13/08/2009

Lágrimas de crocodilo



O Senhor Godinho era um homem de bem. Gostava das coisas simples, transparentes, puras. Gostava dos meninos e das flores, do sol e da água, do vento. Gostava que todos gostassem uns dos outros.
Por isso andava desiludido. Deixou de comprar os jornais, recheados de notícias de guerras, roubos, mentiras e ódios. Deixou de ter gosto pela sua cidade imensa, onde as pessoas passam indiferentes umas pelas outras e a riqueza de uns não serve para matar a fome daqueles a quem falta uma côdea de pão.
Despediu-se da família, fez as malas e embarcou para a selva.
Embrenhou-se pelo mato, evitando aldeias e povoados. Dormia ao relento, comia bananas, amendoins e entretinha-se a observar a vida dos animais. Também esta não era aquilo com que sonhara, pois até ali imperava a lei do mais forte. Os leões, os leopardos e os chacais espalhavam o terror pelas redondezas, os macacos rasgavam o silêncio com suas brigas e zaragatas, as enormes jibóias, disfarçadas de troncos de árvores, esperavam o bicharoco distraído que viesse encher-lhes a barriga.
Não existiriam amor e piedade em parte alguma do mundo?
Estava o Senhor Godinho mergulhado neste doloroso pensamento quando... que viu ele?
Trincando um rato com as enormes dentuças, um pequeno crocodilo verde chorava.
- Ao menos este tem compaixão! - murmurou o bom homem. - Mata porque a isso é obrigado, mas como as lágrimas lhe correm pelo focinho, coitado...
Apanhou-o a custo, comprou-lhe uma jaula e, farto da vida na selva, resolveu regressar a casa. Mal por mal, antes viver no aconchego do lar, com sofás de veludo, cama de molas e torradinhas com chá ao pequeno-almoço.
Mandou construir no quintal um lago de cimento, rodeado de areia fina, para o crocodilo. Logo à chegada Ihe encomendou um tenro lombo de vaca. Qual não foi o seu espanto quando, ao dar a primeira dentada, o crocodilo, de novo, começou a chorar.
- Coitadinho! Até da vaca tem pena e sofre por ter de a comer…
No dia seguinte, comprou-lhe frangos. Mas a cena repetiu-se. Mal as dentuças tocaram nas asas dos galináceos, quatro grossas lágrimas começaram a pingar dos olhos compadecidos.
Experimentou dar-lhe coelho - o choro continuava. Costeletas de burro - mais lacrimejava ainda.
Cobaias, perdizes, gatos vadios, cabritos e passarada - tudo provou o delicado crocodilo e de cada vez parecia que a sua dor arrasava o mundo.
A tristeza, no entanto, não lhe tirava o apetite nem o impedia de crescer e fortalecer. Transformara-se num crocodilo de meter respeito.
A choradeira, no entanto, aumentava mais e mais. O Senhor Godinho passara a gastar uma boa mesada em lenços de papel para o seu bichano predilecto limpar as lágrimas.
Até que a certa altura resolveu deixar de dar carne ao crocodilo. Passou a arranjar-lhe salada de alface, sopinhas de leite, fatias de pão de forma com manteiga. Foi remédio santo: o crocodilo deixou de chorar... e de comer, naturalmente. Foi-se pondo mais elegante, magro, magricela, esquelético por fim. Mas um riso angélico aflorava-Ihe aos "lábios".
Chamou, então, o Senhor Godinho um veterinário e contou-lhe a história do crocodilo de coração de ouro que sempre que comia chorava.
- Ó meu amigo, então você não sabe o que são lágrimas de crocodilo? Sempre que um crocodilo come seus olhos produzem lágrimas, ao mesmo tempo que a boca segrega saliva! Chora de gulodice, que por tristeza não verte ele uma lágrima. Você deixou de lhe dar boas bifanas e está a matar o bicho à fome. Veja! Mal se aguenta nas patas, mal consegue abrir a bocarra.
- Pobre crocodilo! - suspirou o dono. E, num gesto de amizade, abraçou-se-lhe ao pescoço.
O crocodilo pareceu compreender. Dois fios de lágrimas escorreram dos seus olhos infinitamente tristes e zás!, o Senhor Godinho começou a ser engolido. Valeu-lhe o veterinário que, num abrir e fechar de olhos, deu cabo do monstro esfaimado. Com esta trágica cena o Senhor Godinho voltou a ficar desiludido. Mas como nem tudo são males neste mundo e até as desgraças podem trazer os seus benefícios, aproveitou para mandar fazer uma carteira, um porta-moedas, um cinto e uma pasta da pele do crocodilo.


Luísa Ducla Soares, In O Meio Galo