30/11/2010

A porta verde

A Chave

A D. Sónia Black é uma senhora muito velhinha. Tem oitenta anos e gosta muito de histórias. Os seus netos, Susan e Tom, adoram as histórias da avó. Vêm sempre vê-la depois da escola.
― Conte-nos uma história, avozinha ― dizem.
Sentados no chão, bebem um pouco de limonada e comem bolo enquanto a avó, sentada no cadeirão, conta a sua história.
“Quando eu era menina, vivia numa casa grande. Tinha um jardim enorme onde havia árvores e flores. Ao fundo do jardim, havia uma porta verde.
Como eu era muito pequena, não chegava à maçaneta. Mas, mesmo quando cresci, não conseguia abri-la porque não tinha a chave.
Um dia, quando estava na cozinha, reparei num grande armário que tinha muitas gavetas. Pus-me em cima de uma cadeira e abri-as, uma por uma.
Havia uma grande chave numa das gavetas. Era uma chave muito antiga. Que porta abriria?
Fui ao jardim. Estava um dia radioso, cheio de sol. Caminhei até à porta verde. Meti a chave antiga na fechadura e rodei-a. A porta abriu-se.
O que estaria por detrás?
Entrei. Estava num grande jardim mas havia muitas nuvens e vento, e senti frio. No meu jardim estava sol e calor. Mas aqui estava escuro e frio.
Foi então que vi o castelo. Tinha torres altas. Havia algumas árvores. Era Verão mas as árvores não tinham muitas folhas. Não havia pássaros nas árvores. Neste jardim, era Inverno.
Apareceu uma mulher pequena e velha que vestia de preto e tinha um chapéu alto e também preto.
― O que estás aqui a fazer? ― perguntou. ― Este é o meu jardim. Não podes ficar aqui.
― Peço desculpa ― disse eu. ― Há uma porta ao fundo do jardim. É uma grande porta verde. Foi por lá que entrei.
― Não se abre a porta verde ― disse a velha senhora. ― Vai-te embora!
A porta do castelo rangeu e saiu de lá uma menina.
― Avó, quem está aí? Quem é essa rapariga?
― Entrou pela porta verde ― disse a velha senhora. ― Não pode ficar cá.
A pequena, triste, olhou para mim.
― Ela podia brincar comigo. Deixa-a ficar, avó, deixas? ― pediu.
A velha senhora ficou zangada.
― Está bem ― disse. E entrou no castelo.


