota. Não deitem fogo ao escritório — disse eu — e vão-se embora antes das nove.
Deixei-os ainda absortos nos mapas e a tomar notas nas costas do contrato.
— Não falte amanhã no Serai — foram as suas palavras de despedida.
O Serai de Kumharsen, uma praça enorme, é o grande escoadouro da humanidade, onde as caravanas de camelos e cavalos do norte carregam e descarregam. Ali encontram-se todas as nacionalidades da Ásia Central e a maioria das da Índia propriamente dita. Ali, Balkh e Bokhara encontram-se com Bengala e Bombaim e todos tentam enganar-se uns aos outros. No Serai de Kumharsen podem-se comprar póneis, pedras preciosas, gatos persas, alforges, ovelhas de caudas grossas e almíscares, e arranjar muitas coisas exóticas sem pagar. À tarde fui ver se os meus amigos tencionavam cumprir a palavra ou se estavam lá deitados bêbados.
Um padre, ataviado de bocados de fitas e farrapos aproximou-se de mim silenciosamente, com qualquer coisa que parecia um pião de papel que fazia girar com ar grave. Atrás dele vinha um criado curvado sob o peso de um caixote de brinquedos de argila. Estavam os dois a carregar dois camelos, e os residentes do Serai observavam-nos com gargalhadas.
— Aquele padre é doido — disse-me um negociante de cavalos. — Vai para Cabul vender brinquedos ao emir. Das duas uma: ou o vão encher de honrarias ou lhe cortam a cabeça. Chegou aqui hoje de manhã e desde então tem-se portado como um idiota.
— Os pobres de espírito têm a protecção de Deus — disse a gaguejar um usbeque de bochechas lisas num hindu imperfeito. — Eles prevêem o futuro.
— Podiam ter previsto que a minha caravana ia ser atacada pelos Shinwaris já a muito pouca distância de Desfiladeiro! — resmungou o agente Eusufzai de uma casa comercial de Rajputana, cujas mercadorias tinham passado para as mãos de outros ladrões mesmo do outro lado da fronteira e cujas desventuras eram motivo de troça no bazar.
— Eh, sacerdote! Donde vens tu e para onde é que vais?
— Vim de Roum[4] — gritou o padre agitando o pião; — de Roum soprado pelo bafo de cem demónios do outro lado do mar! Ó ladrões, gatunos, mentirosos, a bênção de Pir Kahn para os porcos, os cães e os perjuros! Quem é que levará para o norte o protegido de Deus para vender ao emir amuletos nunca vistos? Os camelos não mais se portarão mal, os filhos não adoecerão, e as mulheres serão fieis aos homens que me derem lugar nas sua caravanas. Quem é que me ajuda a bater no rei de Roos[5] com um chinelo de ouro com tacão de prata? Que Pir Kahn proteja os seus trabalhadores! — Abriu as abas da gabardina e fez um pirueta entre as filas dos cavalos acorrentados.
— Há uma caravana que sai de Peshawar para Cabul dentro de vinte dias, Huzrut[6] — disse o comerciante eusufzai. Os meus camelos vão nela. Vai tu também e traz-nos boa sorte.
— Vou agora mesmo! — gritou o padre — Vou nos meus camelos alados e num dia ponho-me em Peshawar! Eh, Hazar Mir Kahn — gritou ele ao criado — Tira daqui os camelos, mas deixa-me primeiro montar o meu.
Saltou para cima do animal, que já se pusera de joelhos, e voltando-se para mim exclamou:
— Acompanha-nos um pouco, Sahib, que eu vendo-te um amuleto que fará de ti Rei do Kafiristão.
Só nessa altura é que eu percebi tudo e fui atrás dos dois camelos e saímos do Serai até que chegámos a campo aberto e o padre parou.
— O que é que achas? — disse ele em inglês. — Carnehan não sabe falar a língua deles e portanto fiz dele o meu criado. Faz um criado muito elegante. Não foi em vão que eu andei a calcorrear o país durante catorze anos. Não falei bem? Vamos pedir a uma caravana em Peshwar que nos leve até Jagdallak e depois veremos se podemos arranjar burros em troca dos camelos e entrar no Kafiristão. Piões para o Emir, meu Deus! Ora meta aí a mão por baixo dos alforges e diga-me o que é que isso lhe parece.
Apalpei a coronha de uma Martini, e mais outra e mais outra.
— Uma vintena delas — disse Dravot placidamente. — Vinte e as munições correspondentes, debaixo dos piões e das bonecas de barro.
— Que Deus te ajude se fores encontrado com essas coisas! — disse eu. — Para os pathons uma Martini vale o seu peso em prata.
— Mil e quinhentas rupias em dinheiro—todas as rupias que nós conseguimos mendigar, pedir emprestadas ou roubar—estão investidas nestes camelos — disse Dravot. — Não nos apanham. Vamos atravessar o Kaihbar com uma caravana normal. Quem é que tocaria num padre louco?
— Vocês já têm tudo aquilo de que precisam? — perguntei estupefacto?
— Ainda não, mas já falta pouco, irmão. O senhor ajudou-nos ontem e da outra vez em Marwar. Como se costuma dizer, metade do meu reino será seu.
Tirei da corrente do relógio um pequeno amuleto em forma de bússola e entreguei-o ao padre.
— Adeus — disse Dravot estendendo-me a mão cautelosamente. — Tão depressa não voltaremos a apertar a mão a um inglês. Aperta-lhe a mão, Carnehan — gritou ele quando o segundo camelo passou por mim.
Carnehan inclinou-se e apertou-me a mão. Depois foram-se afastando ao longo da estrada poeirenta e eu fiquei ali sozinho a pensar. Os meus olhos não detectaram qualquer falha nos disfarces. Aquela representação no Serai era a prova de que para os nativos eles eram aquilo que pareciam ser. Havia portanto a possibilidade de Dravot e Carnehan passarem pelo Afeganistão sem serem descobertos. Mas mais adiante encontrariam a morte... uma morte certa e terrível.
Dez dias mais tarde um correspondente nativo ao mandar-me as notícias do dia em Peshawar concluía a carta com estas palavras: «Houve aqui uma grande risota por causa de um certo padre maluco que, segundo disse, vai vender a Sua Alteza o Emir de Bokhara algumas bugigangas e jóias insignificantes a que ele atribui grande valor. Passou por Peshawar e juntou-se à segunda caravana estival que se dirige a Cabul. Os mercadores ficaram satisfeitos porque na sua superstição imaginam que loucos destes dão sorte.»
Portanto passaram os dois a fronteira. Eu teria rezado por eles, mas nessa noite morreu um rei verdadeiro na Europa e era preciso redigir uma notícia necrológica.

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A roda do mundo dá sempre as mesmas voltas vezes sem conta. Passou o Verão e depois o Inverno, e ambos voltaram e ambos passaram outra vez. O jornal continuava e eu com ele, e no terceiro Verão houve uma noite muito quente, uma edição nocturna e uma tensa espera de qualquer coisa telegrafada do outro lado do mundo, exactamente como já acontecera antes. Uns quantos grandes homens tinham morrido nos dois últimos anos, as máquinas faziam mais barulho a trabalhar e as árvores do jardim do escritório estavam mais altas. Mas a diferença era só esta.
Passei pela redacção e vivi uma cena semelhante à que descrevi atrás. A tensão nervosa era maior do que dois anos antes e o calor incomodava-me mais. Às três horas gritei: “Comecem a imprimir!” e voltava-me para sair quando o que restava de um homem se arrastou até à minha cadeira. Dobrado quase até ao chão, a cabeça enterrada entre os ombros, movia os pés um por cima do outro como os ursos. Mal se percebia se andava ou rastejava—este lamuriento estropiado envolto em farrapos dirigiu-se-me pelo nome exclamando que estava de volta.
