21/03/2010

O aniversário da infanta


Era o dia do aniversário da infanta: completava doze anos, e o sol brilhava magnífico nos jardins do palácio.
Embora ela fosse princesa real e infanta de Espanha, fazia anos apenas uma vez em doze meses, como os filhos dos pobres; por isso se tornava deveras importante que em semelhante dia o tempo estivesse muito bom, o que na verdade aconteceu. As altas túlipas raiadas empertigavam-se nos seus caules, lembrando longas filas de soldados, e olhavam com ar de desafio para as rosas, através da relva, como a dizerem-lhes: «Agora já somos tão belas como vocês.» Com pó doirado nas asas, adejavam em torno borboletas cor de púrpura, visitando todas as flores, sem faltar nenhuma. Das fendas dos muros saíam as sardaniscas, e ficavam a aquecer-se à luz esplendorosa. Com o calor, as romãs estalavam e exibiam os seus corações vermelhos e sangrentos. Até os pálidos limões amarelos, que pendiam em profusão entre os encanastrados carunchosos e ao comprido das arcadas sombrias, pareciam haver tomado da claridade fulva do Sol um tom mais rico e mais intenso. As magnólias desabrochavam as suas flores feitas de camadas de marfim, como grandes globos, e impregnavam a atmosfera dum aroma suave e quente.
A princesinha andava cá e lá no terraço, com os seus companheiros, e jogava aos esconderelos de roda dos vasos de pedra e das velhas estátuas cobertas de musgo. Noutro dia qualquer só lhe consentiriam que brincasse com as crianças da sua condição, de que resultava entreter-se sempre sozinha; mas o dia de anos era uma excepção, e o rei dera ordem para que ela convidasse os amigos juvenis que fossem do seu gosto, a fim de brincarem todos juntos. Que majestosa graça nesses pequenos espanhóis, eles de chapéu emplumado e capas curtas esvoaçantes, elas a segurarem a cauda do vestido de brocado, protegendo os olhos da luz muito viva com enormes leques negros e prateados! Mas a infanta era a mais graciosa de todas as crianças, a que estava vestida com maior elegância, à moda um tanto embaraçosa aí época. O vestido dela era de cetim pardo, com a saia e as largas mangas tufadas repletas de bordados de prata e o rígido corpete guarnecido de pérolas valiosas. Quando dava um passo, surgia-lhe de baixo do vestido o sapatinho de enorme laço cor-de-rosa. Deste tom, e também do de pérola, era o vasto leque de gaza; e no cabelo, que lhe emoldurava a facezinha pálida como uma auréola de oiro desmaiado, sustinha uma rosa branca e formosíssima.
Observava-os o rei melancólico, lá duma janela do palácio. Seu mano D. Pedro de Aragão, a quem odiava, permanecia um pouco atrás dele, e o inquisidor-mor de Granada havia-se sentado à sua beira. O rei conservava-se mais triste que de costume, lembrando-se da rainha que lhe parecia ter chegado dias antes da alegre terra de França e que afinal se estiolara já no sombrio esplendor da corte espanhola, morta precisamente seis meses depois do nascimento da filha e antes que houvesse visto as amendoeiras florescer duas vezes no pomar ou colhido o fruto do segundo ano da velha e rugosa figueira que avultava no meio do pátio, agora invadido pelas ervas. Tão grande fora o seu amor por ela que nem suportara que o túmulo lha escondesse: embalsamara-a um físico mouro que em paga desse serviço salvara a vida, condenada já pelo Santo Ofício, ao que se dizia, por ser herético e suspeito de praticar as artes mágicas. Agora o corpo da rainha jazia numa urna envolta em tapeçarias, na capela de mármore preto do palácio, e tal como os frades a trouxeram doze anos antes, naquele tempestuoso dia de Março. Uma vez por mês o rei, embrulhado na capa negra e de lanterna fosca na mão, ia ajoelhar a seu lado, chamando em voz alta mi reina, mi reina! Às vezes, quebrando a rigorosa etiqueta (que em Espanha governa cada acto da vida e até põe limites à dor dum rei) pegava nas lívidas mãos cheias de jóias, e, no desvario da sua aflição, tentava despertar com beijos loucos a face fria e pintada.
Ao ver a infanta saudando, com infantil gravidade, os cortesãos reunidos, ou rindo, por trás do leque, da feia duquesa de Albuquerque, que sempre a acompanhava, o rei evocou de novo a rainha defunta, como a contemplara a primeira vez no castelo de Fontainebleau, quando ele tinha apenas quinze anos e ela era ainda mais nova. Por essa altura haviam ficado oficialmente noivos, com a bênção do núncio apostólico e em presença do rei de França e de toda a corte. Ele voltara depois para o Escoriai, trazendo consigo um anel de cabelo loiro e a recordação de dois lábios infantis que se curvavam para lhe beijar a mão, no momento de entrar para a carruagem. Mais tarde seguira-se o casamento, celebrado à pressa em Burgos, cidadezinha fronteiriça aos dois reinos, e a entrada espectaculosa em Madrid, com a habitual missa cantada na igreja de Atocha e um soleníssimo auto-de-fé, em que cerca de trezentos heréticos, entre os quais muitos ingleses, foram entregues ao braço secular, para serem queimados.
