17/08/2010

A princesa desencantada

Quando alguma vez, em sonho ou viagem, voltar àquela terra, não poderei esquecer a história que certa tarde lá ouvi. Contou-ma um ancião, de olhar profundo e barba ruiva, à hora em que me deu para subir ao ponto mais alto da cidade e ver de lá as grandes torres espelhadas na água do rio que ali corre – rio de lágrimas que uma princesa, um dia, então chorou.
Em tempos, este reino fora terra de encanto.
Deixou de o ser a partir do momento em que o rei mandou prender a filha, na mais fortificada masmorra da cidade, por ela achar infame a servidão em que viviam os súbditos do reino.
— Esta é a história de Tristália — resmoneou o velho — e, como todas as histórias, não é uma história perfeita: o fim parece o princípio e quem uma vez a ouvir logo pedirá que ninguém a volte a repetir.
Fitando a mão trémula que apontava na direcção do rio, vi o desconhecido entrever o lugar onde se erguia a fortaleza em que a filha do rei vivera encerrada. Então ele contou:
Desencantada, como a princesa, com a maldade que, às ordens do rei, cumpria lei, Tristália deixou de ser terra de amor.
Dia e noite, a princesa não parava de chorar. Recomendavam-na às cortes, os nobres, convidava-a o clero a arrepender-se, mesmo temendo que sobre o povo desabassem novas iras do rei.
O mais arrasador dos desencantos, porém, devia-se ao modo com que o rei Severo, seu pai, tratava a rainha Edwiges, sua mãe.
Escandalizavam-se os chanceleres, o episcopado, a nação. De banquete em banquete, o rei Severo é que não.
Por desígnio divino iluminada, resolveu a princesa pôr fim à humilhação.
Qual segredo de estado, determinou sem demora escapar-se da prisão, correr mundo, revoltar-se como só o faz quem tem razão.
Como mais vale fuga que espera, assim foi. Em semanas, conquistou as boas-graças do guarda-mor Epaminondas, logo obteve a sela dum fogoso cavalo alazão.
Do tesoureiro Sigesmundo, em poucos dias, elevada quantia em peças de oiro.
Do camareiro Malaquias, em horas, uma poderosa espada de dois gumes.
Planeada a evasão, antes fugir que ficar mal.
Não ia ainda longe o cavaleiro embuçado, de armadura e espada em riste, e já um mensageiro, ao serviço do rei, passava aviso por terras de província e lugarejo.
Entraram as tropas em estado de alerta. Povoaram-se de espiões os postos de fronteira.
Um capacete de sombra abateu-se sobre o rosto dos soldados entrincheirados nas esquinas.
À saída da cidade, um mendigo, que acorrera ao som de tão ligeiro trote, interrompeu:
— Onde vos leva esta pressa de viver, senhor do cavalo alazão?
Deixou-lhe o cavaleiro idade a menos, que outra coisa não tinha ali na ocasião!
Fugia de si mesmo, não do mundo, o cavaleiro, atrás de si deixando um rasto de miséria e escravidão.
De uma casa em ruínas saiu, de filho ao colo, uma mulher a quem a guerra encontrara vazio o coração:
— Quem feliz fará, um dia, Senhor meu, todo o oiro que levais?
Deixou-lhe o cavaleiro o sol e a lua, que mágoas há na vida que não esquecem mais.
Entretanto, podia alguém adivinhar quem, assim disfarçado, segredava às ervas do caminho quantas vezes subidas honras, por muito que se diga, desonras são?
À porta de um albergue, uma criança, fascinada pelo anel de luz que, na corrida, cavalo e cavaleiro lanço a lanço envolvia, fê-los estacar:
— Se na tua espada, Rosa Peregrina, a vontade do povo assim confia, por que não voltas de pronto ao Palácio onde o terror da noite, em boa hora se fez dia?
Deu meia-volta o cavaleiro que de si tanto fugia. Aclamado nas ruas de Tristália, juntou-se o foragido aos Pares do Reino, que já nas cortes buscavam herdeiro entre os bastardos que, do rei Severo, então havia.
Largado o manto, aos pés, ninguém ousou dizer que aquele misterioso cavaleiro a coroa não merecia.
— Não há outro encanto — comentou o velho, emocionado — senão o que põe fim à reinação que os reis tiranos, quase sempre, espalham por servidão gratuita ou por mania.


Vergílio Alberto Vieira
O Livro dos Enganos
Lisboa, Editorial Caminho, 2002