17/09/2010

O general infanciado


O General Orolando Resoluto era um homem congélido, capaz de frigorificar o mais pequeno sentimento. Desses que lambem a carta para colar o selo. Seu único amor: a pátria. Sua exclusiva paixão: a guerra. A família ele a vivia com espírito de dever, encargo biológico, contrato social. Por obrigação lhe nasceu o filho, sua primeira e única descendência. O menino veio à luz e o general Resoluto, impassível, espreitou o berço, mais inspector que parente:
- “Hum!”
E mais nada, senão essa interjeição seca. Rectilíneo, o general não despenteou nervo. A mulher Rosanita sorriu: estaria 0 marido apenas invisivelmente comovido? A esposa havia sido formada em credo e cruz, um terço da vida no terço. Mal saída da catequese ela catecasou-se. Rosanita sabia que os homens se comportam, neste mundo, como estrangeiros. A machice é arrogância dos que têm medo, mais excluídos que emigrantes. Só as mulheres são indígenas da vida. Paciente, a esposa ainda negociou com ele um riso:
- “Então, senhor pai?”
Rosanita arredondava os cantos às palavras mas Orolando Resoluto não desenrijeceu. Simplesmente, ajeitou a colcha no berço como se corrigisse a linha de um desenho. Nem um carinho, nem um despenhar de alma. Nada, só aquele gélido olhar de quem passa revista às tropas.
Já em casa, ele recusou dar colo ao estreado filho. A farda era imaculável, inodoável. Haja disciplinas. A mulher muito se sofria com aquele alheamento.
O tempo ia tricotando semanas e o militarão continuava impávido, sem sequer se chegar ao menino. No dia do registo Rosanita impôs obrigamentos de credo:
- “Quero que lhe ponha nome de santo”.
Orolando protestou: havia mandos da tradição, regulamento de família. Depois, o que se impunha era nome guerreiro, não fosse a criança amolecer logo de apelido. E sentenciou heróicas nomeações: Gungunhana, Muzila, Sochangane.
- “Quero nome de santo. Me deixe carinhar esse menino, me favoreça um nome de santo para lhe darmos garantias”.
Cristóvão ficou. Notificado de ternura: Cristovinho. O menino cresceu e foi enchendo a casa de contentações. O general se incomodava e urgia a mulher de pôr cobro às excendentárias alegrias. Cristovinho em tudo inventava brinquedo. O pai se libertava da farda e ele, instantâneo, pegava as solenes medalhas e as pendurava em desrespeitosos lugares.
- “Deixe, Orolando. Ele só está dar riso ao metal”.
Volta e não-volta, o menino laçava os bracinhos no paterno pescoço. Nordicamente, o general rompia o abraço. Mas quanto mais afastava o filho mais ele se chegava. Até que o miúdo cresceu a ponto de aniversários. Começava o serviço da infância, voz e riso solares. Aquela alegria não tinha companhia do pai. A mãe sempre rezando para que o marido se detivesse um simples instante de ternura. Ao menos o santificado nome do miúdo operasse em Orolando um desatendido milagre. Em vão.
Certa tarde, o menino desapareceu. Perdido no jardinzal da frente, fugido da mão da tia. A mãe chamou o marido em aflição, avisando-o da tragédia. O general fez subir nos ombros as divisas. Resgatar o miúdo era missão de honra. Na falta de guerra há que inventar outros belicismos. E saiu, no encalço da procura.
Depois de muito voltear, Orolando encontra o menino junto dos falecidos balouços. Cristovinho persegue um balão vagabundo. O pai, vigoroso, intende encher o balão de imediatos furos. Com raiva, o balão lhe escapa e sobe, matreiro. Rodopiou no ar, o militar salta, as medalhas se soltam e tombam com tilintes e requintes. O menino despercebe: acredita que o soturno pai, finalmente, se decidiu a brincadeiras. E junta-se aos saltos do pai, deflagrando risos. O general em fúria dá voz de comando ao balão. E quando já crê ter o brinquedo domado, misteriosa brisa o faz soltar e ressubir em livres cambalhotações. Até que o general em fúria saca da pistola e dispara. O primeiro tiro desconsegue. No segundo tiro, o balão subita-se, deflagrado. Com o susto, o menino cai e fere o rosto numa pedra. O sangue ingénuo e inocente enche os lenços do pai. O militar, num momento, se aflige e recolhe o menino nos braços. Cristovinho se aconchega no colo dele e assim se deixa até chegar a casa, já adormecido.
No portão, a mãe espera, atarantonta. O pai abre alas e conduz a criança, dormida, ao leito. A mãe segue atrás, as mãos se recolhendo uma na outra como pássaros cegos. Vê o general sentar no leito do menino e debruçar cuidados, quase paternos. Rosanita sonha que esse momento é a terna eternidade, fracção de paraíso. E dá graças aos céus pela visão.
Nessa noite, o general é que levanta para espreitar o sossego do menino. Dia seguinte, ele chega mais cedo do serviço e acorre ao quarto para olhar o filho. E assim toda a semana: Orolando Resoluto escapa do quartel e entra em casa, urgente, sem cumprimentar esposa nem parar no televisor. Vem ver o filho, escutar suas brincriações. Fim da tarde, ele pega a mão do menino e vai passear com ele, compra-lhe doces, mimos.
A mulher contenta-se, crendo em milagre. Mesmo que Orolando, agora, apenas lhe preste desatenções. Não é só ela a alheada. O general vai amolecendo a ponto de esquecer as invioláveis obrigações. A carreira de militar está agora descarreirando. Um dia, distraído, entrou no quartel ainda envergando a máscara com que brincava.
As botas, outrora intocáveis, agora são divertimento. As medalhas servem de imaginários veículos, carregados de pedrinhas e poeiras. Certa manhã, Resoluto estende um bilhete à mulher e lhe pede que faça entrega dessa mensagem no quartel.
- “Está escrito que eu não vou, estou doente.
- “Verdade, mando?
- “Não. Eu quero só ficar com Cristovinho”.
Essa manhã faltou ao serviço. Outras manhãs, idem. Ao pouco e pouco ele se inseparava do menino, se distanciando das militares obrigações. Até que, definitivamente, se demitiu, prescindindo de carreira, acumuladas honras, engomadas memórias.
Agora, Orolando Resoluto só fica em casa. Se transferiu de vez para o quarto do menino. Dormem juntos, pai e filho, abraçados em bonecos. O ex-general adormece fetal, meninado. Tal pai, fatal filho. A mulher entra no quarto, noite alta, e aconchega o sono de seus dois meninos.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra