03/12/2009

Maria Pedra no cruzar dos caminhos


Quando deu conta do tempo, Maria Pedra foi a correr para o cruzar dos caminhos, na encosta da Chão Oco, e ali se deitou, saia levantada à espera que algum macho a encontrasse. Era de Dezembro, ela tinha anos e era virgem.
E assim ficou cinco dias e cinco noites, destapada e oferecida até que um vizinho a trouxe inanimada. Depositou o corpo à porta de casa, ali onde a praça se enche de luz, avistosa de todos, redonda como a vozearia da aldeia.
O que acontecera? Tinham passado tantos, e tantos dela fizeram uso que ela ficara ofendida, mal-procedida para a vida inteira. Isso dizem uns. Outros juram que ninguém ousou tocar-lhe. Que ela assim, estendida e de olhos cerrados, parecia já possuída por forças do outro mundo. E lhe escapava até, viscosa e amarelenta, uma baba dos queixos. Nem o mais carente e maiúsculo dos másculos desejaria mulher naqueles escangalhos. Ou ainda, segundo outros escondidos rumores, o vizinho se tinha despenteado com ela, anoitrevido? Esse vizinho sempre saíra um mosca-viva, homem com desculpas no cartório.
Mas a mãe assegurou: ela tinha chegado virgem. Ela mesma confirmara, espreitando-lhe as partes, abaixo dos pêlos públicos. As marcas de dentes que trouxe no peito eram mordidelas de bicho, desses tão nocturnos que nunca ninguém esteve desperto para os testemunhar. Naquelas cinco noites ninguém em casa se mexeu, com medo que fosse cumprimento de promessa, um preventivo de feitiço.
Pelo sim pelo enquanto, a família ficou de olho no ventre de Maria Pedra, alertada para o mais leve arredondar. Passaram-se meses e a moça mantinha-se magra, rectilinda. Um suspiro percorreu todos. Se houvesse gravidez, a desconfiança rondaria entre todos. O culpado poderia ser qualquer um e até irmãos e tios caberiam entre os suspeitos.
Nove meses escoaram e, todo esse tempo, a moça não falou uma palavra que fosse. No resto, cumpria os afazeres: casa para parente para aguar, bosque para lenhar. E, de novo, em cada noite, o sonhado fogo regressava à cinza: o infinito ciclo do seu inexistir.
Cumpria-se o último dia de Setembro quando a moça arrumou uns panos, avolumou com eles uma trouxa e atou esse volume à cintura. Quem a visse caminhar, no lusco-fulgir da madrugada, diria que Maria Pedra despertara subitamente grávida. Para onde se descaminhou? Pois se dirigiu, de novo, ao cruzar dos caminhos e ali se deitou, enroscada, pteridófíta. Foram avisar a mãe. Que a moça sofrera de novo acesso.
- Vou lá - disse a mãe, passando um gesto rápido frente ao espelho.
Alisava o ventre que engordara, fruto das preocupações que a filha lhe trouxera. O que ela sofrera, naqueles nove meses de angústia! E como se ganhasse mais decisão, repetiu:
- Vou lá, antes que seja tarde.
- Para ela há muito que já é tarde.
Era o pai, em murmúrio, num canto da sala. Inválido, o homem vivia entre o vazar de garrafa e o desarolhar de outra garrafa. O vizinho, solícito, sossegou-a:
- Vá, à vontade. Eu tomo conta aqui do nosso homem.
E empurrou o assento e o assentado. O marido bateu com ambas mãos nos braços da cadeira de rodas. Agredia o seu próprio destino:
- Você devia era arranjar-me uma garrafa de rodas!
E voltou a apagar-se, escuro no recanto escuro. O vizinho fez um sinal para que a dona de casa se afastasse, rumo aos seus afazeres.
A mãe cruzou a aldeia. Primeiro, apressada. Queria adiantar-se aos rumores, enxotar as vergonhas. Mas à medida que ia descendo a encosta, o seu passo foi esmorecendo. Vagarosa como sombra se chegou à filha que se conservava enroscada sobre a rocha do entroncamento.
- Venha, minha filha. Volte a casa.
- Agora não posso - respondeu Maria Pedra.
Uma tremura na voz? A miúda chorava. Seria dessas inventadas mágoas, dessas que ela criava apenas para se sentir existente?
- Venha, traga essas roupas, antes que a aldeia acorde.
A mãe puxou pelos panos que nela se enrodilhavam. A moça resistiu, as duas mulheres se disputaram com violência, até que se envolveram corpo contra corpo. Houve rasgo e unha: já sangue escorria pelas pernas da mãe. Foi quando se descortinou, por entre o emaranhado das roupas, o corpo de um menino, recém-nado. E o choro inaugural de um novo habitante.
A mãe ficou anichando o recém-recente no ofegante ventre. As duas deitadas, lado a lado, alongaram um silêncio.
- Esse filho é seu, Maria Pedra!
- Sossegue, mãe. Eu digo que é meu.

Mia Couto, In O Fio das Missangas

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