Amara-a, sem dúvida, loucamente, e, na opinião de muitos, em prejuízo do seu país, que se batia então com a Inglaterra pela posse do Novo Mundo. A custo permitira que ela se afastasse da sua vista; por ela esquecera, ou parecera esquecer, os mais graves negócios de Estado. E, com aquela terrível cegueira que a Paixão provoca nos que se lhe entregam, não percebera que as complicadas cerimónias com que se supunha cativá-la só serviam para lhe agravar ainda mais a misteriosa doença de que padecia. Quando ela morreu, ele, durante uns tempos, andou como doido. E decerto que abdicaria, retirando-se para o mosteiro trapista de Granada, se não temesse deixar a infanta à mercê do irmão, cuja crueldade, mesmo em Espanha, era coisa por de mais sabida; até havia quem suspeitasse ser esse homem a causa da morte da rainha, conseguida por meio dum par de luvas envenenadas com que D. Pedro a presenteara quando a cunhada fora em visita ao castelo de Aragão. Ainda depois de expirados os três anos de luto oficial, ordenado em todos os domínios por um edicto régio, o monarca não tolerava que os ministros lhe falassem de novo matrimónio; ao oferecer-lhe o próprio imperador a mão da encantadora arquiduquesa da Boémia, sua sobrinha, ordenou ele aos embaixadores que informassem o seu soberano que o ré: de Espanha estava já casado com a Dor e que, embora fosse uma noiva estéril, lhe tinha mais amor de que à Beleza — resposta que custou à coroa as ricas províncias dos Países Baixos, as quais depressa, a instigação do imperador, se revoltaram sob a chefia; de alguns fanáticos da Reforma.


A sua vida inteira de casado, com as alegrias dos primeiros tempos e o desespero do súbito desenlace, pareciam agora ressuscitar pelo condão da infanta que brincava no terraço. Tinha toda a bela petulância da rainha, o mesmo modo voluntarioso de agitar a cabeça, a mesma curva orgulhosa da linda boca, o mesmo sorriso encantador — de facto, vrai sourire de France — quando erguia de vez em quando o olhar para a janela ou estendia a mãozita a beijar aos soberbos fidalgos espanhóis. Mas o riso estridente das crianças dir-se-ia espicaçar os ouvidos do rei e o sol brilhante troçar impiedosamente da sua melancolia; e um cheiro pesado de estranhas drogas, como as que usam os embalsamadores, parecia corromper (ou era imaginação?) a pureza do ar matutino. Escondeu o rosto nas mãos, e, quando a infanta voltou a olhar para cima, os reposteiros tinham-se fechado e o monarca já não estava ali. Ela então fez um gesto de contrariedade e encolheu os ombros. Achava que o pai a devia ter acompanhado mais tempo, no dia do seu aniversário. Que importavam os estúpidos negócios de Estado? Ou fora àquela soturna capela onde os círios ardiam de contínuo e onde nunca lhe permitiam que entrasse? Que disparate, quando o sol estava tão claro e toda a gente se sentia feliz! Além disso, perderia a corrida de touros simulada para a qual já tinha soado a trombeta, não falando do espectáculo de títeres e de outras coisas deliciosas. O tio e o inquisidor-mor eram muito mais sensatos: haviam saído para o terraço e dirigiam-lhe amáveis parabéns. A infanta sacudiu a cabeça e, tomando D. Pedro pela mão, desceu devagar os degraus que conduziam a uma comprida tenda de seda cor de púrpura, adrede erecta ao fundo do jardim. As outras crianças seguiram-na, observando rigorosamente as precedências: à frente iam as que usavam maior quantidade de apelidos.
Ao seu encontro veio um cortejo de rapazinhos nobres, graciosamente vestidos de toureiros. O conde de Tierra Nueva, lindo menino dos seus catorze anos, descobrindo-se com o à-vontade dum fidalgo de raça e grande de Espanha, conduziu-a solenemente a uma cadeira pequena, cor de oiro e de marfim, colocada sob um dossel, acima da arena. As crianças agruparam-se à volta, agitando os leques espaventosos e falando baixinho umas com as outras, enquanto D. Pedro e o inquisidor-mor se detinham, rindo, à entrada. Até a duquesa (camareira-mor, como lhe chamavam), mulher magra e de feições duras, com golilha amarela, parecia não estar com o seu mau humor habitual: algo de semelhante a um sorriso gelado lhe perpassava pela face enrugada e lhe torcia os lábios delgados e exangues.