— Arranja-me uma bebida? — choramingou ele. — Por amor de Deus, dê-me uma bebida!
Voltei para o escritório, seguido do homem a gemer de dor, e acendi o candeeiro.
— Não me conhece? — perguntou ele ofegante, deixando-se cair numa cadeira, voltando para a luz a cara chupada, coroada de cabelos grisalhos.
Olhei-o fixamente. Eu já vira umas sobrancelhas que se uniam sobre o nariz numa larga faixa negra, mas não conseguia lembrar-me onde.
— Não o conheço — disse eu passando-lhe o whisky. — Em que posso ser-lhe útil?
Ele bebeu um trago e teve um arrepio apesar do calor sufocante.
— Voltei — repetiu ele; — e fui rei do Kafiristão—eu e o Dravot— fomos coroados reis! Combinámos isso neste escritório—você estava sentado ali e deu-nos livros. Sou o Peachey. Peachey Taliaferro Carnehan... e você ficou sempre aí sentado desde então... oh, meu Deus!
Fiquei mais do que estupefacto e exprimi os meus sentimentos nesse sentido.
— Isto é verdade — disse Carnehan com uma risada seca, a mexer os pés envoltos em farrapos. — É tão verdade como os Evangelhos. Fomos reis com coroas na cabeça... eu e o Dravot... pobre Dan... oh, pobre Dan, pobre Dan que nunca acatava um conselho, por muito que eu lhe pedisse!
— Beba o whisky — disse eu — e leve o tempo que quiser, mas diga-me tudo aquilo de que se lembra, do princípio ao fim. Vocês atravessaram a fronteira nos vossos camelos, o Dravot disfarçado de padre louco e você a fazer de criado dele. Lembra-se disso?
— Eu não estou maluco... ainda, mas lá chegarei. Claro que me lembro. Continue a olhar para mim senão as minhas palavras perdem-se todas. Continue a olhar-me nos olhos e não diga nada.
Inclinei-me para a frente e olhei-lhe para a cara o mais fixamente possível. Ele deixou cair uma mão em cima da mesa e eu agarrei-a pelo pulso. Estava torcida como as garras dos pássaros e nas costas tinha uma cicatriz vermelha irregular em forma de diamante.
— Não, não olhe para aí. Olhe para mim — disse Carnehan. — Isso vem depois, mas por amor de Deus não me distraia. Nós partimos com aquela caravana, eu e Dravot a fazermos todo o tipo de palhaçadas para divertir as pessoas. Dravot fazia-nos rir à noite quando toda a gente estava a fazer o jantar... a fazer o jantar e... o que é que eles faziam depois? Acendiam pequenas fogueiras que atiravam pequenas faúlhas para a barba de Dravot e todos desatávamos a rir, quase morríamos a rir. Pequenas faúlhas a voar para a grande barba de Dravot... tão engraçado! — Desviou o olhar e sorriu como um idiota.
— Vocês foram até Jagdallak com essa caravana — arrisquei. — Até Jagdallak, onde a deixaram para tentar ir para o Kafiristão.
—Não, não foi nada disso. De que é que está a falar? Nós deixámos a caravana antes de chegarmos a Jagdallak, porque ouvimos dizer que as estradas eram boas. Mas não eram assim tão boas para os nossos dois camelos... o meu e o do Dravot. Quando deixámos a caravana, Dravot despiu a roupa toda e despiu-me a minha também e disse que íamos ser pagãos, porque os Kafires[7] não permitiam que os maometanos falassem com eles. E assim arranjámos os dois umas vestimentas, e eu nunca vi, nem espero voltar a ver a maneira como estava o Dravot. Queimou metade da barba e pôs sobre os ombros uma pele de ovelha e rapou a cabeça com desenhos. Também rapou a minha e fez-me usar coisas ultrajantes para parecer um pagão. Isto foi numa região muito montanhosa e os nossos camelos não podiam continuar a andar por causa das montanhas. Eram altas e negras e no regresso vi-as lutar como cabras monteses... há muitas cabras no Kafiristão. E estas montanhas nunca estão quietas, tal como as cabras. Andam sempre a lutar e não deixam uma pessoa dormir.
— Tome mais um whisky — disse eu devagar. — O que é que você e Dravot fizeram quando os camelos não conseguiam avançar mais por causa das más estradas que levavam ao Kafiristão?
— O que é que fez quem? Havia uma parte interessada chamada Peachey Taliaferro Carnehan que estava com Dravot. Quer que lhe fale deste? Morreu lá naquelas terras frias. Da ponte caiu o velho Peachey de cabeça, e deu voltas e mais voltas no ar como um pião barato daqueles que iam vender ao Emir. Não; eram daqueles de três meios-dinheiros ou eu estou muito enganado e dorido... E depois aqueles camelos não serviam para nada e Peachey disse a Dravot: “Por amor de Deus, vamos embora daqui antes que nos cortem a cabeça” e como não tinham nada para comer mataram os camelos no meio das montanhas, mas primeiro tiraram-lhes as caixas com as armas e as munições, e então chegaram dois homens com quatro mulas. Dravot levantou-se e pôs-se a dançar e a cantar à sua frente dizendo, “Vendam-me quatro mulas.” Diz o primeiro homem: “Se és tão rico que podes comprar, também o és para roubar,” mas antes que ele tivesse tempo de puxar da navalha, Dravot partiu-lhe o pescoço sobre o joelho e o outro homem fugiu. Assim, Carnehan carregou as mulas com as espingardas tiradas dos camelos e avançámos ambos por aquela região montanhosa com um frio cortante e nunca por estradas mais largas do que as costas de uma mão.
Fez uma pausa por momentos e eu perguntei-lhe se ele se lembrava da natureza da região por onde andara.
— Estou a contar-lhe isto o mais direitinho que posso, mas a minha cabeça já não é o que era. Espetaram-me pregos para eu ouvir melhor a maneira como Dravot morreu. A região era montanhosa e as mulas muito teimosas e os habitantes viviam dispersos e sós. E eles continuaram a subir e a descer, e a outra parte, Carnehan, implorou a Dravot que não cantasse nem assobiasse tão alto, com medo que aquilo provocasse tremendas avalanchas. Mas Dravot diz que se um rei não pudesse cantar não era digno de ser rei e batia no traseiro das mulas e nunca fez caso disso durante dez dias. Chegámos a um largo vale entre as montanhas e as mulas estavam quase mortas, e como nem nós nem elas tínhamos nada para comer, matámo-las. Sentámo-nos nas caixas e começámos a jogar ao par e pernão com os cartuchos que tinham saltado lá de dentro.