Às escondidas

― Eu sou a Sónia ― disse eu. ― Como te chamas?
― Leila ― disse a menina triste.
― Quantos anos tens? ― perguntei-lhe.
― Não sei ― disse Leila.
― Quando fazes anos?
― Não sei.
― Pergunta à tua avó.
― Ela não sabe.
― Pergunta à tua mãe e ao teu pai.
― Não tenho mãe nem pai ― disse Leila com tristeza.
O céu estava nublado e escuro. Estava frio e não havia folhas nas árvores. O castelo tinha um aspecto muito triste.
― A que é que vamos jogar? ― perguntou Leila.
― Às escondidas ― disse eu.
― O que é isso? Não conheço esse jogo.
― Tu fechas os olhos e eu escondo-me. Contas até vinte e abres os olhos. E vais à minha procura ― expliquei.
Escondi-me atrás de uma árvore mas a Leila encontrou-me.
― Estás atrás da árvore ― gritou.
Leila estava contente. Quando olhei para a árvore, reparei que já tinha algumas folhas verdes.
Jogámos às escondidas. Depois veio a velha senhora. Estava zangada.
― Vocês estão a fazer muito barulho ― disse. ― Não gosto de barulho. Estejam caladas.
― Desculpe, avó ― disse Leila.
A velha senhora olhou para mim.
― Como te chamas? ― perguntou.
― Sónia.
― Vai-te embora, Sónia ― disse.
― A Sónia pode vir amanhã? ― perguntou Leila.
― Pode. Pode vir amanhã. Mas não façam demasiado barulho.
Saí pela porta verde e fechei-a. No meu jardim estava sol e calor. Havia muitas flores e as árvores estavam em flor. Subi à árvore mais alta do meu jardim e consegui ver por cima do muro. Observei o castelo, que estava escuro, e o jardim silencioso. Voltei para casa e pus a chave na gaveta.
No dia seguinte, estava sol. Peguei na chave e abri novamente a porta verde. Leila já se encontrava no jardim do castelo. Mas, embora o jardim estivesse frio e escuro, Leila não estava triste. Sentia-se contente. Tinha um vestido novo, vermelho e branco.
― Leila ― disse eu ― no meu jardim há sol e está quente. Por que é que aqui o tempo está nublado e frio?
― Não sei ― disse Leila.
― Anda. Vamos brincar às escondidas.
Brincámos às escondidas. Depois, Leila sugeriu: ― Vamos até ao castelo.
― O que é que a tua avó vai dizer?
― Não vai dizer nada.
― Porquê?
― Porque está a dormir no quarto. O quarto dela é no cimo da torre mais alta.
Fomos até ao castelo e entrámos numa grande sala. Também lá estava frio e escuro.
― Anda comigo até à cozinha ― disse Leila. ― Há lá uma lareira.
A cozinha estava escura mas havia uma lareira pequena. Um homem pequeno, velhinho, estava sentado à lareira.
― Este é o Ben ― disse Leila. ― É o nosso cozinheiro.
― Sou o cozinheiro, mas não gosto de cozinhar ― disse Ben.
― Queres almoçar? ― perguntou Leila.
― Sim, por favor ― respondi.
― O que há para o almoço, Ben?
― Batatas.
― Com…?
― Batatas com batatas ― disse Ben.
― Não gosto de batatas ― disse Leila. ― Posso comer uma omeleta?
― Omeleta, pateta ― disse Ben. ― Fá-la tu.
― Não sei cozinhar ― disse Leila.
― Eu sei cozinhar ― disse eu. ― Vou fazer uma omeleta.
― Como é que se faz uma omeleta? ― perguntou Leila.
― É fácil. Põe-se quatro ovos numa tigela… um pouco de leite… uma pitada de sal e de pimenta… mistura-se… põe-se um pouco de óleo numa frigideira… põe-se a frigideira ao lume… põe-se tudo na frigideira. E aqui temos… uma omeleta!
― Posso comer um bocadinho? ― perguntou Ben.
― Claro que sim. ― disse eu. ― Vamos comer todos.

Os brinquedos

Comemos a omeleta.
― Estava muito bom ― disse Ben, a rir. ― Amanhã também podes cozinhar, Sónia.
O Sol brilhou através da janela. Brilhou sobre Ben.
― O Sol não pode brilhar aqui dentro ― disse Ben. ― Vou correr as cortinas.
― Não corras as cortinas ― pedi. ― Olha, vê-se que a cozinha não está nada limpa.
― Vamos limpar a cozinha. O Ben é muito preguiçoso ― disse Leila.
― Não sou preguiçoso. Não sei cozinhar, mas consigo limpar a cozinha.
O Sol brilhou através da janela. Limpámos a cozinha, que ficou a brilhar.
Voltámos para a sala grande.
― Leila, sabes por que é que está escuro aqui dentro? ― perguntei.
― Porquê?
― Porque as cortinas estão corridas. Podemos abri-las?
― A avó não quer abri-las. Vai ficar zangada. Vamos para a torre. Vou mostrar-te o meu quarto.
Subimos algumas escadas e chegámos ao quarto de Leila. Era um quarto grande mas só tinha uma cama, uma mesa e um armário.
― Onde estão os teus brinquedos? ― perguntei-lhe.
― Não tenho nenhuns brinquedos ― disse Leila.
― Quantos quartos há no castelo?
― Não sei.
― O que há dentro deles?
― Não sei. Não vou lá.
― Vamos ver.
― A minha avó vai ficar zangada.
― Ela está a dormir. Não nos vai ouvir.
Fomos até ao primeiro compartimento. Era um quarto de dormir. Fomos ao segundo. Era uma sala de estar. Havia um piano. Fomos ao terceiro. Estava cheio de brinquedos.
Havia um grande cavalo de baloiço.
― Posso andar nele? ― perguntei.
― Claro ― disse Leila. ― Mas não faças barulho.
Sentei-me no cavalo. Havia igualmente uma casa de bonecas com a qual brincámos. Tinha algumas bonecas e livros.
― Vamos pôr estes brinquedos no teu quarto ― disse eu.
― Está bem.
Levámos os brinquedos para o quarto de Leila.
― Agora, o teu quarto está muito mais bonito.
― Sim, mas a avó vai ficar zangada.
Apareceu uma mulher alta e magra.
― Olá ― disse Leila. ― Sónia, esta é a Sra. Grime. Ela é empregada de limpeza no castelo.
― Eu não faço limpeza. São as minhas raparigas que fazem limpeza.
― Mas não há nenhumas outras raparigas ― disse Leila.
― Vai haver e elas limparão o castelo.
― Nós seremos as suas raparigas ― disse eu. ― Vamos nós limpar o castelo.
A Sra. Grime sorriu. Já tinha algumas raparigas e estava radiante.
Limpámos o castelo. Corremos as cortinas, lavámos as janelas, limpámos os móveis e lavámos o chão. Trabalhámos toda a tarde. O castelo ficou limpo e a Sra. Grime muito contente.
Quando me vim embora, estava escuro. Atravessei a porta verde. Fechei-a e dei a volta à chave.

O Castelo Encantado

O dia seguinte estava soalheiro e quente. No meu jardim, as flores eram belas e as árvores tinham rebentos cor-de-rosa e brancos. Fui até à porta verde e abri-a.
Desta vez, o jardim do castelo não estava frio nem escuro mas quente, e o Sol brilhava. Havia folhas e rebentos nas árvores e flores. Os pássaros cantavam nas árvores. O castelo resplandecia. As janelas e as torres brilhavam.
Leila saiu do castelo.
― Olá, Sónia ― disse. ― Olha para o jardim. Está bonito, não está? Ontem não havia flores, mas hoje há muitas. Não havia folhas nas árvores, mas hoje há muitas. Não havia pássaros, mas hoje há muitos. O jardim está bonito e o Sol brilha.
Fomos até ao castelo. As cortinas estavam corridas para os lados, os quartos cheios de luz e de sol e as janelas e o chão limpos. Fomos até à cozinha, que estava limpa e resplandecente. O velho Ben estava lá.
― Entrem ― disse. ― Estou a fazer um bolo. Comam um bocadinho.
A velha senhora entrou. Tinha um vestido azul.
― Avó! ― exclamou Leila. ― O teu vestido é muito bonito.
― Obrigada, Leila. Estava sol quando me levantei de manhã. Olhei pela janela e vi o jardim. Então apeteceu-me pôr o meu vestido azul e andei pelo castelo. Vi os quartos limpos e radiosos. Fui também ao teu quarto e vi os brinquedos. Eram os meus brinquedos.
― Desculpa, avó. Fomos buscá-los.
― Não há problema nenhum. Agora são os teus brinquedos.
― Obrigada, avó ― disse Leila.
― Olha o bolo que o Ben fez! Vamos prová-lo ― disse a avó.
Estava escuro quando vim embora. Parei no jardim e olhei para o castelo. Havia luzes nos quartos. A Lua reflectia-se nas torres altas. Era como um castelo encantado. Fechei a porta verde, fui para casa e pus a chave na gaveta.
A minha mãe estava na cozinha.
― Onde foste, Sónia? ― perguntou.
― Olá, mãe. Estive no castelo.
― Que castelo?
― O castelo que fica para lá da porta verde.
A minha mãe riu. ― Não há nenhum castelo para lá da porta verde.
― Vem comigo. Eu mostro-to.
Peguei na chave e fomos na direcção da porta verde. Abri-a.
― Estás a ver? ― disse a minha mãe. ― Não há nenhum castelo, mas há muitas casinhas. Houve aqui em tempos um castelo, mas isso foi há muito tempo. Não há nenhum castelo agora.”


Ron Holt
The Green Door
London, Macmillan Education, 1992