07/12/2009

O voo do Jika

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O Jika era o mais novo da minha rua. Assim: o Tibas era o mais velho, depois havia o Bruno Ferraz, eu e o Jika. Nós até às vezes lhe protegíamos doutros mais-velhos que vinham fazer confusão na nossa rua.
O almoço na minha casa era perto do meio-dia. Às vezes quase à uma. Ao meio-dia e quinze, o Jika tocava à campainha.
– O Ndalu tá? – perguntava à minha irmã ou ao camarada António.
– Sim, tá.
– Chama só, faz favor.
Eu interrompia o que estivesse a fazer, descia.
– Mó Jika, comé?
– Ndalu, vinha te perguntar uma coisa.
– Diz.
– Hoje num queres me convidar pra almoçar na tua casa?
– Deixinda ir perguntar à minha mãe.
Entrei. O Jika ficou ansioso na porta, aguardando a resposta. Quase sempre a minha mãe dizia sim. Só se fosse mesmo maka de pouca comida, ou muita gente que já estava combinada para o almoço. Se a avó Chica viesse, ia trazer também a Helda, e assim já não ia dar.
Mas normalmente a minha mãe dizia mesmo «sim». E ficava a rir.
– A minha mãe disse que podes.
– Ah é? – ele pareceu surpreendido. – E a que horas é que vocês vão almoçar?
– Ao meio-dia e meia, Jika.
– Então vou pedir na minha mãe.
Deixei a porta aberta. O Jika devia voltar sem demora quase nenhuma. Gritou contente, cá de baixo, na direcção da janela do quarto da mãe dele:
– Maaaaãe, a tia Sita me convidou pra almoçar na casa dela. Posso?
– Podes. Mas vem mudar essa camisa suada.
O Jika deu uma esquindiva, fingiu que já tinha mudado, veio a correr numa transpiração respirada. Contente. Olhos do miúdo que ele era. Fosse o melhor programa da semana dele. E eu, mesmo miúdo candengue, fiquei a pensar nas razões do Jika não gostar nada de almoçar na própria casa dele.
O Jika estava habituado a muita gasosa. Nesse tempo, se houvesse gasosa na minha casa era para dividir. Como nós éramos três, eu e duas irmãs, quando o Jika vinha almoçar, até a divisão corria melhor. Ele por vezes queria fugir desse ritual:
– Tia Sita, posso beber uma gasosa sozinho?
– Sozinho, bebes na tua casa – a minha mãe respondeu.
– Aqui divide-se.
Depois do almoço, o Jika disse que ia à casa dele buscar «uma coisa». Eu fiquei à espera, no portão aberto. Prometeu não demorar. Voltou com a tal coisa escondida debaixo do braço, e entrámos rapidamente na minha casa. Subimos ao primeiro andar, fomos até ao quarto da minha irmã Tchi, e saltámos da varanda para uma espécie de telhado. Aproximámo-nos da berma. Lá
em baixo estava a relva verde do jardim. O Jika abriu um muito, muito pequenino guarda-chuva azul.
– Põe a mão aqui – ensinou-me. – Agora podemos saltar.
– Tens a certeza? – olhei para baixo.
– Vamos só.
Saltámos.
A infância é uma coisa assim bonita: caímos juntos na relva, magoamo-nos um bocadinho, mas sobretudo rimos. O Jika teve outra ideia.
– Calma só, mô Ndalu. Vou na minha casa buscar um maior.
– Não, Jika, desculpa lá. Vais saltar sozinho, eu já
num vou saltar mais de guarda-chuva.
– Nem num bem grande que tenho, daqueles da praia, anti-sol e tudo, colorido tipo arco-íris?
– Nem esse!
O Jika ficou desanimado. Sem outras propostas para brincadeiras perigosas, decidiu ir para casa. Ao cruzar o portão, falou ainda:
– Posso te perguntar uma coisa?
– Diz, Jika.
– Amanhã num queres me convidar pra almoçar na tua casa?


Ondjaki (Angola), in Os da Minha Rua