10/07/2010

O baralho erótico

Em sua maior parte, o matrimónio é um maltrimónio. Os dois pensando somar, afinal, se traem e subtraem. Era o caso de Fula Fulano mais sua respectiva Dona Nadinha. O homem era um vidabundo, formado nas malandragens. A mulher era muda durante o dia. Mesmo que pretendesse não lhe saía palavra. Só de noite ela falava. No resto, se arredava, imóvel de fazer inveja às plantas. Se sentava a desfolhar fotos e postais.
Nadinha vivia por fotografia, sonhava por interposição de imagens recortadas em revistas. Coleccionava retratos, cromos, postais. Ficava horas contemplando as figurinhas. Assim, ela se desconhecia, desaparecendo de si mesma, invisibilizando a vida. De noite é que ela pegava o trabalho, desfiava horas de canseira. Em cada intervalo, mínimo que fosse, ela sacava da colecção das fotografias e se sentava. Se enamorava das mulheres das capas, que lindas, nem transpiram, nem enrugam com os tempos.
- “Não existe uma foto em que saia o mundo?
“Existe, existe”, anuía o marido em sono. “Coitada, a mulher. Devia ser que apanhou de mais, tenho que abrandar a socar a. Eu lhe bato não é desamor, é só porque você é uma criança, entende Nadinha? Está ouvir, Nadinha?” Ela não entendia, parvinha que era, olho pregado nas fotos. Ou será que esperava a noite para emitir resposta? Mas ele, de noite, não estava. Saía, remeloso, pelas barracas, se atestando de tontonto até se apoisar em mesa de jogo e bater cartas.
Certa madrugada regressou afadigado das jogatanas, acumulado de azares e divida. Raio das cartas, raio da vida! Ficou remexendo as cartas, como se repreendesse os dedos de não terem sabido extrair vitórias e ganhos. Desgostosa, Nadinha espreitou o baralho: as cartas exibiam fotografias de mulheres nuas. A mulher acenou em reprovação:
- “Que vergonha, parece nem tem esposa, você!
- “Que vergonha o quê! Tomara-se você ultrapassar os calcanhares de qualquer destas.
- “Sabe o quê? Sinto pena mas não de mim.
- “Acabou-se, mulher. Esta noite não quero barulheiras!”
Mas ela, entre panelas e panos, se estridentou, numa quinquilhação de rasgar orelha. Fula Fulano nem avisou: assentou logo uns tantos e quantos sopapos na mulher. Como que ela caiu, ficou. Toda em silêncio, lhe escapavam lágrimas e sangues. Os líquidos eram rios que caminhavam junto. Logo o marido percebeu: ela só deixaria de sangrar se parasse de chorar. Em acesso de pena, ele lhe pediu:
- “Se deixar de chorar eu prometo... prometo que nem nunca mais vou sair para jogar!”
Ela lhe olhou, sem crédito. Seu olhar era irreal, faz conta seus olhos figurassem no mortiço papel de revista.
- “Eu juro, Nadinha. Pare de chorar que vou ficar aqui todas as noites, a lhe fazer um bocadito de acompanhia”.
Na seguinte noite, ele ficou. Mandou recado aos companheiros das jogatanas a dizer que não ia, estava indisposto. Mesmo sendo noite, Nadinha rodopiou sem falar. Posto perante o silêncio dela, o homem ficou num canto a desfolhar as revistas que ela tanto estimava. De quando em enquanto, soltava risadas, se esmilhofrava da mulher. Era aquilo que tanto derretia o coração dela? Ainda fosse mulheronas dessas de arrebentar botões. Falou só, até que se fartou.
- “Não quer falar-me, mulher?”
Ela respondeu, em vago tom, estranhas palavras. Que sim, mas ela queria era conversar com a mulher que estava dentro dele. Assim que falou, apanhou logo uma chapada.
- “E nem pense em chorar! Pois que, da última vez, com essa porcaria de sangue e ranhos você quase me estragava o baralho das gajas descascadas!”
E foi um relampejamento. Rápido, o homem deitou a promessa para as traseiras. O prometido não é de vidro? E, logo-logo, se fez à rua para recuperar o quanto da noite já perdera. Ainda por cima, ele tanto reclamara vingança sobre o que perdera. Essa noite, os cabrões haviam de ver. Azar no amor, sorte aonde?
Chega à barraca, se senta em firme silêncio. Os jogadeiros estranham seus modos bruscos. Fula Fulano baralha as cartas disposto, como ele proclama, a enrabar valetes e descuecar damas. Com os nervos, lhe tomba uma carta. Um que apanha a carta e se espanta. Nem querendo acreditar, passa a carta aos restantes. Cochicham. Os amigos passam a fotografia de mão para mão, gozando e rindo. Até que um deles guarda a carta e todos se arrumam sérios e graves. Fula Fulano, estranhando os modos, pergunta.
- “Não é nada, Fula. É só uma dessas gajas que aparece nas costas das cartas.
- “Mostra!
- “Deixa lá esta merda. Continua a baralhar, Fula.
- “Eu quero ver essa carta”.
O outro, com voz de funeral, diz:
- “É melhor não, você”.
Saltando sobre o tampo, Fulano arranca a carta. Seu juízo deu o salto mortal, todo despenhado naquela visão. Quem era a gaja? Nadinha! Sim, Nadinha, sua esposa, toda cascadinha, como o mundo lhe recebeu. Fula Fulano desejou o buraco final.
Saiu, de espuma e raiva. Foi direito a casa, mãos nos bolsos com tais fúrias que estrilhaçava o baralho. Chegou a casa, demorou-se um momento na porta. Sacou da carta onde a Nadinha se descamava em carnes. Lhe subiu uma fervura, sangue adentro, irrompeu pela casa e se dirigiu, certeiro, para o leito onde a mulher dormia. E desatou a beijá-la com paixão que nunca tanto dele emergira.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra