29/08/2010

O rapaz e o preconceito

A cabine telefónica estava temporariamente fora de serviço. Zangado, o rapaz deu um pontapé à porta e gostou de ouvir o barulho que provocou. Chovia a cântaros e o anoraque estava encharcado.
Voltou a montar na bicicleta e foi à procura da cabine mais próxima. Estava alguém lá dentro. Assim que chegou mais perto, viu que era um imigrante. Deu-lhe mais dois minutos e depois bateu à porta.
Só que o imigrante não fez menção de parar o seu telefonema. Abriu um pouco a porta e fez sinal ao rapaz para entrar.
O rapaz encostou a bicicleta à parede amarela, ao lado, e entrou. Não estava com medo nenhum do imigrante. Eles, os imigrantes, é que podiam ter medo dele. Afinal, era um ginasta de primeira classe e também sabia boxe. Além do mais, tinha um canivete. Não era grande nem aguçado, mas quando brilhava, metia medo.
O rapaz não conseguia perceber em que língua o homem falava. Talvez turco, talvez servo-croata. O homem falava muito depressa. O rapaz estava admirado que alguém conseguisse falar assim tão rápido, mas provavelmente só soava rápido aos ouvidos dele.
O homem afastou o cabelo da testa do rapaz e estendeu-lhe um lenço que tirou do bolso interior. O rapaz pegou mesmo no lenço e secou a cara e as mãos. O estrangeiro exalava um cheiro agradável.
Por acaso, ele fazia outra ideia dos emigrantes.

Elisabeth Alexander

Hans-Joachim Gelberg
Die Erde ist mein Haus
Weinheim, Belz Verlag, 1988