10/08/2009

L

Há dois dias e duas noites o meu pai, bem, deixou de abrir os olhos e fechá-los e piscar só um com um sorriso assim estranho como se estivesse a partilhar comigo uma coisa qualquer engraçada que não precisava de palavras, por exemplo se passava uma mulher muito gorda lá fora ou se o vento vinha e entortava os guarda-chuvas dos homens de fato e gravata, e deixou de fumar e de calçar e descalçar as botas grossas e deixou também de se levantar da cama e ir pôr-se de pé parado junto à janela a olhar com olhos claros, nunca percebi se azuis se verdes, a estrada, os automóveis, as pessoas, o lixo que voa, bem, deixou de fazer muitas coisas, quase tudo pra dizer a verdade, passou a ficar só deitado no quarto dele, virado para o tecto mas de pálpebras cerradas, um pai magro e nu sobre a colcha já um bocado para o velhota, a fazer só assim um silêncio e um cheiro a intestinos e suor ou não bem isto mas não muito diferente disto.
Fiquei, claro, meio sem saber como reagir a esta mudança, mas na minha confusão lá consegui decidir que passados dois dias e duas noites às nove da manhã sairia, acontecesse o que acontecesse sairia.
São nove da manhã, por isso saio. Tenho um relógio que marca bem as horas, foi o meu pai que me deu, não sei como é que o arranjou, um dia apareceu e trazia aquilo. Andou com ele no pulso durante dois anos, depois fartou-se e deu-mo. É um relógio digital, com números rectos. O zero é um rectângulo de pé, o nove um quadrado com uma perna só. Foi feito em Taiwan.
A nossa casa, minha e do meu pai, é uma casa pequena, em ruínas mas com um telhado apesar de tudo, e uma cor muito característica que não conheço de outros lugares. Não exactamente uma cor mas mais um tom, um castanho-acinzentado com manchas de humidade e sujo. Está assim no meio de nada, num terreno vago que quando chove fica lama, onde estacionam os piores automóveis das pessoas que trabalham nos prédios, os automóveis melhores e maiores entram nos prédios. É uma casa assim que só tem prédios altos à volta e uma estrada tipo via-rápida que passa relativamente perto. Tudo, os prédios, a estrada, um centro comercial até, tudo é relativamente perto da casa, mas não mesmo em cima dela, porque à volta dela de facto há só o tal terreno vago que não é propriamente nada, daí eu dizer que é uma casa assim no meio de nada.
Sigo pela berma da estrada para a avenida grande dos prédios altos. Queria ver se encontrava alguma coisa de comer ou de beber mas só vejo folhas de revista com fotografias de pessoas famosas.
Não estou assim tão desesperado. Tenho a impressão de ter no estômago uma broca que se torce e vai torcendo, mas quando me mexo, quando ando, é melhor, como se o lento movimento da broca na barriga fosse contrariado pelo meu movimento geral. Quando ando preocupo-me em mexer-me todo. Não só as pernas e um braço balançando de cada vez, não, não gosto disso, isso é feio, não, sempre que ando, é tão raro, aproveito cada centímetro e mexo-me completamente. Um tipo de andar que começa na bacia e se espalha, para cima e para baixo, como uma espécie de dança ou quase, não sei bem qual será o efeito disto ao longe, como é que alguém que passa do outro lado da rua me vê, haverá um efeito estético de dança ou nem tanto, nem tanto? Mas o importante é que isto me ajuda de alguma forma, é uma forma de me deslocar mas também de desanuviar, de fazer exercício, embora isso não me interesse assim por aí além, e uma forma de não ter de pensar no meu corpo. Isso é que é o mais importante. Agora paro.
No alto de um poste uma confusão de coisas eléctricas. Cabos e reviravoltas várias, com um ar de sinal de alguma coisa. Atrás, no alto, o céu muito azul e aquilo assim tão verdadeiro, cheio de brilhos e complicações de máquina, complicações humanas, objectos misturados uns com os outros sem lógica aparente, objectos que não sei como se chamam mas podiam chamar-se turbinas, pólos, fios, quadros, como uma coisa que vale por si, como um sinal. Olho para aquilo durante catorze minutos, cronometro no meu relógio, e depois continuo. Dói-me a barriga. A ver se assim andando fico um bocado melhor.
