29/07/2009

A Vovó Lobo

Eu tinha um amigo. Chamava-se Artur. Ainda se chama Artur, mas já não é meu amigo.
Desde o início das aulas que eu pensava como é que havia de fazer para o Artur ser meu amigo. O Artur é muito bonito. Gosto muito dos seus olhos castanhos e delicados por detrás dos óculos azuis. O cabelo, cortado à escovinha, faz lembrar erva preta. Tem orelhas peque-nas, anda muito bem vestido mas tem tendência para pensar que os outros não valem “um tostão furado”, como diria a minha avó. A propósito da minha avó, eu disse ao Artur na hora do recreio:
— Artur, queres que te conte um segredo?
— Que segredo?
— Uma coisa muito importante. Não vais dizer nada a ninguém?
— Claro que não, achas que sou o quê?
Então disse-lhe ao ouvido:
— A minha avó é bruxa.
Ele até deu um salto.
— Já não há bruxas, isso era antigamente!
No momento em que eu ia dizer: “Mas a minha avó é uma bruxa boa”, Íris, a magricela, aterrou entre nós como se tivesse caído do céu. Olhava para o Artur com ar provocador, com aqueles olhos grandes. A Íris era nova na escola, tinha chegado há dez dias, mas eu não falava muito com ela porque só queria ter o Artur como amigo.
Ela tinha ouvido a conversa. Falava muito depressa e gesticulava.
— Ah, então achas que já não há bruxas, Artur? Nunca ouviste falar da senhora da loja dos animais?
— Não.
— Aquela dos animais, no centro comercial, que dantes era uma loja de brinquedos, não estás a ver?
— Não, e o que é que isso tem a ver com bruxas?
— Vou dizer-te uma coisa, meu menino. A senhora da loja dos animais transformou todos os animais de pelúcia em animais verdadeiros. Não sabias? Todos os cães, os gatos e até a piton do seu terrarium. E, pode voltar a desfazer tudo quando quiser. Portanto, vê lá, nunca te esqueças do teu ursinho na loja dela, meu menino! Até se diz que ela transformou bonecos em bebés verdadeiros e que ela os…
O Artur estava vermelho, e julguei mesmo que ele ia atirar-se à Íris e começar a bater-lhe, mas não.
— Em primeiro lugar, não gosto que me tratem por “meu menino”, — gritou em altos ber-ros, batendo com força o pé no chão – e depois essa história dos brinquedos é ridícula e, quanto às bruxas, elas não existem!
— Existem sim, Artur, existem — disse-lhe eu — porque a minha avó também é!
— E o que é que ela faz para ser bruxa?
— Faz truques extraordinários, tem poderes…
— Que poderes?
— Basta começar a contar uma história e pronto, transforma-se! Pode transformar-se em tudo: em príncipe, em anão das montanhas, em abelha, ou simplesmente em bruxa.
O Artur encolheu os ombros, e a Íris, apontando-lhe o dedo ao nariz, disse-lhe, num ar muito sério:
— Artur, é melhor para ti que nunca te encontres com essa avó.
— Ah! ah! ah! E porquê?
A Íris levou-nos para longe dos outros, para o fundo do pátio, para ninguém nos ouvir.
— Eu conheço bem as bruxas — explicou-nos — e sei que elas existem. Na outra escola eu era especialista nesse assunto. As bruxas, agora, não usam chapéus em bico, não têm verru-gas no queixo, podem trabalhar nos correios, na televisão, até as há que são professoras! As bruxas tornaram-se comuns!
Eu e o Artur ouvíamos o discurso da Íris, de olhos esbugalhados.
— Comuns?
— Sim, e sei que há uma coisa que elas detestam acima de tudo.
— Que coisa é essa? — perguntou o Artur.
— Detestam, acima de tudo, os malandros que não acreditam nelas.
O Artur encolheu os ombros.
— Pfff! Que grande palermice!
