03/08/2009

Os nove mandriões

Era uma vez um varredor de ruas que de manhã à noite percorria a aldeia cantando a mesma velha canção:

Varre, varre, vassourinha,
põe esta rua asseada;
os outros sujam-me tudo,
limpo eu a lixarada.

Mas um dia, cansado de tanto varrer, encostou-se a um muro, limpou as mãos suadas ao fato-macaco e pôs-se a matutar:
"Ora, os outros é que sujam e eu é que hei-de limpar... Vai descansar, ó vassoura, que resolvi entrar em férias de uma vez para sempre!"
Não tinha dado dois passos quando ouviu uma voz que há muito conhecia:

Sou padeiro, faço pão,
passo a vida a amassar
A amassar e cozer pão
que os outros hão-de tragar.

- Cada um que trate de si! - disse-lhe o varredor. - Então estás a fazer pão para os outros comerem?
- Tens razão! Quem quiser que o faça! Espera aí, que vou contigo.
Seguiram rua fora. Logo na esquina, à janela do rés-do-chão, toparam com a Menina Rosa, airosa, de carinha cor-de-rosa, debruçada sobre a agulha:

Costureira, costureira,
estou farta de costurar,
De fazer lindos vestidos
que as outras irão usar.

- De tanto te dobrares, ficas velha antes de tempo. Coser para as janotas? Não sejas pateta, vem connosco passear!
Alindou a cabeleira, alisou a saia de pregas e, em menos de um minuto, ei-la no laró.
Não tinham passado um quarteirão quando ouviram uma rouca cega-rega:

Sapateiro remendão,
cá estou eu a remendar
Sentado, a arranjar sapatos
que outros pés irão calçar.

- Viemos desafiar-te para dar uma volta.
- Como, se tenho dez fregueses à minha espera?
- Trabalhar já não se usa. Quem não quiser marchar descalço que trate dos seus sapatos.
Largou o sapateiro a ferramenta e deitou pernas ao caminho.
Avançavam tão alegre e despreocupadamente que quase iam embatendo num aguadeiro que puxava um carrinho com duas enormes barricas. Raras eram as casas que tinham água e ele, de porta em porta, ia abastecendo a povoação:

Quem quer água bem fresquinha
para beber e refrescar?!
Os outros matam a sede,
eu mato-me a carregar.

- Os carregos são para os burros! Por que não vens divertir-te?
- Vou mesmo! Quem tiver a boca seca que vá encher bilhas à fonte.
Tinham tomado a estrada à beira-mar quando avistaram um pescador a desembarcar caixotes de sardinha:

Deito a linha junto à costa,
a rede no alto mar
Mas os outros é que fritam
o peixe que ando a pescar.

- Deixa o mar, que é traiçoeiro! Já passou o tempo de trabalhar para os outros.
- Pois claro! Quem quiser peixe que o vá pescar! - exclamou o pescador, pousando a carga no fundo do barco outra vez.
Formavam já animado grupo - o varredor, a costureira, o padeiro, o sapateiro, o aguadeiro e o pescador.
A manhã estava clara, o céu sem uma nuvem. Sempre em frente, campos fora, os prados eram verdes, as matas densas e abrigadas.
Junto a um ribeiro, zumba que zumba, esfregava uma lavadeira:

De tanto lavar a roupa
tenho as mãos todas esfoladas
Os outros sujam camisas,
eu apresento-as lavadas.

- Gostas assim tanto de lavar? - indagou o sapateiro.
- Eu não! Quem me dera poder passear como vocês. Mas tenho este monte de roupa...
- Quem a sujou que a lave! - exclamou a costureira. Ao ouvir estas palavras largou a lavadeira a trouxa na margem, passou as mãos ensaboadas por água e juntou-se ao grupo.
Logo adiante encontraram um pastor:

Eu sou pastor de carneiros,
cansado de caminhar
Comem-lhes outros a carne
e eu é que os ando a guardar.

- Por que não vens antes connosco? Quem quiser bifes que crie o gado.
Cajado, carneiros, cão - tudo o pastor ali deixou. Resplandecia agora o Sol a pique. Sabia bem a sombra dos pinheirais. E como a hora do almoço se aproximava, puseram-se a petiscar pinhões, abrunhos, amoras silvestres.
Até que ouviram um grito de alarme:

Ao fogo, ao fogo, bombeiro,
põe a mangueira a esguichar
Para apagar as labaredas
que outros foram atear.

- Que vem a ser isto? - indagou o padeiro.
- É fogo no matagal. Oferecem-se para dar uma ajuda? - perguntou o bombeiro, que avançava para as chamas.
- Nós? Nem pensar! - gritaram os oito em coro. - Quem ateou o lume que o apague!
- Terei sido eu, por acaso? Também não fui. Seguirei o vosso exemplo, pois já estou farto de fumaças e queimadelas.
Dizendo isto, atirou para longe capacete, machado, mangueira, arregaçou as mangas e lá partiu cantarolando.

Descobrimos o descanso
Nosso ofício é mandriar
Fiquem para trás as canseiras,
vamos todos passear.