Depois apareceram dez homens com arcos e flechas a correr pelo vale abaixo e a perseguir vinte homens com arcos e flechas, e a peleja foi tremenda. Eram homens brancos, mais brancos do que eu e você, com o cabelo amarelo e muito corpulentos. Diz Dravot desempacotando as armas: “Cá está o princípio do negócio. Vamos lutar ao lado dos dez homens” e ao dizer isto dispara duas espingardas sobre os vinte homens e derruba um deles a duzentos metros da rocha onde estava sentado. Os outros homens começaram a correr, mas Carnehan e Dravot sentaram-se nas caixas matando uns atrás dos outros por todos os lados, vale acima, vale abaixo. Depois fomos ter com os homens que tinham corrido pela neve e eles dispararam uma pequena flecha. Dravot dispara-lhes por cima das cabeças e eles deitam-se no chão. Depois dirige-se a eles, dá-lhes pontapés e levanta-os, começando a apertar-lhes a mão a todos para ficarem amigos. Chama-os e dá-lhes as caixas para eles transportarem e começou a acenar com a mão para todo o mundo como se já fosse o rei. Eles levaram-no a ele e às caixas pelo vale adiante e depois monte acima e entram num pinhal, no cimo, onde havia meia dúzia de ídolos de pedra. Dravot dirigiu-se ao maior—um a que chamavam Imbre—e depositou uma espingarda e um cartucho a seus pés, esfregando-lhe respeitosamente o nariz com o seu próprio nariz, dando-lhe palmadinhas na cabeça e diz: “Muito bem. Eu também estou dentro do segredo e estes velhos fantasmas são meus amigos.” Então, abre a boca e aponta lá para dentro e quando o primeiro homem lhe traz comida ele diz “Não,” e quando o segundo homem lhe traz comida ele diz “Não,” mas quando um dos velhos sacerdotes e o chefe da aldeia lhe trazem comida diz, “Sim,” muito altivo e começou a comer devagar.
Eis como ele chegou à nossa primeira aldeia sem qualquer problema, justamente como se tivéssemos caído do céu. Mas nós caímos de uma daquelas malditas pontes de corda—sabe?— e não se pode ficar à espera que uma pessoa se ria muito depois disto, não é?
— Beba mais um whisky e continue — disse eu. — Essa foi a primeira aldeia onde entraram. Como é que você conseguiu ser rei?
— Eu não fui rei — disse Carnehan. — Dravot é que foi rei, e que ar elegante ele tinha com a coroa de ouro na cabeça e tudo. Ele e a outra parte interessada ficaram nessa aldeia e todas as manhãs Dravot sentava-se ao lado do velho Imbra e o povo vinha venerá-lo. Eram essas as ordens de Dravot. Depois um montão de homens entrou no vale e Carnehan e Dravot começaram a disparar as espingardas antes de eles saberem onde estavam, e os dois correram vale abaixo e acima outra vez pelo outro lado e encontraram outra aldeia, como a primeira, e todas as pessoas se deitaram no chão de cara para baixo e Dravot diz, “Ora então qual é o problema entre as vossas duas aldeias?” e as pessoas apontam para uma mulher, tão branca como eu ou você, que foi raptada, e Dravot levou-a de volta para a primeira aldeia e conta os mortos—eram oito. Por cada homem morto Dravot deita um pouco de leite no chão e agita os braços como um pião e “Muito bem,” diz ele. Depois ele e Carnehan pegam nos chefes das duas aldeias pelo braço e levam-nos pelo vale abaixo e mostram-lhes como traçar uma linha com uma lança pelo vale adiante e dão a cada um deles um monte de terra de cada um dos lados da linha. Então, toda a gente começa a gritar como demónios e Dravot diz, “Vão cavar a terra e frutificai e multiplicai-vos,” o que eles fizeram, embora não percebessem. Depois perguntámos os nomes das coisas no dialecto deles: pão e água e fogo e ídolos e assim. E Dravot levou o sacerdote de cada aldeia até ao ídolo e disse-lhes que se deviam sentar ali e julgar as pessoas, e se alguma coisa saísse mal deviam ser mortos a tiro.
Na semana seguinte toda a gente andava a lavrar a terra no vale, tão tranquilos como as abelhas e muito mais bonitos, e os sacerdotes ouviram todas as queixas e contavam a Dravot por gestos de que é que se tratava. “Isto é apenas o começo,” disse Dravot. “Eles pensam que nós somos deuses.” Ele e Carnehan escolhem vinte homens bons e mostram-lhes como disparar uma espingarda e formar a quatro e avançar em linha. E eles ficaram muito felizes por fazer aquilo e entenderam as coisas depressa. Depois ele puxou do cachimbo e da bolsa de tabaco e deixou cachimbo numa aldeia e a bolsa na outra e nós vamos os dois ver o que há a fazer no vale seguinte. Este era todo rochoso e havia lá uma pequena aldeia e Carnehan diz, “Manda-os para o outro vale para trabalharem a terra,” e ele leva-os lá e dá-lhes terra que não pertencia a ninguém. Eram muito pobres e nós ungimo-los com sangue de um cabrito antes de os deixar entrar no novo reino. Isto foi para os impressionar, e depois estabeleceram-se tranquilamente e Carnehan voltou para Dravot, que tinha ido para outro vale muito montanhoso, todo coberto de gelo e neve. Aí não havia ninguém e o exército teve medo; e por isso Dravot matou um deles com um tiro e continuam até encontrar alguém na aldeia, e o exército explica-lhes que, a não ser que queiram ser mortas, era melhor as pessoas não dispararem os seus pequenos mosquetes, pois eles tinham mosquetes. Fazemos amizade com o sacerdote e eu fiquei ali sozinho com dois do exército a dar instrução aos homens. E um grande chefe imponente atravessa a neve com latas e trompas a soar porque ouviu dizer que andava por ali um novo deus. Carnehan aponta ao grosso dos homens meio quilómetro do outro lado da neve e atinge um deles. Depois manda uma mensagem ao chefe dizendo que, se não quiser ser morto deve vir cumprimentá-lo desarmado. O chefe primeiro vem sozinho e Carnehan aperta-lhe a mão e agita os braços, como Dravot costumava fazer, e o chefe ficou muito surpreendido e tocou-me nas sobrancelhas. Depois, Carnehan aproxima-se sozinho do chefe e pergunta-lhe por gestos se ele tinha algum inimigo que odiasse. “Tenho,” diz o chefe. Assim, Carnehan escolhe os melhores homens e manda dois do exército dar-lhes instrução e duas semanas mais tarde os homens já sabem manobrar tão bem como um corpo de voluntários. Então ele marcha com o chefe até uma grande planície no cimo de uma montanha e os homens do chefe precipitam-se para uma aldeia e tomam-na, e nós a disparar com as nossas três Martinis sobre o grosso do inimigo. Assim, tomámos também aquela aldeia e eu dou uma tira do meu casaco ao chefe e digo, “Ocupa-a até eu voltar,” o que é da Bíblia. E como advertência, quando eu e o exército já estávamos a um quilómetro e meio deles, disparei uma bala que caiu ao lado dele, que estava de pé na neve, e toda a gente se deitou no chão de cara para baixo. Depois, mandei uma carta a Dravot, onde quer que ele estivesse, em terra ou no mar.
Correndo o risco de que a criatura perdesse o fio à meada, interrompi-o:
— Como é que você podia escrever uma carta naquelas paragens?
— A carta? Oh! A carta! Continue a olhar-me nos olhos, por favor. Era uma carta falada, uma coisa que tínhamos aprendido com um mendigo cego no Punjab.
Eu lembro-me que uma vez me apareceu no escritório um cego com um galho com nós na mão e uma guita que ele enrolava no galho segundo um qualquer código próprio. Depois de um intervalo de horas ou dias ele conseguia repetir a frase que tinha enrolado. Reduziu o alfabeto a onze sons elementares e tentou ensinar-me o seu método, mas eu não consegui perceber.
