03/06/2010

O novo padre

O engenheiro Ludmilo Gomes entrou na igreja cheio de feição. Cabelo bem grenhado, engargalado de fato e gravata. Marchava mais que aspectuado, todo enfeitado de si. Abriram-lhe alas, estava-se à espera dele. Pelo menos, Ludmilo sentiu-se como sendo esperado. Sorriu. Atrás dele, com passos míopes, se apressava o secretário Olinto Machado. E foi ele que soprou, roçando a nuca do recém-chegado:
- Temos um novo padre, senhor engenheiro.
Ludmilo não cedeu importância. Ali, em pleno mato da colónia de Moçambique, os padres iam e vinham. A vila era um desamparadeiro, lugar de além do fim do mundo. Ou talvez fosse o clima que suscitava os homens a pecarem. E até os padres não resistiam à luxúria que os trópicos suscitavam. Mais engenhoso que engenheiro, Ludmilo Gomes governava-se com suas próprias leis. Essa era, provavelmente, a maior vantagem de viver longe do governo central, esfumado lá na longínqua metrópole. Mas essa autonomia não colocava em causa as suas obrigações religiosas. Com ou sem padre, o português mantinha-se praticante, obediente a Deus.
Momentos antes, quando ainda cruzava a manhã para se encaminhar para os dominicais deveres, o português deu conta de que algo anormal se passava na pequena vila. Contrariamente ao habitual, alguns negros se juntavam no bairro dos brancos. À entrada da casa de Deus, havia mesmo uma aglomeração de camponeses que rodeava o canhão que ali se posicionara, desde que começara a guerra. Os homens empurravam o canhão para fora do pátio.
- Para onde raio levam isso?
- Não estamos a levar. Só estamos a tirar lá para longe da igreja.
- Quem vos mandou?
- O senhor padre.
O engenheiro ainda hesitou em tomar as contramedidas. Atrasado que estava, optou por fazer isso mais tarde. Obediência do negro de que vale se é sempre falsa?
Esse era o suspiro do colono. Em África tudo é outra coisa: a mansa crueldade do leopardo, a lenta fulminância da mamba, o eternamente súbito poente. E isto era o que se dava a ver, junto ao benzido espaço da vila. O que dizer desses iletrados matos, terras que nunca viram cruz nem luz?
Já no interior da capela, Ludmilo suspirou aliviado. Na igrejinha estavam só brancos. Não era que ele fosse racista, insistia ele. Mas era sensível aos cheiros. Nessa manhã, os seus compatriotas soslaia-ram a sua chegada. E viram-no aproximar-se do altar e tomar posição para receber a hóstia.
Foi então que ele espetou a língua. As senhoras viraram a cara, recatadamente. Diziam as madames, nas resguardadas conversas do clube, que nunca se vira língua tão excessiva. Os homens comentavam à boca pequena sobre o modo despudorado como, por dá cá nenhuma palha, o engenheiro alardeava publicamente a língua. Não deveria ele ter outro exibível músculo, rematavam.
De joelhos frente à cruz, Ludmilo permaneceu longos e húmidos minutos, de língua exposta, até que o secretário lhe bichanou:
- Não vale a pena, senhor engenheiro. Não há hóstias.
- Como não há?
- Dizem que a farinha foi distribuída para outros fins. E dizem que, doravante, vão passar a fazer hóstias com farinha de mandioca...
- Onde está o padre?
O secretário nem falou: apontou para o confessionário. Ludmilo ergueu-se e aproveitou o caminho que se abria perante ele. Com altivez se ajoelhou no confessionário. Um homem superior tem que saber ajoelhar-se de modo a que não pareça submissão. O engenheiro inclinou-se até quase tocar com a cabeça na janelinha de madeira. Mesmo na casa de Deus, as paredes gostam de escutar. Ainda sorriu, ao de leve, recordando o último padre que era surdo e fingia escutar as confissões. Poderia Deus falar por sua boca, mas certamente que não ouvia pelas suas orelhas.
Desta vez, Ludmilo calculou a intensidade da fala. No início, até teve que se repetir: as palavras se mastigavam umas nas outras, as consoantes canibalizando as vogais. A eloquência do engenheiro se remelava. Finalmente, o discurso se aclarou. Que tinha pecado, tinha entrado numa cubata seguindo uma moça preta que ele há muito tinha fisgado.
- Continue, meu filho - encorajou o padre.
Essas pretas, não sei o que têm. A gente, de um lado, tem-lhes asco, sabe-se lá se estão lavadas, que doenças nelas se escondem. Por outro lado, os corpos delas saltam da natureza e agarram-nos pelos... entende, senhor padre?
- Não entendo.
Claro que não podia perceber. Era como perguntar ao chacal se tinha apreciado a alface. O engenheiro prosseguiu a narração do pecado: porque a coisa, nessa noite, tinha corrido mal. Estava assaltando a moça, e ela resistia. Ou melhor, fazia de conta que resistia, a malandra, qual a pretita que não quer ser... como direi, senhor padre, não quer ser possuída por um branco?
- E depois, o que aconteceu?
O pior ainda não revelei, padre. É que, no meio da luta, entrou na palhota o irmão da moça, chamado pelos gritos dela. O rapaz num ápice se lançou sobre a cama onde nos debatíamos. Pensei que me ia agredir. Mas ele, coitado, queria era bater na irmã por ela estar criando um conflito comigo. Sem entender, lhe atirei com um ferro. Dizem que foi aquilo que o matou. Mas eu acho, sinceramente, que ele já devia ter qualquer problema. Não se morre assim, o senhor sabe como os africanos são vítimas de maleitas e feitiços.
O português calou-se, espreitou em redor para confirmar o sigilo da confissão. Tossiu para sugerir que estava apressado, o dolente joelho parecia espreitar-lhe pelos olhos.
- Quantas orações devo rezar, padre?
- Nenhuma.
- O senhor me absolve? Deus me perdoa?
- Quem o absolve não é Deus, meu filho.
- Como não é Deus?
- Deus está cansado de ouvir. O demónio, foi o demónio quem o escutou. E de lá, do meio do Inferno, é o demónio quem o esta abençoando.
O engenheiro sentiu um calor entontecer os seus interiores. Os óculos, derretidos, descaíram pelo rosto. Assim, em desfoco, olhou a multidão como que uma desconformada espuma. Foi então que viu o padre sair do confessionário. Fosse a tontura que lhe dava, mas o coração, de um golpe, se confrangeu: o missionário era preto, retintamente negro.
Como se fosse vindo de um outro tempo, escutou o ranger das rodas do canhão. E depois, ouviu pés descalços cruzando os passeios do bairro branco. Em seguida, o silêncio. Ludmilo ainda sorriu. Seria um sorriso? Se o silêncio é sempre um engano: o falso repetir do nada em nenhum lugar. E em África tudo é sempre outra coisa.


Mia Couto, O Fio das Missangas