21/12/2010

O desejo do pastor

Era uma vez um pastor que, para além de algumas ovelhas, nada mais possuía, a não ser uma flauta que ele mesmo fizera com um ramo de sabugueiro.
Não passava um dia que ele não a tocasse, às vezes alto, outras vezes baixinho, às vezes alegre, outras, triste, conforme se sentia no momento.
Ao tocar, sentia o desejo da perfeita beleza. E a esperança de vir a encontrá-la inspirava-lhe novas melodias.
Certa vez, quando voltara a tocar na sua flauta, descobriu um pássaro. Estava pousado no sabugueiro, a escutá-lo.
As suas penas brilhavam com todas as cores do arco-íris.
“Oh!”, pensou o pastor fascinado. “Aqui está finalmente a beleza que eu procuro.”
Aproximou-se devagarinho do sabugueiro para apanhar o pássaro. Mas quando ia agarrá-lo com as mãos, o pássaro levantou voo e foi sentar-se no ramo de um pinheiro.
O desejo de o apanhar era tão grande, que o pastor seguiu-o.
Mas, quando chegou junto do pinheiro, o pássaro ergueu-se nos ares e partiu.
No seu lugar, o pastor encontrou um melro ameaçado por um gato.
Mal acabara de afugentar o gato, descobriu o pássaro parado na margem de um regato.
Mas quando o pastor chegou junto do regato, o pássaro levantou voo.
No seu lugar, o pastor encontrou um peixe preso numa rede.
Mal o pastor acabara de libertar o peixe, descobriu o pássaro no cume de um monte.
Ao chegar ao cume, o pássaro elevou-se nos ares e voou.
No lugar do pássaro, o pastor encontrou uma flor murcha pelo calor.
Mal o pastor acabara de regar a flor, descobriu o pássaro à beira-mar.
Mas, quando o pastor chegou à beira-mar, o pássaro elevou-se nos ares e voou por sobre a água, em direcção ao pôr-do-sol.
“Ah”, pensou o pastor, “a beleza estava a fazer troça de mim.”
Desapontado, fez-se ao caminho de regresso a casa e às suas ovelhas.
Mas, quando chegou ao cimo do monte, diante dos seus olhos abria-se uma flor maravilhosa.
No regato, esperava-o um peixe. E, no pinheiro, um melro saudou-o com o seu canto.
Então, o pastor pensou que, afinal, fazia sentido ansiar pela beleza, mesmo que não fosse possível agarrá-la com as mãos, e continuar, até ao fim da sua vida, tocando as suas melodias.


Max Bolliger/Jindra Čapek
Der Wunsch des Hirten