— Mandei a tal carta a Dravot — disse Carnehan — e disse-lhe para voltar porque o reino estava a crescer demais para eu o controlar; E então dirigi-me ao primeiro vale para ver como os sacerdotes estavam a trabalhar. Eles chamavam à aldeia que nós tomámos juntamente com o chefe, Bashkai, e à primeira aldeia que tomámos, Er-Heb. Os sacerdotes em Er-Heb estavam a trabalhar bem, mas tinham casos pendentes sobre as terras para me mostrar, e alguns homens de outra aldeia tinham andado a disparar setas à noite. Fui procurar essa aldeia e disparei quatro tiros de uma distância de mil metros. Gastei com isto todos os cartuchos que queria e fiquei à espera de Dravot, que estava ausente há dois ou três meses, e mantive a minha gente tranquila.
Um dia de manhã ouvi um barulho infernal de tambores e trompas e vejo Dan Dravot que vem a marchar monte abaixo com o seu exército e um séquito de centenas de homens e, o que era o mais espantoso, de coroa de ouro na cabeça. “Meu Deus, Carnehan,” diz Daniel, “isto é um negócio tremendo e nós temos todo o país que vale a pena ter. Eu sou filho de Alexandre e da Rainha Semiramis e tu és o meu irmão mais novo e um deus, também! É a coisa maior que eu já vi! Ando a marchar e a lutar há seis semanas com o exército e todas as pequenas aldeias num raio de oitenta quilometros ficaram encantadas; e mais do que isso, eu tenho a chave de todo o espectáculo, como verás, e tenho uma coroa para ti! Eu disse-lhes para fazerem duas num lugar chamado Shu, onde há ouro nas rochas como sebo nos cordeiros. Eu vi o ouro, e bastava um pontapé numa rocha para logo rolarem pedras preciosas e há jóias grandes nas areias do rio e aqui está um pedaço de âmbar que um homem me entregou. Chama todos os sacerdotes e toma lá a tua coroa. Um dos homens abre uma bolsa de pêlo negro e eu tiro a coroa e ponho-a. Era pequena demais e muito pesada, mas usei-a com orgulho. Era ouro martelado, de dois quilos de peso, como o aro de um pipo. “Pechey,” diz Dravot, “nós não precisamos de lutar mais. A solução está na Maçonaria, portanto, ajuda-me,” e faz avançar o mesmo chefe que deu deixei em Bashkai—Billy Fish, chamámos-lhe nós depois, por ser tão parecido com o Billy Fish que conduzia a locomotiva em Mach on the Bolan nos velhos tempos. “Aperta-lhe a mão,” diz Dravot, e eu apertei-lhe a mão e quase caí porque Billy Fish ma apertou com muita força. Eu não disse nada mas experimentei-o com o aperto de mão dos Mações, ele reagiu bem e eu tentei o aperto de Mestre, mas ele não correspondeu. “É um membro da Irmandade,” digo eu ao Dan, “Será que ele conhece a senha?” “Conhece,” diz Dan, “e todos os sacerdotes a conhecem. É um milagre! Os chefes e os sacerdotes formam uma Loja parecida com a nossa, e fizeram as marcas nas rochas, mas não conhecem o terceiro grau e vieram aprendê-lo. Palavra que isto é verdade como a palavra de Deus. Nestes anos todos eu já sabia que os afegãos estavam a par disto tudo, mas é um milagre. Agora sou um deus e um grão-mestre da Irmandade, e vou abrir uma Loja de terceiro grau e chegaremos aos sacerdotes e chefes de aldeia.” “Isso é contra a lei,” disse eu, “abrir uma Loja sem autorização de ninguém; e tu sabes que nós nunca participámos em Loja nenhuma.” “É uma jogada política de mestre,” diz Dravot. “Significa governar o país com enorme facilidade. Agora não podemos parar a fazer perguntas, senão eles voltam-se contra nós. Tenho quarenta ao meu encargo e vão ser avaliados e subir na escala de acordo com os seus méritos. Aloja estes homens nas aldeias e trata de arranjar um meio de dirigirmos uma Loja qualquer. O Templo de Imbra servirá de sala de reuniões. Vais ensinar as mulheres a fazerem os aventais. Vou fazer uma reunião com os chefes hoje à noite e amanhã abrimos a Loja.” Eu tinha muito que fazer, mas não era tão tolo que não visse as vantagens que esta questão da Loja nos trazia. Ensinei às famílias dos sacerdotes como se faziam os aventais para os diferentes graus, mas no avental de Dravot a orla azul e as marcas eram feitas de um bocados de pedra preciosa sobre pele branca, e não tecido. Pegámos numa grande pedra quadrada do templo para servir de cadeira do Mestre e outras mais pequenas para os participantes e pintámos o chão preto com quadrados brancos, fazendo todos os possíveis para que as coisas ficassem dentro das regras. No Conselho que se realizou nessa noite na encosta do monte, iluminado por grandes fogueiras, Dravot anuncia que ele e eu éramos deuses e filhos de Alexandre, e grandes mestres da Irmandade e que tínhamos vindo fazer do Kafiristão um país onde todos os homens pudessem comer em paz e beber tranquilamente e, especialmente, obedecer-nos. Os chefes vieram logo apertar-nos a mão e tinham tanto cabelo e eram tão brancos que era como apertar a mão a velhos amigos. Demos-lhes nomes de acordo com as suas parecenças com homens que tínhamos conhecido na Índia—Billy Fish, Holy Dilvorth, Pikky Kergan, que era o dono do bazar quando eu estive em Mhaw, etc., etc.. Os milagres mais assombrosos foram na Loja, na noite seguinte. Um dos velhos sacerdotes estava continuamente a observar-nos e eu comecei a ficar inquieto, pois sabia que tínhamos de improvisar o ritual, mas não sabia até onde chegavam os conhecimentos dos homens. O velho sacerdote era um desconhecido vindo de uma terra para além da aldeia de Bashkai. Logo que Dravot pôs o avental que as raparigas lhe tinham feito, o sacerdote fez uma grande algazarra e tentou virar a pedra em que Dravot estava sentado. “Acabou-se!” digo eu. “Isto é o resultado de nos metermos com a Irmandade sem autorização.” Dravot nem pestanejou, nem mesmo quando dez sacerdotes pegaram na cadeira do Grão-Mestre, ou seja a pedra de Imbra, e a viraram. O sacerdote começou a esfregar o fundo da pedra para lhe tirar o pó negro e depois mostra a todos os outros sacerdotes a marca do mestre, a mesma que se via no avental de Dravot, gravada na pedra. Nem os sacerdotes do Templo de Imbra sabiam que ela estava ali. O velho prostra-se no chão, de cara virada para baixo, aos pés de Dravot e beija-lhos. “Que sorte, outra vez,” diz-me Dravot do outro lado da Loja. “Dizem que é a marca perdida que ninguém entendia. Agora estamos mais que salvos.” Então, bate com a coronha da espingarda no chão, como se fosse um bastão presidencial, e diz “Em virtude da autoridade de que fui investido pela minha própria mão direita e com ajuda de Peachey, declaro-me Grão-Mestre de toda a Maçonaria livre no Kafiristão nesta Loja-Mãe do país, e Rei do Kafiristão juntamente com Peachey. Com estas palavras, põe a coroa na cabeça e eu ponho a minha—eu estava a fazer de Guardião-Mor—e inaugurámos a Loja com grande pompa. Foi um milagre admirável! Os sacerdotes passaram pelos dois primeiros graus com facilidade, como se a memória lhes estivesse a voltar. Depois disso, Peachey e Dravot promoveram aqueles que lhes parecia que o mereciam—sumos sacerdotes e chefes de aldeias longínquas. Billy Fish foi o primeiro e posso dizer-lhe que quase o fizemos morrer de medo. Aquilo não tinha nada que ver com o Ritual, mas servia os nossos propósitos. Não promovemos mais do que dez dos maiores homens, porque não queríamos banalizar o Grau. Mas eles reclamavam a promoção. “Dentro de seis meses faremos outra reunião para ver como é que vocês estão a trabalhar.” Depois faz-lhes perguntas sobre as suas aldeias e fica a saber que andavam em guerra umas com as outras e estavam cansados e fartos daquilo. E quando não andavam nisto, andavam em luta com os maometanos. “Vocês podem lutar contra esses quando eles entrarem no vosso país,” disse Dravot. “Enviem o décimo homem de cada tribo para guardar a fronteira e mandem duzentos de uma vez para este vale para lhes darmos instrução. Ninguém será abatido desde que se porte bem, e eu sei que vocês não me vão enganar, porque vocês são brancos—filhos de Alexandre—e não vulgares maometanos negros. Vocês são o meu povo e, por Deus,” diz ele, voltando no final ao inglês, “eu vou fazer de vós uma bela nação, ou morrerei ao tentá-lo.”
