13/10/2009

Adeus, Gasolina!

Era uma vez um país à beira-mar, com florestas, campos, cidades e gentes. Rasgado por estradas, cortado por ruas, cheio de automóveis por toda a parte. Os jardins tinham sido alcatroados para parques de estacionamento. As estátuas deitadas abaixo para erguer bombas de gasolina.
Grandes petroleiros aportavam ao cais, carregados de petróleo que grandes refinarias transformavam em gasóleo, gasolina, que, por sua vez, grandes autotanques levavam até às grandes estações de serviço.
Os sapateiros remendões tinham deixado de trabalhar porque já ninguém se lembrava de andar a pé. Em vez de se gastarem solas, gastavam-se pneus.
Os meninos ficavam fechados em casa para não serem atropelados e, de rastos nos corredores, brincavam com automóveis-miniatura.
Longe, muito longe, do outro lado do mar, havia outros países com suas gentes. Aí estoiravam bombas no deserto escaldante, furado de poços de onde saía o petróleo. Morriam homens por um palmo de terra ou por uma ideia. E como a única riqueza que possuíam era o petróleo, deixaram de o fornecer aos países inimigos.
Os petroleiros, então, partiam e passavam a voltar vazios. Os autotanques paravam junto ao cais, vazios; bichas enormes se formavam junto às bombas quase esgotadas. Passou a vender-se vinte litros, dez litros, cinco litros, um litro… até que acabou a última gota de gasolina.
Então foi o pânico. Não havia sequer autocarros, carrinhas de escola, carros de bombeiros ou ambulâncias. Os soldados passaram a ir para a guerra a pé. Mas os generais e outros oficiais superiores requisitaram os cavalos brancos da Guarda Republicana.
Os ministros conferenciaram pelo telefone e acharam por bem exigir os camelos do Jardim Zoológico.
E o presidente? Como poderia ele fazer as suas deslocações patrióticas, de Norte a Sul do território? Para o primeiro cidadão da Nação, enfeitou-se, com grande pompa, o elefante que toca o sino no Jardim Zoológico. Era imponente e tinha a grande vantagem de ir recebendo moedas dos admiradores que se juntavam para o saudar.
Aqueles senhores endinheirados que andavam a matar gente com carros de corrida compravam cavalos puro-sangue. Os homens da "Volta" pedalavam bicicletas. As famílias numerosas optaram pelas últimas carroças puxadas a mulas. As senhoras medrosas montavam vacas leiteiras. Alguns pais extremosos fizeram carrinhos puxados a cães para os meninos não faltarem às aulas. E o povo, os antigos donos dos automóveis Mini e dos modelos comprados a prestações ou em segunda mão? Começaram a comprar burros, tantos, tantos, tantos que em breve toda a cidade estava atulhada de burros, trotando, galopando, embirrando que não queriam andar.
Nas inúteis bombas de gasolina vendiam-se molhos de palha e braçados de erva. Já ninguém tinha os ouvidos martirizados pelas buzinas, mas pela bela voz grave e sentimental dos burros a zurrar.
E quando um condutor, furioso, gritava para o outro "saia da minha frente, seu burro!", já ninguém se irritava, pois pensava que o insulto era dirigido ao orelhudo bicho de quatro patas.


Luísa Ducla Soares In O Meio Galo