Passam automóveis de cores quase sempre as mesmas, branco, preto, ou azul-escuro, e vermelho, e fazem barulho mas é um barulho que não me prejudica de qualquer maneira pois já estou super habituado a ele, super habituado, acho que ficava mal disposto e com dores de cabeça era se ele desaparecesse, um barulho que é como uma espécie de silêncio ruidoso, uma coisa lá muito ao fundo que faz vrrrum sem parar, continuamente, sem parar. E os prédios têm gente que sai e entra neles, e são altos até ao céu, e há umas imagens neles, por exemplo outros prédios ou céu com nuvens ou brilhos como sóis pequeninos.
No passeio as pessoas olham-me quando estão longe, mas depois desviam os olhos e quando se aproximam fingem que nem me vêem, fingem que eu nem estou ali, mas o modo como olham para o chão ou para o outro lado não deixa dúvidas sobre a sua mentira.
Eu tento com força olhá-las, mas não dá. Tento olhá-las só por jogo, porque de resto não me serve de nada. Aliás, devo dizer que não sei o que vou fazer ou o que devo fazer. Em parte foi por isso que esperei em casa dois dias e duas noites antes de sair. O meu pai é que saía de casa e ia arranjar coisas para nós comermos ou então coisas que dessem pra trocar ou até dinheiro, o que era bastante inusitado, até quase completamente impossível, aconteceu talvez uma vez, se tantas. Uma ou duas, não mais, seguramente. Mas, portanto, não sei como é que ele fazia. Se calhar andava por aí só à espera de um momento certo, de sorte, não sei.
Tenho uma camisa branca e um casaco roxo tipo daqueles com ombros grandes, exagerados. A camisa já está, claro, meio para o suja, com umas manchas assim de terra ou lá o que é, e o casaco fica-me enorme e tem duas nódoas nas costas, já tinha quando o meu pai mo trouxe, mas fora isso é um conjunto engraçado e que não é por nada mas até me fica bastante bem. Nas calças é que tenho um problema. As bainhas estão descosidas e então às vezes piso-as e desequilibro-me um pouco.
Isto para dizer que me espalhei ao comprido na rua. E qual não é a minha surpresa quando ao levantar-me vejo a Marlena.
A Marlena é uma mulher bonita, um bocadinho gorda e com poucos dentes já, mas bonita, com um cabelo pintado de loiro e umas saias sempre curtas e justas. Conheço-a porque um dia, quando fiz vinte anos, o meu pai apareceu com ela lá em casa e disse para irmos os dois para o quarto dele. Na cama onde agora ele está deitado a fazer assim um silêncio e um cheiro esquisito ela ensinou-me a tirar a roupa toda e a pô-la outra vez. Quando estou sozinho nunca tiro a roupa toda, porque fico com frio. Nem no verão tiro.
“Londres, o que é que fazes aqui?” pergunta-me. Ela chama-me assim, Londres.
“Bem, estava a andar e… bem… bem…”
“Malhaste,” diz ela, e sorri um sorriso desdentado com os olhos muito abertos de repente, e as sobrancelhas um só risco desenhando-lhe um arco na testa, e isso como que me embaraça um coche.
“Sim… hã.”
“O teu pai, que tal é que está? Já não o vejo há…”
“Está deitado.”
“Muito bem. Não tens dinheiro por acaso? Não queres vir comigo, passear um bocado, dar uma volta, hã?”
“Não tenho dinheiro,” digo. “Não tenho dinheiro, mas agradaria… agradar-me… agradar-me-ia… sim, agradar-me-ia muito dar uma volta consigo, Marlena.”
“Ah, afinal não posso, esqueci-me que tenho de ir ali ao centro comercial, desculpa.”
“Não, não faz mal, Marlena. Adeus.”
Fico a olhá-la enquanto ela se vai afastando, as pernas fortes mas com tornozelos fininhos, finíssimos, o rabo gordo dentro da saia bem apertada, e depois ganho coragem e viro-me outra vez para o meu caminho. Ao vê-la assim caminhar ao longe a minha cara tornou-se subitamente mais mole e mais comprida, sinto as bochechas meio lassas por dentro, como que sobrando, carne solta, e isso, isto, seja lá o que for, espalha-se de seguida pelos braços, chega aos ombros e atira-se daí a descer e quando chega às mãos fá-las pesadas, com um peso de sangue, cheias de sangue, cheias de vontade de sangue vermelho por baixo da pele e das unhas, e ao mesmo tempo há uma espécie de demoradíssima explosão no meu peito, oh! no buraco do meu peito, e o meu corpo inteiro é um corpo quebrado, desmultiplicado, qualquer coisa assim.
