29/01/2011

A casa dos desejos



A nova Visitadora Paroquial tinha acabado de sair depois de uma visita de vinte minutos. Durante esse tempo, Mrs. Ashcroft tinha falado o inglês que usaria uma cozinheira idosa, experimentada e reformada, conhecedora da vida de Londres. Ainda mais pronta estava, portanto, para voltar suavemente ao velho e tranquilo falar do Sussex (os tês a passarem a dês à medida que a pessoa ia aquecendo) quando o autocarro trouxe Mrs. Fettley de trinta milhas de distância para uma visita naquele agradável sábado de Março. As duas eram amigas de infância, mas ultimamente o destino tinha-lhes criado longos intervalos entre os seus encontros.
Ainda tiveram de falar em muitas coisas, e de deslindar muitas pontas soltas desde a última vez, antes de Mrs. Fettley, com o seu saco de remendos se sentar no sofá por baixo da janela que dominava o jardim e o campo de futebol, mais abaixo, no vale.
— A maioria das pessoas saiu em Bush Tye para o jogo — explicou ela, — portanto não tive ninguém que me servisse de almofada nas últimas cinco milhas. E como aquilo balançava!
— Não te magoaste — disse a sua anfitriã. — A idade não te tornou mais frágil, Liz.
Mrs. Fettley riu entre dentes e arranjou dois remendos a condizer, a seu gosto.
— Não, senão já me tinha aleijado há vinte anos. Tu nunca te lembras de como eu era para me chamarem redonda, pois não?
Mrs. Ashcroft abanou a cabeça devagar — nunca tinha pressa — e continuou a coser um forro de linhagem num cesto de verga. Mrs. Fettley pôs mais alguns remendos à luz primaveril que entrava por entre os gerânios do parapeito, e ficaram caladas por um bocado.
— Que tal é essa vossa nova Visitadora? — perguntou Mrs. Fettley a apontar para a porta com um movimento da cabeça. Como era míope, Mrs. Fettley quase tinha ido de encontro à senhora quando entrou.
Mrs. Ashcroft deixou a grande agulha de enfardar sensatamente suspensa no ar antes de a espetar até ao fundo.
— Fora o facto de ainda não trazer grandes novidades, não sei, não tenho nada contra ela.
— A nossa, em Keyneslade — disse Mrs. Fettley, — tem um grande palavreado sobre a piedade, mas não tem respostas. Uma pessoa pode continuar com os seus pensamentos enquanto ela está a palrar.
— Esta não é tagarela. Quer ser como uma daquelas freiras High Church*.
— A nossa é casada, mas, segundo dizem, não ganhou muito com isso — Mrs. Fettley ergueu o queixo afiado. — Meu Deus! Como aquelas malditas carripanas fazem abanar os próprios alicerces da casa!
A casa de azulejos tremeu à passagem de dois charabãs de quarenta lugares especialmente fretados para o jogo de Bush Tye. Um autocarro da carreira regular para a capital do condado, espumava atrás deles, enquanto de uma das estalagens apinhadas saía um quarto carro para se juntar ao cortejo fazendo parar aquela corrente de trânsito de lazer.
— Tu continuas uma tagarela, como sempre, Liz — observou Mrs. Ashcroft.
— Só quando estou contigo. Nas outras ocasiões sou a Avó, vezes três. Aposto que essa cesta é para um dos teus netos, não é?
— É para o Arthur, o mais velho da minha Jane.
— Mas ele não está a trabalhar, pois não?
— Não. Isto é um cesto de piquenique.
— Tu safas-te bem. O meu Willie, esse anda sempre de volta de mim por dinheiro para aquelas antenas que eles põem nos jardins para ouvirem a música de Londres. E eu dou-lho, pobre de mim!
— E ele até se esquece de te dar o prometido beijo depois, não é? — O sorriso pesado de Mrs. Ashcroft pareceu voltar-se para dentro.
— É. Não há diferença nenhuma entre os rapazes de hoje e os de há quarenta anos. Levam tudo e não dão nada e nós temos de aguentar! Pobres palermas que nós somos. Três xelins de uma vez é o que o Willie me pede!
— Eles não dão valor nenhum ao dinheiro hoje em dia— disse Mrs. Ashcroft.
— E só a semana passada — continuou a outra, — a minha filha, essa encomendou um quarto de libra de sebo no talho e depois mandou-o lá outra vez para o cortarem. Disse que tinha mais que fazer do que cortar aquilo.
— Então, aposto que ele lhe levou dinheiro por isso.
— Aposto que sim. Ela disse-me que havia uma sessão de whist no Instituto nessa tarde e não estava para ter o trabalho de cortar aquilo.
— Oh, oh!
Mrs. Ashcroft deu os últimos retoques no forro do cesto. Ainda mal tinha acabado, quando o neto de dezasseis anos, acompanhado da namorada de momento, veio a correr pelo carreiro do jardim a perguntar aos berros se aquilo já estava pronto, pegou nele e foi-se embora sem mais. Mrs. Fettley observou-o de perto.
— Eles vão fazer um piquenique algures — explicou Mrs. Ashcroft.
— Ah — disse a outra, de olhos contraídos. — Aposto que este também não dá muita confiança a quem quer que se cruze com ele. Assim de repente, fez-me lembrar alguém, não sei quem.
— Eles têm de cuidar de si próprios, tal como nós fazíamos. — Mrs. Ashcroft começou a pôr as coisas para o chá.
— E não há dúvida que tu conseguias, Gracie — disse Mrs. Fettley.
— Em que é que estás a pensar agora?
