02/09/2010

Peixe para Eulália

A seca durava há anos. Sem pingo, sem lágrima, sem gota. Estranhava-se a tanta agrura daquela estiagem. Só podiam ser as irrazoáveis razões. Tudo isso desacontecia em Nkulumadzi.
Pediram parecer a Sinhorito. Era um tresandarilho, incapaz de solver nenhum problema. Que a simples existência era, para ele, uma insuperável dificuldade. Só podia ser por brincadeira que lhe pediam explicação para a não comparência da chuva. Mas foi a ele que se dirigiram para saber da razão daquele destempero do tempo. Sinhorito nunca tinha sido consultado nem para secundar opinião de outro. Quanto mais para dar parecer. Ficou insdrúxulo, a debicar luzes dentro da cabeça. Nem emitiu boca, nem autorizou mosca.
- Calem para ouvirmos bem o que ele vai falar!
A risada esperava, no arco tenso da multidão. Necessitava-se de um escape para o destino. Um bode respiratório. Sinhorito era conhecido por não ter sabedoria de nada. Única especialidade que dele se dizia: seus olhos seriam portáteis, de tirar e aplicar.
O próprio proclamava: que ele, sempre que lhe dava a gana, arrancava os globos oculares e os escondia nas mãos. Sempre que se avizinhava momento penoso ou coisa feia, Sinhorito retirava os olhos. Uma coruja negra entrava na treva da noite, janelas por onde saía o mundo e vazava o corpo. Nunca ninguém assistiu. Dizia-se, talvezmente. Mas, enfim. Ninguém é só atrasado: outras habilidades se esconderão, em outra dimensão do ser. Desconfie-se.
- Assim sem as vistas, quem sabe, evito as feiuras dessa vida.
Todavia, ninguém acreditava em tais prodígios. Apenas Eulália, a mulher dos Correios, se declarava crente. E ela lhe pedia, enquanto no assento da praça:
- Vá, tire agora.
E ele, de pálpebras fechadas, exibia o cerrado dos punhos. Que estavam ali, seus dois olhos, vivos como peixes fora de água. A mulher sorria e mandava que fossem repostos. Que ela merecia era ser vista, ainda que gasta e engordada. E o moço grunhia que era o modo de sua risada. E recarregava os olhos no lugar do rosto.
Pois era a este Sinhorito que consultavam agora sobre o anti-dilúvio. E rodeavam-no, preparados para troçar. Não teriam outra glória, nem vitória. A chacota do palerma lhes servia. O moço enchia o rosto, olhos rondando no vácuo, à procura de um esboço para uma ideia. Depois, ousou falar:
- Se calhar...
- Se calhar?
- Ou quem sabe, o céu está de pernas para o ar?
Os primeiros risos. O disparate já começava a desenhar-se, segundo as expectativas. A aldeia, quanto mais pequena, mais carece de um louco.
Como se por via desse louco se salvassem, os restantes, da loucura. Mas eis que, no momento, a palma da mão ordenava contenção:
- Esperem. Esperem que o gajo ainda vai dizer mais. Acaba lá, Doutor Sinhorito.
- É que, quem sabe...
- Quem sabe o quê?
- Quem sabe a chuva está caindo para o lado de lã do céu...
Deflagraram as gargalhadas. E repetiram, uns e outros, o absurdo do desatinado. No fim, dispersaram. Ficou só Eulália, a dos Correios, toda sentada e imóvel junto do apalermado. Então, ela lhe segurou a mão e lhe pediu que não ficasse triste. E assim, como confissão primeira, disse:
- Eu acredito em si. Já me choveu uma água dessas, de outro céu...
E beijou na testa o moço. Depois, ela se enroscou junto aos pés dele. Sinhorito, delicado, fez questão. Queria corrigir a sua postura, tirá-la do chão. Mas Eulália desfez seus intentos.
- Deixe-me assim, na sua sombra. Nunca tive quem me protegesse.
Sinhorito quedou-se imóvel. Tão compenetrado em fazer sombra que adormeceu, singelo e desprovido. E ela se retirou, subtil como brisa.
