03/10/2010

Recordar para não esquecer

Jerusalém, Israel. É Primavera. Visitantes de todos os credos, vindos de vários países do mundo, acorreram a esta cidade santa para celebrar a Páscoa cristã e a Páscoa judaica. Um homem alto e bem parecido entra numa loja de lembranças na Rua de Jaffa. A loja está cheia de clientes. O homem aproxima-se do dono, um senhor idoso, e pergunta-lhe:
— Fala alemão?
O velho responde, num alemão impecável:
— Falo, sim. Seja bem-vindo à minha loja. Está a gostar do nosso país?
— Estou a gostar muito — responde o turista. — Procuro um daqueles candelabros judaicos, que são como que um símbolo do vosso país. Gostaria de levar um comigo, como recordação da minha visita.
— Ah, quer um menorah. — Claro que tenho. Venha ver alguns.
Depois de o jovem alemão ter escolhido um candelabro e de o ter pago, o lojista apertou-lhe a mão e desejou-lhe uma boa viagem de regresso. Quando o homem esticou o braço, viu-se neste um número púrpura tatuado, sinal de que o homem tinha sido condenado à morte por alemães, num tempo não muito remoto.
Entre 1933 e 1945 seis milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, foram assassinados na Alemanha e noutros países europeus.
Embora a maioria tenha morrido durante a Segunda Guerra Mundial, não morreram no campo de batalha como soldados. Também não eram culpados de crime algum. Morreram pela simples razão de que eram judeus.
Como pôde isto acontecer? Para responder a esta pergunta, temos de recuar na história.
Há dois mil anos os judeus viviam na sua terra. No ano 70 da era cristã, Jerusalém, a capital do país, foi atacada e destruída e os judeus foram forçados a abandonar as suas casas e o seu país. Durante os dois mil anos que se seguiram, os judeus viveram como nómadas e estrangeiros em muitos países do mundo. E durante séculos, o mundo assistiu ao eclodir de uma nova doença: o anti-semitismo.
Anti-semitismo significa ódio pelos judeus, pela sua religião e pela sua cultura. As suas causas são o medo e a falta de compreensão. Os seus sintomas são os insultos, a discriminação e a violência. Mesmo quando a doença do anti-semitismo parece curada, os sintomas podem irromper a qualquer momento.
Nos países onde viviam, como estrangeiros que eram, os judeus funcionavam facilmente como bodes expiatórios para tudo o que corria mal. Problemas como a doença, a fome, a guerra e o desemprego eram todos imputados aos judeus.
Durante dois mil anos, os judeus rezaram pela paz e pelo direito de voltarem a viver em liberdade. A nível exterior, tiveram de suportar a solidão, o medo e o ódio. A nível interior, reconfortavam-se com o seu orgulho, as suas tradições e a sua religião.
Entre 1933 e 1945, o anti-semitismo funcionou como lei oficial na Alemanha e nos países europeus conquistados pela Alemanha. Sob o lema “Os judeus são a causa do nosso infortúnio”, Adolf Hitler e o seu Partido Nazi delinearam uma série de planos destinados a erradicar o que eles chamavam de “problema judeu”.
Primeiro vieram as humilhações e as expulsões.
Os judeus deixaram de ser considerados como cidadãos. Os seus negócios foram boicotados e não lhes era permitido exercer as suas profissões ou ofícios. As crianças judias deixaram de poder ir à escola pública e todos os judeus foram forçados a usar em público uma estrela amarela simbólica.
Os judeus viviam na Alemanha há centenas de anos e tinham-se tornado participantes activos em todos os sectores da sociedade. Fossem soldados, advogados, homens de negócios ou professores, os judeus consideravam-se, em primeiro lugar, cidadãos alemães.
Embora sempre tenha havido uma vertente anti-semita na sociedade alemã, quando os nazis conquistaram o poder e começaram a ameaçar abertamente os judeus, estes não acreditavam que algum mal pudesse acontecer-lhes. Quando foram promulgadas leis anti-semitas, alguns judeus reconheceram os sinais de perigo e fugiram da Alemanha. Mas muitos outros ficaram para trás. Quando o perigo se tornou real, era demasiado tarde para fugirem.
Depois das humilhações, multiplicaram-se as cenas de violência contra os judeus e contra os seus bens.
Em 1938, durante dois dias em Novembro, foram presos trinta mil judeus. As sinagogas, os edifícios e todas as lojas pertencentes a judeus foram destruídas. Chamou-se a este período Kristallnacht ou “Noite de Cristal”, por causa dos vidros partidos que, no dia seguinte, havia em todas as ruas da Alemanha. Aconteceu o mesmo por toda a Europa, à medida que o exército nazi ia anexando países.
Mas a discriminação e a violência eram apenas o começo; os guetos e os campos de concentração seguiram-se logo depois.
Os nazis construíram uma série de cidades-prisão chamadas campos de concentração, para onde as pessoas que fossem declaradas “inimigas do Estado” eram enviadas. Mas ser judeu apenas era suficiente para se ser enviado para Buchenwald, Auschwitz ou Treblinka.
Para lhes tornarem a vida ainda mais insuportável, os nazis obrigaram os judeus a saírem das suas casas e aldeias e a concentrarem-se em zonas de grandes cidades rodeadas de muros, arame farpado e soldados. Estas áreas vigiadas eram conhecidas como “guetos”. Aí, em condições de higiene deploráveis, os judeus tentavam manter-se vivos e conservar a sua dignidade.