Entre prédios e casas baixas, ando não sei quantos quilómetros durante uma hora e três minutos, cronometro no meu relógio. O três é um E virado para a esquerda. As fachadas estão com aquela luz boa de quando o dia está a terminar mas isso muda para sombra e escuro e olho para cima e há nuvens escuras a avançar. Nuvens grandes e muito escuras, muito juntas umas das outras tapando a cor azul.
Um velho de barba mal feita olha-me, à porta de um prédio alto coberto de andaimes. Olha-me mesmo quando me aproximo, ao contrário dos outros todos. Quando passo mesmo junto a ele, no passeio, grita-me “Ei! Ei! Não és o filho do Lopes?”
“Hã?…” Algumas pessoas chamam Lopes ao meu pai. “…Sim, sim, de facto.”
“Como?” pergunta o velho.
“Sim, sou filho.”
“Ah! bem me parecia, bem me queria parecer!…. Sabes que eu sou um grande amigo do teu pai. Um grande amigo. Quer dizer, juntamo-nos às vezes pra jogar cartas ali no parque, lá pra cima, estás a ver?…”
“Sim.”
“Pois é, e ele um dia mostrou-me uma fotografia tua. Sabias disso? Sim, sim… Uma fotografia tipo photomatom, sabes? Daquelas tipo photomatom, sabes? Tu já não és desse tempo, se calhar não sabes, hã? Mas estás igualzinho, é incrível, igualzinho ao diabo da fotografia. Essas fotografias, sabes umas que há? tipo photomatom, é assim que se diz: photomatom, essas fotografias normalmente estragam completamente as caras das pessoas, ou pelo menos, não sei, transformam-nas, as pessoas ali quase nunca parecem o que são na realidade, compreendes? mas tu não, posso dizer isso de ti, caramba, tu não, tu, olha, estás igualzinho, estás tal e qual. Então, vê lá, o teu pai mostrou-me essa fotografia, uma tipo photomatom, não sei se sabes quais são, se calhar não, que agora elas quase que deixaram de existir, já há novas técnicas e tal, mas, portanto, estava a dizer, o teu pai mostrou-me essa tua fotografia há… ora, deixa cá ver… há… portanto, hoje é quarta-feira… costumamos encontrar-nos às segundas… mas na última não… na outra também não… olha, há mais de quinze dias… seguramente há mais de quinze dias… talvez mais… e, estás a ver? ainda te reconheci, hã?”
“Pois é,” digo.
“Reconheci ou não reconheci?”
“Pois foi.”
“Reconheci ou não reconheci? Hã?”
“Sim.”
“Pois foi,” diz o velho, e cala-se olhando para a minha cara.
Na direcção da minha cara mas através dela, parece. Durante um momento ninguém fala. É um bocado embaraçoso estar assim na rua com aquele velho a olhar-me a cara sem falar.
“Uma coincidência…” digo.
Ele como que acorda, “E o teu pai, que tal é que está?”
“Está… deitado.”
“Óptimo, óptimo,” diz, ainda meio ausente, como que separado das palavras, como se através de mim tivesse visto algo terrível ou importante, e vira-se para dentro do prédio. Olho-o a afastar-se e a fechar atrás dele a porta de vidro negro. Penso: não sabia que o meu pai tinha uma fotografia minha, e: gostava de me ver numa fotografia tipo photomatom.
Mais à frente, estou a atravessar uma grande praça deserta, o que é um enorme azar, quando desata a chover chuva mesmo batida, enrolada, puxadinha, chuva, chuva. Vejo um quiosque com um telhadito que talvez ajude se eu me encostar bem, mas não corro. Um homem tem um certo orgulho. Não. Sigo no meu andar típico, sem pensar, um movimento estético que parte da bacia pra baixo e pra cima, etc.
Não sei como me julgará alguém que me olhe ao longe, mas é este o meu modo de locomoção e não há mais a dizer sobre isto.