— Não sei… mas veio-me à ideia, assim de repente, aquela mulher de Rye, não me lembro do nome, Barnsley, não era?
— Batten, Polly Batten, é nessa que estás a pensar.
— É isso, Polly Batten. Aquele dia em que ela se virou a ti com uma forquilha por lhe roubares o homem dela, naquela altura em que andávamos todas a ceifar o feno em Smalldene.
— Mas tu ouviste-me dizer-lhe que por mim podia muito bem ficar com ele? — A voz e o sorriso de Mrs. Ashcroft eram mais suaves que nunca.
— Ouvi, e nós estávamos todas a ver que ela te ia enfiar a forquilha nos seios quando tu lhe disseste isso.
— Nãoooo… ela nunca passaria dos limites, a Polly. Ela fazia muito barulho, mas não passava disso.
— A mim sempre me parece — disse Mrs. Fettley após uma pausa, — que um homem no meio de duas mulheres a brigarem é a coisa mais estúpida do mundo. É como um cão a ser chamado dos dois lados.
— Talvez. Mas o que é que te levou até esses tempos, Liz?
— Foi a maneira como aquele rapaz mexe a cabeça e os braços. Nunca tinha olhado bem para ele depois de crescido. A tua Jane nunca me pareceu, mas… aquele! Ora, é o Jim Batten e os seus truques ressuscitados outra vez! Hein?
— Talvez. Algumas teriam pensado assim, apesar de elas próprias serem tão enfadonhas.
— Oh! Ah, bem! Ora, ora, minha querida! E o Jim Batten já morreu faz agora…
— Vinte e sete anos — respondeu Mrs. Ashcroft laconicamente. — Não te chegas aqui à mesa, Liz?
Mrs. Fettley serviu-se de torradas, pão, chá forte, amargo como couro, peras de conserva e um bocado de rabo de porco cozido frio para ajudar a empurrar os bolos. Gabou tudo devidamente.
— Sim. Sempre gostei de satisfazer a minha barriguinha — disse Mrs. Ashcroft pensativa. — Só vivemos uma vez.
— E às vezes não te sentes muito cheia? — perguntou a sua convidada.
— A enfermeira diz que se calhar eu estou mais sujeita a morrer de indigestão do que da minha perna —. Pois Mrs. Ashcroft há muito que tinha uma perna ulcerada que requeria tratamentos regulares da enfermeira da aldeia, que se gabava (ou eram os outros que o diziam por ela) de já ter feito cento e três tratamentos durante o seu serviço.
— E logo tu, que eras tão habilidosa! Parece que te caiu tudo em cima antes do tempo. Eu tenho acompanhado a tua vida — Mrs. Fettley falou com verdadeiro afecto.
— Tu ainda hás-de ter a tua recompensa. Eu ainda tenho coração — respondeu Mrs. Ashcroft.
— Tu sempre tiveste um grande coração que vale por três. É uma boa coisa para recordar ao fim do dia.
— Acho que tu também deves ter as tuas recordações — foi a resposta de Mrs. Ashcroft.
— Tu sabes bem que sim. Mas eu não penso muito nesses assuntos a não ser quando estou contigo, Gra. São precisos dois paus para fazer uma fogueira.
Mrs. Fettley ficou a olhar fixamente, de queixo meio caído, para o calendário da mercearia pendurado na parede. A casa abanou outra vez com o rugido do trânsito, e o campo de futebol apinhado, abaixo do jardim, rugia quase no mesmo tom, pois a aldeia estava toda pronta para o seu lazer de sábado.


* * * * *


Mrs. Fettley falou muito meticulosamente durante algum tempo sem interrupção, antes de limpar os olhos.

— E — concluiu ela, — leram-me a participação da sua morte no jornal o mês passado. Claro que aquilo não me devia dizer respeito, já não o via há tanto tempo. Claro que eu não podia dizer nem mostrar nada. Nem tenho o direito de ir a Eastbourne visitar a campa dele. Tenho andado a pensar em ir até lá de autocarro um dia destes, mas iam-me fazer perguntas sobre dores passadas. Portanto, nem isso tenho para me confortar.
— Mas também tiveste as tuas coisas boas?
— Claro que sim, meu Deus! Aqueles quatro anos em que ele andou a trabalhar no caminho de ferro, perto de nós. E os outros condutores também lhe fizeram um rico funeral.
— Então, não tens de que te queixar. Outra chávena de chá?

* * * * *

A luz e o ar tinham mudado um pouco com o declinar do sol e as duas idosas fecharam a porta da cozinha por causa do frio. Um par de gaios chilreava e brincava por entre as macieiras despidas do jardim. Agora era Mrs. Ashcroft quem falava, cotovelos sobre a mesa do chá e a perna doente pousada sobre um banquinho.
— Nem pensar! Mas o que é que o teu marido dizia sobre isso? — perguntou Mrs. Fettley quando cessou o recital em tom grave.
— Ele disse que, por ele, eu podia ir para onde quisesse. Mas vendo que ele estava de cama, eu disse-lhe que cuidava dele. Ele sabia que não me aproveitaria do estado em que ele estava. Durou oito ou nove semanas. Depois teve uma espécie de ataque e ficou imóvel como uma rocha durante dias. Depois saltou da cama e disse, “Reza para que nenhum homem te trate como tu trataste de um.” “E tu?” disse eu, pois tu sabes, Liz, o vadio que ele era. “Isso dá para os dois lados,” diz ele, “mas eu é que estou a morrer e estou a ver o que te vai acontecer.” Morreu num domingo e foi enterrado na quinta-feira… E contudo eu tinha-o em grande conta… ou acho que tinha.