— Não te julgues assim tão forte, meu menino! — murmurou a Íris. — Eu cá também tenho os meus poderes!
— Não me trates por “meu menino”, que isso irrita-me.
— Ah, estás a ver!
— A ver o quê?
— Estás a ver, eu tenho o poder de te irritar, ah! ah! ah!
E foi-se embora a saltitar nas suas grandes pernas.
O Artur estava furioso.
— Que palerma, aquela rapariga!
— Mas diz-me cá, Artur — perguntei-lhe eu — acreditas ou não que a minha avó é bruxa?
— Não, não acredito nisso.
— Mas juro-te, Artur, que ela é uma bruxa a sério!
— Isso é o que tu dizes!
— Até o meu primo, que tem catorze anos, a trata por “vovó-Lobo”, estás a ver! Só tens de vir comigo, se tiveres coragem, e ficas a saber.
Na quarta-feira seguinte fomos a casa da minha avó. Antes de entrarmos, preveni o Artur:
— Durante a história, é preciso estar com os olhos fechados.
— Porquê?
— Se abrires os olhos enquanto ela está transformada em lobo, em papão ou em monstro, ela pode devorar-te!
O Artur levantou os olhos para o céu:
— Tretas!
Eu insisti:
— Vais abrir os olhos?
Ele respondeu:
— Claro, o que é que julgas?
Apertei-lhe o braço com todas as minhas forças:
— Por favor, Artur, não abras os olhos ou vai ser horroroso!
E depois a vovó abriu a porta.
Sentámo-nos no canapé. A vovó disse:
— Que história quereis que vos conte?
Com tanto azar que foi o Artur a pedir:
— A história do Capuchinho Vermelho.
Então, como de costume, ao sentar-se no sofá, a avó disse:
— Clic! Clac! Fechem os olhos para entrarem no conto e sairem dele sem qualquer dificuldade. Clac! Clic!
Depois começou a contar o passeio do Capuchinho Vermelho na floresta.
Não tinha pressa nenhuma, a menina de vermelho, e dizia com a sua voz ingénua:
— Oh! Que linda floriiinha!
E a flor respondia, a voar dali para fora:
— Não sou uma flor, sou uma borboleta! Colhe-me, se fores capaz.
O Capuchinho Vermelho cantarolava, lalalalalala, e de repente exclamou:
— Olha! Um morango silvestre!
E o morango respondia:
— Não sou um morango, sou uma joaninha!
E o Artur ria porque a borboleta e a joaninha tinham voz grossa. Eu pensava: “O Capuchinho Vermelho devia mas era usar óculos!”
De repente, o Capuchinho Vermelho parou de cantarolar e de saltitar. Alguém saiu de trás de um silvado. Ouviu-se o estalido das folhas. Senti que a vovó se transformava.
— Boas taRdes, encantadoRa menina!
Era mesmo o sotaque do lobo que arrastava os “R”. A voz passava-lhe por entre os dentes aguçados. Ouvia-se Flat! Flat! Eu disse baixinho ao Artur:
— Estás a ouvir a cauda do lobo a bater no chão?
Ele respondeu-me:
— Sim, estou a ouvir.
Eu murmurei:
— É assim que os lobos batem com a cauda, quando sabem que vão regalar-se a comer.
— Boa tarde, meu senhor! — disse delicadamente o Capuchinho Vermelho na sua voz fina.
Francamente, acho estranho que uma rapariga diga “bom dia, meu senhor”a um lobo.
— Onde vais, gRaciosa menina? — disse o lobo.
A vovó tentava adocicar a voz do lobo mas entre duas palavras ouviam-se fortes clac! clac! junto dos nossos ouvidos.
— Ouves as mandíbulas a bater?
Artur não respondeu. Certamente, começava a ficar com medo.
— Enquanto tiveres os olhos fechados, não tens de ter medo de nada — disse-lhe eu.
