24/11/2010

O fintabolista

(“Ninguém pode imaginar a pequenez da minha cidadezinha. Lá, porém, há gente que me dá os bons-dias”)


Sempre onde chego é um lugar. Mas abrigo maior não encontrei senão nas paragens da memória. É lá que reside minha cidadezinha natal, que se acende devagarinhosa, como barco saindo de um lodoso escuro.
Esse lugar se senta em minha meninice como se o único território fosse o tempo. Esse outro tempo escorria em obediência a secretos mandos de preguiça. Os acontecimentos do mundo ali aportavam sempre tarde, bem depois de atravessarem distancias tais que se desbotava a realidade que lhes tinha ditado origem.
As notícias da Europa nos chegavam como tábuas de navios naufragados para além de extensas neblinas. Essas novidades desembarcavam húmidas em nossas mãos, moldáveis à nossa ideia. O tamanho e gravidade das acontecências éramos nós que ditávamos. Assim destrocado, o mundo parecia um brinquedo.
Engigantecidos ficámos foi quando o nosso patrício Eusébio fintou o universo até penetrar nos relvados no Campeonato Mundial. Wembley e Maracanã passaram a estadiozitos no bairro da nossa infância. O nosso pé sonhava em chuteiras e cada chuto disputava cabeçalhos de jornais. De noite nos desenhávamos em figura dos livrinhos de cromos.
Nesse tempo, a mais mundial das guerras era a que opunha o meu bairro aos restantes bairros da Beira. No centro desse conflito estava o campeonato de futebol em que assanhávamos soco e batota. Ali estava a nossa honra, partíamos de casa como fazem os guerreiros ao despedirem-se das famílias.
Não que a futebolada fosse a única disputa. Passámos por anterior batalha - o basquetebol. Mas na bola ao cesto nós não estávamos tão bem aquilatados. Aquilo era modalidade de gente rica. Tanto estávamos desfasados que, em meio de decisiva batalha, o nosso pivô interrompeu a partida para perguntar ao árbitro se não podia encestar com a cabeça.
Faltavam-nos jogadores altos. O nosso mais alto era o Tony Candeeiro que era cardíaco - tinha pouca válvula para muito coração. A mais centimétrica corrida e já ele exibia um tom arroxeado semelhando a flor do nenúfar. Pedíamos uma pausa para o Tony reganhar a visão e ele, passados segundos, interrompia a ofegação para gemer um “continuemos!”.
E lá seguíamos, perdendo sempre. A única vez que ganhámos nem demos por isso. O esforço tinha sido tal que nem deitámos tento no resultado. Estavámos deitando fresco sobre o Tony quando os adversários nos vieram congratular. Nós retorquimos, surpresos: “Ganhámos?!!”
Desistidos da elitista modalidade, regressamos ao futebol, actividade mais a jeito da nossa condição. E foi então que me vi convertido num glorioso avançado de centro. Minha fama emergiu numa jogada confusa - todas as jogadas para mim eram confusas - quando um poderoso remate disparou a bola na minha direcção. Minha única reacção foi proteger os óculos, fechando os olhos e desviando a cabeça da trajectória.
Por instantes, deixei de ver o estádio. Senti a bola raspar-me o penteado. Sonhe depois que esse impensado reflexo tinha feito “anichar caprichosamente o esférico no fundo das redes adversárias”. Com estas palavras o meu feito se maiusculizou na história do meu bairro. No final do jogo fui conduzido em ombros, me aplicaram a vitalícia braçadeira de capitão. Com duvidoso mérito, ganhara o estatuto de comandar a minha equipa e a honra do meu bairro.
Acontecia, no entanto, que a minha equipa sofria de carência grave de rematadores. Passávamos o jogo fintando de um ao outro lado do campo sem nunca nos decidirmos a rematar. Ainda adoptámos a táctica de chutar alto para aproveitar a altura do nosso Tony Candeeiro mas ele, com sua falta de válvula, assim que saltava, perdia a visão.
“Falta-nos a concretização”, dizia o Senhor Herberto, nosso ilustre treinador, um goês cinquentão que suspeitávamos nunca ter sequer assistido a um partida de futebol. Queixava-se assim: “vocês só fintam, não rematam”. E suspirava: “somos uma equipa de fintabolistas”.