Que tourada extraordinária! Mais bonita, pensava a infanta, do que essa verdadeira que ela vira em Sevilha, por ocasião da visita que o duque de Parma! fizera ao rei. Alguns dos rapazes curveteavam em cavalos de pau ricamente ajaezados, brandindo compridas farpas enfeitadas de fitas vistosas; outros iam a pé, agitando capas vermelhas diante do touro e saltando rápidos a barreira quando este os acometia. No que respeitava ao touro, era exactamente como os touros a valer, embora fosse feito de verga e duma pele esticada; às vezes insistia em dar a volta ao redondel, erguido nas pernas traseiras, coisa que um animal genuíno jamais se lembraria de fazer. E quanto a lutar, também não pedia meças a ninguém. As crianças excitavam-se tanto que trepavam para cima das bancadas, ondulavam os lenços e repetiam: «Bravo, touro!» tal como é hábito das pessoas crescidas. Enfim, depois de prolongado combate, durante o qual mais dum cavaleiro foi escorneado e desmontado, o moço conde de Tierra Nueva obrigou o touro a ajoelhar e, obtida autorização da infanta para dar o golpe de misericórdia, mergulhou com tal violência a espada de pau no cachaço do animal que a cabeça deste se desprendeu e mostrou a face risonha do pequeno Lorrame, filho do embaixador francês em Madrid.
Foi então a arena desembaraçada no meio de mui¬tos aplausos e arrastados os cavalos mor-tos, do que se encarregaram dois pajens mouros vestidos de amarelo e preto. Seguiu-se um curto intervalo, e o mestre francês de ginástica exibiu-se na corda bamba; representou-se depois a tragédia semi-clássica Sofonisba, por bonifrates italianos, no palco dum teatrinho expressamente edificado para esse fim. Moveram-se tão bem, foram tão naturais os seus gestos, que no final da peça os olhos da infanta estavam húmidos de lágrimas. Houve uma ou outra criança que chorou a valer e só se calou quando ingeriu guloseimas; o próprio inquisidor-mor, comovido, não pôde deixar de dizer a D. Pedro achar intolerável que simples bonecos de madeira e cera colorida, accionados por cordelinhos, fossem tão infelizes e suportassem tão grandes desgraças.

Veio depois um prestidigitador africano. Trazia um cesto muito grande coberto com toalha; pô-lo no meio da arena, tirou do turbante uma esquisita flauta de cana e principiou a tocar. Daí a pouco a toalha mexia-se e, conforme se tornava mais aguda a música, surgiram duas serpentes amarelas e verdes, que espetavam a cabeça cuneiforme e se erguiam lentamente, balançando-se a compasso como plantas que a água fizesse oscilar num tanque. Os pequenos, contudo, assustaram-se um tanto com esses capelos malhados e essas línguas inquietas, e ficaram mais sossegados quando o prestidigitador conseguiu fazer brotar da areia uma laranjeira, que deu belas flores brancas e ostentou frutos verdadeiros; e quando pegou no leque duma petiza, filha da marquesa de Lãs Torres, e o transformou num pássaro azul que voou em roda da tenda e se pôs a cantar. Nessa altura a admiração e o entusiasmo das crianças não conheceram limites.
Foi também adorável o minuete, executado pelo grupo de dança, composto de rapazes da Igreja de Nossa Senhora do Pilar. A infanta nunca tinha visto essa maravilhosa cerimónia que todos os anos se realiza em Maio, em frente do altar da Virgem e em seu louvor; de facto, nenhum membro da família real espanhola frequentava a catedral de Saragoça desde que um padre louco, que alguns supuseram a soldo de Isabel de Inglaterra, tentara administrar uma hóstia envenenada ao Príncipe das Astúrias. Só, pois, de tradição é que ela conhecia a «dança de Nossa Senhora», sem dúvida belíssimo espectáculo. Os rapazes trajavam antigos fatos da corte, de veludo branco e curiosos tricórnios orlados de prata, sobrepostos de grandes plumas de avestruz; quando se moviam ao sol, acentuava-se-lhes ainda mais a cor trigueira do rosto e o tom negro dos cabelos compridos no meio da brancura ofuscante do vestido. Os assistentes ficaram encantados com a dignidade grave com que eles avançavam e recuavam, consoante a figuração do estilo, e com a graça complicada dos seus gestos lentos e vénias majestosas. Ao finalizar o número, tiraram à infanta os largos chapéus emplumados, saudação a que ela correspondeu com toda a distinção, fazendo mentalmente voto de mandar um círio enorme para o santuário da Senhora do Pilar, em paga do prazer que ela lhe proporcionara.
Avançou então na arena um grupo de vistosos egípcios, como eram designados nesse tempo os ciganos; sentando-se em círculo, de pernas cruzadas, começaram a tanger baixinho as cítaras, movendo o corpo em cadência e entoando no mesmo diapasão uma ária embaladora. Ao descobrirem o vulto de D. Pedro, olharam-no de cenho carregado, e alguns pareceram amedrontar-se, pois havia poucas semanas que mandara enforcar por feitiçaria dois da sua tribo, na praça de Sevilha; mas a formosa infanta, recostada na cadeira e espreitando por cima do leque com os seus grandes olhos azuis, tranquilizou-os e deu-lhes a certeza de que uma criatura assim tão bela jamais poderia ser cruel fosse para quem fosse. Por isso continuaram a tocar com toda a suavidade, mal aflorando as cordas das cítaras com as longas unhas pontiagudas e balanceando a cabeça como se estivessem a cair de sono. De súbito, com um grito tão estridente que todas as crianças se assustaram e D. Pedro apertou na mão o cabo de ágata do seu punhal, ergueram-se num pulo e rodopiaram como loucos em torno da arena, batendo os pandeiros e entoando uma canção bárbara de amor na sua linguagem gutural. Depois, a outro sinal, lançaram-se de novo ao chão e ali ficaram muito quietos, ouvindo-se apenas o tom monótono das cítaras a quebrar o silêncio envolvente. Repetiram a cena várias vezes até que desapareceram, para voltarem com um urso-pardo e hirsuto, preso por uma corrente, e dois ou três macaquinhos da Berberia, empoleirados nos ombros. O urso pôs-se de cabeça para baixo e pés no ar, com a maior naturalidade, e os macacos raquíticos fizeram toda a espécie de gaifonas de sociedade com dois pequenos ciganos, que pareciam ser os donos; lutaram com espadas pequenas, dispararam espingardas, e praticaram exercícios militares com a mesma perfeição que a própria guarda real. O número dos ciganos foi, efectivamente, um êxito.
