09/12/2009

A libélula

[palavras para o Dr. Carvalho]

se destas pedras uma
anunciasse
o que a faz silêncio:

aqui, muito perto,
[...] isso se abriria, como ferida
em que terias de mergulhar


Paul Celan, A Força da Luz.




Um som fluido abandonava a casa, roçava na poeira das trepadeiras no jardim, influenciava as mangas e os mamões no seu processo de maturação, arrepiava uma libélula inebriada que ali adormecera, fazia o sol abrandar e chegava, ainda forte, ainda nítido, ao ouvido da mulher. Depois disto, um sorriso.
Na aparelhagem o som acontecia contínuo, ininterrupto. O doutor solidificara este hábito domingueiro: sentar-se no fresco da sua varanda ouvindo, durante extensos momentos, a voz de Adriana Calcanhoto. Ora dormitava, ora lia, ora escrevia, ora se quedava simplesmente de olhos rasgados contemplando as nuvens gordas azularem o céu. Para ele não se tratava de beatificar um domingo, mas sim a própria paz. Aliás, «domingo» era, para o doutor, uma palavra muito interna. Fosse um poço.
Pressentindo isto – que o doutor se apresentava em pleno estado de domingo –, a mulher hesitou. Encostou a testa ao ferro do portão e quis acreditar no impossível: que não tinha sede. A testa latejava; os olhos se queriam, de facto, fechar, olvidar o mundo, cessar a prestação de serviços visuais. O frio do portão trouxe-lhe agrado aos dedos, ao coração também. A música invadia-lhe os poros. Então, aí sim, ela partilhou uma sensação com o doutor. Ele, no mesmo instante pensava: esta voz pode ser dividida. A voz de Adriana, empurrando a tarde: «será que a gente é louca, ou lúcida... quando quer que tudo vire música».
No intervalo de voz, a libélula decidiu acordar, mover-se em zum-zum aberto, e aterrisar junto aos apontamentos do doutor. Gatafunhos, memórias recusadas, esquebras de horas mais sensíveis que escusava aceitar como suas. «Eu perco o chão, eu não acho as palavras» – a voz cantava. Há anos que o doutor acertara as contas com os animais e se apaziguara numa relação equilibrada com eles. Mantinha uma relação ainda conflituosa com as baratas e os sardões, mas já não era homem para matar. Em vez disso, usava sorrir. Não raras vezes, pela manhã, sentia saudades de ver correr olongos como vira na infância, na província do Namibe; também por vezes, na praia, encontrando cavalos suados se detinha, de olhos a quererem fechar, saboreando o odor forte a pêlo de cavalo suado. Se feliz ou em vésperas de viajar, sonhava com borboletas brancas ou amarelas, e não procurava interpretar o sonhado. Há anos que fizera as pazes com os animais, incluindo a espécie dengosa dos gatos, à qual ele mesmo infligira uma baixa mortal. Os gatos, essencialmente os gatos, haviam-no reaproximado dos bichos.
Foi depois da libélula que reparou na mulher encostada ao seu portão, de olhos fechados, pareceu-lhe, a ouvir a música de Adriana: «tenho por princípios nunca fechar portas, mas... como mantê-las abertas, o tempo todo...»
Descruzou as pernas; lentamente as desceu da outra cadeira; enfiou as sandálias. Andando, mirava a tranquila libélula caminhando sobre as suas letras, sobre o cheiro da sua tinta 971 violet. Era tinta um tanto pegajosa, exigia mesmo um ritmo acelerado de escrita pois, em contacto com o ar, era veloz em solidificar. Mas a libélula, pouco curiosa, não chegaria ao frasco, não beberia. Um degrau, dois. Está junto ao portão e a mulher, ao contrário do que ele desejava, não abriu os olhos. Mas falou.
– Desculpe interrompê-lo...
Nem foi susto nem foi coisa de se descrever. Simplesmente o doutor não contava com aquela noção de proximidade.
– Reconheço o cheiro da tinta... O senhor escreve com uma pena?
– Não... Isto é... Bom, é uma espécie de pena.
O portão estava destrancado. Ele fez menção de o abrir, ela abriu os olhos, afastou-se ligeiramente das grades.
– Desculpe interrompê-lo, mas estou com muita sede – ela, talvez esperando que o doutor revelasse se desculpava ou não a intromissão, se havia alterado o seu humor.
O portão foi aberto pela mão certeira do doutor, enquanto a outra executava um gesto afável que a elucidou. Aquele homem não era facilmente perturbável. «Lá mesmo esqueci que o destino, sempre me quis só...» – cantava Adriana.
– Água ou refrigerante? – o doutor.
– Água, por favor.
A mulher viu a libélula parada. Tinha a cor demasiado viva para estar morta ou embalsamada, mas era totalmente imune ao vento que baloiçava as folhas de papel. Aproximou-se da mesa sem se sentar – a mulher. Por curiosidade olhou as letras sobre o branco, não no intuito de ler a composição, mas pelo hábito de apreciação estética da ortografia masculina. Era, viu depois, uma «espécie de pena», como lhe dissera o doutor, a que havia produzido aqueles gatafunhos encantadores. Não resistiu e chegou a mão perto: parecia cristal.
– É de vidro. Vidro mesmo. Não é bonita? – o doutor.
– Muito... É uma pena muito especial – a mulher.
A água, num copo normal, chegou-lhe às mãos. O doutor entretanto pousou o jarro no lado longínquo da mesa, sem perturbar a libélula. Convidou a mulher a sentar-se.