Muitas sombras passaram, muito sonho desandou. Só a seca não passava. E já nem havia atmosfera, apenas calores. Já a sede ombreava com a fome. E nem verde nem carne, tudo se consumira, do sol ao solo. E os seres ganharam fraqueza: os bichos vitamínimos, as plantas franzininhas. Até Eulália aconteceu de adoecer. Magra de se contar mais ossos que os que realmente detinha. E já nem forças tinha para sofrer. Carecia de urgente substância.
Quando soube do estado de Eulália, o moço se encheu de gravidade e mandou convocar a aldeia de Nkulumazi. À praça cheia, ele anunciou:
- Senhores, eu vou ser pescador! Digo, quem sabe...
E adiantou: não houvesse mais aflição de peixe e não-peixe. As panelas iriam, muito próximo, rever esse bicho escamoso, já preparado em postas, mesmo antes de sair das águas.
- Das águas? Quais elas?
Mais risos. Pescasse ele em seu próprio suor. Pois não havia nem rio nem lagoa que restasse. Sinhorito apontou os céus, acima da cabeça.
- Vou lá, vou subir às águas de lá.
Entrou no barco e ajeitou-o em posição vertical, proa virada ao firmamento. Face ao espanto geral, Sinhorito começou a remar. Os remos cruzavam o ar, vincados no vazio. As bocas abertas, em multidão de exclamações, se inexplicavam: o barco subia em invisível afluente de nuvem. Os remos, mais e mais, semelhavam asas. E o barco transparecia em ave. Até que as nuvens engoliram aquela inteira visão. Então, alguém gritou:
- Venham, ver. Vejam, Sinhorito que sobe!
Mas já ele se extinguia, gradualmente nulo. De pois, se apagou, ponto no infinito.
- Onde ele está?
Foi, nunca mais desceu. Ainda esperaram que Sinhorito tombasse, desamparado, mais sua embarcação. Como nada sucedesse, um por um, os aldeões regressaram a suas casas. Ficou Eulália, só e sozinha. E ali na praça ela montou espera de um acontecimento. A mulher olhava o céu, fosse sol, fosse estrelas. Mas Sinhorito não descia. Nem ele nem a chuva que se propôs buscar. E ainda menos um qualquer peixe.
Vieram buscá-la. Vieram familiares, veio o chefe dos Correios. Puxaram-na, força contra a vontade. Eulália contrariou os intentos. Apontava, desapontada, o vasto céu.
- Há-de vir, há-de voltar...
Que ela jurara não o abandonar lá, onde há tanto que remar. Mas o cunhado maior interpôs proibição: nem sonhasse. Sinhorito era louco. A moça esquecesse que o fulano existira, fizera ou sonhara. Eulália parecia conformada. Mas, por dentro, ela arrumara segredo: construiria um barco, ao modo que Sinhorito fizera. Foi juntando pau e tábua, às escondidas.
- Um dia, quem sabe, um dia... - repetia enquanto acarretava materiais.
Foi tudo descoberto, num entretanto. Pelas fúrias tudo foi ardido. Queimavam-se as madeiras como se se eliminasse um foco de impurificação.
Eulália, entretanto, regressara à serenidade. Parecia ter cancelado seu delírio. Ou ganhara juízo mais calmo? Só os olhos grandes vasculhavam as nuvens enquanto passeava pelos campos. Um dia, porém, ela entrou, em alvoroço, pela cozinha. Anunciou:
- Caíram duas chuvinhas do céu.
Riram-se. Como chovem só duas unidades, gotas de contar por dedos de camaleão? A mulher insistiu, gritou, empurrou. Já todos na varanda, apontou entre os capins os dois olhos de Sinhorito. Haviam caído do céu como dois frutos de carne. E estavam esbugalhados, espantados com coisa vista lá de onde tombaram.
A mulher, escapando dos braços que a continham, correu a apanhar o achado. Mas quando ainda se debruçava, o céu se abriu em relampejos. E choveu, chuva gorda, farta, despenteada trança de água no colo do universo. E peixes, aos cardumes, resvalaram dos céus.
É esta história que, agora, Eulália conta quando, na aldeia, os outros lhe pedem para falar do dia que choveu peixe. E riem-se do pasmo ao espasmo. Com a fartura de quem sabe da magreza de suas vidas. Vale não haver escassez de loucos. Uns seguindo-se aos outros, em rosário. Como contas de missanga, alinhadas no fio da descrença.

Mia Couto, O Fio das Missangas