No entanto, a parte mais divertida desta festa matinal forneceu-a o anão com a sua dança. Quando ele entrou no redondel, bamboleando-se nas pernas arqueadas e abanando a cabeça disforme, para um lado e outro, as crianças soltaram um grito de prazer e a infanta riu tanto que a camareira se viu forçada a recordar-lhe que, embora houvesse precedentes de princesas espanholas chorarem em público, não havia nenhum de uma filha de rei desatar às gargalhadas diante dos seus inferiores. O anão, porém, era deveras irresistível; nem mesmo na corte de Espanha, conhecida pela sua paixão do horrível, fora jamais visto um monstrozinho tão extraordinário. Era aquela, na verdade, a sua primeira exibição. Tinham-no descoberto apenas na véspera, quando corria pelo bosque: viram-no dois fidalgos que andavam à caça numa zona mais distante do sobral que envolve a cidade, e haviam-no trazido para o paço, a fim de fazer surpresa à infanta. O pai do monstro, que era um pobre carvoeiro, não pusera dificuldades em se desfazer duma criança tão feia e inútil. Talvez que o mais engraçado nele fosse a completa inconsciência em que vivia quanto ao seu aspecto grotesco. Dir-se-ia até que se considerava feliz, tão boa era a sua disposição. Quando o público infantil se ria, ele ria também com a mesma alegria sincera, e no fim de cada dança cumprimentava um por um com vénias profundas e cómicas, e sorrindo, tal se fosse um simples espectador e não a criaturinha disforme que a natureza trocista se comprouvera em engendrar para gáudio dos outros.
Quanto à infanta, deslumbrara-o em toda a linha. Não podia despegar dela os olhos, e só para ela parecia dançar. Terminada a exibição, lembrou-se a pequena que a corte lançara flores a Caffarelli (famoso soprano que o papa enviara da sua própria capela, a Madrid, na esperança de curar a melancolia do rei com a doçura daquela voz) e então, parte por brincadeira, parte para arreliar a duquesa, arrancou a bela rosa branca do cabelo e atirou-a, com um sorriso adorável, para o lado da arena em que estava o anão.




Este apanhou-a, levou a flor aos lábios grossos e pô-la depois ao peito, ao mesmo tempo que ajoelhava em terra e sorria num esgar que lhe arregaçava a boca de orelha a orelha e enchia os olhos dum brilho jubiloso.
Tanto a cena perturbou a gravidade da infanta que esta continuou a rir já muito depois de o anão haver desaparecido, e expressou ao tio o desejo de que o número fosse bisado. Contudo a camareira, sob o pretexto de que o sol estava muito quente, decidiu ser melhor que Sua Alteza voltasse sem demora ao palácio, onde fora preparada em sua honra uma festa sumptuosa. Haveria um bolo de anos com as suas iniciais desenhadas a granjeias e um estandarte de prata a ondular no topo. Levantou-se, pois, a princesa, com toda a dignidade, e, tendo dado ordem para que o anão dançasse mais uma vez para ela, depois da sesta, e agradecido ao moço conde de Tierra Nueva a bela recepção que lhe proporcionara, retirou-se para os seus aposentos, seguida por todas as crianças na mesma ordem por que haviam entrado.
Quando o anãozinho soube que teria de dançar mais uma vez diante da infanta e por sua ordem expressa, ficou tão orgulhoso que correu para o jardim, beijando a rosa branca em raptos de insensato prazer e fazendo os mais toscos e desgraciosos gestos de alegria.
As flores mostraram-se indignadas com tamanha ousadia: atrever-se a penetrar na sua linda mansão! Ao verem-no pular pelas alamedas, agitando os braços de modo tão ridículo, não puderam por mais tempo reprimir os sentimentos que as animavam.
— É realmente feio de mais para se permitir o gosto de brincar onde nós estamos — exclamaram as túlipas.
— Devia beber suco de papoilas e dormir milhares de anos — observaram os lírios escarlates. E, de irritados, ficaram ainda mais vermelhos.
— É um verdadeiro horror! — gritou um cacto.
— É torcido, atarracado, e tem a cabeça em desproporção com as pernas. Dá-me comichões por todo o corpo só de pensar nele. Se se aproximar de mim não tenho dúvida em o picar.
— E ostenta um dos meus botões mais formosos
— acudiu a roseira branca. — Eu mesma o dei à infanta esta manhã, como presente de anos, e ele furtou-lho. — E bradou três vezes a palavra «ladrão».
Até os gerânios encarnados, que em geral se não dão grandes ares, e que todos sabem como têm muitos parentes pobres, se enroscaram de nojo mal o viram; e quando a violeta modestamente notou que ele, embora feio em extremo, culpa não tinha de o ser, os gerânios retorquiram, com certa razão, que o facto de estar inocente não implicava maior condescendência. De facto, algumas violetas sentiam que a fealdade do anão era quase agressiva e que ele teria mostrado melhor gosto se se apresentasse triste, ou pelo menos pensativo, em vez de saltar alegremente, tomando atitudes disparatadas e impróprias.
Quanto ao girassol, flor notável que tivera a honra de dizer as horas do dia nada menos que ao imperador Carlos V, achava-se tão surpreendido com o aparecimento do anãozinho que quase se esqueceu de marcar dois minutos completos com o seu longo ponteiro do caule, e não pôde deixar de referir ao pavão branco (nesse momento a apanhar sol na balaustrada) que toda a gente sabia que os filhos dos reis eram reis e os filhos dos carvoeiros, carvoeiros; e que era disparate pretender o contrário. Com isto concordou inteiramente o pavão, o qual soltou um guincho de assentimento tão forte, na sua voz alta e áspera, que os peixes doirados, habitadores do tanque da fonte fresca, assomaram a cabeça fora de água e perguntaram aos enormes tritões de pedra que é que se estava a passar.
As aves, porém, gostavam dele. Tinham-no visto muitas vezes no bosque, dançando como um elfo atrás das folhas redemoinhantes, ou aninhado no côncavo dum velho carvalho, a compartilhar com os esquilos o seu quinhão de frutos. Não se im¬portava nada que ele fosse feio, porque também o rouxinol, que tão suavemente cantava à noite nos laranjais, forçando por vezes a Lua a inclinar-se para o ouvir, o rouxinol, enfim, não era nenhuma beldade; além disso o anão fora bondoso para com elas: durante aquele Inverno terrível, quando não havia bagas nas árvores, e a terra era dura como aço, e os lobos desciam até às portas da cidade em busca de alimento, ele jamais se esquecera das avezinhas, e sempre lhes dera migalhas do seu naco de pão negro e os restos do seu pobre almoço.
Por isso voavam em torno do anão, quase a roçar-lhe a face com as asas e pairando umas com as outras. Ele ficava tão contente que não resistia a mostrar-lhes a linda rosa branca e a dizer-lhes que a princesa lha dera em prova do seu amor. Não percebiam patavina do que esse ente humano contava, mas isso não tinha importância, e punham então a cabecinha de lado, com ar sisudo, o que é o mesmo que entender as coisas e por sinal muito mais fácil.
Os lagartos também simpatizavam com ele e, quando o viam cansado de correr e estirado no chão a repousar, brincavam por sua vez trepando-lhe pelo corpo, na ideia de o divertirem a seu modo: «Nem todos podem ser tão belos como um lagarto», diziam lá consigo. «Seria esperar o impossível. E, embora custe a acreditar, este anãozinho não é tão feio como parece: basta fechar-se os olhos e olhar para outro lado...» Filósofos por natureza, os lagartos às vezes ficam horas e horas a meditar, quando o tempo está de chuva e eles não podem sair.


As flores, contudo, aborreciam-se bastante com o procedimento destes bichos e também com o das aves. «Só conseguem demonstrar», murmuravam, «a vulgaridade das corridas e dos voos repetidos. Os seres bem-educados conservam-se, como nós, sempre no mesmo lugar. Nunca ninguém nos viu aos pulos nos passeios ou a galopar doidamente pela relva atrás das borboletas. Quando necessitamos de mudança de ares, chamamos o jardineiro e ele leva-nos para outro alegrete. Assim é que é digno, e assim se deve fazer. As aves e os lagartos não têm a noção do sossego e, a falar verdade, aquelas nem sequer possuem morada fixa. São simples vagabundas, como os ciganos, e como tal devem ser tratadas.» De modo que as flores ergueram o nariz com ar altivo, e se regozijaram ao ver daí a pouco o anão levantar-se e dirigir-se, através do terraço, para o palácio real.
— Deviam conservá-lo dentro de casa para o resto da vida — declararam. — Reparem naquela giba e naquelas pernas tortas! — E, dizendo isto, mal podiam conter o riso.
