02/08/2010

O mundo começa aqui

À Maria Alberta.


A chuva separara a luz com grossos cordões que desciam das nuvens e se prendiam à silhueta das pessoas, raras, que se encontravam. Mas, depois da chuva, veio a pausa amena em que a Terra e o ar se harmonizaram. O pai disse para a menina: Veste o casaco. Vamos passear.
Então, rua fora, com a mão na mão do pai, a menina caminhou em pequenos passos saltitantes. O cachecol branco que levava era uma mancha de luz, um fragmento da Via Láctea. Clara. Esvoaçante. Os caracóis louros uma auréola de alegria no vento discreto e húmido da tarde.
Atravessaram ruas e casas, cruzaram-se com pessoas e animais, depois entraram no campo onde a Primavera próxima já perturbava os aromas e fazia espreitar as primeiras flores.
A menina ria, conversava muitas coisas, conversava sempre e ao pai, lá em cima, tudo isso chegava como um som de chilreios, música de pássaros.
Era bom passear assim, no dia lavado, por entre árvores e gente e flores, sentir as botas molhadas e este cheiro tão bom e inicial, de terra húmida a pedir sementes. Era bom, levar pela mão esta criança curiosa, ávida de descoberta, para quem tudo era uma festa prometida e inesgotável. Era bom, pensava também a menina, caminhar com a mão deste homem-pai, alto como um gigante. A mão era quentinha e macia; era forte e doce e o perfume discreto a tabaco que dela se desprendia era um perfume de pai, único e para sempre. Tão bom! E respirou fundo e encostou mais o rosto dourado àquela flor de cinco pétalas fechadas onde se sentia protegida.
Andaram mais.
Andaram toda a tarde pelas pequenas veredas, pelos verdes caminhos onde as gotas de chuva punham reflexos e frescura.
A certa altura, o pai parou para acender um cigarro e libertou a mão da criança. À sua frente, ali mesmo junto aos pequenos pés, havia uma poçazinha de água que a chuva deixara. Era um círculo mínimo, mas estava ali, à sua frente e fechava-lhe o horizonte, interrompia-lhe a aventura.
Sem a mão do pai na sua mão, o obstáculo tornara-se intransponível.
Puxou-lhe várias vezes pelo casaco e, quase a medo, sussurrou, perplexa pela imensidão daquele mar tão súbito:
«Ó pai, o mundo acaba aqui?»
Foi então que lá em cima os deuses se sorriram e enviaram para coroar esse instante, um arco-íris com todas as cores da poesia. Que a menina ainda conserva no olhar e já lá vão tantos anos.


Maria Rosa Colaço
Não quero ser grande
Lisboa, Ed. Escritor, 1996