– Obrigado. O senhor deve estranhar, não?
– Estranhar?
– Pedirem-lhe água. Já ninguém toca às campainhas para pedir água, não é?
– É. A senhora não é de cá, pois não?
– Não.
A mulher serviu-se novamente. Bebia devagar, como convinha.
– Contava uma avó minha que, certa ocasião, em Silva Porto, um senhor lhe entrou pela casa adentro cheio de sede e lhe pediu água. A minha avó voltou à sala com um jarro de água muito fresca e assistiu-o beber três copos de água de seguida, sem parar.
– Foi?
– Foi. O senhor só teve tempo de lhe devolver o jarro, pois o copo partiu-se enquanto ele tombava no chão. Morreu ali mesmo, sabe? Desde então a minha avó vivia a contar esta estória, de resto, verdadeira, pois foi-me confirmada pelo meu avô – terminou o doutor.
– Não me assuste.
– Não foi para assustá-la, desculpe.
– E o que lhe disse o seu avô?
– Sabe, o meu avô era um homem de invulgar humor e sensibilidade. Em criança confirmou-me toda a estória e por fim disse-me: esse homem nem agradeceu a água à tua avó.
A mulher pousou o copo, respirou fundo.
– Sabe porquê que pedi água aqui na sua casa?
– Não.
– Por causa da música... Esta voz tão doce.
– Adriana.
– Como?
– Adriana Calcanhoto, cantora brasileira.
– É poeta?
– Também.
– Não... O senhor. O senhor é poeta?
– Ah, eu! Não, sou médico. E a senhora?
– Eu estou cá de férias.
A libélula progrediu no terreno. Finalmente mexeu-se, mas caminhando.
Na expressão de ambos era visível o espanto de duas crianças que atentas e boquiabertas assistissem, de repente, ao movimento gracioso de uma pedra. A libélula caminhou em direcção ao objecto. Num breve sacudir de asas saltou e voltou a estar quieta – uma guerreira demarcando o território conquistado. «E a greve entre as estrelas só para mim», a cantora progredia na varanda, na tarde.
O objecto era uma espessa redoma de vidro, certamente cara, que protegia uma pedra minúscula, cinzenta, banal. Uma pedra pequenina, era o máximo que se poderia dizer. Nem graciosa, nem peculiar, nem mesmo exótica ou atraente. Era uma pedra brutalmente vulgar. A instalação, contudo, valorizava a pedra.
– Julgo que o valor dessa pedra não pode ser medido pela sua aparência. É assim?
– Sim.
– Mas esta redoma parece muito bem trabalhada...
O doutor, num gesto resoluto, abanou a libélula – uma surpresa para a mulher e para a libélula. O insecto voltou a pousar sobre as letras. A pedra e a sua redoma foram arremessadas ao chão. A mulher não teve tempo de invocar um susto. O objecto bateu ruidosamente no chão por duas vezes e, após rolar alguns centímetros, terminou a digressão. O doutor pegou no objecto e voltou a pousá-lo sobre a mesa, ao pé das letras, dos papéis, da libélula. O insecto, num breve aspergir de asas, realcançou o seu posto.
– Nem todo o vidro é frágil, dizia o meu avô. Esta redoma é muito boa para proteger objectos valiosos.
A mulher voltou a sentir sede mas não quis incomodar.
– Uma oferta?
– Sim, uma oferta muito especial, muito sincera.
– Os médicos recebem muitas ofertas?
– Algumas, é uma maneira das pessoas expressarem carinho e gratidão.
E calou-se.
A mulher não queria partir mas julgou estar a forçar o momento. O doutor mantivera-se calado por mais de cinco minutos. À mulher pareceu justo que fosse sua a iniciativa de partir. A música parecia terminar e, a voz, era uma voz difícil de recordar no ouvido da memória.
– Adriana, disse?
– Adriana Calcanhoto. Brasileira.
– Muito obrigada pela água.
– De nada. Já sabe, beba sempre devagar.
– E agradeço antes de morrer!
O doutor quase sorriu. Os lábios contorceram-se; apenasmente uma tentação de sorriso. Talvez.
O portão foi aberto. A mulher, pegando propositadamente nas grades reconheceu a sensação de frieza na pele.
– Sabe, foi num domingo – iniciou o doutor. – Fui chamado à frente de combate e ninguém queria operar o homem: tinha uma espécie de explosivo preso à perna. Era uma operação muito delicada, ainda hoje penso nisso. Tive que fazer tudo muito devagar, enquanto o homem sofria com as dores, e ambos tínhamos que ser pacientes. Quase no fim, o soldado disse-me: deixa-me morrer, tou muito cansado já. Eu respondi: já te deixo morrer, deixa-me só salvar-te primeiro.
– Ele morreu?
– Não. A operação correu bem. Ele, no fim, quis dar-me uma prenda. Como não trazia nada, descalçou a bota e disse: agora já sei porquê que a pedra anda a me incomodar há dois dias. Toma lá, doutor, só pra não esquecermos esta nossa conversa de hoje. Você ficas com a pedra, eu fico com a cicatriz.
O portão fechou-se. A sede tinha passado. A mulher, caminhando lentamente pelo passeio, entendeu que era a pedra que valorizava a instalação. Ouviu passos. A música recomeçou: «minha música quer estar além do gosto, não quer ter rosto, não quer ser cultura.»
Entre duas folhas acastanhadas – numa janela de poeira – a mulher viu: a libélula, parada, ondululava o corpo. Fosse uma dança. Sob as suas patas, a pedra brutalmente vulgar repousava. Entre a memória do homem e a redoma inquebrantável de vidro.

Ondjaki, e se amanhã o medo