Mas o anãozinho ignorava tudo isto. Adorava os pássaros e os lagartos e achava que as flores eram as coisas mais extraordinárias do mundo, exceptuando, já se sabe, a infanta: essa, afinal, dera-lhe uma rosa lindíssima e parecia amá-lo, no que se diferençava grandemente de todos os mais. Gostaria tanto de ter voltado para ela! Colocá-lo-ia decerto à sua mão direita, sorrir-lhe-ia, e ele jamais sairia do seu lado. Torná-la-ia sua compa-nheira de folguedos, ensinar-lhe-ia toda a espécie de jogos engraçados. Se bem que jamais houvesse estado num palácio, sabia muitas coisas surpreendentes: fazia gaiolas pequeninas de cana, para as cigarras cantarem lá dentro, e transformava um galho de bambu em flauta, dessas cuja música Pã se recreia a ouvir. Conhecia o canto de todas as aves, era capaz de chamar os estorninhos do cimo das ramadas ou as garças da margem das lagoas. Conhecia o rastro de cada animal e era capaz de seguir a lebre pelas suas pegadas leves ou o javali pelas folhas pisadas do chão. Todas as danças bárbaras conhecia, a dança louca, em trajes rubros, de Outono, a dança ligeira, de sandálias azuis, sobre as searas, a dança das grinaldas cor de neve, do Inverno, a dança das flores, através dos pomares, da Primavera. Sabia onde os pombos-bravos fazem ninho; duma vez, quando certo criador de aves apanhara um casal, ele próprio fora buscar os filhotes e arranjara-lhes um pombal pequenino no côncavo dum ulmeiro. Ficaram muito mansos e costumavam vir comer-lhe à mão, todas as manhãs. A infanta havia de gostar desses borrachinhos, e dos coelhos que correm entre os fetos altos, e dos gaios de pe¬nas metálicas e bico preto, e dos ouriços-cacheiros que se enroscam em bola coberta de espinhos, e das enormes e pacatas tartarugas que se arrastam lentamente, meneando a cabeça e mordiscando as folhas tenras. Devia vir, sim, para a floresta, brincar com ele. O anão ceder-lhe-ia a sua própria cama e ficaria a vigiá-la de fora da janela até romper a manhã, para que não lhe fizesse mal o gado graúdo nem se aproximassem da cabana os lobos esfaimados. E, quando rompesse a alvorada, bater-lhe-ia ao postigo para a despertar e irem ambos divertir-se o dia inteiro. Na realidade, a floresta não era um lugar muito ermo. Às vezes passava um bispo montado na sua mula branca, a ler um livro iluminado; outras, vinham falcoeiros de boné de veludo verde e gibão de camurça, segurando no punho os falcões carapuçados. Quando chegava o tempo das vindimas, viam-se homens de pés e mãos tintos de roxo, coroados de hera, a transportar odres gotejantes; e os carvoeiros sentavam-se à noite de roda das altas fogueiras, observando as achas secas a carbonizarem-se pouco a pouco, e a assar castanhas nas brasas. Para confraternizar com eles, saíam ladrões das cavernas. Em certo momento, vira uma linda procissão serpenteando na longa estrada poeirenta de Toledo; iam adiante os frades a entoar cânticos suaves e a alçar flâmulas vistosas e cruzes de oiro, em seguida os soldados de armaduras de prata, mosquetes e lanças, e no meio três homens descalços, com esquisitos fatos amarelos, como sacos pintados com figuras estranhas, e de círios acesos na mão. Havia, pois, muito que ver na floresta; e, quando ela estivesse fatigada, ele descobriria um banco de musgo macio, ou levá-la-ia nos braços, porque era forte, se bem que soubesse não possuir grande estatura. Far-lhe-ia ainda um colar de bagas vermelhas de norça, que seriam decerto tão belas como as contas brancas que ela usava no vestido e das quais poderia despojar-se para trocar por outras novas. Trar-lhe-ia também cálices de bolota, e anémonas orvalhadas, e pirilampos que seriam como estrelas no seu cabelo de oiro pálido.
Mas onde estava a infanta? Perguntou à rosa que tinha na mão e ficou sem resposta. O palácio dir-se-ia adormecido de lés a lés; nos vãos em que não tinham fechado os taipais, pendiam grossos reposteiros para deter o fulgor da luz. Vagueou então por acolá, em busca dum lugar por onde pudesse introduzir-se, até que avistou uma portinha de serviço que haviam deixado aberta. Insinuou-se por ela e viu-se num átrio esplêndido, mais vasto, pensou, que o próprio bosque e mais cheio de reflexos oirescentes. O soalho era feito de largas lajes coloridas, que compunham um desenho geométrico. A infanta, porém, não se encontrava ali e só algumas soberbas estátuas brancas o olhavam do seu pedestal de jaspe, com tristes olhos vazios e estranhos lábios sorridentes.
No extremo do átrio pendia uma cortina de veludo preto, ricamente bordada, polvilhada de sóis e de estrelas, emblemas favoritos do rei, recortados na cor que ele mais amava. Quem sabe se ela se escondera aí atrás? Fosse como fosse, espreitaria.
Aproximou-se devagar e afastou a cortina. Não estava lá. Havia ainda outra sala, talvez mais bonita do que essa donde acabava de sair. Das paredes desciam panos de rás, que representavam em tons verdes uma cena de caça. Naquela composição, feita por artistas flamengos, haviam despendido sete anos de labor: fora ali outrora o quarto de João, o Louco, esse rei que tanto gostava de caçar que muitas vezes, no seu delírio, tentara montar os cavalos fogosos da tapeçaria, e abater o veado sobrei que saltavam os galgos enormes, e fazer soar ai trompa, e erguer nas mãos a adaga... Servia agora de sala do Conselho de Estado: ao centro, avultava a mesa com as pastas encarnadas dos secretários, nas quais se viam gravados os lises de oiro de Espanha e as armas e emblemas da casa de Habsburgo.