Apetece-me dizer a cada instante ao Capuchinho Vermelho: “Não respondas ao lobo! Vai-te embora! Corre depressa, ou trepa a uma árvore.” Mas tenho medo de que o lobo, irritado e cheio de fome, se vire contra mim. Então deixo aquela pateta do Capuchinho Vermelho res-ponder.
— Vou a casa da minha avó que vive na floresta.
Se fosse eu, respondia antes: “Vou a casa do meu tio que joga boxe!”
Senti que o Artur também estava nervoso. Peguei-lhe na mão e disse:
— Chiu! É muito ingénua esta rapariga mas não se pode fazer nada para a ajudar.
— E onde é a casa da tua queRida avozinha? É longe daqui? — perguntou o lobo a dar aos dentes cada vez com mais força.
E aquela palerma a dar-lhe as informações todas:
— É fácil, depois do pinheiro grande, vire à direita e depois à esquerda, na quarta nogueira. É uma casinha com sardinheiras à janela.
Evidentemente, o lobo foi a correr para casa da avó. Não devia estar muito treinado na cor-rida porque arfava de uma forma esquisita.
Affu! Affu! Affu!
Chegou diante da casinha.
— Boas taRdes, avozinha, sou eu!
— Tu, que-quem?
— O Capuchinho VeRmelho!
— En-entra, minha meniina, en-entra.
A avó do Capuchinho Vermelho não é tão robusta como a minha e tem uma voz tremelican-te.
E depois deve ser surda para confundir daquela maneira a voz da neta com a do lobo. Disse-lhe:
— Boom diaa, minha menina, coomo és simpááticaaa…
E o lobo cortou-lhe a palavra e o pescoço. Clac!
O lobo tem horror de comer avós, e por isso resmungava:
— Ugh! Esta carne é dura, insossa e fibrosa!
Eu acho que não era lá muito agradável para a vovó, mas o Artur riu-se daquilo.
— E o que é isto? Ah, Os óculos! Quase os engolia! Vamos antes pousá-los em cima da mesa-de-cabeceira.
E ouvimos o pac! ao pousá-los. Quando a velhinha, entre ruídos medonhos, foi engolida, o lobo arrotou. O Artur deu um salto e exclamou:
— Oh!
De seguida, o lobo tentou enfiar o pijama da avó, mas fazia tudo ao contrário: meteu a cabeça numa manga, e gritava, já quase sem ar:
— Eu MoRRo asfixiado! Eu sufoco! SocoRRo!
E o Artur tinha um riso contraído, mas não era capaz de se conter.
Por fim o lobo pôs a touca de banho da avó para esconder as grandes orelhas, uma touca de plástico com flores cor-de-rosa.
Eu tinha muita vontade de ver como é que ele ficava assim vestido, e até me apetecia espreitar pelo canto do olho, mas receava que o Artur abrisse logo os dois, porque ele é muito curioso.
O lobo ralhou com a sua voz grossa:
— O primeiRo que olhaR paRa mim, devoRo-o!
Cerrámos as pálpebras com toda a força.
O Capuchinho Vermelho chegou. Não estranhou que a avó lhe dissesse com voz grossa:
— AbRe a poRta, meu tesouRo!
Debruçou-se sobre o lobo para lhe dar um beijo. Ficou um bocadinho admirada quando viu os olhos grandes e a orelha peluda a sair da touca de banho, mas só quando o lobo abriu a boca é que ela disse:
— Avó, que grandes dentes tu tens! Tens uma dentadura nova?
O lobo respondeu:
— É paRa melhoR te comeR, minha menina!
Gostava que o Artur tivesse gritado: ” Capuchinho Vermelho! Pega num pau e bate no lobo, depressa. Faz-lhe frente, nós estamos contigo!” Eu teria gritado juntamente com ele. Mas ele não dizia nada.
O canapé estremecia. Era o Artur que estava a tremer.
Como sempre, sustive a respiração e esperei que a menina do Capuchinho Vermelho fosse comida.
Aquilo demorava muito tempo.
O lobo saboreava-a e fazia muitos ruídos feios com a boca. E eu sentia que o Artur estava a ficar enervado. De certeza que estava farto daquele lobo.
E se ele lhe mandasse um murro na cara, como fez à Amélia, daquela vez que ela o tratou por ouriço-cacheiro por causa do cabelo curto!? De repente senti que ele ia abrir os olhos como tinha dito que faria.
O lobo iria comê-lo! Depois de uma avó desenxabida, os lobos ainda podem comer um Capuchinho Vermelho delicioso, um Artur com óculos e até uma menina rechonchuda como eu…
Então gritei.
— ARTUR! NÃO! — e atirei-me a ele para impedir que abrisse os olhos. O Artur deu um salto como se tivesse sido mordido por uma serpente.
Então eu abri os olhos.
Ainda bem que a vovó teve tempo de voltar a transformar-se em avó.
O Artur estava com a cabeça escondida debaixo de uma almofada e gritava:
— Nãããão! Nãããão!
A Vovó não parecia admirada e disse num tom de voz muito meigo:
— Clac! Clic! Acabou-se o perigo. Podem abrir os olhos. Clic! Clac!
Então, o Artur correu disparado para o corredor. Queria ir embora, tremia todo e devia estar a ver tudo desfocado porque os óculos tinham voado.
A vovó foi encontrá-los junto do telefone. Quando quis aproximar-se dele, o Artur gritou:
— NÃO!
— Artur, não podes ir assim para a rua sem óculos, é perigoso — disse-lhe ela. — Espera, vou endireitar-tos, estão todos torcidos.
Depois daquilo, ele bem deve ter visto que a minha avó era uma bruxa boa porque ela devolveu-lhe os óculos arranjados, dentro duma caixa com bombons.
Mas ele fazia um sorriso forçado. Ainda não estava calmo. Nem pegou num único bombom! Encostado contra a porta, só queria ir embora.
No dia seguinte disse-me, na escola:
— A tua avó é perigosa!
Aquilo fez-me rir.
— Dizes isso porque tiveste medo, Artur.
— Não, eu não tive medo, mas a tua avó é completamente maluca.
— Se voltas a dizer isso, Artur, deixamos de ser amigos.
— A tua avó é maluca, idiota, doida varrida.
— Acabou, Artur, deixamos de ser amigos.
Eu tinha vontade de chorar.
Fui para o fundo do recreio e eis que Íris, a magricela, apareceu.
Anda quase sempre sozinha porque é nova, e quem fala com ela diz que é estranha. É ver-dade que às vezes usa palavras esquisitas que fazem rir o sr. Monjol, o nosso professor.
O ar triste da Íris transformou-se imediatamente num sorriso, e correu para mim.
— Magali (que sou eu), queria pedir-te uma coisa.
— Diz lá.
Ela hesitava, parecia que, de repente tinha ficado tímida! Depois lá se decidiu:
— Será que um dia podias fazer-me o obséquio de me apresentares à tua avó?
— Fazer-te o obséquio?
Eu estava tão admirada que não sabia o que responder. Ela julgou que eu recusava. Estava com um ar mesmo desiludido.
— Por favor, mostra-me a tua avó, nem que seja só de longe. Anseio por ver a tua avó Lobo! Gostava tanto de ver uma bruxa a sério! Sabes, é que sou uma especialista no assunto, mas nunca vi nenhuma autêntica e o maroto do Artur tem razão. Não vale a pena termos ilusões, a senhora da loja dos animais não tem nada de bruxa e os porcos da Índia que lá tem são animais verdadeiros. É evidente! Vais mostrar-me a tua vovó Lobo?

Janine Teisson, Mamy-Loup
Arles, Actes Sud Junior, 2003