06/03/2011

A contagem dos pães



Dois homens que viajavam juntos sentaram-se à beira da estrada, para comer. Um tinha cinco pães, e o outro três. Quando colocaram diante de si a comida, passou por ali um homem e os cumprimentou. Eles o convidaram:
— Senta-te para comer connosco.
Ele se sentou e comeu com eles, consumindo-se durante a refeição os oito pães. O homem então se levantou e lhes deu oito moedas de prata, dizendo:
— Recebam este pagamento pela comida que me deram.
E continuou seu caminho.
Os dois companheiros discutiram sobre o modo de dividir entre si as moedas. O dono dos cinco pães dizia:
— Para mim são cinco moedas, e para ti três, pois isto corresponde ao número de pães que cada um de nós tinha.
— Só me conformarei com a divisão das moedas em partes iguais, pois ele recompensou a nossa hospitalidade, que tem o mesmo valor.
Não conseguiram chegar a um acordo. Por isso levaram sua pendência ao Emir Ali ben Ali-Talib, a quem expuseram o ocorrido. O Emir disse então ao dono dos três pães:
— Teu companheiro está sendo muito condescendente, oferecendo-te três moedas, pois o pão dele era mais abundante que o teu. É melhor conformar-te com as três moedas.
— Só me conformarei com o que me cabe por direito.
— Mas, de acordo com o direito, só te cabe uma moeda, e as outras sete ao teu companheiro.
— Ele me ofereceu três moedas e não me conformei, e agora me afirmas que o direito me confere uma só moeda! Explica-me por que só tenho direito a isso, e só então o aceitarei.
Ali-Talib então explicou:
— Eram três pessoas, e não é possível saber quem comeu mais e quem comeu menos. Portanto, temos de supor que todos comeram quantidades iguais. Os pães comidos eram oito, que perfazem vinte e quatro terços. Cada um, portanto, comeu oito terços. Os teus três pães representavam nove terços, e deles comeste oito. O teu companheiro comeu oito terços e tinha quinze. Portanto, dos oito terços que o convidado comeu, sete eram do teu amigo, e apenas um era teu. Daí resulta que te cabe apenas uma moeda, e as outras sete ao teu amigo.
— Agora eu concordo. Nada como o que é justo!


Ben Al-Sayi,
in R. Menéndez Pidal, Antología de cuentos
Labor, Barcelona, 1953