— Tu nunca me tinhas contado isso— aventurou-se Mrs Fettley a dizer…
— Estou a pagar-te pelo que tu me acabaste de contar. Depois de ele morrer, escrevi àquela Mrs. Marshall em Londres a dizer-lhe que estava livre para sempre, o que me proporcionou o primeiro emprego como cozinheira, meu Deus, há quanto tempo isso já foi! Ela ficou muito satisfeita, pois eles os dois estavam a ficar velhos e eu conhecia os seus métodos. Tu lembras-te, Liz, que eu durante anos ia servi-los de vez em quando, quando nós precisávamos de dinheiro, ou ocasionalmente quando o meu marido andava por fora.
— Ele apanhou mesmo aqueles seis meses em Chichester, não foi? — murmurou Mrs. Fettley. — Nunca chegámos a saber bem em que é que as coisas ficaram.
— E teria apanhado mais, mas o outro não morreu.
— Tu não tiveste nada a ver com aquilo, pois não, Gra?
— Não! Dessa vez foi o marido daquela mulher. E assim, com o meu homem morto, voltei para aquela Marshall como cozinheira, para pôr os pés debaixo da mesa de um cavalheiro outra vez e ser tratada por Mrs. Ashcroft. Isto foi no ano em que tu te mudaste para Portsmouth.
— Cosham — corrigiu Mrs. Fettley. — Havia lá muita construção. O meu homem foi primeiro e arranjou quarto, e depois fui eu.
— Bem, então eu estive um ano… mais ou menos completo em Londres, quatro refeições por dia e a viver bem. Depois, lá pelo Outono, eles foram os dois viajar para França, mas mantiveram-me lá, pois não podiam passar sem mim. Pus a casa em ordem para o encarregado e depois escapei-me aqui para casa da minha irmã Bessie, de salário no bolso, e toda a gente a querer os meus serviços.
— Isso deve ter sido quando eu estava em Cosham — disse Mrs Fettley.
— Tu sabes, Liz, que nesse tempo as pessoas punham o orgulho de lado e queriam era um trabalho qualquer por mais modesto e mal pago que fosse. Um homem ou uma mulher pegava em qualquer emprego que lhe desse nem que fosse um xelim, não era? Eu andava pálida e abatida depois daquela estadia em Londres e pensei que o ar puro me ia fazer bem. Por isso aceitei aquele trabalho em Smalldene, a apanhar batata, a pelar galinhas e coisas assim. Na cozinha em Londres haviam de se fartar de rir de mim a ver-me de botas de homem e saias muito curtas.
— E isso fez-te bem?
— Não foi por mim que eu fui. Tu sabes tão bem como eu que só ficamos a saber o que nos acontece de ter acontecido. O espírito não nos avisa antecipadamente do caminho que tomamos antes de chegarmos ao fim. Só temos uma visão passada daquilo que fazemos.
— Quem era?
— ‘Arry Mockler — a cara de Mrs. Ashcroft contraiu-se com a dor na perna doente.
Mrs. Fettley arquejou.
— ‘Arry? O filho de Bert Mockler! E eu que nunca imaginei!
Mrs. Ashcroft concordou com um gesto da cabeça.
— E eu disse comigo (e acreditei nisso) que queria aquele trabalho no campo.
— E o que é que ganhaste com isso?
— O costume. No princípio, tudo, depois, pior do que nada. Recebi montes de sinais e avisos, mas não liguei. Pois, um dia estávamos a queimar o lixo, precisamente quando ficámos a saber o que se passava connosco. Ainda era cedo no ano para a queima e eu disse-o. “Não!” diz ele. “Quanto mais depressa essa porcaria estiver acabada, melhor,” disse ele. A cara dele estava dura como uma rocha quando falou. Descobri então que tinha encontrado o meu dono e senhor, o que nunca me acontecera antes. Era sempre eu que os dominava.
— Sim! Sim! Ou eles são nossos ou somos nós deles — suspirou a outra. — Eu gosto mais da maneira certa.
— Eu não. Mas o ‘Arry sim… Depois chegou a altura de eu voltar para Londres. Eu não podia ir. Não podia ir mesmo! Por isso, peguei numa caldeira de água a ferver e entornei um bom bocado sobre a mão e o braço esquerdo. Isso obrigou-me a ficar onde estava mais quinze dias.
— E valeu a pena? — perguntou Mrs. Fettley a olhar para a cicatriz prateada que ela tinha no antebraço enrugado.
Mrs. Ashcroft assentiu com um gesto da cabeça.
— E depois disso, arranjámos as coisas entre nós para ele poder ir para Londres e arranjar um emprego num estábulo não muito longe de mim. Conseguiu-o. Fui eu que tratei disso. Não dissemos nada a ninguém. A mãe dele nem nunca desconfiou como aquilo foi. Ele pisgou-se para Londres e lá ficámos os dois naquele Inverno, nem chegava a meia milha um do outro.
— Mas foste tu que lhe pagaste a viagem e tudo — Mrs. Fettley falou com convicção.
Mrs. Ashcroft fez outra vez que sim com a cabeça.
— O que é que eu não fazia por ele?! Ele era o meu patrão, e… Oh, Deus me ajude… o que nós nos rimos com isto, os dois a passear depois do anoitecer naquelas ruas pavimentadas, e os meus calos a doerem-me dentro das botas! Nunca me tinha sentido assim. Nem ele! Nem ele!
Mrs. Fettley riu com simpatia.
— E quando é que vocês acabaram? — perguntou ela.
