02/03/2010

Claramente


– PT Comunicações. Para ouvir o serviço de horóscopo marque cinco. Para ouvir a meteorologia aguarde… – anuncia a voz sensual da gravação telefónica que emana do altifalante.
– Mas que raio de ideia! Misturarem a meteorologia com os signos, nem sei como o instituto permite tal coisa.
O instituto é o Instituto de Meteorologia e a mulher irritada, sentada entre espelhos, é Clara, a responsável pelo seu centro de documentação.
– Mas a menina Clara sabe, se calhar é por estar tudo no mesmo ramo, no da adivinhação – diz a mulher de bata azul, colocando o telefone no lugar.
– Francamente, não brinquemos com coisas sérias. As previsões do instituto são feitas com base na detecção e análise de dados científicos
– Clara refugia-se no discurso técnico ma non troppo para acalmar a fúria, enquanto responde a Teresa, sua cabeleireira de há vinte anos.
– Era só para saber o tempo desta noite. Aposto que lhe perguntam muita vez pelo tempo que vai fazer. Pomos gotas nutritivas?
– Ponha. Já podia encher um livro com essas perguntas. Estou farta de explicar que não pertenço a esse departamento. O instituto não se ocupa só do tempo que vai fazer amanhã.
– Mas olhe que é coisa que preocupa muita gente – afirma Teresa com um ar convicto e enigmático enquanto vai puxando pelas madeixas pintadas de Clara, debaixo do vento quente do secador.
O amanhã, o amanhã, o amanhã – pensa Clara de si para si – que lhe interessa isso a ela, seja o amanhã meteorológico ou filosófico? Não espera grande coisa do amanhã, qualquer que seja o tempo que faça.
Está realmente farta de que a imaginem essa estranha sibila do tempo que prevê chuvas e vendavais – Ó Clarinha, que tempo fará amanhã? – pergunta-lhe a mãe frequentemente quando falam ao telefone. Se a vissem no instituto, até a considerariam mais do tipo rato de biblioteca. A sua biblioteca, onde luta diariamente com cortes orçamentais que a obrigam a ir cessando a assinatura dos periódicos internacionais da especialidade.
Há muito tempo que não acredita em amanhãs, apenas no fio matemático e regular da sequência dos dias, um a seguir ao outro, como um novelo que se desenrola a ritmo certo.
Longe vai já o tempo das ilusões, em que o amanhã era uma incógnita feliz, essa doce névoa com todas as promessas do amanhecer.
Apaixonou-se pelo César quando eram ainda miúdos de faculdade, engravidou, casaram e ela teve um César em miniatura. Mas César, o jovem e promissor corrector da bolsa, investiu tudo na carreira e pouco no casamento e, poucos anos depois, quando fizeram o balanço da relação, com aconselhamento profissional e tudo, ele desfez-se definitivamente dos poucos títulos em carteira.
Mais tarde, conheceu o Filipe, essa alegre invasão filipina do seu espaço e do seu corpo. Um espírito criativo e um pintor excepcional mas, egoísta como todos os homens, ou mais ainda, como o são tantas vezes os artistas. Na cama, sempre foram felizes mas, fora dela, não havia forma de se entenderem, nem quando falavam das coisas mais triviais. Era como se falassem línguas diferentes. A cama habitada foi efémera, como o entusiasmo que os juntou, naquela noite de Santo António.
Desde então que Clara não joga verdadeiramente na roleta russa das relações amorosas. Tem os seus entusiasmos passageiros, mas ninguém que a interesse verdadeiramente. Também não lhe agradam os sucedâneos: as amizades coloridas parecem-lhe descoradas e as aventuras passageiras, insuficientes.
Talvez Clara seja mesmo a sibila cega do tempo. Aprecia a calma sólida da solidão, o saber com o que pode contar, conhecer-se e conhecer o solo debaixo dos pés, testemunha sábia e distante do planeta que gira, com seus ventos, marés e tempestades. Mas, às vezes, sente-se só, nas suas longas e silenciosas noites planetárias.
Tem dias, como toda a gente. É como o tempo, afinal.
Há noites em que lhe apetece sair de casa e, cega, interpelar o primeiro homem que passar. E ser outra, sem a educação e o comportamento a que os seus 47 anos bem conservados e de classe média, penosamente obrigam. Viver na pele de estranhos e abandoná-los no dia seguinte, sem olhar para trás, sem saudades nem arrependimentos.