Aqueles que não morreram de fome ou de doença foram condenados à morte nos campos de concentração, que se transformaram nos palcos da morte de seis milhões de judeus e de milhões de vítimas inocentes dos nazis.
Poucos escaparam.
Não importava se se era rico ou pobre, novo ou velho, crente ou ateu, ignorante ou instruído ─ se se fosse judeu, estava-se condenado à morte.
À medida que os nazis conquistavam a Europa, forças especiais do exército prendiam os judeus e levavam-nos para matas ou valas, onde os matavam a sangue-frio. Mais tarde, não satisfeitos com a rapidez das execuções, introduziram o uso do gás venenoso e aumentaram o tamanho dos campos de concentração, a fim de receberem o cada vez maior número de judeus presos por toda a Europa. Conceberam assim um método inédito na história da humanidade ─ a destruição de um povo inteiro através de um plano de extermínio extensivo e preciso.
Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, mais de dois terços dos judeus europeus estavam mortos, e o mundo, chocado, perguntava-se como tal podia ter acontecido. Foi uma tragédia inconcebível e medonha. Foi um incêndio selvagem de uma intensidade devastadora ─ um Holocausto.
Algumas pessoas acreditam que a passagem do tempo é, em si mesma, uma forma de curar o sofrimento. A longa história do povo judeu comporta muitos episódios dolorosos. Embora o passar do tempo possa amortecer alguma da dor original, os judeus nunca permitirão que a recordação destas tragédias iniciais se apague. Da mesma forma, nunca esquecerão o Holocausto.
Em 1948, nasceu o Estado de Israel. Ao fim de dois mil anos, os judeus recuperaram a sua terra. Muitos dos que regressaram a Israel eram sobreviventes do Holocausto. Embora fossem estes que carregavam pessoalmente as cicatrizes profundas do sofrimento, muitos outros judeus espalhados pelo mundo compartilhavam a sua dor.
Às vezes, é difícil exprimir publicamente os nossos sentimentos mais íntimos. Queremos poupar aqueles que amamos ao sofrimento, à dor e à vergonha. A tragédia do Holocausto foi tão grande que algumas pessoas não quiseram falar sobre ela ou sequer lembrarem-se do que vivenciaram durante aqueles anos trágicos.
Mas outros sentiram a necessidade de manter viva a memória do Holocausto para impedir que algo de semelhante pudesse voltar a acontecer. Nos últimos dez anos, o Holocausto tem vindo a ser estudado nas escolas e nas universidades. Muitos livros e artigos de revista foram escritos, muitos filmes e documentários produzidos, para darem testemunho das experiências de muitas pessoas que viveram o Holocausto.
Em 1953, uma lei especial aprovada no Knesset, o parlamento israelita, criou uma instituição nacional chamada Yad Vashem, consagrada a estudos e pesquisas sobre o Holocausto.
A tarefa principal do Yad Vashem é documentar todos os acontecimentos do Holocausto, em especial a luta pela vida que os judeus empreenderam por toda a Europa. Os arquivos e a biblioteca do Yad Vashem contêm os arquivos da luta infrutífera travada por milhões de judeus, homens, mulheres e crianças. Fora do edifício, existe um caminho bordejado de árvores, para honrar aqueles que, não sendo judeus, arriscaram as suas vidas para salvar os seus vizinhos judeus.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, têm-se realizado diversos eventos e programas para honrar os mortos. Só faltava uma data simbólica para que a importância do Holocausto fosse reconhecida e para que a memória dos milhões de pessoas que morreram fosse honrada.
Em 1959 o parlamento israelita promulgou uma lei que criou o Yom Hashoa, o Dia do Holocausto, que se celebra no dia 27 do mês de Nisan, de acordo com o calendário judaico. Esta data coincide com a revolta heróica ocorrida no Gueto de Varsóvia em 1943, que opôs judeus a nazis. Geralmente, tem lugar em Abril.
A comunidade judaica internacional seguiu o exemplo de Israel e, agora, as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo celebram essa data para honrar a memória de seis milhões de judeus mortos.
A forma de a comemorar varia de comunidade para comunidade. Em Israel faz-se uma celebração nacional no enorme pátio do Yad Vashem. Às oito horas da manhã, as sirenes de alarme aéreo tocam por todo o país. Todos interrompem as suas actividades para observarem dois minutos de silêncio em memória dos que morreram.
Noutros países, incluindo os Estados Unidos, o dia é assinalado com acontecimentos especiais e com serviços religiosos. Estes podem ser ao ar livre, se o público for numeroso, ou em pequenas sinagogas. Sobreviventes do Holocausto participam com frequência como convidados de honra.
À medida que os anos passam, aqueles que conseguiram sobreviver à brutalidade nazi vão envelhecendo e morrendo. Em breve, não haverá mais ninguém vivo que tenha experimentado pessoalmente o Holocausto. Por isso se torna cada vez mais importante lembrar não só aqueles anos terríveis e a forma como começaram, mas também como a crueldade, o ódio e a discriminação conduziram à violência, à morte e à destruição.
Todos os anos, no Yom Hashoa, judeus de todo o mundo pararão para se lembrarem… de recordar para não esquecer.


Norman H. Finkelstein
Remember Not To Forget
Philadelphia, The Jewish Publication Society, 2004