— Quando ele me pagou tudo até ao último tostão. Nessa altura fiquei a saber, mas não queria sofrer por saber. “Tu foste muito boa para mim,” diz ele. “Boa!” disse eu. “Aqui entre nós dois?” Mas ele continuou a dizer como eu tinha sido boa e que nunca na vida esqueceria isso. Durante três noites nem quis pensar nisto, porque nem queria acreditar. Depois ele contou-me que não estava satisfeito com o emprego no estábulo, os homens lá a enganá-lo, e todas aquelas mentiras que um homem arranja quando nos vai abandonar. Eu ouvi-o sem o contestar nem o interromper. Por fim tirei um pequeno broche que ele me tinha dado e disse, “Chega. Eu não te vou pedir nada.” E voltei-lhe as costas e fui-me embora com o meu sofrimento. Ele não piorou as coisas. Não apareceu mais nem escreveu depois disso. Pisgou-se de lá de volta para a mãe outra vez.
— E quantas vezes é que o procuraste, para ele voltar? — perguntou Mrs. Fettley impiedosamente.
“Mais de uma vez… Mais de uma vez! A andar nas ruas onde nós costumávamos andar, pensava que as próprias pedras do passeio me fugiam debaixo dos pés.
— Sim — disse Mrs. Fettley. — Eu não sei, mas isso não dói tanto como outras coisas. E foi isso, tudo o que tu arranjaste?
— Não, não foi. E essa é a parte curiosa, se acreditares nisto, Liz.
— Acredito. Aposto que agora serias muito menos capaz de mentir do que em toda a tua vida, Gra.
— Isso é verdade… E eu sofri como não desejo ao meu pior inimigo. Meu Deus! Naquela Primavera passei um mau bocado! Uma parte eram dores de cabeça que eu nunca tinha tido antes. Imagina, eu com uma dor de cabeça! Mas acabei por lhes ficar grata. Não me deixavam pensar…
— É como um dente — comentou Mrs Fettley. — Tem de provocar raiva e devastar tudo até nos torturar e depois ficar calmo; e depois… depois não fica nada.
— No meu caso, fiquei com bastante até ao fim dos meus dias. Aquilo aconteceu com a miúda da nossa mulher a dias, Sophy Ellis era como ela se chamava — toda ela só olhos e ossos e fome. Eu costumava dar-lhe comida. Noutras alturas não lhe prestava especial atenção, e ainda menos a via, claro, quando o problema com o ‘Arry me caiu em cima. Mas (tu sabes como as adolescentes às vezes se sentem no princípio) acabou por ficar louca por mim, sempre a tocar-me e a aninhar-se a mim; e eu não tinha coragem de a afastar… Uma tarde, foi no princípio da Primavera, a mãe dela tinha-a mandado arranjar toda a comida que pudesse lá em casa. Eu estava sentada à lareira com o avental sobre a cabeça, meia louca com a dor de cabeça quando ela entrou. Acho que fui meio seca com ela. “Meu Deus!” diz ela. “É só isso? Eu vou-lhe tirar isso num instante!” Eu disse-lhe para não me tocar nem com um dedo, porque pensei que ela queria fazer-me festas na testa; e… eu não quero que me façam isso. “Eu não lhe toco,” diz ela, e sai outra vez. Ainda não tinha saído há dez minutos e já a minha velha dor de cabeça desaparecera como se a tivessem corrido a pontapé. E assim, pus-me a trabalhar. Pouco depois Sophy volta e esgueira-se para a minha cadeira caladinha que nem um rato. Tinha os olhos encovados e a cara toda enfiada. Perguntei-lhe o que acontecera. “Nada,” diz ela. “Só que agora fui eu que fiquei com ela.” “Ficaste com o quê?” perguntei eu. “A sua dor,” diz ela, toda rouca e misteriosa. “Fiquei eu com ela.” “Que disparate,” digo eu, “ela foi-se embora sozinha quando tu saíste. Acalma-te que eu vou fazer-te uma chávena de chá.” “Isso não faz nada,” diz ela, “enquanto o nosso tempo não chegar ao fim. Quanto tempo é que duram as suas dores?” “Não digas disparates,” digo eu, “senão mando chamar o médico.” Pareceu-me que ela estava a incubar o sarampo. “Oh, Mrs. Ashcroft,” diz ela estendendo os bracinhos magros. “Eu gosto mesmo muito de si.” Não havia nada a fazer. Pu-la no colo e acarinhei-a.”Ela já se foi mesmo embora?” diz ela. “Já,” digo eu, “e se foste tu que ma tiraste, fico-te muito agradecida.” “Fui eu mesmo,” diz ela encostando a cara à minha. “Só eu é que sei como se faz.” E depois disse que tinha mudado as minhas dores numa Casa dos Desejos.
— O quê? — disse Mrs Fettley incisivamente.
— Uma Casa dos Desejos. Não! Eu também nunca tinha ouvido falar em tal coisa. A princípio não consegui perceber, mas depois de juntar as peças, concluí que uma Casa dos Desejos tinha que ser uma casa que tivesse estado por alugar e vazia tempo suficiente para que Uma Coisa viesse morar lá. Ela disse que uma miúda com quem ela brincara no estábulo onde ‘Arry trabalhava lhe tinha dito isso. Disse que a menina era de uma caravana que se fixara em Londres para o Inverno. Cigana, penso eu.
— Oh! O que os ciganos não sabem! Mas eu nunca ouvi falar em Casa dos Desejos, e eu sei… alguma coisa — disse Mrs. Fettley.