Assim trauteavam os nove amigos. Tinham formado uma roda, enfeitado de flores os cabelos e, de mãos dadas, saltitavam na erva fofa.
Então começaram a ver os pássaros voar em todas as direcções: melros, pardais, milhafres e cotovias. Pulavam coelhos pela clareira, corriam esbaforidas perdizes, cobras e lagartos rastejavam pelo chão. Duas raposas e um lobo por eles se cruzaram, a galope, indiferentes aos pequenos bichos a que costumavam chamar um pitéu.
- Naturalmente vão todos de passeio, como nós… - lembrou o aguadeiro.
Enganava-se! Os animais da floresta não iam de passeio - fugiam de um inimigo comum que avançava com seus braços e pernas de fogo, crepitando, arrancando estalidos às árvores, contorcendo ramos, abafando a mata numa nuvem sufocante.
O incêndio que o bombeiro não acabara de apagar crescera assustadoramente.
- Ai!, que morremos queimados - choramingava a lavadeira.
- Salva-nos, bombeiro, mostra o que vales! - suplicava o sapateiro.
O bombeiro esquivava-se.
- Não fui eu quem acendeu o lume, não estou para me queimar.
Saltaram-lhe em cima os companheiros com ameaças, pancadas à mistura, mas ele, a esbracejar, a engolir fumo, lá conseguiu fugir a sete pés.
Esgueiraram-se uns atrás dos outros, em rebuliço, cai aqui, levanta acolá, berrando "ó da guarda!", chorando, suspirando.
Todo o dia correram, com o fogo a persegui-los, até que chegaram às dunas desertas. Aí tombaram na areia, rotos, chamuscados, alagados em suor.
Quando, na manhã seguinte, acordaram, resolveram voltar à aldeia. Pelo areal fora, à chapa do sol. Apertava-lhes a fome como um alicate, torturava-os a sede até lhes gretar os lábios.
Ao chegarem ao primeiro casebre, bateram à porta, suplicando um cântaro de água.
- É água que vocês pretendem? Nem pinga, pois o mariola do aguadeiro achou por bem entrar de folga! - replicou a dona da casa.
- Tem razão! - concordaram os amigos. - Mas ele já a vai buscar. Empreste-lhe uma bilha.
- Eu? Por que não vão vocês, se também lhes apetece beber? - refilou o homem.
Razão puxa razão, envolveram-se noutra barafunda.
- Comamos ao menos qualquer coisa - sugeriu a costureira.
Lá se arrastaram, mais mortos que vivos, até ao café da terreola. Finalmente encomendaram sardinha assada, carneiro guisado e pão com chouriço.
- Peixe é coisa que não há. Nem carne tão-pouco. Pão, desde ontem que o não vimos. Ah!, grandes malandros, agora reparo que aqui estão o pastor, o padeiro e o pescador. Por vossa causa perdi toda a freguesia! Já para a rua, mandriões!
Dizendo isto, o cozinheiro pegou no rolo da massa, escorraçando a tristíssima comitiva.
Mais uma vez só lhes restava seguir caminho. Tinham os sapatos cambados, rotos - era preciso mandar consertá-los.
- Vamos até à loja do sapateiro.
- Ora essa, o combinado não foi não trabalharmos? Consertem vocês o calçado!
Se os sapatos estavam rotos, os fatos não estavam em melhor estado. Rasgados pelas silvas, queimados pelo fogo. Resolveram, pois, dirigir-se a casa da modista.
- Pois não foram vocês que me convenceram a abandonar a costura? - Não contem comigo! - atalhou a Menina Rosa.
- Ao menos a lavadeira que nos lave estes trapos...
- Nem pensar! - apressou-se ela a responder. - Se vocês nasceram para o descanso, eu não nasci para me cansar.
Acabaram-se a paz e o sossego. Todos se criticavam, todos se injuriavam.
Avançavam, rezingando, entre o lixo espalhado pelas ruas, os caixotes tombados onde os rafeiros farejavam um osso, os gatos procuravam uma espinha.
- Que porcaria!
- Isto não são ruas, são estrumeiras!
- Pega na vassoura, que não podemos dar um passo - pediam ao almeida.
Mas ele, gingão, trocista, mal-humorado, por única resposta dava pontapés às latas e cascas de batata.
O povo assomara às portas, troçando dos mandriões que se viam exaustos, miseráveis, zangados entre si.
Então o padeiro suspirou e encaminhou-se para a padaria. A costureira, com a lágrima ao canto do olho, foi para a sua casita modesta e agarrou-se à costura. O pescador fez-se ao mar, a lavadeira deu meia volta, regressando ao rio. O aguadeiro curvou-se para o carrinho de mão, o pastor voltou para os campos à procura do rebanho, o bombeiro aprumou-se e, em passo de parada, dirigiu-se para o quartel. O varredor recomeçou a vassourar. Acompanhando o raspar da vassoura, a sua nova cantiga ressoava pelo ar:

Sem os outros nada somos
Eles sem nós nada são
Vale bem mais trabalhar
Do que ser-se mandrião.


Luísa Ducla Soares, In O Meio Galo