17/07/2010

O menino que voltou a sorrir

Guardavida era um país onde outrora as pessoas tinham gostado de viver. Tanto o clima como a geografia pitoresca, bem como a boa disposição dos seus habitantes, tinham lá atraído, fosse Verão ou Inverno, muitos viajantes provenientes de todos os países. Mas, não se sabe bem porquê – a inveja tendo sido, sem dúvida, uma das razões – Guardavida conheceu em poucos meses uma das piores catástrofes que um país pode sofrer: os homens tornaram-se inimigos uns dos outros!
O pequeno reino de Guardavida foi, primeiro, saqueado e destruído por duas potências rivais, que o disputaram entre si. Conheceu, seguidamente, uma horrível guerra civil, que acabou por arruinar tudo o que restara do conflito anterior. Depois do ódio e a miséria terem cumprido o seu papel, os habitantes mergulharam num profundo desespero. O rei perdera a esposa e três filhos nos conflitos, e decretou luto nacional por tempo indeterminado.
Que turista quereria agora visitar as cidades arrasadas, os campos devastados e as estâncias balneares destruídas? Quem poderia rir ou divertir-se com uma população de refugiados, desencantados e resignados, que se havia até esquecido de que a felicidade existia?
Acontece que, uma noite, uma sentinela encarregada de vigiar as praias orientais de Guardavida se apercebeu de uma sombra estranha no declive de uma duna. De arma na mão, aproximou-se, sem fazer barulho, e ficou estupefacta com o que viu.
Deitado na cratera que uma bomba deixara na areia, estava um menino vestido de farrapos. O soldado rastejou até ao local e viu, apesar de estar muito escuro, que a criança estava viva. De mãos atrás da nuca, com os joelhos flectidos, o menino sorria ao contemplar o enorme céu negro, no qual despontavam um crescente de lua e as primeiras estrelas.
O guarda observou a cara do menino durante um longo minuto e, depois, com a rapidez de um relâmpago, saltou para junto dele, apontando-lhe a arma.
— Alto lá! — gritou a sombra debruçada sobre a criança que, entretanto, se pusera de joelhos, com o coração a bater fortemente.
— Alto lá! — gritou de novo o soldado, como se o menino fosse fugir. — Põe-te de pé, pequeno verme! Há mais de um minuto que te vejo a sorrir!
— Eu… eu não estava a fazer nada de mal — balbuciou a criança.
— Toca a andar! Não passas de um pequeno verme sorridente! — gritou o soldado, dando-lhe golpes de bastão nas costas.
— Não… não sou um inimigo, não sou um estrangeiro — tentava explicar a criança, que caminhava agora rapidamente, com as mãos no ar.
— De Guardavida não és, porque sorris de noite, às escondidas. És um verme que não respeita o nosso luto nacional, um foragido que troça da nossa mágoa e dos nossos mortos!
— Mas… mas… eu estava a sorrir sem me dar conta — dizia o menino, já sem fôlego. — Sorria por causa do primeiro crescente de lua: os meus lábios imitaram a sua forma. Sorria porque a areia está morna e a noite é suave…
— Como? Morreram milhares de Guardavianos nestas praias, a defender a sua pátria. Estas dunas, crivadas de bombas, de balas e de granadas, ficaram juncadas de cadáveres!
E o soldado bateu com força na cabeça do menino, que caiu por terra. Mas em breve se levantava, segurando um punhado de areia na mão.
— Veja, veja como esta areia é morna e suave e…
Quando o soldado se preparava para bater de novo na criança, esta atirou-lhe a areia aos olhos e desatou a fugir.
O menino correu pela noite dentro até ao alvorecer. Embora há muito estivesse fora do alcance do soldado, sentia-se inquieto. Resolveu refugiar-se durante o dia numa pequena floresta de bétulas prateadas, e voltar à estrada ao anoitecer.
Começou a avançar pela floresta dentro, guiado pelo murmúrio da água que deslizava sobre os seixos. Acabou por se sentar na margem de um pequeno riacho que se divertia a serpentear por entre os salgueiros. A luz desta manhã de Abril penetrava através das folhas cor de amêndoa e fazia brilhar os troncos das bétulas. Milhares de estrelas reluziam na superfície da água.
A criança, que, em silêncio, desfrutava do espectáculo sempre novo da água, do ar e da luz, maravilhou-se com o aparecimento fulgurante de um guarda-rios. Era como se quatro anos de guerra tivessem poupado este pequeno paraíso no coração de Guardavida. Como se as andorinhas, os tentilhões e os chapins que chilreavam e saltitavam nunca tivessem ouvido o troar dos canhões, o zunir das balas, o estertor dos moribundos e as queixas dos sobreviventes. Aqui, a água que brotava de uma nascente pura e corria sobre os seixos continuava a ignorar a cor do sangue.
A criança, exausta, deitou-se no musgo e acabou por adormecer, embalada pelo canto dos pássaros. Ao adormecer, sorria para os anjos do céu azul. Desta vez, não foi uma sentinela mas uma patrulha inteira que o acordou, em sobressalto. Através da luz ofuscante do sol do meio-dia, a criança conseguiu distinguir seis rostos ameaçadores debruçados sobre ela.
Momentos depois, de mãos atadas e boca amordaçada, o menino foi conduzido à cidade mais próxima e atirado para um calabouço sombrio. Passaram-se dois dias e duas noites intermináveis, durante os quais, a criança, cheia de fome e com o corpo pisado, só não sucumbiu ao desespero porque pôde respirar o cheiro de uma glicínia, que se estendia pela parede exterior da prisão.
Na manhã do terceiro dia de encarceramento, trouxeram-lhe finalmente um pouco de pão e água, e fizeram-no comparecer, em seguida, perante os juízes. Numa sala enorme, com paredes de pedra, três homens com vestes compridas debruadas a arminho branco estavam diante dele, enquanto uma multidão cinzenta e agitada murmurava nas suas costas.
— Estrangeiro! — começou um dos juízes. — É acusado de ter entrado ilicitamente no nosso país, de ter agredido um dos nossos guardas fronteiriços e, sobretudo, de ter desrespeitado, por duas vezes, o luto nacional decretado pelo nosso soberano, mostrando assim o seu desprezo pela dor e mágoa dos nossos concidadãos. É uma ameaça para a paz do nosso reino e incorre na pena capital, reservada para os traidores à pátria. Reconhece todos estes factos?
— Mas — respondeu a criança — eu nasci em Guardavida, há dez anos, mais ou menos, e…
— Admito que pareces conhecer a nossa língua — interrompeu o segundo juiz, sentado à direita do primeiro — mas quem pode provar que és um Guardaviano, se não encontramos nenhum documento de identificação na tua roupa esfarrapada?
— Todos os meus haveres foram-me roubados há dias, quando dormia ao relento. Os meus pais deviam ter o que procurais, mas foram mortos num bombardeamento há três meses.
— Mentes! — interrompeu secamente o terceiro juiz. — Se os teus pais tivessem morrido num bombardeamento, não sorririas durante o sono.
A multidão soltou uma exclamação de espanto.
— Mas eu senti uma grande dor quando os meus pais foram mortos, e continuo a sentir uma pena imensa. Às vezes, choro sozinho, com o estômago contraído, e cerro os punhos para não gritar…
— Quando tentaram prender-te na costa oriental, a sentinela assegura que sorrias sozinho e que troçavas da morte recente dos teus pais!
— É que, quando penso nos passeios que dei com o meu pai, quando me lembro das suas brincadeiras, quando revejo os olhos da minha mãe e me dou conta do tesouro que eram os beijos que me dava antes de dormir, o meu rosto ilumina-se de felicidade.
— Não negas, então, que és incapaz de respeitar o nosso luto. Seis testemunhas ajuramentadas viram-te sorrir para os anjos, no dia a seguir ao teu primeiro delito!
— Estava contente — disse a criança — por ouvir os pássaros cantar e o rio murmurar por entre os seixos. A descoberta dos primeiros lírios de água, o perfume de uma flor selvagem, aqueciam o meu coração. Às vezes, esqueço-me da minha tristeza quando vejo o sol brilhar na água ou brincar com as nuvens. Gosto de ver o vento acariciar as ervas ou dançar nos ramos dos salgueiros…