— Sophy disse que havia uma Casa dos Desejos em Wadloes Road, apenas a algumas ruas daqui, no caminho para a nossa mercearia. A única coisa que tínhamos que fazer era tocar à campainha e formular o nosso desejo pela ranhura da caixa do correio. Perguntei-lhe se as fadas lho concediam. “A senhora não sabe,” disse ela, “que não há fadas numa Casa dos Desejos? Só lá há um Espírito.”
— Oh, meu Deus todo poderoso! Onde é que ela foi descobrir essa palavra? — exclamou Mrs. Fettley. — Pois um Espírito é um espectro dos mortos ou, pior ainda, dos vivos.
— A rapariga da caravana é que lhe disse, disse ela. Bem, Liz, o ouvi-la perturbou-me, e como estava no meu colo ela deve ter sentido isso. “Foi muito amável da tua parte,” digo eu, abraçando-a com força, “desejares que as minhas dores se fossem embora. Mas por que é que não pediste uma coisa boa para ti mesma?” “Não se pode fazer isso,” diz ela. “Tudo o que se consegue numa Casa dos Desejos é a permissão para acabar com o mal de outra pessoa. Eu tirava as dores da mamã, quando ela era boa para mim; mas esta foi a primeira vez que fui capaz de fazer qualquer coisa por si. Oh, Mrs. Ashcroft, eu gosto mesmo muito de si.” E continua assim sempre com isto, Liz, digo-te que ouvi-la quase me punha os cabelos em pé. Perguntei-lhe como era um Espírito. “Não sei,” diz ela, “mas depois de tocarmos à campainha ouvimo-lo a vir da cave a correr escada acima até à porta de entrada. Depois dizemos o nosso desejo,” diz ela, “e vamos embora.” “Então, o Espírito não nos abre a porta?” perguntei eu. “Oh, não!” diz ela. “Só ouvimos como que as suas risadinhas atrás da porta. Então dizemos que vamos tirar o problema de quem quer que escolhamos para amar, e assim conseguimo-lo,” diz ela. Não perguntei mais nada; ela estava muito quente e febril. Animei-a até à hora de acender o gás, e um bocado depois disso, as dores dela (as minhas, acho eu) desapareceram e ela foi para o chão brincar com o gato.
— Bem, nunca ouvi semelhante coisa! — disse Mrs. Fettley. — Tu… tu afinal fizeste como ela disse?
— Ela pediu-me, mas eu não ia fazer tal combinação com uma criança.
— Então, o que é que tu fizeste?
— Quando as minhas dores vinham ficava sentada no meu quarto em vez de ir para a cozinha. Mas a ideia ficou-me na cabeça.
— Claro. Ela alguma vez te disse mais alguma coisa?
— Não. Além daquilo que a menina cigana lhe tinha dito, ela não sabia nada, a não ser que o feitiço dava resultado. E a seguir, depois disso, foi em Maio, eu passei o Verão em Londres. Durante semanas, esteve muito quente e houve muito vento, e as ruas tresandavam a excremento de cavalo seco, que o vento soprava de um lado para o outro, e que já chegava ao nível dos passeios. Hoje isso já não acontece. Tive as minhas férias precisamente antes da apanha do lúpulo e vim para aqui ficar com a Bessie outra vez. Ela reparou que eu tinha emagrecido e que estava com olheiras.
— Viste o 'Arry?
Mrs. Ashcroft fez que sim com a cabeça.
— No quarto dia… não, no quinto. Foi numa quarta-feira. Eu sabia que ele estava a trabalhar em Smalldene outra vez. Enchi-me de coragem e perguntei à mãe na rua. Ela não teve oportunidade de dizer muita coisa, pois Bessie (tu sabes como é a língua dela) não parava de tagarelar. Mas nessa quarta-feira eu ia a passar com um dos filhos da Bessie agarrado às minhas saias na parte de trás do Chater’s Tot. Pouco depois, senti que ele vinha atrás de mim, e vi pelos seus passos que ele estava diferente. Abrandei e ouvi-o a abrandar. Depois meti-me um pouco com a criança para o obrigar a passar-me à frente. E ele passou mesmo. Apenas disse “Boa tarde”, e continuou tentando recompor-se.
— Estava bêbado, não era?
— Nada disso! Contraído e mirrado; as roupas a penderem-lhe como sacos e a parte de trás do pescoço mais branca do que giz. O que me apetecia era abrir os braços e chamar por ele. Mas engoli até chegar outra vez a casa e ter posto as crianças na cama. Então, disse à Bessie, depois do jantar, “Que diabo aconteceu ao ‘Arry Mockler?” A Bessie disse-me que ele tinha estado dois meses internado no hospital por ter cortado um pé com uma pá quando limpava o velho lago em Smalldene. A terra tinha veneno que lhe apanhou a perna e o contaminou todo. Ele já não ia ao emprego — cocheiro em Smalldene— há mais de quinze dias. Ela disse-me que o médico disse que ele provavelmente se iria embora com os gelos de Novembro. E a mãe dele tinha-lhe dito que ele não comia nem dormia como devia e ficava todo encharcado da transpiração, por muito frio que estivesse. E fartava-se de cuspir de manhã. “Meu Deus,” digo eu. “Mas talvez a apanha do lúpulo o ponha bom outra vez,” e lambi a ponta da linha levei o buraco da agulha até ela e enfiei a linha à luz do candeeiro, direitinha como um fuso. E nessa noite (a minha cama estava na lavandaria) fartei-me de chorar. E tu bem sabes, Liz, pois sempre estiveste comigo nos meus partos, é preciso muito para eu chorar.”
— É, mas o parto é só dor — disse Mrs. Fettley.
