31/01/2011

A tortura da esperança

Há muitos anos, ao cair da tarde, dirigiam-se a um cárcere subterrâneo o venerável Pedro Arbuez d'Espila, sexto prior dos Dominicanos de Segóvia, e terceiro Grande Inquisidor de Espanha, seguido por um fra redemptor e precedido por dois familiares do Santo Ofício, estes conduzindo lanternas. Rangeu o ferrolho de uma porta maciça, e penetraram num mefítico in-pace, onde a luz baça filtrada pelas frestas iluminou um edifício manchado de sangue, um braseiro e um jarro. Sobre um monte de palha, coberto de grilhões e com uma argola de ferro ao pescoço, está sentado um homem pálido, de idade incerta, coberto de andrajos.
Não é outro o prisioneiro senão o rabino Aser Abarbanel, judeu de Aragão, o qual, acusado de usura e desdém impiedoso pelos pobres, tem sido diariamente submetido a torturas, há mais de um ano. Todavia, "sua cegueira é tão densa quanto o seu orgulho", e ele recusa-se a abjurar sua fé.
Orgulhoso de uma ascendência que data de milhares de anos, orgulhoso de seus antepassados - porque todo judeu digno desse nome sente vaidade de o ser - descende ele talmùdicamente de Otoniel, e, consenqüentemente, de Ypsiboa, esposa do último juiz de Israel, circunstância esta que lhe tem sustentado a coragem diante de incessante tortura. Com lágrimas nos olhos, a pensar nesta resoluta alma que recusa a salvação, o venerável Pedro Arbuez d'Espila, ao aproxima-se do fremente rabino, diz-lhe ao que segue:
- Regozija-te, meu filho: estão terminando aqui em baixo as tuas desventuras. Se em presença de tamanha obstinação fui obrigado a permitir, com grande pesar, o uso de tanta severidade, tem seus limites a minha tarefa de correção fraternal. És a figueira, que passando tanto tempo sem frutificar, vem a mirrar, e só Deus lhe pode julgar a alma. Quem sabe se a infinita Misericórdia te iluminará no teu último instante! Esperemos que assim seja. Tem havido exemplos. Dorme, pois, em paz esta noite. Serás incluído amanhã no auto de fé: isto é, serás exposto ao quemadero, às chamas simbólicas do fogo eterno: elas ardem, como sabes, meu filho, apenas à distância; e a morte custa a vir duas horas (muitas vezes três), por causa das faixas úmidas com que protegemos a cabeça e o coração do condenado. Serão ao todo quarenta e três, contigo. Incluído em último lugar, terás tempo para invocar a Deus e oferecer-lhe este batismo de fogo que é o do Espírito Santo. Confia na Luz, e descansa.
Com estas palavras, depois de fazer sinal aos companheiros para que desencadeassem o prisioneiro, abraçou-o o prior, com ternura. Foi depois a vez do fra redemptor, o qual, em tom lamurioso, suplicou perdão ao judeu pelo que lhe fizera sofrer com o propósito de o redimir; e enfim beijaram-no em silêncio os dois familiares. Terminada a cerimônia, foi deixado o cativo, solitário e apalermado, imerso nas trevas.
Com os lábios ressecados e o rosto gasto pelo sofrimento, a princípio o rabino Aser Abarbanel olhou com os olhos vagos para a porta que se fechara. Fechada? Inconscientemente em seu espírito aquela palavra acordou uma fantasia, a fantasia de ter visto por alguns momentos, através da greta entre a porta e a parede, a luz das lanternas. Uma idéia mórbida de esperança, devido à fraqueza de seu cérebro, convulsionou-lhe todo o ser. Arrastou-se para perto da estranha aparência. Depois, com cuidado e vagar, enfiou o dedo pela fenda, e puxou a porta. Maravilhas! Por extraordinário acidente, o familiar que a fechara correra o ferrolho pouco antes de chegar a porta ao orifício de pedra, de modo que o ferrugento espigão não entrara no buraco, e a porta girou de novo nos gonzos.