Não posso dizer-lhe tudo o que fizemos nos seis meses seguintes porque Dravot fez um ror de coisas que eu não entendo, e aprendeu o linguajar deles como eu nunca consegui. O meu trabalho consistia em ajudar as pessoas a lavrar a terra e de vez em quando saía com parte do exército para ver o que as outras aldeias andavam a fazer e para lhes ensinar a estenderem pontes de corda por cima das ravinas que retalhavam o país de maneira terrível. Dravot era muito amável para mim, mas quando andava de um lado para o outro no pinhal a puxar pela sua maldita barba ruiva com ambas as mãos, eu já sabia que ele estava a fazer planos sobre os quais eu não lhe podia dar conselhos, e ficava à espera de ordens. Mas Dravot nunca me mostrou menos respeito em frente de outras pessoas. As pessoas tinham medo de mim e do exército, mas amavam Dravot. Ele era o melhor dos amigos para os sacerdotes e para os chefes. Mas se vinha alguém do outro lado dos montes com uma queixa, Dravot tratava-o com imparcialidade e convocava quatro sacerdotes e dizia o que devia ser feito. Costumava convocar Billy Fish, de Bashkai, e Pikky Kergan, de Shu, e um velho chefe a que chamávamos Kafuzelum, palavra que era muito parecida com o seu nome, e fazia reuniões com eles quando havia qualquer disputa em pequenas aldeias. Este era o seu Conselho de Guerra, e os quatro sacerdotes de Bashkai, Shu, Khawak e Madora eram o seu Conselho Privado. Foi assim que resolveram mandar-me, com quarenta homens e vinte espingardas, e sessenta homens carregando turquesas, ao país de Ghorband comprar espingardas Martini feitas à mão na oficina do Emir de Cabul, de um dos regimentos Herati do Emir que até venderiam os próprios dentes a troco das turquesas. Fiquei um mês em Bhorband e ao governador de lá dei o melhor do meu carregamento para o calar e subornei o coronel do regimento e entre estes dois e o povo das tribos conseguimos mais de cem Martinis feitas à mão, cem boas Kohat Jezails, que disparavam a uma distância de quinhentos metros, e quarenta homens carregados de munições de péssima qualidade para as espingardas. Regressei com o que tinha e distribuí o material pelos homens que o chefe me mandou treinar. Dravot estava demasiado ocupado para tratar destas coisas, mas o velho exército que nós formámos primeiro ajudou-me e formámos quinhentos homens que podiam dar instrução e duzentos que sabiam lidar com armas razoavelmente bem. Mesmo as armas feitas à mão, que pareciam saca-rolhas, para eles eram um milagre. Dravot falava muito de fábricas de pólvora, sempre a andar de um lado para o outro no pinhal, quando o Inverno se aproximava. “Eu não vou construir uma nação,” diz ele, “vou construir um império. Estes homens não são negros, são ingleses! Olha-lhes bem para os olhos, olha-lhes para as bocas. Repara na maneira como se põem de pé. Em suas casas é que se sentam nas cadeiras. São as Tribos Perdidas, ou qualquer coisa assim, e nasceram para serem ingleses. Na Primavera vou mandar fazer um censo, se os sacerdotes não se assustarem. Deve haver bem dois milhões nestas montanhas. As aldeias estão cheias de criancinhas. Dois milhões de pessoas—duzentos e cinquenta mil soldados—e todos ingleses! Só precisam das espingardas e um pouco de instrução. Duzentos e cinquenta mil homens, prontos a romper o flanco direito russo quando eles tentarem atacar a Índia. Peachey, meu amigo,” diz ele a mascar tufos da barba, “nós vamos ser imperadores. Imperadores da Terra! O Rajá Brook será apenas um bebé de peito, comparado connosco. Tratarei com o Vice-Rei de igual para igual. Vou pedir-lhe que me mande doze ingleses escolhidos com muito cuidado—doze que eu já conheça—para nos ajudarem um pouco na governação. Há o Mackray, sargento pensionista em Segovli...(muitas ceias ele me pagou, e a mulher até me deu um par de calças.) Há o Donkin, o guarda da Prisão de Tounghoo; há centenas deles a quem eu podia recorrer, se estivesse na Índia. O Vice-Rei vai-me fazer isso. Vou mandar um homem buscá-los na Primavera e peço uma dispensa da Grande Loja pelo que fiz como Grão-Mestre. Isso... e todos os Sniders que forem atirados fora quando as tropas nativas da Índia começarem a usar as Martini. Estarão de certo muito usadas, mas servirão para combater nestas montanhas. Doze ingleses, cem mil Sniders a cruzarem as terras do Emir—eu contentava-me com vinte mil num ano—e nós seríamos um império. Quando tudo estivesse controlado, eu, de joelhos, oferecia a coroa—esta coroa que agora trago na cabeça—à Rainha Victoria, e ela diria ‘Levantai-vos, Sir Daniel Dravot!’ Oh, que grandioso! Digo-te que é grandioso! Mas há muito a fazer em toda a parte, Bashkai, Khawak, Shu e tudo o resto. “O quê,” pergunto. “Este Outono já não vêm mais homens para receber instrução. Olha para aquelas nuvens negras; trazem neve.” “Não é isso,” diz Daniel, pondo-me a mão no ombro pesadamente, “e eu não quero dizer nada contra ti, pois nenhum outro homem me acompanharia e teria feito de mim o que tu fizeste. Tu és um Comandante-em-Chefe de primeira classe e o povo conhece-te, mas isto é um país grande e tu, Peachey, assim como assim, não me podes ajudar da maneira de que eu precisava.” “Então vai ter com os teus malditos sacerdotes!” disse eu, e arrependi-me logo de lhe ter feito aquela observação, mas magoou-me muito ver o Daniel a falar com ar tão superior, depois de eu ter dado instrução a todos os homens e ter feito tudo o que ele me mandou. “Não vamos zangar-nos, Peachey,” diz Daniel sem praguejar. “Tu também és rei, e metade deste reino é teu; mas tu não vês, Peachey, que agora precisamos de homens mais inteligentes do que nós... três ou quatro, que podemos espalhar por aí como nossos delegados. Isto é um estado enormíssimo, e eu nem sempre sei bem qual é a decisão certa a tomar e não tenho tempo para tudo o que quero fazer, e o Inverno já aí está e tudo o resto.” Meteu metade da barba na boca, todo vermelho como o ouro da sua coroa. “Desculpa, Daniel,” digo eu, “eu fiz tudo o que pude. Dei instrução aos homens e mostrei ao povo a melhor maneira de armazenar os cereais, e trouxe aquelas espingardas de lata de Ghorband… mas eu sei o que queres dizer. Acho que os reis se sentem sempre assim oprimidos.” “E ainda há outra coisa,” diz Dravot, sempre a andar de um lado para o outro. “Vem aí o Inverno e esta gente não vai dar muitos problemas, e se derem, podemos mudar. Eu preciso de uma mulher.” “Por amor de Deus, deixa lá as mulheres em paz!” digo eu. “Nós os dois já temos todo o trabalho que podemos fazer, embora eu seja um imbecil. Lembra-te do contrato, e afasta-te das mulheres.” “O contrato só era válido até nós sermos reis, e reis já nós somos há meses,” diz Dravot sopesando a coroa nas mãos. “E tu vai também arranjar uma mulher, Peachey... um moça bonita, robusta, gordinha que te aqueça no Inverno. Elas são mais bonitas do que as inglesas e nós podemos escolher as melhores. Fazemos-lhes uns rapa-pés e verás como elas nos caem nos braços.” “Não me tentes!” digo eu. “Eu não quero nada com as mulheres enquanto não estivermos mais seguros do que agora. Eu tenho andado a fazer o trabalho de dois homens e tu, o trabalho de três. Vamos descansar um pouco e ver se conseguimos arranjar tabaco melhor das terras afegãs e trazer um pouco de álcool; mas mulheres, não.” “Mas quem é que está a falar de mulheres?” diz Dravot. “Eu falei em esposa... uma rainha para dar um filho ao rei. Uma rainha vinda da tribo mais forte, que faça deles nossos irmãos de sangue e que se deite a nosso lado e nos conte tudo o que o povo pensa sobre nós e sobre os assuntos deles. É isto o que eu quero.” “Lembras-te daquela mulher bengali que eu tinha em Mogul Serai quando trabalhava nos caminhos de ferro?” digo eu. “Foi muito boa para mim. Ensinou-me o dialecto e mais uma ou duas coisas, mas depois, o que aconteceu? Fugiu com o criado do chefe da estação e metade do meu salário de um mês. Depois apareceu em Dadur Junction com um mestiço nos braços e teve o descaramento de dizer que eu era o marido dela... tudo isto na arrecadação diante de todos os maquinistas!” “Isso são águas passadas,” diz Dravot; “estas mulheres são mais brancas do que tu e do que eu, e eu hei-de ter uma rainha para os meses de Inverno.” “Pela última vez te peço, Dan, não faças isso,” digo eu. “Isso só nos trará prejuízos. A Bíblia diz que os reis não devem gastar as suas forças com as mulheres, especialmente quando têm um novo reino em bruto para tratar.” “Pela última vez te respondo, vou fazer isso, sim,” diz Dravot, e foi-se embora pelo meio dos pinheiros, com ar de grande demónio, o sol a dar-lhe na coroa, na barba e tudo. Mas arranjar uma mulher não era assim tão fácil como Dan pensava. Pôs a questão perante o Conselho e só obteve resposta quando Billy Fish disse que era melhor ele perguntar às raparigas. Dravot amaldiçoou-os a todos. “O que é que eu tenho de mal?” gritou ele de pé frente ao ídolo de Imbra. “Será que sou um cão?, ou não serei homem bastante para as vossas mulheres? Não é verdade que fui eu que protegi este país? Quem é que deteve a última incursão afegã?” Na realidade fui eu, mas Dravot estava zangado demais para se lembrar. “Quem é que vos comprou as armas? Quem consertou as pontes? Quem é o Grão-Mestre do símbolo gravado na pedra?”, diz ele, a bater com a mão sobre a pedra onde costumava sentar-se na Loja e no Conselho, que abria sempre como a Loja. Billy Fish não disse nada, e os outros também não. “Não percas a cabeça, Dan,” disse eu, “e pergunta às moças. É assim que se faz lá na nossa terra, e esta gente é bastante inglesa.” “O casamento do rei é uma questão de Estado,” diz Dan, vermelho de raiva, pois sentia, creio eu, que estava a ir contra o senso comum. Saiu da sala do Conselho e os outros continuaram sentados a olhar para o chão. “Billy Fish,” digo eu ao chefe de Baskai, “qual é o problema aqui? Dá uma resposta sincera a um amigo verdadeiro.” “Tu sabes,” diz Billy Fish. “Como é que eu posso dizer alguma coisa a alguém que sabe tudo? Como é que as filhas dos homens casam com deuses ou demónios? Não está certo.” Eu lembrava-me de qualquer coisa assim na Bíblia, mas, se depois de nos verem há tanto tempo, ainda acreditavam que nós éramos deuses, não era eu que os ia desenganar. “Um deus pode fazer tudo,” digo eu. “Se o rei gosta de uma rapariga, não a vai deixar morrer.” “Mas é isso que vai acontecer com ela,” diz Billy Fish. “Há todo o tipo de deuses e demónios nestas montanhas e de vez em quando uma moça casa com um deles e nunca mais se vê. Além disso, vocês os dois conhecem a marca gravada na pedra. Só os deuses sabem isso. Nós pensávamos que vocês eram homens até nos mostrarem o sinal do Mestre.” Senti então o desejo de lhes explicar que não conhecíamos os genuínos segredos de um Mestre Mação; mas não disse nada. Durante toda essa noite soaram as trompas num pequeno templo escuro a meio caminho do cimo do monte, e eu ouvi uma rapariga que chorava como se a quisessem matar. Um dos sacerdotes contou-nos que estavam a prepará-la para casar com o rei. “Não vou suportar parvoíces destas,” diz Dan. “Não quero interferir com os vossos costumes, mas vou ter a minha mulher.” “Ela está um pouco assustada,” diz o sacerdote. “Pensa que vai morrer, creio que estão a confortá-la no templo.” “Então, confortem-na com muito cuidado,” diz Dravot, “senão conforto-vos eu com a coronha da espingarda até mais não.” Lambeu os lábios, o Dan, quero dizer, e ficou a pé vagueando durante mais de metade da noite a pensar na mulher que ia ter de manhã. Eu não estava nada tranquilo pois sabia que tratar com uma mulher num país estrangeiro, mesmo sendo um rei vinte vezes coroado, não podia deixar de ser um risco. Levantei-me muito cedo de manhã enquanto Dravot dormia e vi os sacerdotes a falarem uns com os outros em sussurros, e os chefes também a falarem uns com os outros, e olhavam para mim pelo canto do olho. “O que é que se passa, Fish?” digo eu ao homem de Bashkai, que estava embrulhado nas suas peles e com um ar esplêndido. “Eu não sei bem,” diz ele; “mas se tu conseguires fazer com que o rei esqueça esse disparate do casamento, vais-lhe prestar a ele e a mim e a ti um grande serviço.” “Acredito que sim,” digo eu. “Mas certamente tu sabes tão bem como eu, tu que contra nós e por nós lutaste, que o rei e eu não somos mais do que dois dos melhores homens que Deus alguma vez criou. Nada mais, garanto-te.” “Pode ser,”diz Billy Fish, “e contudo eu teria pena que assim fosse.” Enterrou a cabeça na grande manta de peles e ficou a pensar por momentos. “Rei,” diz ele, “sejas tu homem ou deus ou o demónio, hoje dou-te o meu apoio. Tenho vinte dos meus homens comigo e eles seguir-me-ão. Vamos a Bashkai até que a tempestade passe.” Tinha caído alguma neve durante a noite e estava tudo branco, excepto as grandes nuvens negras que corriam do norte. Dravot saiu com a coroa na cabeça, a abanar os braços e a bater com os pés e com um ar mais feliz do que o do Punch[8]. “Pela última vez, esquece isso, Dan,” digo eu num sussurro; “Billy Fish diz que vai haver briga.” “Briga entre o meu povo! Diz Dravot. “Nem pensar. Peachey, és um tolo