11/10/2009

Entrada no Céu




Nada é repetível, tudo é repetente? Era o que eu perguntava na catequese. E mais buscava, em clareza:
- A vida, Santo e Deus, tem segunda via?
O Padre Bento não queria nem escutar: só a dúvida, em si, já era desobediência. Primeiro, ninguém descasca duas vezes o gergelim. Depois, vale a pena o pecado se confessável. E Bento avisava: não se entra no Céu de qualquer maneira. Aquilo lá, nos portões celestiais, requer devida licença. E mais eu perguntava: quem executa essa triagem, à entrada do paraíso? Um encartado porteiro? Um tribunal com seus veneráveis julgadores?
Passaram anos, persistiram enganos. E ainda por esclarecer me resta o assunto. É por isso que regresso ao senhor para que me escute, nem que seja em religioso fingimento. Se faça-me o favor, senhor padre, me diga: cuja essa entrada no Paraíso é à moda da raça, ou das cláusulas de sermos um zé-alguém? Os pretos como eu, salvo sou, apanham licença? Ou Precisam pagar umas facilidades, encomendar um abre-boca nalgum mandante?
Estou prosapioso, mas é derivado da dúvida, Excelentíssimo. As perguntas me fazem risco na garganta. Exemplo: a pessoa pode sair directamente da aldeia para o Céu? Assim, sem passar devidamente pela capital, nem estar documentado com guia de marcha, averbada e carimbada nas instâncias?
Depois, veja: eu não falo inglês. Mesmo em português, eu só rabisco fora da cartilha. Já estou a ver lá o letreiro, ao jeito dos filmes: welcome to para-dise! E não mais saberei ler. Bem poderão me conceder a palavra. É como dar um alto-falante a um mudo.
Minha esperança é que aconteça como no baile do Ferroviário. Faz tanto tempo que aconteceu que, para lembrar, devo ir além da memória. O baile era o do fim do ano. O Padre bem sabe: o ano não é como o sol que nasce para todos. O ano acaba só para uns e começa cada vez para menos pessoas.
Eu sabia que não me iriam deixar entrar. Mas a minha paixão pela mulata Margarida era maior que a certeza de ser excluído. E assim, todo envergonhado, com vestes de empréstimo, me alinhei na fila da entrada. Eu era o único não-branco nas redondezas. Meu espanto: o porteiro não pareceu surpreso. Apoiou a mão no meu ombro e disse:
- Entra, rapaz.
Confundiu-me, por certeza, com um empregado de bar. Quem sabe, agora, o porteiro do Céu me confunda também e me deixe entrar, na crença que irei prestar serviço nos lugares da criadagem?
Porque o que acontece, caro Excelentíssimo Padre, é que eu estou morrendo, escoado em sangue, por vontade do meu desviver. Vê este punhal? Não foi com ele que me golpeei. Há muito que pego na faca não pelo cabo, mas pela navalha. De tanto segurar em lâmina, minhas mãos já cortam sozinhas. Eu dispenso instrumento para decepar. Aliás, o senhor conhece esta minha deficiência, estes dedos que não me obedecem, esta minha mão que não é minha, como se ela concedesse gesto apenas à minha alma já morta. Se me matei, desta vez, foi por acutilância de meus dedos. Não fique assim, não se desabe. Recorda-se do que eu lhe pedia, padre?
- Quero ser santo, senhor padre.
E o senhor se ria. Que santo não podia. E porquê? Porque santo, dizia o senhor, é uma pessoa boa.
- E eu não sou bom?
- Mas o santo é uma pessoa especial, mais único que ninguém.
- E eu, Padre, sou especialmente único.
Que eu não entendia: um santo é uma pessoa que abdica da Vida. No meu caso, Padre, a Vida é que tinha abdicado de mim. Sim, agora entendo: os santos são santificados pela morte. Enquanto eu, eu é que santifiquei a vida.
Agora, estou no fim. Um santo começa quando acaba. Eu nunca comecei. Mas não é desta vez que a morte em mim se estreia. O meu coração se apagou foi nessa longínqua noite do baile. Entrei no salão do Ferroviário, sim. Mas fiquei fora do coração da mulata Margarida. A moça nem deu deferimento de me olhar à distância, fria e ausente. Branca entre os brancos. Foi quando ela deixou cair um copo, que se estilhaçou no chão. E eu, para lhe diminuir a atrapalhação, logo me inclinei e recolhi os cacos, reunindo-os na minha mão. Foi quando o segurança da festa, chamado pelos doutores, me agarrou no braço e me forçou a levantar. O homem me puxou Pelas mãos e me apertou com tais vigores que os vidros cortaram fundo. Foi aí que decepei a carne, os nervos, os tendões. E escorreu sangue de um preto, como doença manchando o imaculado território dos brancos.
O que mais me fez sofrer, caro Padre, não foi o golpe. Não foi também o vexame. Foi Margarida ver-me ser expulso sem levantar protesto. Sofri tanto com essa desatenção dela, que a minha alma imitou o vidro: tombada aos despedaços. Quando me expulsaram já eu nem me sentia, despedido para sempre de mim.
Agora que pouco me resta, meu peito já não escuta senão a música desse baile onde a mulata Margarida me aguarda, braços estendidos a dar razão ao meu adiado viver. Estou entrando no salão de dança e, desculpe o contradito desrespeitoso, já não tenho força de mais falar. Só o desfazer dessa sua certeza: a vida, sim, tem segunda via. Se o amor, arrependido de não ter amado, assim o quiser.


Mia Couto, In O Fio das Missangas