05/02/2010

A panela milagrosa





No arquipélago de Cabo Verde, há notável escassez de vegetação. Causa — falta de água. Rareando as chuvas, diminuem os produtos da terra, indispensáveis à alimentação; não há pastos para os gados, logo não há carne. Isto quer dizer: a fome reina em casa dos mais pobres.
Ficai sabendo, meus amigos, que o Chaço, no México, em poucos anos se transformou em deserto, devido ao corte das árvores. Anteriormente, erguia-se ali densa floresta. Mas os homens, tolos e gananciosos, na ânsia de enriquecerem com o produto das madeiras, gradualmente a devastaram. O solo tornou-se incapaz de reter a humidade. Os campos de cultura negaram-se a produzir e os homens viram-se forçados a abandonar a região infértil.
O mesmo se deu no Ceará, em terras brasileiras. E, em Cabo Verde, chega-se a morrer de fome, em virtude das mesmas causas. Por estas explicações, toda a gente compreende o quanto devemos querer bem à boa amiga árvore, que tudo nos dá, sem nos pedir mais do que ligeiros cuidados em plantá-la, tratá-la e guardá-la dos dentes vorazes de alguns animais daninhos e das foices inconscientes dos homens tolos.
Certa manhã ardente, Manuel Francisco – um camponês de pele bronzeada e chefe de numerosa família, desesperado por se ver sem trabalho nem alimento para si e para os seus, foi andando, andando, pela praia que ficava pertinho da sua casa.
Insensivelmente, afastou-se e alcançou um ponto onde jamais chegara. Cansado, sen ta-se num penedo e fica a meditar na sua triste sorte. O dia vai alto e milhares de raios de sol brincam à super fície das águas, esplendem em centelhas luminosas. Manuel Francisco mira ao longe e parece-lhe avistar um ilhéu, desconhecido dele, ao centro do qual se ergue, aprumada e esbelta, uma linda palmeira. Busca nos recantos da praia alguma canoa abandonada, na esperança de encontrar trabalho nesse ilhéu. Procura por aqui e por além e encontra uma canoa velha.
Manuel Francisco é remador hábil. Mete-se na canoa e dirige-se ao ilhéu.
O mar, calmo até àquela hora, embravece de súbito e o remador emprega sérios esforços para acercar-se do ilhéu. Aproa, desembarca, ata a canoa ao tronco dum coqueiro. Este e a palmeira constituem a única vegetação do ilhéu. Manuel Francisco trepa ao alto do coqueiro. Colhe dois cocos magníficos e tenta atirá-los para dentro da canoa. Mas tanto esses dois cocos, como outros que sucessivamente arranca, em vez de caírem dentro da canoa, vão mergulhar no mar.
Desce. Arreliado com a ideia de regressar a casa de mãos vazias, atira-se à água. Bom mergulhador como em regra, o são, os camponeses cabo-verdianos, desce, desce até ao fundo, a ver se agarra algum dos cocos. A sua surpresa é ilimitada ao descobrir, não os seus cocos, mas uma casa lindíssima, erguida no fundo do mar. Espanta-se com a descoberta, e mais aumenta a sua admiração quando, na sua frente, à porta da casa, surge um velhote de compridas barbas brancas e lhe pergunta:
— O que desejas? Não sabes que é proibido aos homens descerem até ao palácio do Régulo [1] dos Mares?
— Senhor, eu ignorava que havia régulos no fundo dos mares — responde tremendo Manuel Francisco. — Eu e a minha família temos fome. Colhi cocos no ilhéu e dei xei-os cair à água. Como já tenho mergulhado muitas vezes, a apanhar as moedas que os passageiros dos vapo res, em S. Vicente, atiram ao mar, vim buscar os meus cocos.
— Bom. Tenho pena de ti. Não te farei mal. Espe ra-me aqui.
Manuel Francisco esperou um momento. Em breve, o Régulo apareceu com uma panela de barro nas mãos. Entregou-a ao mulato, explicando-lhe:
— Leva-a para tua casa. Quando tiveres fome, é só ordenar-lhe: «Panela, dá-me de comer!» Ela dar-te-á alimento suficiente para ti e para a tua família.
Manuel Francisco agarrou sofregamente a panela e correu para a canoa. Apenas embarcou, decidiu-se a expe rimentar as virtudes da panela. Colocou-a diante de si e ordenou:
— Panela, minha rica panela, faz por mim o que costumavas fazer pelo Régulo dos Mares!
Da panela saiu imediatamente rico jantar, completo e apetitoso, a que não faltava sequer a magnífica sobre mesa.
Remou com presteza, na ânsia de levar mantimentos à família. Mas, ao desembarcar, um pensamento ruim, de cruel egoísmo, lhe impediu a prática desse justo dever.
— E se a minha mulher e os meus filhos, esfomeados como estão, comem tudo, e a panela nada mais tem para me dar? O melhor é guardar segredo e eles que se governem…
Escondeu a panela e, ao chegar a casa, vendo toda a família debilitada com fome, fingiu-se aflito, estendeu-se a um canto e não tardou a adormecer.
A mulher, desconfiada do seu sono tranquilo, bem diferente do da restante família, que enganara o apetite com pequena quantidade de papas de milho, resolveu ficar de sobreaviso.
Nos dias seguintes, principiou a notar que o marido saía e se dirigia a certo lugar, mal a família estava reco lhida. E engordava – o grande maroto – enquanto a mulher e os seus desditosos filhinhos emagreciam a olhos vistos e estavam quase esqueléticos. Uma noite, decidida a esclarecer o caso, a mulher seguiu-o na sombra e veri ficou a má conduta do Manuel Francisco. Este a voltar costas, ela a apoderar-se da panela, a correr à aldeia, em busca da família e, compadecida das desgraças alheias, a chamar também os vizinhos esfomeados, para saciarem o apetite.
A pressa e a miséria de alguns eram tais que, em compreensível descuido, quebraram a panela!
É fácil de imaginar a cólera do Manuel Francisco, quando soube o acontecido.
Espancou a mulher e os filhos, indignou-se com a vizinhança, prometeu vingar-se de tudo e de todos.
No dia seguinte, muito cedo, voltou à praia, embarcou na velha canoa e remou para o ilhéu. Colheu mais cocos, atirou-os à água e de novo desceu ao fundo do mar a buscá-los, na esperança de outra aparição do velho Régulo.
Assim sucedeu. Desta vez, o velhote, depois de ouvir o relato sucedido, encrespou as enormes sobrancelhas e, sem proferir palavra, entrou no seu domicílio, donde trouxe um bonito pau, de madeira rija, polida e brilhante. Ofereceu-o ao egoísta.
Manuel Francisco saltou à canoa, com o maior desembaraço e remou para a costa. Desembarcou e, mesmo à beira-mar, exclamou:
— Pau, meu rico pauzinho, faz por mim o que fazias pelo Régulo dos Mares!
O pau, em movimentos rápidos, desatou a bater no Manuel Francisco. Este, aflito, obrigado a fugir por debaixo de água, arrastou-se como pôde até uma praia distante. Só assim se livrou da pancadaria.
O egoísta compreendeu então a fealdade do seu acto e como fora justo o castigo aplicado pelo Régulo dos Mares. Resolveu emendar-se.
E, fiquem sabendo os meus meninos, emenda foi ela, que nunca mais procedeu como egoísta ou mau.


Emílio de Sousa Costa (Cabo Verde)
(excerto adaptado)