se não arranjares uma mulher também. Onde está a rapariga?” diz ele, num tom tão alto como o zurrar de um burro. “Convoca todos os sacerdotes e chefes e deixem que o Imperador veja se a esposa lhe serve.” Não foi preciso convocar ninguém. Estavam lá todos apoiados nas espingardas ou nas lanças à volta da clareira no centro do pinhal. Alguns dos sacerdotes foram até ao templo para trazer a rapariga e as trompas soaram tão alto que acordariam os mortos. Billy Fish avança e aproxima-se o mais possível de Daniel e por trás dele estavam os seu vinte homens armados de mosquetes—nenhum tinha menos de um metro e oitenta de altura. Eu estava junto de Dravot, e atrás de mim estavam vinte homens do exército regular. A rapariga vem—e se era robusta a moça—coberta de prata e jóias, mas branca como a cal, e sempre a olhar para trás para os sacerdotes. “Serve,” disse Dan a observá-la dos pés à cabeça. “De que é que estás com medo, moça? Anda beijar-me.” Pôs-lhe um braço à volta da cintura. Ela fechou os olhos, dá um curto grito e põe-lhe a cabeça junto do pescoço. “Esta porca mordeu-me!” diz ele dando uma palmada no pescoço e a mão ficou certamente suja de sangue. Billy Fish e dois dos seus homens agarram Dan pelos ombros e arrastam-no por entre os de Bashkai, enquanto os sacerdotes rugem no seu dialecto, “Nem Deus nem o Diabo, é apenas um homem!” Eu tive de recuar porque um sacerdote me atacou pela frente, e o exército, por trás, começou a disparar contra os homens de Bashkai. “Meu Deus!” diz Dan, “O que é que significa isto?” “Volta, vem-te embora connosco. Amotinação e ruína, é o que isto significa. Vamos cortar em retirada para Bashkai, se pudermos.” Tentei dar algumas ordens aos meus homens do exército regular, mas foi em vão, por isso disparei contra eles com uma Martini inglesa e abati três de uma vez. O vale estava cheio de criaturas a gritar a rugir e toda a gente berrava, “Nem Deus, nem o Demónio, apenas um homem!” As tropas de Bashkai puseram-se a lutar ao lado de Billy Fish o melhor que podiam, mas os seus mosquetes não se comparavam com os que trouxéramos de Cabul, e quatro deles caíram. Dan bradava como um touro porque estava cheio de raiva, e Billy Fish teve grande dificuldade em evitar que ele desatasse a correr contra a multidão. “Nós não podemos resistir,” diz Billy Fish. “Vamos correr vale abaixo. Estão todos contra nós.” Os homens dos mosquetes correram vale abaixo, apesar dos palavrões que Dravot dizia e de gritar que era o rei. Os sacerdotes fizeram rolar grandes pedras contra nós e o exército regular disparava muito, e não mais do que seis homens, sem contar comigo, com Dan e com Billy Fish, chegaram ao fundo do vale vivos. Depois eles deixaram de disparar e as trompas soaram outra vez no templo. “Vamos embora, por amor de Deus, vamos embora!” diz Billy Fish. “ Eles vão mandar mensageiros a todas as aldeias antes de chegarmos a Bashkai. Aí eu posso proteger-vos, mas agora não posso fazer nada.” A minha impressão é que foi naquele momento que Dravot começou a enlouquecer. Começou a olhar para cima e para baixo como se estivesse preso ao chão. Logo depois queria voltar e matar os sacerdotes com as próprias mãos, coisa que ele era perfeitamente capaz de ter feito. “Eu sou imperador,” diz Daniel, “e no próximo ano serei Cavaleiro da Rainha.” “Está bem, Dan,” digo eu; “mas agora vem embora enquanto é tempo. “A culpa foi tua,” diz ele, “por não tomares melhor conta do exército. Havia uma rebelião em preparação e tu não sabias—maldito maquinista, operário de merda, missionário sabujo!” Sentou-se numa rocha e chamou-me todos os nomes de que se lembrou. Eu estava farto demais para me importar, embora fosse toda a sua loucura que provocou os problemas. “Desculpa, Dan,” digo eu, “mas ninguém sabe muito bem como lidar com os nativos. Este assunto é o nosso Cinquenta e sete[9]. Talvez ainda possamos fazer alguma coisa quando chegarmos a Bashkai.” “Então, vamos lá para Bashkai,” diz Dan, “e, por Deus, quando eu aqui voltar hei-de varrer este vale de tal maneira que não fique nem um só piolho num cobertor.” Caminhámos durante todo aquele dia, e durante toda a noite Dan andou a bater com os pés na neve, a mascar a barba e a murmurar consigo mesmo. “Não há esperança de escapar,” disse Billy Fish. “Os sacerdotes mandaram mensageiros às aldeias a dizer que vocês são apenas homens. Por que é que vocês não persistiram em passar por deuses até as coisas ficarem mais tranquilas? Eu sou um homem morto,” diz Billy Fish, e atira-se sobre a neve e começa a rezar aos seus deuses. Na manhã seguinte chegámos a umas terras cruéis—toda aos altos e baixos, sem planícies e sem comida também. Os seis homens Bashkai olharam para Billy Fish com ar de fome, como se quisessem perguntar qualquer coisa, mas não chegaram a dizer palavra. Ao meio-dia chegámos ao cimo de um planalto todo coberto de neve, e eis que havia um exército em posição, ali no meio, à espera! “Os mensageiros foram muito rápidos,” diz Billy Fish com uma pequena risada. “Eles estão à nossa espera.” Três ou quatro homens começaram a disparar do lado do inimigo e uma bala perdida atingiu Daniel numa perna. Isso fez-lhe recuperar o juízo. Olha para o exército do outro lado da neve e vê as espingardas que nós tínhamos trazido para o país. “Estamos feitos,” diz ele. “São ingleses, esses tipos, e foi a minha maldita parvoíce que vos meteu nisto. Volta para trás, Billy Fish e leva os teus homens; tu fizeste o que podias e agora tens de ir embora, Carnehan,” diz ele agora para mim, “aperta-me a mão e vai com Billy. Talvez eles não vos matem. Eu vou enfrentá-los sozinho. Fui eu que fiz isto. Eu, o rei!” “Vai para o diabo, Dan!” digo eu. “Eu estou aqui contigo. Billy Fish, vai-te embora, e nós os dois vamos enfrentar aquela gente.” “Eu sou um chefe,” diz Billy Fish muito tranquilo. “Fico convosco. Os meus homens podem ir.” Os tipos de Bashkai não esperaram por uma segunda palavra, puseram-se logo a correr em fuga e Dan, eu e Billy Fish atravessámos para o sítio onde os tambores e as trompas estavam a soar. Estava frio, um frio terrível. Ainda sinto aquele frio na parte de trás da cabeça. Sim, tenho um pouco de frio aqui.
Os punka-coolies já tinham ido dormir. Dois candeeiros de petróleo iluminavam o escritório e a transpiração corria-me pela cara abaixo e salpicava o mata-borrão quando eu me inclinava para a frente. Carnehan estava a tremer e eu receei que ele também começasse a enlouquecer. Limpei a cara, peguei-lhe naquelas mãos lastimosamente destroçadas e disse:
— O que é que aconteceu depois?