Tal como na canção, ter apenas saudades do futuro.
Mas, na verdade, do que ela, realmente, tem saudades é de estar apaixonada, das mágicas cores novas com que se contempla o velho mundo, enquanto se paira nos céus, suspenso pela imagem idealizada do próprio amor. Mas, logo a razão a obriga à aterragem forçada.
Com amor ou sem ele, Clara está convencida de que tudo se resume a perder a sua independência para se confinar a uma qualquer casota emocional. Ainda assim, gostava verdadeiramente de ter um companheiro que fosse isso mesmo – companheiro. Alguém que duplique o prato solitário do jantar, que comente as tolices da TV e os filmes no cinema, companheiro de livros e viagens, que todo o livro é viagem e toda a viagem, livro. E que partilhe os silêncios que, às vezes, fazem parte de estarmos juntos e sós. Sem a preocupação da superficial jovialidade que, por educação, se exige aos estranhos.
Lembra Eunice, a velha amiga de escola que partiu quando a doença a reclamou e consumiu em pouco tempo. Sente saudades de Eunice e da sua amizade sábia. Os amigos do instituto são, na realidade, colegas. Claro que há a cumplicidade de incontáveis dias partilhados entre as duas picadelas diárias do ponto. Alguns dos mais velhos já se reformaram e ainda por lá passam, de vez em quando, especialmente nos almoços de fim de ano. É estranho como as pessoas desaparecem da nossa vida quando não as vemos. Bom, nem todas.
O Filipe foi-se embora há quatro anos e às vezes ela ainda pensa nele. Quatro anos! Como o tempo passa. Há tempos, ele deixou-lhe uma mensagem no gravador, mas ela não ligou de volta. Às vezes apetecia-lhe reincidir, mas sabe bem que não têm futuro, como, aliás, sempre soube.
A maturidade traz-lhe esta lucidez implacável que a impede de se deixar enganar pelos seus próprios pensamentos. Clara sabe que, no fundo, a amizade, tal como o sexo, são apenas uma espécie de metadona com que mitigar a solidão da ausência dessa droga dura que é o amor.
Tudo isto lhe vai passando pela cabeça, enquanto, sonâmbula, atravessa a cidade em fim de tarde, desde o cabeleireiro até casa. É sexta-feira e tem um jantar em casa da Alice, sua colega da curso, casada com um diplomata sempre ausente e mãe-galinha que dá um jantar de boas-vindas ao seu primogénito que terminou um ano de Erasmus na Bélgica. Vão lá estar vários conhecidos com a respectiva prole. Que pena o seu César não poder ir. Ultimamente, nunca está disponível, vive com a namorada de há três meses e é financiado pelo pai que, com o subsídio mensal, inocula também doses regulares de veneno contra ela. A César o que é de César.
Clara sabe que o convívio é estimulante, mas não lhe apetece ir, falta-lhe a paciência para certas conversas mundanas. Mas, como foi ao cabeleireiro, não consegue encontrar desculpas para não ir.
– Clara, vem conhecer o Rui Loureiro, pai da Ritinha. Rui, a Clara Mendes – diz Alice, que parece estar nas suas sete quintas, fazendo apresentações por tudo e por nada.
Depois do aperto de mão formal e do “muito prazer”, o desconhecido recém-conhecido vira-se para Clara e pergunta:
– É a amiga meteorologista da Alice, não é? Afinal o seu nome é Claramente ou Clara mente?
– Isso depende dos dias – diz Clara surpreendida pela pergunta e, mais ainda, pela sua própria resposta. Uma estranha sensação, boa e má, ao mesmo tempo, percorre-lhe a espinha.
Rui é o pai solteiro da namorada do filho mais novo da Alice.
Clara abomina estas pessoas que se dizem solteiras quando já foram casadas e são, na verdade, divorciadas. Querem apenas dizer que estão prontas para mais confusões. Clara não se sente nada assim.
Por outro lado, ele está ali com a Ritinha, no início do fim-de-semana paterno e teme estar a perder a ligação à filha adolescente.
Aquele homem emocionalmente instável mexe com ela de forma paradoxal. Escritor e jornalista, à procura de rumo e de colo, enternece-a com o seu ar infantil, ao mesmo tempo que a irrita com o que diz.
– Então, acha que vem aí temporal? – pergunta Rui.
– Não sei, mas tudo é possível, o tempo é imprevisível.
– Mas, não trabalha nisso, quer dizer, nas previsões?
– Não directamente. Mas é falível, apesar das bases científicas
– Clara não sabe porque diz o que diz àquele homem, talvez seja apenas a vontade de o contrariar.
Conversam e desconversam por mais algum tempo, Clara faz depois uma ronda para cumprimentar os velhos conhecidos e, despede-se de Alice, quando acha que já é aceitável deixar a festa.
Desce as escadas e começa a atravessar o largo de Santos quando, subitamente, na noite de Verão, rebenta a mais violenta trovoada que alguma vez viu. Relâmpagos fendem o céu escuro da noite como longas mãos ávidas e o cavo rufar do trovão anuncia a chuva torrencial que logo cai, abundantemente. Clara sai do jardim assustada e hesita entre voltar para trás, para casa da Alice, ou tentar ir até ao carro, estacionado ao fundo da 24 de Julho. Decide ir em frente, mas avança, com dificuldade, no meio de uma chuva intensa e implacável que a impede até de ver o caminho. Sente os pés encharcados e repara que o chão se transformou num lago contínuo de água escura. Não percebe se o Tejo subiu subitamente ou se as sarjetas entupiram, inundando tudo. Sente-se perdida e tenta ver o carro que, ao longe, está também já imobilizado no meio daquele lago assustador.
– Clara, és tu? – uma voz longínqua chama por ela, é Rui que, surge do meio do nada, a trata por tu, e, pondo-lhe as mãos nos ombros a conduz até ao patamar da entrada de um prédio abandonado.
– O Rui aqui, pensei que estava ainda na festa.
– Saí porque a Ritinha regressa depois com as amigas. A zona baixa da cidade está inundada. Vamos ter de esperar neste patamar até que a tempestade passe e a água desça. Felizmente, aqui estamos a salvo da água, nesta ilha abandonada.
– Agora está temporariamente habitada. Só espero que não apareçam por aí os sem-abrigo ou malfeitores.
– Ora Clara, somos todos ambas as coisas, em potência.
– Também não vamos exagerar. Mas temo, acima de tudo, que a água continue a subir.
– Vamos fechar a porta e sentarmo-nos no degrau mais alto. Está tão encharcada, quer o meu casaco?
– Pode voltar a tratar-me por tu. E não, não quero o teu casaco, mas agradeço a oferta.
Na rua chove impiedosamente e, Clara, de repente, como se tivesse acordado, solta uma gargalhada infantil:
– Estamos aqui e estamos vivos!
Então, sem saberem como, tocam-se e beijam-se como o primeiro homem e a primeira mulher, sem saberem o que estão a fazer porque nada foi ainda inventado ou decidido. Desembaraçam-se das roupas molhadas e deitam-se sobre elas. Naquele momento não há nada que queiram mais do que estar um dentro do outro e aí permanecer, enquanto os astros no firmamento chuvoso o permitirem, e permitem-no toda a noite.
Amanhece na rua e os bombeiros resgataram já aquela parte da cidade – o Tejo lá pregou mais uma das suas, mas já passou – ouve ela dizer aos bombeiros que se afastam. Os seus corpos, como estátuas, permanecem enlaçados.
Não podemos prever o dia de amanhã como as grandes máquinas do instituto pretendem. Inúteis mapas do céu e da terra, dos ciclones e anticiclones que habitam sobre nós. Os acentos ao contrário no horóscopo do dia, o horóscopo do dia, a vírgula mal colocada na vida, a vida, tudo se dissolve naquele estranho que ainda a penetra, amorosamente. A água levou e lavou tudo. O estranho homem-criança-escritor será apenas um homem e ela, será, de novo, uma mulher.
A manhã está clara e limpa. O instituto não previu aquela noite, nem as que se hão-de seguir. Nada voltará a ser como antes. Clara já não quer saber dos sapatos cheios de lama, nem da roupa molhada reduzida a trapos. Compõe a saia e anda, um pé à frente do outro.
Poderia estar nua que não se importaria. É feliz. Claramente.

Rute Beirante