— Acordei com os galos e passei os olhos por chá frio para apagar os vestígios. Já estava quase a anoitecer, eu estava a pôr flores na campa do meu marido, para a embelezar, dei outra vez com o ‘Arry naquele sítio onde agora está o Memorial da Guerra. Ele regressava dos seus cavalos e não me viu. Olhei para ele e “‘Arry,” digo eu entre dentes, “vamos outra vez para Londres.” “Não, não vou fazer isso,” diz ele, “pois eu não te posso dar nada.” “Eu não te peço nada,” digo eu. “Por amor de Deus, eu não te peço nada. É só ires consultar um médico em Londres. Ele ergueu para mim os seus pesados olhos: “Isso já lá vai, Gra,” diz ele. “Só me restam alguns meses.” “‘Arry!” digo eu, “o meu homem!” digo eu. Não consegui dizer mais nada. Ficou-me tudo atravessado na garganta. “Muito obrigado, Gra,” diz ele (mas nunca diz «a minha mulher», e continuou rua acima para casa da mãe — Oh, maldita! — ela estava à espera dele e fechou a porta depois de ele entrar.
Mrs. Fettley estendeu um braço por cima da mesa e ia tocar-lhe com os dedos na manga, no pulso, mas a outra afastou a mão.
— Depois fui até ao cemitério com as flores e lembrei-me daquele aviso do meu marido naquela noite em que ele falou. Era muito sabedor e tudo aconteceu como ele disse. Mas quando eu estava a colocar o jarro de flores sobre a campa, veio-me à ideia que havia uma coisa que eu podia fazer pelo ‘Arry. Com médico ou sem médico, pensei fazer uma tentativa. E assim fiz. Na manhã seguinte veio uma conta do nosso vendedor de legumes de Londres. Mrs. Marshall tinha-me deixado um fundo de maneio para estas coisas, claro, mas eu disse à Bess que devia ir abrir a casa. Por isso fui até lá no comboio da tarde.
— E… mas eu sei que não…não tiveste medo?
— De quê? Não havia nada que me impedisse a não ser a minha própria vergonha e a crueldade de Deus. Eu jamais conseguiria o ‘Arry… como é que eu o conseguiria? Eu sabia que aquilo tinha de continuar a arder até me consumir toda.
— Ai! — disse Mrs. Fettley procurando-lhe a mão outra vez, e desta vez Mrs. Ashcroft deixou.
— Mas para mim foi um conforto saber que podia tentar aquilo por ele. Assim, fui pagar a conta da frutaria e pus o recibo na carteira e depois fui até a casa de Mrs. Ellis; a nossa mulher a dias tinha as chaves da casa e abriu-a. Primeiro, fiz a minha cama para me deitar nela (Por Deus! A minha cama para me deitar!). Depois fiz um chá e fui sentar-me na cozinha a pensar, quase até ao anoitecer. Foi um terrível fim de tarde, aquele. Depois vesti-me e saí com o recibo na carteira, a fingir que estava como que à procura de um endereço. Era ali no nº 14 de Wadloes Road — uma pequena casa de cave, numa fila de vinte, trinta iguais, e pequenas faixas de jardim murado na frente — as portas da frente já sem tinta, e já há muito tempo que não levavam obras. Não havia quase ninguém nas ruas, a não ser os gatos. Estava quente, também! Ganhei coragem e entrei no portão, subi os degraus e toquei à campainha. A campainha tocou muito alto, como acontece nas casas vazias. Quando se calou, ouvi como que um ruído no chão da cozinha. Depois, ouvi passos nas escadas da cozinha como os de uma mulher de chinelos. Vieram até ao cimo das escadas, do outro lado do hall — ouvi as tábuas a ranger debaixo deles — e pararam junto da porta. Inclinei-me para a ranhura da caixa do correio e digo “Deixa-me tirar todas as coisas más que estão destinadas ao meu homem, ‘Arry Mockler, pelo amor que lhe tenho.” Então fosse lá o que fosse do outro lado da porta expirou fundo, como se tivesse estado sem respirar para ouvir melhor.”
— Ninguém te disse nada? — perguntou Mrs. Fettley.
— Nada. Apenas expirou fundo, uma espécie de A-ah. Depois os passos voltaram a descer as escadas da cozinha, arrastados, e ouvi aquele ruído outra vez.
— E tu ficaste ali na porta esse tempo todo, Gra?
Mrs. Ashcroft fez que sim com a cabeça.
— Depois fui-me embora e um homem que ia a passar disse-me: “Não sabia que essa casa está vazia?” “Não,” digo eu. “Devem-me ter dado o número errado.” E voltei para a nossa casa e deitei-me, pois estava bastante cansada. Estava calor demais para dormir mais do que só aos bocadinhos, por isso levantei-me e andei por ali de um lado para o outro e deitando-me um bocado de vez em quando até ao amanhecer. Depois fui para a cozinha fazer um chá e bati com a perna, um pouco acima do tornozelo, num espeto de grelhar meu que Mrs. Ellis tinha tirado do canto quando da última limpeza que fez. E assim, depois disto, fiquei à espera que os Marshall regressassem das férias.
— Lá sozinha? Pensei que tinhas ficado farta de casas vazias — disse Mrs. Fettley horrorizada.
— Oh, pouco depois de eu voltar, Mrs. Ellis e Sophy já lá andavam a correr dentro e fora e nós todas limpámos a casa outra vez de cima a baixo. Numa casa há sempre mais qualquer coisa para fazer. E assim foi aquele meu Outono e Inverno em Londres.
— Então nada aconteceu, não te aconteceu nada por causa do que tinhas feito?
Mrs. Ashcroft sorriu.