Olhou em volta o anãozinho, espantado e receoso de avançar. Os estranhos cavaleiros silenciosos, que tão velozes galopavam pelos atalhos da mata, traziam-lhe à memória os fantasmas terríveis de que ouvira os carvoeiros falar: homens que só caçavam de noite e que, se encontravam algum ser humano, o transformavam em corça e a matavam. Recordou-se, porém, da linda princesa e encheu-se de coragem. Era provável que estivesse na sala seguinte.
Correu sobre as fofas alcatifas mouriscas e abriu a porta. Não, também ali não estava. A sala mostrou-se-lhe inteiramente deserta. Era a sala do trono, que servia para receber embaixadores estrangeiros, quando o rei (o que já raras vezes acontecia) se dignava conceder audiências particulares; a mesma que, muitos anos antes, acolhera os emissários da Inglaterra quando foram tratar do casamento da sua rainha, então uma das soberanas católicas da Europa, com o filho mais velho do imperador. As colgaduras eram de couro dourado de Córdova, e um pesado lustre da mesma cor pendia do tecto branco e negro, ostentando trezentas velas de cera. Por baixo do amplo dossel de tecido dourado, no qual estavam bordados a aljôfar os leões e os castelos do reino, ficava o trono, coberto por um pano rico de veludo preto guarnecido de lises dourados e primorosamente franjado de prata e pérolas. No segundo degrau do trono estava colocado o genuflexório da infanta, com a sua almofada de tecido argênteo, e mais abaixo, fora do âmbito do dossel, a cadeira para o núncio apostólico, a única pessoa que podia sentar-se em presença do rei nas cerimónias públicas, e cujo barrete cardinalício, com as borlas escarlates, se via defronte, num tamborete de púrpura. Na parede, em frente do trono, estadeava um retrato de Carlos V em tamanho natural, de traje de caçador, acompanhado dum cão enorme; havia ainda um quadro que representava Filipe II a receber vassalagem dos Holandeses, mas este ocupava o meio da outra parede. Entre as janelas, uma escrivaninha de ébano embutida de marfim, na qual as figuras da Dança da Morte, de Holbein, tinham sido gravadas, dizia-se, pela mão do próprio artista.
O anãozinho, porém, pouco se importava com estes esplendores. Não teria dado a sua rosa por todas as pérolas do dossel, nem uma das pétalas pelo próprio trono. O que queria era ver a princesa antes que ela descesse à tenda e pedir-lhe que viesse com ele quando a dança terminasse. Ali, no palácio, o ar era denso e pesado, mas na floresta o vento soprava livremente e os raios solares, com mãos de oiro trémulas, afastavam as folhas para os lados. Lá, havia flores, talvez não tão imponentes como as dos jardins do Paço, porém mais docemente perfumadas: jacintos, na Primavera, que inundavam de púrpura os frescos vales e as colinas verdejantes, prímulas amarelas que se aninhavam em grupos junto às raízes ásperas dos carvalhos; celidónias brancas, campainhas azuis e íris dou-radas e de tons de lilás. Havia flores alvadias nas aveleiras, as digitais dobravam ao peso dos seus alvéolos frequentados pelas abelhas. O castanheiro ostentava as suas estrelas brancas e o espinheiro as suas luas pálidas. Ah, se a encontrasse, sem dúvida que ela viria! Viria com ele à floresta imaculada e, para a entreter, o anãozinho dançaria o dia inteiro. A esta ideia dardejou-lhe um sorriso nos olhos — e então passou à câmara imediata.
Era esta, de todas as salas, a mais bela e a mais resplandecente. As paredes estavam cobertas de damasco cor-de-rosa, historiado de pássaros e melindrosas flores de prata. De prata maciça era a mobília, com fes¬tões, grinaldas, Cupidos esvoaçantes. Em frente das vastas lareiras, dois guarda-fogos bordados com pa¬pagaios e pavões; e o chão, de ónix verde-mar, dir-se-ia perder-se na distância. Contudo, ele não estava sozinho. De pé, enquadrado numa porta do extremo da sala, viu uma figura pequenina que o observava. Tremeu-lhe o coração, dos lábios soltou-se-lhe um grito de alegria, e ei-lo a caminhar para lá. Conforme avançava, viu a figurinha vir também ao seu encontro.
A infanta? Não, era um monstro, o mais grotesco de todos os monstros. Em vez de talhada como as outras pessoas, esta apresentava-se corcunda, de pernas tortas, com uma cabeça enorme e pendente e uma densa crina sombria. O anãozinho carregou o cenho, e o monstro também. Riu, e o outro riu com ele, e afastou as mãos para o lado, exactamente como ele fazia. Baixou a cabeça numa vénia trocista, e viu retribuído o cumprimento. Adiantou-se e o imitador veio ao seu encontro, arremedando-lhe cada passo e parando quando o anão parava. Este gritou, divertido, correu para a frente, estendeu a mão, e a mão do monstro tocou a sua, fria como gelo. Teve medo, afastou os dedos, e os outros dedos afastaram-se. Tentou depois agarrá-los, mas impedia-o qualquer coisa ao mesmo tempo macia e dura. A face do monstro estava agora muito perto da sua e parecia também aterrorizada. Sacudiu o cabelo, que lhe caía nos olhos, e o outro fez o mesmo. Bateu-lhe, e ele respondeu, pancada por pancada. Bocejou, e viu a carantonha abrir a porta. Recuou, e o monstro recuou também.
Que seria aquilo? Pensou um instante e olhou derredor para o resto da sala. Era esquisito, mas a verdade é que cada objecto se lhe afigurou ter o seu duplo nessa parede invisível, duma limpidez de água. Qualquer quadro mostrava além o seu igual, qualquer sofá se repetia exactamente lá defronte. O Fauno adormecido, que jazia no vão da parede, junto à porta, era irmão gémeo de outro que dormia também, e a Vénus argêntea, banhada agora pela luz do Sol, estendia os braços a uma Vénus tão encantadora como ela.
Seria o eco? Falara alto, certa vez no vale, e o eco repetira-lhe a fala, palavra por palavra. Poderia troçar dos olhos, como troçava da voz? Saberia fa¬zer um mundo de imitação, em tudo semelhante ao verdadeiro? Teriam as sombras das coisas vida, cor e movimento? Admitir-se-ia que...?
Estremeceu, e, tirando do peito a linda rosa branca, voltou-se e beijou-a. O monstro possuía também a sua rosa, igual em todas as pétalas; beijou-a com beijos iguais e apertou-a ao coração em gestos horripilantes.
Quando nele a verdade alvoreceu, soltou o anão um grito de desespero, selvático, e tombou por terra, a soluçar. Era ele, pois, o contrafeito, o corcunda, o grotesco, o risível! Era o próprio monstro, de quem riam todas as crianças, e até a princesinha; ela, que o anão julgou que o amava, apenas escarnecera da sua fealdade, dos seus membros disformes. Por que o não haviam deixado na flores ta, onde não existiam espelhos que lhe dissessem quanto era hediondo? Por que não o matara o pai, em vez de o vender e o expor à humilhação? Pelas faces desciam-lhe lágrimas escaldantes. Desfez em pedaços a rosa branca, e o monstro do espelho procedeu do mesmo modo, atirando ao ar as pétalas delicadas. Rojou-se no chão, e, quando olhou para o seu duplo, este observava-o com uma expressão dolorosa. Afastou-se, com medo de o ver, e tapou os olhos com as mãos; rastejou, como um animal ferido, para o escuro, e ali ficou a gemer.


Neste comenos entrou a infanta com os seus companheiros, vindo pela janela rasgada; quando viram o feio anãozinho deitado, a bater no pavimento com os punhos cerrados, num exagero espectaculoso, soltaram grandes risadas e apinharam-se à volta dele, a observá-lo.
— Quando dança é muito engraçado — disse a infanta —, mas a representar não é menos. Quase tão bom como os bonifrates, só com a diferença de não ser tão natural.
Falando assim, agitou o vasto leque e aplaudiu.
Mas o anãozinho nunca ergueu a vista, e os soluços foram-se-lhe tornando cada vez mais fracos. De súbito, abriu a boca para respirar, levou a mão ao peito, e caiu outra vez para ficar completamente imóvel.
— Muito bem! — exclamou a infanta, depois dum instante de silêncio. — Agora podes dançar.
— Pois é claro — volveram as outras crianças. — É altura de ele se levantar e dançar. Tem a habilidade dum macaquinho, e ainda nos dá mais vontade de rir do que os verdadeiros macacos!
O anão, contudo, permaneceu imóvel.
A infanta bateu o pé e chamou pelo tio, que passava no terraço com o camareiro-mor, lendo cartas acabadas de chegar do México, onde fora recentemente instituído o tribunal do Santo Ofício.
— O meu anãozinho — disse a pequena — está de trombas. — Mandai-o que se levante e que dance para eu ver.
Os dois homens sorriram um para o outro e entraram na sala. D. Pedro curvou-se e bateu na cara do anão, com a luva bordada.
— Tens de dançar, petit monstre — ordenou. — A infanta de Espanha e das índias quer que a distraiam. Mas o anãozinho não se mexeu.
— Dum chicote é que ele precisa — murmurou D. Pedro, enfadado, voltando para o terraço.
O camareiro-mor tomou, porém, um ar grave e, ajoelhando ao lado do bobo, pôs-lhe a mão sobre o peito. Esteve assim um momento, depois encolheu os ombros, ergueu-se e, fazendo uma profunda vénia à infanta, declarou:
— Mi bella Princesa o vosso anão, tão divertido, não voltará a dançar. Tenho pena, porque é tão feio que talvez fizesse o rei sorrir.
— E por que é que não volta a dançar? — inquiriu a infanta, rindo.
— Porque o coração se lhe quebrou — respondeu o camareiro.
A infanta franziu as sobrancelhas, e os lábios de pétala de rosa encolheram-se num movimento desdenhoso.
— Daqui por diante — disse ela — quero que os meus bobos não tenham coração. E foi a correr para o jardim.

Óscar Wilde