0 rabino arriscou um olhar para fora. Com a ajuda de uma espécie de escuridão luminosa distinguiu primeiro um semicírculo de paredes, recortado de degraus em espiral; e a sua, frente, acima de cinco ou seis degraus de pedra, um portal escuro, aberto para imenso corredor, cujas primeiras escadas eram visíveis de baixo.
Esticando-se, trepou no patamar. Sim, era realmente um corredor, mas de comprimento sem fim. Sombria luz o iluminava: lâmpada suspensas do teto abobadado clareavam, a intervalos, a obscuridade reinante; sua extremidade perdia-se na sombra. Nem uma só porta parecia haver em toda a sua extensão! Apenas a um lado, à esquerda, seteiras fortemente gradeadas, abertas na parede, deixavam entrar uma claridade que devia ser a do crepúsculo, porque nas lajes do pavimento se estiravam résteas de luz avermelhada. E que silêncio terrível! Não obstante, no extremo do corredor deveria de haver uma porta de saída! A esperança vacilante do judeu era tenaz, por que era a última.
Sem hesitar, avançou, conservando-se junto à parede, e procurou confundir-se com a escuridão. Avançou lentamente, arrastou-se com a respiração contida, e reprimia um grito de dor, quando um ferimento mais recente lhe provocava dores por todo o corpo.
De súbito, ouviu aproximar-se o ruído de pés calçados com sandálias. Tremeu violentamente. 0 terror empolgou-o, escureceu-se-lhe a vista. Bem, estava tudo acabado não havia dúvida. Espremeu-se dentro de um nicho, quase morto de pavor, e esperou.
Era um frade que passava. Passou apressado, um instrumento de tortura, - um vulto medonho - e desapareceu. A agonia do rabino parecia ter-lhe interrompido a própria vida, e ali ficou ele, quase uma hora, incapaz de mover-se. Por temer o requinte da tortura, se o recapturassem, pensou em voltar para o cárcere. Mas a velha esperança sussurrou-lhe na alma o divino talvez, que nos conforta sempre, nos mais dolorosos transes. Acontecera um milagre. Disso já não duvidava. Inclinou-se pela probabilidade de fuga. Exausto de sofrimentos e fome, tremulo de dores, prosseguiu. A sepulcral galeria parecia alongar-se misteriosamente, enquanto ele, sempre caminhando, procurava nas trevas o lugar onde devia haver a passagem para a liberdade.
Oh! Oh! Ouviu novos passos, desta vez porém mais vagarosos e mais pesados. Apareceram as formas brancas e pretas de dois inquisidores, que emergiam da obscuridade ao fundo. Vinham conversando em voz baixa, e pareciam discutir assunto importante, porque gesticulavam veementemente.
Ao vê-los o rabino Aser Abarbanel fechou os olhos: batia-lhe tão desordenadamente o coração que ele quase se sentia sufocar; seus andrajos estavam úmidos do suor da agonia; conservou-se imóvel, calado à parede, a boca aberta, sob os raios luminosos do lampião orando ao Deus de David.
Bem em frente a ele, pararam sob a lanterna os dois inquisidores; sem dúvida em virtude do argumento, naquele instante no seu clímax. Um. deles, enquanto ouvia o companheiro, fitou os olhos no rabino. E ao peso daquele olhar, - cuja ausência de expressão: não pode notar a princípio - já sentia de novo as tenazes candentes a lacerar-lhe as carnes, e ele outra vez convertido em chaga viva; desfalecendo, oprimido, com as pálpebras vibrantes, arrepiou-se ao sentir no corpo o contato do burel esvoaçante do monge. Mas, - fato estranho, embora natural, o olhar do inquisidor era, evidentemente, o de pessoa profundamente absorta na resposta que daria, ainda mais alheado pelo que ouvia; seu olhar era fixo, e parecia olhar para o judeu sem o ver.
Com efeito, passados alguns minutos, os dois vultos escuros continuaram lentamente o seu caminho, sempre conversando em voz baixa, na direção do lugar de onde viera o prisioneiro; ele não fora visto!. No meio da horrível confusão dos pensamentos do rabino, brotou-lhe do espírito esta idéia: "Estarei morto, de modo que eles não me viram?" Horrível impressão assaltou-o na sua letargia: ao olhar para a parede junto à qual colara o rosto, imaginou ver dois olhos ferozes que o espreitavam! Voltou a cabeça num súbito frenesi de pavor, os cabelos revoltos a cair-lhe por todos os lados. Mas, não! Não. Esfregou a argamassa com a mão: era o reflexo dos olhos do inquisidor, ainda impressos nos seus, e deles projetados na parede.
Adiante! Ele precisava apressar-se para a meta que imaginava (absurdamente, não havia dúvida) ser a sua libertação, para a escuridão da qual não distava agora mais de trinta passos. Atirou-se de joelhos, com as mãos espalmadas arrastou-se penosamente, e daí a pouco entrava no trecho escuro daquele horrível corredor.
De súbito sentiu o pobre desgraçado, nas mãos que se arrastavam pelas lajes, uma lufada de ar frio, vinda de baixo de pequena porta, aonde iam ter as duas paredes.
Céus! se aquela porta abrisse para o exterior! Vibrou de esperança o mais ínfimo nervo daquele miserável fugitivo. Examinou-a de alto a baixo, embora fossem limitadíssimas as suas possibilidades de examinar-lhe o contorno na escuridão que o cercava. Passou a mão sobre ela: não tinha ferrolho, nem fechadura! Uma aldrava! Ergueu-se a aldrava, cedendo à pressão de seu polegar: a porta abriu-se silenciosamente à frente dele.
- Aleluia! - murmurou o rabino, num transporte de alegria, quando, de pé no patamar, contemplou a cena que tinha diante dos olhos.
Abrira-se a porta para um jardim, sob o qual se arqueava um céu estrelado; abrira-se para a primavera, para a liberdade, para a vida ! Revelava os campos circunvizinhos, que se alongavam na direção das serras, cujas sinuosas linhas azuladas se recortavam no horizonte. Para lá ficava a liberdade! Oh! Fugir! Caminharia toda a noite através dos limoeiros, cuja fragrância ele sentia. Estaria salvo quando alcançasse as montanhas! Inalou o ar delicioso; reavivou-o a brisa, expandiram-se-lhe os pulmões. Sentiu no coração dilatado o Veni foràs de Lázaro. E para mais uma vez agradecer ao Senhor, que lhe concedera aquela graça, estendeu os braços, elevando os olhos para o céu. Era o êxtase da alegria!
Imaginou então que a sombra de seus braços se aproximava dele... imaginou que aqueles braços o abraçavam... e que era ternamente apertado ao peito de alguém. Um vulto alto detivera-se agora bem atrás dele. Baixou o olhar... Ficou imóvel, a boca entreaberta, tonto, os olhos parados, babando-se de pavor.
Horror! Estava nos braços do próprio Grande Inquisidor, o venerável Pedro Arbulez d'Espila, que o contemplava com os olhos lacrimosos, como um amorável pastor que tivesse encontrado a ovelha tresmalhada.
0 padre de batina escura abraçava o malfadado judeu de encontro ao coração, com tão fervente transporte amoroso, que as pontas do hábito monacal quase lhe roçagavam o peito de dominicano. E enquanto Aser Abarbanel, de olhos esbugalhados, agoniava-se naquele abraço do asceta, com a compreensão vaga de que todas as fases daquela noite fatal tinham sido apenas uma tortura pré-estabelecida, a tortura da Esperança, o Grande Inquisidor, num tom de comovente reprovação, e com o olhar consternado, murmurava-lhe ao ouvido, o hálito seco e ardente, pelos constantes jejuns:
- Como, meu filho! Quando te concedemos a graça de aproximar-te da salvação... querias deixar-nos?


Villiers de L'isle Adam

Victor-Emile Michelet : Villiers de l'Isle-Adam