O momentâneo movimento dos meus olhos tinham quebrado o fio da narrativa.
— O que é que quer dizer? — perguntou Carnehan a gemer. — Levaram-nos sem o mínimo ruído. Nem um só pequeno sussurro ao longo da neve, nem quando o rei derrubou o primeiro homem que lhe deitou a mão—embora o velho Peachey disparasse o seu último cartucho sobre eles. Aqueles suínos não fizeram um único ruído. Apenas nos apertaram o cerco cada vez mais e eu digo-lhe que as suas peles cheiravam mal. Havia um homem chamado Billy Fish, um bom amigo de todos nós, e eles cortaram-lhe o pescoço, meu senhor, logo ali, como se ele fosse um porco; e o rei dá pontapés na neve ensanguentada e diz, “Recebemos um belo prémio pelos nossos esforços. E agora?” Mas Peachey, Peachey Taliaferro, digo-lhe eu, meu senhor, confidencialmente, entre amigos, perdeu a cabeça, meu senhor. Não, também não é isso. O rei perdeu a cabeça, isso sim, numa daquelas pontes de corda. Por favor, senhor, empreste-me o corta-papéis. Inclinava-se assim para este lado. Fizeram-no caminhar quilometro e meio pela neve até uma ponte de corda sobre uma ravina com um rio no fundo. O senhor já as deve ter visto. Eles aguilhoaram-no por detrás como se faz a um boi para que ele avançasse. “Malditos!” diz o rei. “Julgam que eu não sei morrer como um cavalheiro?” Volta-se para Peachey—Peachey que chorava como uma criança. “Fui eu que te meti nisto, Peachey,” diz ele. “Tirei-te da tua vida feliz para seres morto no Kafiristão, onde foste o último Comandante-em-Chefe das forças do Imperador. Diz-me que me perdoas, Peachey.” “Perdoo, sim,” diz Peachey. “Perdoo-te do coração, Dan.” “Aperta-me a mão, Peachey,” diz ele. “Agora vou.” Parte sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, e quando estava mesmo no centro daquelas cordas vertiginosas que não deixavam de oscilar, gritou: “Cortem, piolhosos!” E eles cortaram e o velho Dan caiu, começando a girar, a girar, trinta mil quilómetros, pois ele levou meia hora a cair até bater na água, e eu vi-lhe o corpo a ficar preso numa rocha com a coroa de ouro mesmo a seu lado. Mas sabe o que eles fizeram a Peachey, entre dois pinheiros? Crucificaram-no, meu senhor, como mostrará a mão de Peachey. Usaram pregos de madeira para as mãos e pés; mas ele não morreu. Ficou ali pendurado a gritar. E eles tiraram-no no dia seguinte e disseram que era milagre que ele não tivesse morrido. Baixaram-no—pobre velho Peachey que não lhes tinha feito mal nenhum—que não lhes tinha feito...
Balançava para cá e para lá e chorava amargamente, limpando os olhos com as costas das mãos cheias de cicatrizes e gemendo como uma criança durante minutos.
— Foram cruéis ao ponto de o alimentar no templo porque diziam que ele tinha mais de deus do que o velho Daniel de homem. Depois soltaram-no na neve e disseram-lhe para voltar para o seu país, e Peachey voltou dentro de um ano, mendigando pelo caminho sem ninguém o incomodar; porque Daniel Dravot ia à sua frente e dizia, “Anda Peachey. É uma coisa importante, o que nós estamos a fazer.” À noite as montanhas bailavam, e as montanhas tentavam cair na cabeça de Peachey, mas Dan levantava a mão e Peachey avançava curvado. Nunca deixou a mão de Dan e nunca deixou a cabeça de Dan. Deram-lha de presente no templo para ele se lembrar que não devia voltar lá outra vez; e embora a coroa fosse de ouro puro e Peachey estivesse a morrer de fome, nunca Peachey a venderia. O senhor conhece Dravot, meu senhor! O senhor conhece Sua Alteza, o Irmão Dravot! Olhe para ele agora!
Com a mão, vasculhou no meio dos trapos que trazia à volta da cintura dobrada; tirou de lá um saco preto de crina de cavalo, bordado a fio de prata; sacudiu-o até que qualquer coisa caiu sobre a mesa... era a cabeça ressequida e enrugada de Daniel Dravot! O sol da manhã, que há muito já fizera empalidecer a luz dos candeeiros, incidiu sobre a barba ruiva e sobre os olhos encovados e cegos; incidiu também sobre um pesado círculo de ouro, com jóias em bruto embutidas, que Carnehan colocou ternamente sobre as desgastadas têmporas.
— Veja isto — disse Carnehan. — O Imperador tal como era quando era vivo... O rei do Kafiristão com a sua coroa na cabeça. Pobre velho Daniel, que chegou a ser monarca!

Estremeci, porque, apesar de desfigurada como estava, reconheci a cabeça do homem de Marwar Junction. Carnehan levantou-se para se ir embora. Eu quis detê-lo. Ele não estava em condições de ir para a rua.
— Deixe-me levar o whisky e dê-me algum dinheiro — disse ele ofegante. — Eu já fui rei. Vou falar com o Subcomissário e pedir-lhe que me deixe ficar no asilo até recuperar a saúde. Não, obrigado, não posso ficar aqui à espera que o senhor me arranje uma carruagem. Tenho assuntos particulares urgentes—no Sul—em Marwar.
Arrastou-se para fora do escritório e partiu em direcção à casa do Subcomissário. Nesse dia, ao meio-dia, por acaso fui à rua com aquele calor abrasador e vi um homem todo dobrado a arrastar-se pela poeira branca da rua, chapéu na mão, a cantar com o ar doloroso daqueles cantores de rua do nosso país. Não se via vivalma, e ele estava fora do possível alcance auditivo das casas. Cantava pelo nariz, virando a cabeça para um lado e outro:
«O Filho do Homem vai para a guerra,
para ganhar uma coroa de ouro;
a sua bandeira vermelha de sangue ondeia ao vento...
Quem é que segue os seus passos?»

Não esperei para ouvir mais, e meti aquele pobre desgraçado na minha carruagem e levei-o à Missão mais próxima para depois ser transferido para o asilo. Repetiu a canção duas vezes enquanto esteve comigo, mas não deu sinais de me reconhecer, e eu deixei-o na Missão a cantar.
Dois dias mais tarde, perguntei ao Superintendente do asilo pelo seu estado.
— Quando o trouxeram, sofria de insolação. Morreu ontem, de manhã cedo — disse o Superintendente. — É verdade que ele esteve meia hora ao sol, ao meio-dia, de cabeça descoberta?
— Sim, é verdade — disse eu. — Mas sabe por acaso se ele tinha alguma coisa com ele quando morreu?
— Que eu saiba, não — respondeu o Superintendente.
E assim ficaram as coisas.


J. Rudyard Kipling



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Notas:
[1] Espécie de leques de grandes dimensões que geralmente eram movidos manualmente.
[2] Gladstone: Primeiro-Ministro inglês, do Partido Liberal, na época Vitoriana, cuja hostilidade à expansão ultramarina britânica era conhecida.
[3] Referência às lendas do Rei Artur.
[4] Bizâncio
[5] Russos
[6] Título honorífico
[7] Pagãos
[8] Conhecida personagem do teatro de marionetas inglês.
[9] Referência a uma revolta de 1857, em que os soldados do exército de Bengala se rebelaram contra os oficiais.