Agora abrigado da chuva, sob o tal telhadito, olhando a praça muito branca por causa da água que cai e também por ser assim grande e deserta ao mesmo tempo, tudo ao mesmo tempo, sofro sentimentos contraditórios. Estou contente por ter escapado à chuva malvada mas também imagino a Marlena e penso em estar com ela pra ela me ensinar de novo a tirar a roupa toda e a pô-la outra vez e então tenho desejos de sair em pêlo pela praça fora, a andar calmamente, do meu jeito, para sofrer as consequências debaixo da chuva que, bem, digamos que não pára e faz pás, pás, pás no chão de pedra, nas casas, nas coisas todas que há, chuva dura e pesada, enroladinha, chuva, chuva, repito.
Mas, por outro lado, é óbvio que não vou fazer isso.
Dói-me a broca que é como se no meu estômago se torcesse e fosse torcendo e portanto ponho-me a andar para ver se alivio essa espécie de imagem. Penso em coisas que não têm nada a ver. E vou caminhando rente aos prédios, debaixo das varandas, das palas das entradas, dos toldos das lojas para enganar a chuva. Achava que gostava muito de chuva, mas isso era quando estava dentro de casa e tinha a janela, o vidro da janela, a separar-me da água propriamente dita. Gostava de ver os risquinhos quase invisíveis que às vezes só se percebem se fecharmos os olhos à japonês, só com um nico assim aberto, a ver, ou então contra cores escuras, coisas escuras, gostava de vê-los inclinarem-se e desinclinarem-se com o vento e gostava das pessoas de guarda-chuvas, gosto super imenso de guarda-chuvas, não sei porquê, acho-os felizes e loucos-cómicos, então quando vem uma rabanada de ar e se entortam todos para o lado do avesso nem se fala, isso é mesmo, como é que se diz? de rir a perder, rir até cair, de morrer a rir. O meu pai é que quando confrontado com uma coisa dessas, do género dessas, guarda-chuvas tortos ou cães olhando para os dois lados antes de atravessar a estrada ou mulheres gordas de andar pimpão, piscava um olho e sorria assim um tudo-nada inclinado e olhava-me como quem diz “olha, já viste aquilo?” mas sem dizer palavra.
Silêncio.
De repente faz-se noite e eu estou parado, o estômago todo torcido a arder, no último toldo antes do terreno vago. Olho para o céu da cor preta e vejo uma luz caindo. Uma estrela cadente? Um avião? Não dou importância à coisa em si mesma, por assim dizer, mas antes ao que ela pode, por assim dizer, representar, enquanto concretização, conclusão, fechamento, daquilo que, fosse o que fosse, tinha sido aberto, lançado, etc, pelo facto do imbróglio eléctrico no cimo do poste contra o céu azul para o qual olhei durante catorze minutos cronometrados me ter surgido como uma qualquer espécie de sinal, por assim dizer.
Um sinal, penso, e ponho-me a correr, agora sim, mexendo-me já não daquele modo solto e, mais que solto, incrivelmente livre, mas correndo, certinho, como deve ser, como os atletas de alta competição, com a cabeça um pouco para baixo e o tronco atirando-me inteiro para a frente, cada vez mais para a frente, sim, corro o mais que posso, as pernas parece que vazias por dentro, sprintando entre a chuva, corro e corro e não há nada pra comer, penso, desisto de comer, penso, e não paro até passar a porta de casa.
No quarto o meu pai nu, com uma tonalidade já meio diferente, já não tão característica, manchas de humidade e um sujo que vem de dentro, deitado na cama sobre a colcha. O cheiro não é muito bom. Ainda mais original e difícil de explicar do que de manhã.
Ponho-me a mexer nas tralhas dele, caídas a um canto, roupas, objectos, bocados de objectos, um panamá impecável. Num bolso encontro: a photomatom. Olho a fotografia e primeiro não gosto, depois sim. Meto-a na janela, encostada ao vidro, a olhar para fora, para a chuva que cai na noite. Do lado de cá é só um rectângulo branco que tem escrito L.
Depois empurro o meu pai um coche mais para o lado na cama e deito-me com ele. Olho para o tecto e ouço os sons da rua e da minha cabeça e dos bichos que comem as madeiras e mais sei lá o quê e, dentro daquele cheiro ultra-denso que nunca foi, mas nunca nunca, o cheiro do meu pai, adormeço.
Amanhã faço exactamente o mesmo.


Jacinto Lucas Pires