Entre esforçados empates e involuntárias vitórias lá conseguimos chegar à finalíssima do campeonato interbairros. O Senhor Herberto que estava sempre calado trouxe então a solução - que tinha ouvido falar que, na vila de Marromeu, havia um jovem dotado de poderosíssimo remate. De tal modo, que era conhecido pelo “Chimbo de Marromeu”. Com seu vertiginoso pontapé o moço já tinha derrubado postes e árvores e só de mencionar o seu nome os guarda-redes eram acometidos de terrores imobilizantes.
A proposta era contratar o “Chimbo. pagando-lhe para que ele actuasse como avançado da nossa equipa. A ideia foi como pedra em charco. Enviou-se logo mensagem para o mercenário rematador. A resposta veio célere: “Chego no próprio dia da grande final. Eis o meu preço - 150 escudos. Pagos, claro, antes do encontro.”
Exultámos. O dinheiro era uma fortuna, mas nós cobriríamos a parada roubando afincandamente as carteiras dos nossos velhos. O optimismo era tal que deixámos de treinar. O treinador disse que a imobilidade era boa conselheira e os treinos só serviam para esfolar canela e gastar sapatilha.
Na tarde da finalíssima o estádio estava repleto. Até as miúdas lá estavam, com seus risos e segredinhos. Já nos preparávamos para entrar em campo e nem sombra do famoso “Chimbo”. Marromeu era longe, teria ele desconseguido apanhar a carreira?
Mas eis que, no derradeiro instante, surge garboso e portentoso o nosso avançado vindo directamente das savanas de Marromeu. Vê-lo entrar em campo foi como um bálsamo para a nossa angústia. Ali estava ele, fardado diferente da nossa equipa, camisete azul-clara com estrelas prateadas que faiscavam ao fulgor do sol. Penteado até à risca, o nosso precioso reforço entrou em campo com aqueles saltinhos que só os grandes profissionais usam para aquecer o próprio corpo e o animo da multidão. O mais espantoso eram as pernas, cilindróides, tão grossas em baixo como em cima. O moço nem deu as confianças. Sem sequer nos olhar, continuando a saltitar, cochichou-nos:
- “O dinheiro, já têm?”
Herberto respondeu que já tinha colocado no lugar combinado. “E a táctica?”, perguntou o contratado, sempre aos pulinhos. A táctica herbertiana era a mais simples: “passar o esférico imediatamente ao Chimbo de Marromou”. E lá começou o jogo.
Na primeira jogada, a bola vem a meus pés e eu, ofuscado pelo sol, levanto a perna ao acaso. A bola toca no meu joelho, ganha efeito, passa por cima de dois adversários, e vai na direcção de Tony. Este salta e, obviamente, sem visão, cabeceia o esférico com a nuca. Atónitos com a arquitectura destas trocas estavam o adversário, o público e, mais que todos, nós próprios. A bola volta a ficar comigo e a nossa claque urra, frenética:
- “Passa ao Chimbo, passa ao Chimbo!”
Eu fiz a bola rolar para os pés do nosso salvador. Ele não rematou logo. Deixou a bola parar e, com estilo de exímio executante, deu uns passinhos para trás para ganhar balanço. Um silêncio se instalou em todo o campo como se o universo inteiro se atentasse no virtuosismo do futebolista. O Chimbo, qual búfalo, deflagrou um tropel em direcção à bola. O barulho dos seus passos e a poeira que se levantou à sua passagem foram tais que eu fechei os olhos. Esperava escutar o vigoroso bater da bola. Mas o tudo que ouvi foi um tímido “trrrrr”, igual a um rasgão de roupa, uma costura se desfazendo. Quando reabri os olhos ainda vi a perna gorda do Chimbo chutando o ar e uma suspeitosa mancha castanha lhe surgindo nos calções. O mercenário rematara em falso, com impulso tal, que se borrara em vergonhoso descuido.
O que se passou em seguida foi o maior embaraço - o glorioso rematador saindo em soluços, rodeado por nós que parecíamos nem dar pelos odores castanhos que lhe escorriam pelas pernas. Enquanto ele se retirava ainda um de nós balbuciou:
- “Eh pá... e o nosso dinheiro?”
Contudo, já o mercenário escapava pelos caniços que rodeavam o estádio. Me recordo ainda de ver rebrilhar, entre as densas folhagens, as estrelas prateadas do seu espantoso fardamento. Com o poente daquelas estrelas se extinguia a minha ilusão de ser campeão mundial de futebol.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra