05/12/2009

A Árvore de Natal do Senhor D'Auvrigny




Auvrigny é o nome de uma aldeia perdida nos confins das Ardenas, numa região isolada e bravia junto da fronteira com a Bélgica. Esse pequeno recanto da França, berço natal de todos os cesteiros, afastado das grandes vias de comunicação, manteve-se por muito tempo atrasado em relação ao resto do país. No princípio da Revolução Francesa, Auvrigny era uma aldeia de cinqüenta casas, a pouca distância de uma vasta casa conhecida como castelo, habitada por um bom fidalgo provinciano, solteirão, muito agradável no trato e muito afável.
Desde tempos imemoriais a aldeia e o castelo mantinham entre si as melhores relações. O conde de Auvrigny era caridoso, os camponeses mostravam-se dedicados. À menor dificuldade, recorriam ao senhor, que se encarregava de resolver amigavelmente as questões entre eles, e se mostrava sempre disposto a intervir nos desaguisados com a administração das Águas e Florestas ou com os guardas do senhor duque de Orleans.
Sem pôr fim àquele bom entendimento, os acontecimentos da Revolução esfriaram um pouco as relações entre os aldeães e o senhor. As gazetas não chegavam a Auvrigny, é certo. Aliás, teriam encontrado ali tão reduzido número de leitores, que a sua influência seria quase nula. No entanto, os “espíritos fortes” agitavam-se. Sempre havia contatos com a vila de Nouvions, e mesmo com Vervins, onde acabava de ser instalado o tribunal da comarca. Embora apenas de forma remota e vaga, a aldeia mantinha-se informada do que ia acontecendo em Paris.
Na altura das eleições, tinham vindo de Laon uns senhores de largos cinturões, empenachados como trombeteiros, que pregavam aos camponeses boquiabertos os benefícios da igualdade e a felicidade da independência. Diziam mais: que todos os nobres eram falsos como Judas e cruéis como o Barba Azul; mas os camponeses de Auvrigny só conheciam um, que sempre lhes parecera franco e generoso, de maneira que os discursos dos jacobinos de Laon não fizeram efeito por ali.
Quanto ao conde, nada mudara nos seus hábitos. Como era sensato e inteligente, absteve-se de emigrar. Não tendo nenhum direito senhorial a perder, não mostrou qualquer despeito quando da abolição dos privilégios. E ao ver que pouco a pouco os aldeães, que sempre tratara como amigos, por desconfiança ou por orgulho se desabituavam de vir consultá-lo, fez-se de desentendido e continuou como antes, vivendo à maneira de filósofo que nada espera de ninguém, e que a opinião alheia pouco afeta.
Estava-se no inverno de 1793, na véspera de Natal, e o conde de Auvrigny, fiel a um velho costume da região, mandara armar no vestíbulo do castelo um magnífico pinheiro cortado no seu parque e enfeitado de luzinhas, fitas, brinquedos e gulodices, alegremente pendurados nos ramos escuros. Era tradição as crianças da aldeia virem todos os anos, acompanhadas pelos pais, fazer a colheita daquelas maravilhas; em seguida o conde mandava distribuir uma suculenta merenda de bolos e doces. Os cestos das mães, que tinham vindo vazios, regressavam transbordando de provisões e de roupas confortáveis. Até os homens encontravam, na algibeira dos capotes, poeirentas garrafas de vinho ou cabacinhas de aguardente velha. Era uma festa que alegrava toda a gente dois meses antes, e que dava que falar depois até à Páscoa.
Ora, nesse ano desgraçado o conde entendera que não havia de renunciar à caridosa tradição, embora percebesse muito bem que, havia tempos, a desinteligência entre o castelo e a aldeia se ia cavando mais fundo. Nesse dia lembrara-se até de arranjar um lindo presépio, onde se via a imagem de cera do Menino Deus, deitado nas palhinhas, numa gruta de cortiça colocada à sombra da árvore de Natal, sob os grossos ramos que uma nuvem de farinha parecia cobrir de neve.
O velho fidalgo, que gostava de dirigir pessoalmente estes arranjos, dava os últimos retoques na sua obra quando ouviu baterem à porta do castelo. Imaginando que a impaciência de algum dos seus convidados o trazia antes da hora, apressava-se a acender as últimas velas, quando o criado introduziu, em vez do bando de crianças que ele esperava, o regedor da aldeia, Gérard, e o seu adjunto, que se chamava Birou.
O conde estendeu-lhes a mão, que apertaram com certo embaraço. Conhecia-os a ambos de longa data. Gérard, camponês quase analfabeto, não era mau. Birou, pelo contrário, era invejoso, parlapatão e pretensioso. Sabia ler mais ou menos a “letra de forma”, e essa superioridade granjeava-lhe enorme prestígio aos olhos dos conterrâneos. Conseguira ser admitido no clube dos jacobinos de Guise, e acabava até de se fazer assinante de uma folha revolucionária, que lá ia decifrando mal-mal, sem perceber patavina. Era ele que dava ordens na comuna; fora ele, igualmente, que conseguira inculcar no espírito dos patrícios a idéia de que a sua dignidade de homens livres não lhes permitia manter relações com “o explorador dos pobres”, que era o conde. Deve-se dizer entre parênteses que Birou tratava o melhor possível esse mesmo senhor, pois era naturalmente obsequioso, e pensava com prudência que não se podia prever “que volta levariam as coisas”...
Gérard e Birou apresentaram-se, pois, ao conde de Auvrigny, muito surpreendido com a inesperada visita. Birou lançou à árvore de Natal um olhar bastante escarninho, mas conteve-se. Gérard cumprimentou com acanhamento. Como o nobre lhes agradecesse por terem vindo antes de todos os conterrâneos, o regedor balbuciou:
— Oh!... Não é bem por isso que nós... Pois não, Birou?...
— Não, não — replicou Birou, com um risinho alvar. — Não é isso que nos traz aqui.
O conde convidou-os a entrar no escritório e a expor o motivo da visita, declarando-se pronto a escutá-los, enquanto não chegassem os convidados; mas Birou cortou de repente:
— Bom!... Para sermos francos, cidadão, os seus convidados não vêm.
— Como?!... Por quê?
— Lamento, lamento muito — apressou-se a acrescentar Birou. — O cidadão Gérard que diga a pena que tenho, mas eles pensaram... acharam...
— O quê? Acharam o quê?
— Que as circunstâncias não lhes permitiam, como patriotas, participar em certos atos manchados de espírito aristocrático.
Era uma frase de gazeta. O conde mordeu os lábios.
— Ora, diga-me cá, Birou: acha que o que era bom há alguns anos pode hoje ser mau?
— Não, claro... O que eu queria dizer...
— A menos que a moral tenha mudado, como receio, será que temos o direito de criticar hoje o que aprovávamos ontem?
Não se sentindo à altura de manter a discussão naquele tom, Birou esquivou-se e replicou com um dos argumentos que ouvira repetir no clube de Guise, e que aplicava a torto e a direito, sem lhe compreender o alcance:
— Deixemo-nos de discussões, cidadão: se a gente não vem aqui desfilar diante da sua árvore, é porque essa manifestação pueril revolta a razão e ofende a igualdade!
— Quando tiver tempo, Sr. Birou — respondeu o aristocrata — há de explicar-me por que a imagem de uma criança deitada nas palhinhas do presépio fere os seus sentimentos igualitários. Mas é melhor ficarmos por aqui. Tornaremos a falar da minha árvore de Natal quando os tempos forem menos confusos, e as pessoas menos tolas. Oxalá este repúdio de um velho costume, de que os vossos pais tanto gostavam, não venha a trazer-vos infelicidade...
E, como a despedir os visitantes, acrescentou:
— Não tinham mais nenhuma comunicação a fazer-me?
— Perdão — disse por sua vez Gérard — eu vinha consultá-lo sobre uma coisa muito delicada. Birou, que fala bem mas fala demais, não me deu tempo para perguntar.
E o regedor explicou que, nos seus três anos de funções, fora se desembaraçando a contento da tarefa. Lembrou que muitas vezes, no princípio, viera pedir conselho ao conde. Depois esforçara-se por se valer do seu bom senso e das luzes do povo da comuna, mas daquela vez o caso era grave, tão grave que ele não vira remédio senão vir esclarecer-se junto do “homem mais instruído da região”. É que ele recebera na antevéspera, por intermédio do comissário do Poder Executivo de Salvação Pública, intimação para organizar o mais depressa possível a lista dos suspeitos da comuna de Auvrigny.
— Ora — continuou — por mais que puxe pela cabeça, não sei o que é um suspeito. O Birou também não sabe. Consultei o Havard, o Desquesne, o Jendelle e o Rendon, as melhores cabeças da aldeia, e nenhum deles ouviu falar de suspeito. É palavra que não conhecemos. Então tirei-me dos meus afazeres e vim perguntar ao cidadão se sabe o que é.
O conde encarou rapidamente os seus interlocutores. Vendo que não havia neles sombra de malícia, e que o seu embaraço era real, volveu com toda a seriedade:
— De fato, suspeito é uma expressão nova, que eu também nunca tinha ouvido até há pouco tempo... Mas a que se destina essa lista que os senhores têm de organizar?
— Assim que esteja escrita, tenho de a mandar diretamente ao Comitê de Salvação Pública, que, como diz aqui na carta, tomará imediatamente medidas adequadas.
— Oh! Oh! A coisa é urgente, na verdade... Pois muito bem, meu bom Gérard, o que o Comitê lhe pede é simples: quer apenas saber os nomes de todos aqueles que nesta comuna se têm distinguido desde o começo da Revolução, pelo seu patriotismo e pelo seu ódio ao antigo regime.
Como notasse que Birou era todo ouvidos, o conde acrescentou negligentemente:
— É provável que a Convenção queira distribuir cargos e pensões. Suspeitos, em linguagem oficial, quer dizer aqueles que são suscetíveis de receber uma recompensa nacional.
— Era o que eu pensava — observou Birou.
— Não me surpreende, Birou. Como você me dizia no outro dia, a República abateu a hidra do fanatismo e triunfou sobre todos os seus inimigos. Por conseguinte, só lhe resta agora pensar nos amigos; e, como vêem, não os esquece... Só tenho uma mágoa: é não poder figurar nessa lista de honra.
— Ora!... — insinuou Gérard, magnânimo. — Se tem tanto empenho nisso...
— Não! De maneira nenhuma! O meu nome de aristocrata só poderia prejudicá-los perante o Comitê. E além disso nada fiz para merecer figurar ao lado daqueles que, como vocês, se bateram pela liberdade.
O regedor parecia imensamente atrapalhado:
— Então, como há de ser? Na tal lista de suspeitos (diacho de nome!) vou já plantar o Birou...
— Excelente idéia! Ponha-o logo no início... Então, então — acrescentou o conde, voltando-se para Birou, que esboçava um protesto afetado — deixe-se de modéstia. É mais do que justo. Olhe, Gérard, sente-se a essa mesa e escreva: Lista dos Suspeitos da Comuna de Auvrigny...
O camponês, com a pena apertada nos dedos grossos, traçava em caracteres enormes as palavras que ia soletrando a meia-voz. E aplicava-se tanto, que tinha a testa perlada de suor e a ponta da língua entre os dentes. Finalmente, lá conseguiu levar a empresa a bom termo.
— Pronto! Cá está o título. Agora os nomes: Birou primeiro; depois, quem mais há de ser? Não posso pôr só um... É uma miséria.
— Claro! — aprovou o conde. Até parecia que estava a regatear. — Mas olhe lá, ainda há pouco citou o Havard, que grita “fora com ele!” quando eu atravesso a aldeia. Esse é dos bons. E o Rendon, que me apanha os faisões que pode, a pretexto de que os coutos já acabaram. Aí tem você outro fervoroso partidário do novo regime. Olhe, o Jendelle, que derrubou a cruz do cemitério. O Desquesne, que nos trata a todos por tu e não tira o chapéu, porque acha que a boa educação é inimiga da liberdade. Aí tem uma boa quantidade deles, que têm dado garantias ao novo regime.
Gérard ia escrevendo os nomes que o conde citava. Quando acabou, levantou a cabeça com ar satisfeito, e arriscou:
— E se eu pusesse também o meu nome?
— Não o aconselho, Gérard — respondeu o conde. — Tem de assinar a lista como regedor da comuna, por isso é mais conveniente não se indicar a si próprio.
Embora um pouco desconsolado por não figurar na lista dos suspeitos, o regedor de Auvrigny mandou-a nessa mesma noite ao Comitê de Salvação Pública. Na aldeia espalhara-se a notícia do acontecimento. Birou não pudera calar-se, gabara-se de que em breve os senhores desse comitê o chamariam a Paris para lhe conceder uma recompensa — talvez dinheiro, ou um bom lugar, acompanhado de uma coroa cívica. Por isso não faltou quem o invejasse quando, certa manhã, a casa do adjunto foi invadida pela guarda de Nouvions, sob o comando de um agente do Comitê de Segurança Geral. Fez subir Birou para uma berlinda, em cujas portas se distinguia ainda, apesar de muito raspado, o escudo de armas com as flores-de-lis da casa de Orleans. Jendelle e os outros foram também levados; e nessa noite, à ceia, Gérard não pôde conter um suspiro ao dizer para a mulher:
— Se o conde me tivesse deixado fazer o que eu queria, também eu iria com eles a estas horas, a caminho de Paris...
— É para aprenderes a não confiar nos conselhos de um aristocrata!
Gérard, amuado, não tornou a pôr os pés no castelo. O conde, por seu lado, também nunca ia à aldeia. Mas um dia que teve de ir ao ferreiro, estranhou o aspecto deserto e silencioso das ruas. Vendo um velhote, que o saudava à moda antiga, perguntou-lhe o que significava aquilo.
— Ah, senhor conde! Já não há homens válidos na aldeia. Como o senhor sabe, o governo mandou pedir os nomes dos que haviam de receber recompensas, e o regedor indicou cinco, que foram logo chamados a Paris. Mas os outros, quando viram aquilo, nunca mais sossegaram, insistindo para serem propostos, e o Sr. Gérard teve de redigir segunda lista dos suspeitos de Auvrigny, onde meteu quase todo mundo. Nem sequer resistiu à tentação de lá se inscrever também. De maneira que um dia veio aí a brigada toda de Vervins com um grande carro, onde empilharam os nossos homens. Há seis semanas que para lá foram, todos a rir e a cantar, mas o tal lugar que lhes deram deve ser de muito trabalho, porque ainda não houve nem um que desse notícias...
E foi assim que o conde de Auvrigny, aristocrata da gema, se desembaraçou de vizinhos desagradáveis e viveu sossegado no seu castelo durante todo o período do Terror, enquanto os seus camponeses, com mais alguns dez mil, tão perigosos e tão culpados como eles, enchiam as cadeias de Paris.
Quando veio o Termidor, o fidalgo fez tudo o que pôde para obter a liberdade dos presos. Mas nessa altura eram tantas as injustiças a reparar, que os meses iam passando e ele nada conseguia.
Transformara-se no pai adotivo da aldeia, onde só restavam velhos, mulheres e crianças. Tinha sempre a mesa posta e a bolsa aberta para aquela pobre gente, que não dava um passo sem o consultar, e que o considerava a sua providência. Auvrigny voltara aos velhos tempos de antes de 1789, quando a aldeia e o castelo confraternizavam. Os camponeses, não tendo outros recursos senão a generosidade do senhor, voltaram a chamá-lo senhor conde e respeitavam-lhe os faisões. Ele, por seu lado, continuava a não dar mostras de surpresa ante as sucessivas reviravoltas que o espírito da população ia sofrendo a seu respeito.
Notou-se apenas que, ao aproximar-se o inverno, fez várias viagens a Paris. O motivo dessas peregrinações tornou-se claro quando, alguns dias antes do fim do ano de 1794, começaram a chegar a Auvrigny, de orelha murcha, um a um, os suspeitos que dali tinham partido tão gloriosos alguns meses antes. Mostravam-se muito reservados quanto aos pormenores da sua aventura, de que aliás não percebiam grande coisa. Mas não poupavam louvores ao conde, que dera provas de um zelo infatigável para os tirar da cadeia.
Por isso houve grande afluxo de gente no castelo, naquela véspera de Natal. O conde, no entanto, não fizera convites. Se armara a costumada árvore de Natal, ainda mais carregada de surpresas do que habitualmente, fora apenas, ao que parecia, para sua satisfação pessoal. Estava ali a aldeia em peso, respeitosa, cheia de gratidão. E como o regedor Gérard se conservava modestamente atrás do povo, o fidalgo foi buscá-lo pela mão e o trouxe para perto.
— Ah, senhor conde! Se eu lhe tivesse dado ouvidos! Mesmo assim o senhor sempre nos pregou uma destas lições!...
— E não ficou zangado, Gérard?
— Nada, senhor conde, porque se eu naquela altura tivesse sabido de fato o que era um suspeito, era o senhor, e só o senhor que eu ia pôr na lista. Teria feito essa asneira. Quando penso nisso, até sinto calafrios.
— Por quê?
— É que eu bem vi como as coisas se passaram! O senhor conde, se lá tivesse ido, nunca mais voltaria. Mas, naquela confusão, não ligaram nenhuma importância a nós, camponeses. Só o Birou...
— O Birou?...
— O senhor conde sabe... aquele espírito forte... Ele tanto fez, tanto protestou, alegando que tinha direito a uma recompensa, e exigindo um cargo, que resolveram recompensá-lo, e foi incorporado na 12ª Brigada. Agora é cabo no Regimento de Caçadores de Gevaudan.
Como se encontravam ambos junto do presépio iluminado, Gérard, apontando ao fidalgo os rostos extasiados das crianças, que passavam de mão em mão os brinquedos tirados da árvore, acrescentou:
— Olhe, senhor conde, estou certo de que o Birou daria as divisas todas para estar aqui esta noite conosco...


G. Lenôtre, Lendas de Natal — Verbo, Lisboa, 1966