— Não, nessa altura não. Em Novembro mandei dez xelins à Bessie.
— Tu sempre foste generosa — interrompeu-a Mrs. Fettley.
— E eu ganhei aquilo por que paguei, continuando com a história. Ela disse que a apanha do lúpulo lhe tinha feito muito bem a ele. Fez aquilo seis semanas e agora já estava de volta aos estábulos em Smalldene. Não me interessa como aquilo aconteceu… aconteceu e isso é que interessa. Mas não sei se os meus dez xelins me sossegaram muito. Com ‘Arry morto, ele teria sido meu até ao Dia do Juízo. ‘Arry vivo, não deixaria de engatar uma mulher qualquer num instante. Fiquei cheia de raiva com isso. Com a Primavera eu já tinha mais qualquer coisa com que me enraivecer. Apareceu-me uma maldita bolha húmida na canela, mesmo acima do topo da bota que não havia maneira de se curar. Eu até ficava enjoada de olhar para ela, pois eu por natureza tenho uma pele limpa. Se me cortassem toda com uma pá eu curava-me num instante. Então Mrs. Marshall mandou-me ao médico dela. Ele disse que eu devia lá ter ido logo que aquilo apareceu em vez de andar a calçar meias tingidas por cima da bolha durante meses. Ele disse-me que eu tinha andado a trabalhar demais em pé, pois a bolha estava a ficar muito perto e por cima de uma grande veia inchada, por detrás do tornozelo. “Abrande, abrande,” diz ele. “Ponha a sua perna mais alto e descanse,” diz ele, “e isso vai melhorar. Não deixe que isso feche depressa demais. A senhora tem uma bela perna, Mrs. Ashcroft,” diz ele. E pôs-lhe um penso húmido.
— Fez bem — disse Mrs. Fettley com firmeza. — Os pensos húmidos para humedecer as feridas. Eles embebem os líquidos como uma torcida embebe o azeite.”
— É verdade. E Mrs. Marshall andava sempre a dizer-me para pôr mais e que isso quase o curaria. E depois, passado algum tempo, despacharam-me para casa da Bessie para acabar a cura, pois eu não sou do tipo de ficar sentada quando tenho de me mexer. Tu nessa altura estavas outra vez na aldeia, Liz.
— Estava. Estava… mas nunca vim a saber!
— Eu também não queria que tu soubesses. — Mrs. Ashcroft sorriu. — Vi o ‘Arry uma ou duas vezes na rua com bom aspecto e recuperado. Depois, uma vez não o vi e a mãe disse-me que um dos seus cavalos tinha escoicinhado e o atingiu na anca. E ele estava de cama cheio de dores. E a Bessie, essa diz à mãe que era uma pena que o ‘Arry não tivesse uma mulher para tratar dele em vez dela. E a velha senhora ficou furiosa! Disse-nos que o ‘Arry nunca tinha procurado mulher desde que nascera e que ela, enquanto cá andasse, havia de o ajudar até os braços lhe caírem. Fiquei assim a saber que ela iria ficar de vigia sem piedade.
Mrs. Fettley abanou-se a rir.
— Nesse dia — continuou Mrs. Ashcroft, — eu tinha estado quase todo o dia de pé a ver o médico entrar e sair, pois eles pensavam que também podiam ser as costelas. Isso fez com que a minha bolha despejasse. Mas afinal acabaram por ver que não era nada das costelas, e ‘Arry teve uma boa noite. Quando eu soube daquilo na noite seguinte, disse comigo “Eu ainda não vou tirar conclusões. Vou manter a minha perna para baixo durante uma semana e depois vejo o resultado.” Nesse dia não me doeu, para falar verdade, parecia mais que me tirava as forças, e ‘Arry teve outra boa noite. Isto fez com que eu continuasse, mas não me atrevi a tirar conclusões antes do fim de semana, e nessa altura ‘Arry apareceu quase que como ele era, não lhe doía nada. Eu quase caí de joelhos na lavandaria quando a Bessie apareceu. “Agora apanhei-te, meu homem,” digo eu. “Vais extrair de mim o teu bem sem saberes até ao fim da minha vida. Oh, meu Deus, deixa-me viver muito tempo por amor do ‘Arry!” digo eu. E não sei se isso não me acalmou os meus sofrimentos.
— Para sempre?— perguntou Mrs. Fettley.
— Eles voltam, muitas vezes, mas deixá-los, eu sabia que estava a fazer aquilo por ele. Eu sabia-o. Comecei como que a tentar regular as minhas dores até aprender a tê-las sob o meu domínio. E isso também foi engraçado. Havia alturas, Liz, em que a minha ferida como que encolhia toda e ficava seca. A princípio tentava apanhá-la outra vez com medo de deixar o ‘Arry sozinho tempo demais, não fosse ele apanhar qualquer coisa. Mas depois acabei por ver que aquilo era sinal de que ele estaria bem por algum tempo e assim eu poupava-me.
— Por quanto tempo? — perguntou Mrs. Fettley interessada.
— Andei a maior parte do ano uma ou duas vezes sem nada que se visse a não ser uma como que pequena humidade no centro. Tudo encolheu e secou. Depois voltou a inflamar, como que a avisar, e eu tinha dores. Quando já não podia — e eu tinha de continuar o meu trabalho em Londres, punha a perna mais alta sobre uma cadeira até as dores acalmarem. Não com muita pressa. Eu sabia, eu sentia, nessas alturas, que o ‘Arry precisava de mim. Então mandava mais cinco xelins à Bessie, ou qualquer coisa para os filhos, para ver se a minha falta o poderia magoar. E foi assim! Ano sim, ano não, eu fazia assim, Liz, e foi de mim que ele recebeu o seu bem estar sem saber, durante anos e anos.
— Mas o que é que tu ganhaste com isso? — disse Mrs. Fettley quase a gemer. — Tu via-lo com regularidade?
— Às vezes… quando eu estava aqui de férias. E mais, agora que estou aqui para sempre. Mas ele nunca olhou para mim, nem para qualquer mulher, a não ser a mãe. Como eu observava e escutava! E ela também.
— Ano após ano!— repetiu Mrs. Fettley. — E onde é que ele está a trabalhar agora?
— Oh, ele já deixou os cavalos há bastante tempo. Trabalha numa daquelas firmas de tractores, às vezes a lavrar, outras vezes a conduzir camionetas, até ao País de Gales, ouvi eu dizer. Nos intervalos volta para casa da mãe, mas eu agora nem lhe ponho a vista em cima durante semanas seguidas. Não faz mal. O trabalho não o deixa ficar muito tempo em parte nenhuma.
— Isto é só falar por falar, mas… suponhamos que o ‘Arry casava realmente? — disse Mrs. Fettley.
Mrs. Ashcroft inspirou fundo por entre os dentes ainda naturais e direitinhos.
— Isso foi coisa que nunca me foi pedida — respondeu ela. — Acho que as minhas dores foram um contra nesse caso. Não achas, Liz?
— Deve ter sido isso, minha amiga. Deve ter sido isso.
— Ás vezes dói-me mesmo. Tu vais ver quando a enfermeira vier. Ela pensa que eu não sei que aquilo degenerou.
Mrs. Fettley entendeu. A natureza humana raramente chega à palavra «cancro».
— Tens a certeza absoluta, Gra? — perguntou ela.
— Fiquei com a certeza quando o velho Mr. Marshall me levou até ao escritório e me falou muito sobre o meu serviço fiel. Eu servi-os durante uns tempos, mas não o suficiente para uma pensão. Mas eles dão-me uma pensão semanal para toda a vida. Eu sabia o que isso significava, foi há três anos.
— Isso não prova nada, Gra.
— Dar quinze xelins por semana a uma mulher que normalmente viveria vinte anos? Prova, prova!
— Estás enganada! Estás enganada! — insistiu Mrs. Fettley.
— Liz, não há engano nenhum quando as bordas estão todas levantadas, como um colar. Tu vais ver. E eu também falei com a Dora Wickwood. Ela teve um debaixo do braço.
Mrs. Fettley ficou um bocado a pensar e baixou a cabeça a concluir.
— E quanto tempo é que achas que isso te vai ainda deixar viver, a contar de agora, minha amiga?
— Ele vem devagar e vai devagar. Mas se eu não te vir antes da próxima apanha do lúpulo, isto hoje vai ser o adeus, Liz.
— Não sei se me conseguirei arranjar nessa altura, a não ser que eu tenha um cãozinho que me guie. Pois os filhos não vão ligar nada, e… oh, Gra! Eu estou a ficar cega… cega!
— Oh, então foi por isso que tu não fizeste mais do que mexer nos teus remendos durante este tempo todo! Eu estava a perguntar-me… Mas as dores contam mesmo, não achas, Liz? As dores contam para poder manter o ‘Arry onde eu o quero. Isto não pode ser tempo perdido.
— Tenho a certeza disso, a certezinha, minha amiga. Tu vais ter a tua recompensa.
— Eu não quero mais nada, se as dores contarem para tal.
— E hão-de contar… hão-de, Gra.
Bateram à porta.
— É a enfermeira. Vem antes da hora — disse Mrs. Ashcroft. — Abre-lhe a porta.
A jovem senhora entrou com vivacidade, com os frascos todos a tilintar dentro do saco.
— Boa tarde, Mrs. Ashcroft — começou ela. — Vim um bocado mais cedo do que de costume por causa do baile do Instituto hoje à noite. A senhora não se importa, pois não?
— Oh, não. O tempo dos bailes para mim já passou. — Mrs. Ashcroft tomou logo a sua postura de doméstica discreta.
— Aqui a minha velha amiga, Mrs. Fettley, esteve a conversar comigo durante algum tempo.
— Espero que não a tenha estado a cansar — disse a enfermeira com alguma frieza.
— Pelo contrário. Foi um prazer. Só… só… mesmo ao fim é que eu me senti um pouco cansada.
— Sim, sim. — A enfermeira já estava de joelhos com as ligaduras à mão. — Quando as senhoras de idade se juntam conversam um tanto demais, já reparei nisso.
— Talvez — disse Mrs. Fettley, levantando-se. — Então, agora vou-me pôr a andar.
— Mas vê isto primeiro — disse Mrs. Ashcroft debilmente. — Eu gostava que visses isto.
Mrs. Fettley olhou e sentiu um arrepio. Depois inclinou-se e beijou Mrs. Ashcroft na testa amarela de cera e outra vez nos olhos cinzentos desmaiados.
— Contam mesmo, não contam — as dores? — Os lábios que ainda conservavam vestígios do seu formato original pouco mais do que respiraram as palavras.
Mrs. Fettley beijou-os e dirigiu-se para a porta.

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Notas: * High Church refere-se a um movimento ou tendência dentro da Igreja de Inglaterra que defende aspectos do Catolicismo Romano na liturgia, no cerimonial e nos dogmas. Os seus adeptos (geralmente conhecidos por Anglo-Católicos) mantêm um certo número de conventos. (in The Wish House – Notes on the text, de George Engle.) (N.T.)

Joseph Rudyard Kipling