Um longo murmúrio elevava-se agora da multidão, como se as suas palavras tivessem despertado nas pessoas surpresa, consternação e cólera.
— Basta! — disse o primeiro juiz, batendo com o martelo na secretária. — Esta criança clandestina que reconhece os seus crimes perturba a ordem pública. Condenamo-la à forca, como fazemos a todos os traidores de Guardavida!
Segundo os costumes de Guardavida, todos os condenados à morte eram conduzidos diante do soberano, na véspera da execução, a fim de beneficiar, eventualmente, de um perdão real. Infelizmente para o menino, o rei, depois que perdera a família, nunca mais acordara um perdão a nenhum acusado. Era como se a dor tivesse destruído nele, para sempre, qualquer sentimento de compaixão. Se ainda aceitava participar nesta cerimónia macabra, era mais para respeitar um costume instituído pelos seus antepassados do que para salvar a vida de algum miserável.
De facto, quando o rei se dignava olhar para alguns dos condenados, via sobretudo neles os assassinos da sua família. Se pudesse, em vez de lhes conceder algum perdão, ele mesmo lhes cortaria o pescoço. Foi pois com uma esperança assaz diminuta que a criança foi conduzida diante dele, acompanhada por uma dúzia de prisioneiros. Sentado numa grande sala do palácio, num trono de ébano, o rei estava absorto nos seus pensamentos sombrios.
A sua única filha ainda viva estava sentada a seu lado e acariciava os cabelos dourados de uma boneca de porcelana. Quando os condenados entraram e foram conduzidos até ele, o rei levantou os olhos, e o seu rosto imóvel foi-os olhando, um a um, sem trair a menor emoção. Era como se os olhasse sem os ver. De repente, quando pousou o olhar sobre o menino, o seu corpo ficou hirto, soltou um grito de cólera e os seus olhos revelaram um furor terrível.
— Insolente! Traidor! Anarquista! Como ousas, diante de mim, desprezar as minhas leis, violar o nosso luto e profanar a memória da minha própria família?
— Perdoai-me, Senhor, perdoai-me. Não queria ofender-vos nem faltar-vos ao respeito, mas a vossa filha…
— Como te atreves? — espumava o rei.
— A vossa filha tinha um ar e uns olhos tão tristes que não pude impedir-me de lhe sorrir quando os nossos olhares se cruzaram… É mais forte do que eu, vem-me do mais profundo da alma e…
Mas o rei deixara de o ouvir. Observava, maravilhado, a filha, o seu único descendente vivo, a sua única consolação, uma reclusa da tristeza há já tanto tempo. A filha sorria para a criança que ia morrer.
Passou-se uma eternidade, e todos, guardas, senhores e condenados, ficaram suspensos da reacção do rei. O que viram então foi um autêntico milagre!
O rei, desarmado, estupefacto e hipnotizado, não conseguia desviar o olhar do rosto da filha. Pouco a pouco, começaram a ver os seus lábios a tremer e uma lágrima a correr do seu olho direito. Sorriu, emocionado, para a princesa. Um murmúrio percorreu a assembleia e logo uma alegria muda tomou o lugar do mais profundo desespero. Um sorriso partilhado e tranquilo emergiu da dor e das mágoas e contagiou todos quantos estavam presentes na sala.

EPÍLOGO
O termo do luto nacional foi decretado naquela mesma noite; os treze condenados à morte, entre os quais a criança, foram agraciados e soltos.

A história não diz o que aconteceu ao rei, à princesa e ao menino. Sabe-se apenas que Guardavida se tornou de novo um país hospitaleiro e acolhedor, onde dá gosto viver. Sabemos também que não há dor nem desgosto tão intensos e violentos que não possam vir a ser consolados, que não possam ser redimidos pela vida sempre nova e apaixonante que nos espera.


Jean-Hugues Malineau
L’enfant qui retrouva le sourire
Paris, Albin Michel Jeunesse, 1999