29/11/2010

O presente-surpresa do Rei Wod


O rei Wod era muito, muito rico.
Tinha tanto dinheiro que podia encher a meia de Natal de todas as crianças do país – incluindo a tua, se lá morasses – e ainda lhe sobraria muito dinheiro. Por que razão, então, odiava ele o Natal?
A razão era esta. O Rei Wod queria um presente-supresa na manhã de Natal.
Só isso?
Aha… não esqueçamos quão rico ele era. Todos os anos, acontecia a mesma coisa. Por muito maravilhoso que fosse o presente que recebia, nunca era novidade. Por exemplo:
Um cavalo com cascos multicoloridos para andar sobre o arco-íris.
Um livro de respostas a todas as perguntas dos professores.
Um cesto de piquenique que brilhava no escuro quando o levávamos a uma festa depois da meia-noite.
Uma almofada para nos adormecer ao som de uma canção.
Uma poça de água para saltar dentro de casa sem molhar a carpete…
Para quê mais exemplos?
“Já tenho um desses”, dizia sempre o Rei Wod.
Um dia, bem cedo, numa manhã de Natal, mesmo antes de o sol nascer, o Rei perdeu a paciência. Deu um pontapé no trono, rasgou o manto em dois e atirou a coroa pela janela.
— Será que ninguém pode trazer-me um presente-surpresa? — gritou. — Chamem o feiticeiro real!
— Aqui me tendes, Majestade.
— Não fiques aí especado! Faz alguma coisa. Isto é uma ordem!
ABRA – CA – ZAM!
— O que é que aconteceu?
Num abrir e fechar de olhos, o Rei Wod encontrou-se numa floresta escura, coberta de neve.
— Onde estou? No Pólo Norte? — perguntou. — Esperem até eu regressar ao palácio. Aquele feiticeiro não sabe com quem se meteu!
Agora, porém, quem estava em apuros era o Rei Wod. Em alguns sítios, a neve chegava-lhe aos joelhos e, noutros, mesmo aos sovacos. O Rei não sabia onde se encontrava. Em breve estava tão hirto e gelado como um pingente de neve.
— Se não me mexer depressa, acabo por me transformar num pingente. Um pingente gigante. Alto lá, será que estou a ver além uma casa?
Suspirando de alívio, caminhou pesadamente até chegar a uma cabana minúscula, com o telhado coberto de neve, situada na orla da floresta.
A cabana estava vazia.
Não que estivesse abandonada. Havia uma lareira acesa, comida na despensa e mobília confortável na sala de estar.
— Onde estará o dono? — perguntou o Rei. — E porque não há decorações de Natal e uma árvore com luzinhas?
Na cabana não havia o menor indício de Natal. Excepto um calendário do Advento em cima do fogão de sala. Estava aberto no dia 24 de Dezembro.
— É véspera de Natal — disse o Rei.
Isto tornou a cabana ainda mais deserta. O Rei sentia-se só. Será que iria passar o primeiro Natal sozinho da sua vida?
— Para começar, é melhor aquecer-me. E tenho de me manter ocupado.
Foi divertido cortar uma árvore na floresta e colocá-la num canto da sala, especialmente depois de ter encontrado uma grande caixa com decorações de Natal no armário debaixo das escadas.
Também foi divertido pendurá-las, bem como acender a lareira e pôr a mesa para a ceia de Natal.
Depois de ter feito tudo isto, o Rei desenhou um cartão de Natal para o dono da cabana e colocou-o em cima da chaminé. Fez, em seguida, uma embalagem de oferta, dentro da qual colocou um bilhete:
Este espaço está reservado para um presente do Rei Wod. Pode ser um livro de respostas a todas as perguntas dos professores, um cesto de piquenique que brilha no escuro quando o levamos a uma festa depois da meia-noite, um cavalo com cascos multicoloridos para andar sobre o arco-íris… O que lhe apetecer. A escolha é sua.
Colocou, depois, a caixinha debaixo da árvore de Natal. Por último, pôs a mesa para mais uma pessoa.
— Nunca se sabe… — suspirou.
Adormeceu profundamente diante da lareira.
A claridade do dia acordou-o. A claridade e o tilintar de campainhas de trenó. A porta abriu-se de repente e um homem gorducho entrou. Exactamente o tipo de pessoa que esperaríamos ver num sítio como este. Como trazia geada nas sobrancelhas, gelo na barba, flocos de neve a derreter no fato vermelho, e um saco vazio, o Rei Wod demorou algum tempo a reconhecê-lo.
— Pai Natal! — arquejou.
— Como está? Quem é o senhor?
— Sou o Rei Wod. Desculpe esta…
— O Rei Wod?
O Pai Natal olhou o seu visitante com espanto.
— Isso quer dizer que a carta do feiticeiro era verdadeira? A carta que dizia que me ia trazer…
A voz do Pai Natal foi-se apagando, enquanto percorria com os olhos as decorações, a mesa de jantar, o cartão na chaminé, e o presente debaixo da árvore.
— Como é que sabia? — exclamou este.
— Sabia? — perguntou Wod. — Sabia o quê?
— Que nunca tive um Natal a sério?
— Nunca?
— Estou sempre demasiado ocupado antes do Natal. Depois fico demasiado cansado. E agora Vossa Majestade organizou tudo para mim. Que Deus o abençoe! Estou-lhe tão grato. Como se lembrou de um presente-surpresa tão bonito?
— Presente-surpresa?
— O meu próprio Natal — respondeu o Pai Natal. — É o meu primeiro Natal.
— É o primeiro que ofereço — disse o Rei, pensativo.
Mas deu-se logo conta de que não seria o último.
Wod nunca esqueceu a lição que o seu feiticeiro lhe deu. Faz sentido que, quando se é um rei que tem tudo, receber um presente-surpresa é difícil. Mas dar um é fácil.
Algum tempo depois, quando nomeou o feiticeiro seu Primeiro-Ministro, o Rei disse:
— Só há um pequeno problema. O que devo pôr na caixa que deixei debaixo do abeto? O Pai Natal não sabia de que presente gostava mais.
— É simples — sorriu o feiticeiro.
E sussurrou algo ao ouvido do Rei Wod.
Adorava dizer-vos o que ele sugeriu. Mas isso iria estragar a surpresa.


Chris Powling e Sally Grindley (org.)
Christmas stories, London, Kingfisher, 1994