27/02/2010

Pinóquio


Em Montepó, terra de um Portugal remoto e esquecido, vive Abílio, um rapaz que, como todos os da sua idade, está a acordar para o mundo, para a vida, para o primeiro amor…
Calejado pelas agruras duma vida difícil vai aprendendo à sombra de decepções e mínguas; mas vai, também, crescendo, acalentado pela magia das histórias e dos sonhos que lhe dão ânsias de fugir em busca de outros destinos.
O padrinho Sebastião, contava-nos minha mãe, era da família dos bichos do mato. Sempre teve o comportamento dum lobo solitário, duma raposa astuta, duma lebre esquiva. Não deixava que nada o prendesse a qualquer cadeado.
Sempre curioso e insatisfeito, Sebastião experimentara imensas profissões. Foi moço de recados e trolha, caixeiro, pintor, electricista, canaliza dor, mecânico de motorizadas, pasteleiro, cauteleiro e vendedor de jornais, engraxador e tipógrafo. Frequentava bibliotecas públicas e devorava livros.
— É um regalo para os ouvidos ouvi-lo falar. Quando está a conversar, diz, sem querer, palavras que não entendo, mas que me parecem muito bonitas — dizia minha mãe, embevecida com o irmão que ajudara a criar. — Às vezes, eu pergunto-lhe o significado de certas palavras e ele pede desculpa e explica. Fala melhor que um padre pregador. Cem vezes melhor!
No ano em que terminei a quarta classe, o meu padrinho deu-me um livro. Chamava-se Pinóquio.
— Se o leres, aprendes a sonhar! — disse-me ele, com um sorriso cúmplice.
— Obrigado — disse eu, abraçando-o, sem entender muito bem o que me queria dizer.
Fiquei tão feliz.
Era o meu primeiro livro.
Era o primeiro livro de histórias que ia haver em minha casa.
Era a primeira vez que recebia uma prenda que não se comia, calçava ou vestia.
Agucei um lápis com a minha navalha de gume sempre bem afiado e escrevi na primeira página:
Este livro pertence a Abílio Ribeiro da Silva.
Oferecido pelo meu padrinho.
Para que não ficasse sujo, nem com olhos de gordura, encapei-o com uma folha de jornal.
As coisas nem sempre acontecem como desejamos. Temos de estar preparados para os pequeníssimos ou grandes desastres que nos batem à porta sem avisar.
A vida é feita de risos e de lágrimas, de sonhos e desencantos. E quem disser o contrário é parvo, ou mentiroso.
Ainda hoje me dói falar disto. Mas a verdade tem de ser dita: não li o livro oferecido pelo meu padrinho. Nem sequer a primeira página pude saborear.
Numa tarde de chuva, meus irmãos resolveram arrancar algumas folhas do Pinóquio para acenderem uma fogueira. Como as folhas ardiam bem, arrancaram-nas todas.
Confrontado com a tragédia, fiquei a olhar para os restos das folhas calcinadas que se tinham espalhado na lareira. Alguns pedacinhos, mais pequenos que a cabeça dum dedo mindinho, levantavam voo, subiam em direcção à chaminé e desapareciam.
Explodi.
Bati em mim próprio: na cabeça, no peito e na cara.
Bati nos meus irmãos, subitamente amedrontados e perplexos.
Berrei, arranquei cabelos aos meus irmãos e a mim próprio.
Desesperado, gritei e protestei até me doer a garganta.
A Rosa e o Toninho começaram a choramingar, tristes por me verem tão triste.
— Mas que conversa é essa, menino? — perguntou minha mãe, admirada.
— Estes inocentes queimaram-me o livro que o meu padrinho me deu. Estes patetas queimaram-me o Pinóquio.
— Quem é que queimaram?
— O meu Pinóquio.
— O teu Pinóquio? De que é que estás a falar, menino? Não te entendo…
— O livro que o meu padrinho me deu chamava-se Pinóquio. E os estúpidos dos meus irmãos fizeram uma fogueira com o livro.
— E estás a fazer esse escarcéu todo por causa dum livro?! Cala-te, menino, cala-te!
— Mas eu quero o meu Pinóquio!
— Cala a caixa, que é melhor para ti. O teu pai está aí a chegar. Meu filho, o que não tem remédio remediado está. Acabou a conversa. Olha que o teu pai está aí a chegar.
Meu pai entrou na cozinha e eu emudeci. Recusei-me a jantar. Inventei uma dor de barriga, deitei-me cedo e adormeci a imaginar vários significados para a palavra Pinóquio.


António Mota
Filhos de Montepó
Canelas, Edições Gailivro, 2003
Excertos adaptados