15/01/2011

Dois Homens

À Marlise Vaz Bridi


Chamou-me, aqui estou, disse o filho. O pai olhou para o filho como se o tivesse visto no dia anterior. Sem reparar nos sinais de ausência de mais de vinte e sete anos, os olhos mirrados que a custo se percebiam azuis, a pele velha, os dentes rombos e amarelados.
Estavam sentados na varanda contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, muito laranja. As gaivotas gritavam à procura de comida. O filho não sabia que se lembrava tão bem da fome das gaivotas.
Chamou-me, repetiu o filho.
O pai ficou calado uns segundos.
Amanhã, disse lentamente.
Os olhos azuis do pai fugiram dos olhos azuis do filho para o azul do céu que o fim da tarde envelhecia. O filho olhou para a ria e depois para o sapal. Já que nunca nada mudava, também eles deveriam ter continuado iguais. Mas não.
No dia seguinte o filho acordou tarde com o cheiro a comida e o barulho na cozinha. De olhos fixos no tecto o filho tentou identificar as vozes das mulheres. Em vão. Eram-lhe totalmente desconhecidas.
Reconheceu o cheiro da carne no forno. Como antigamente, pensou. Depois o cheiro a café e a caramelo. O pudim de café. Como nos domingos de festa. Antes de o pai ter dito que preferia que ele não tivesse nascido.
Olhou para as paredes do quarto que tinham sido pintadas de cor diferente. Reparou na mobília que era nova. A cama era mais larga e o guarda-fatos tinha agora um espelho que o reflectia no desconforto de ali estar.
Na cozinha o barulho crescia misturado com passos que iam e vinham. Punham a mesa na sala grande. A mesa comprida com a toalha de linho branco. E o padre numa das cabeceiras:
Ninguém se esconde dos olhos de deus. Muito menos um pecador. Um justo talvez. Um pecador nunca.
O pai bateu à porta do quarto do filho com os nós dos dedos. A comida está pronta, disse.
Sentaram-se nos lugares habituais, como se da vez anterior, antes do grande silêncio, o pai não tivesse repetido ali os mesmos nomes que lá fora chamavam ao filho.
Estou velho, disse o pai. Não queria ir deste mundo sem comer mais uma vez contigo.
As mulheres foram pondo na mesa travessas cheias de comida.
O pai serviu-se e mandou o filho servir-se. A sala cheirava bem. A rosmaninho. Pai e filho comeram. E tornaram a servir-se. E comeram mais ainda. Comeram muito e com verdadeiro prazer. Sobre isso também não trocaram uma palavra.
Quando a refeição acabou levantaram-se da mesa. Caminharam devagar, de tão cheios que estavam. Lado a lado.
Na varanda onde se sentaram outra vez contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, amarelo-esbranquiçado, o pai disse:
Agora já podemos terminar o que começámos. Dois homens não se despedem sem terem comido uma boa refeição em paz.
E ali ficaram. O sol alaranjou-se outra vez e as gaivotas gritaram novamente por comida.


Dulce Maria Cardoso
Contos (colectânea), Leya, 2010